Surdocegueira e pontos de ancoragem no ensino remoto: translinguagem como caminho possível

Autores

DOI:

https://doi.org/10.26512/rhla.v22i1.43985

Palavras-chave:

Surdocegueira. Pandemia. Práticas translíngues, Surdocegueira, Pandemia, Práticas translíngues

Resumo

Este artigo discute uma experiência didática no ensino remoto no período pandêmico (março 2020-maio 2023). Os desafios enfrentados pela professora guia-intérprete no ensino, na adequação das estratégias e material e a relação estabelecida com os estudantes antes da pandemia, são abordados ao longo da discussão. Para tanto, será feito o relato da experiência de uma professora-guia e de dois estudantes surdocegos em uma escola de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Distrito Federal (DF). Essa experiência nos remeteu aos conceitos de translinguagem e práticas translíngues, pois observamos como essas práticas ocorriam no contexto apresentado, mesmo sem intenção da professora de adotar essa prática. Examinamos o percurso da aula virtual e a transição do professor, dos alunos e familiares entre o braille, a Língua Brasileira de Sinais (Libras), datilologia, português oral, escrito, uso de imagens, gifs e emoticons, presentes durante a ação pedagógica. Como resultado, compreendemos que o fazer pedagógico, durante a pandemia, exigiu novas ações que movimentaram o funcionamento do currículo e da didática. Concluímos, ainda, que na educação de estudantes surdocegos é desejável a construção de parceria com a família. Ademais, compreendemos o uso de práticas translíngues, como arranjo linguístico na educação do surdocego, através da exploração dos repertórios linguísticos dos estudantes.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Bárbara Pereira de Alencar da Rocha, PósLIT - Universidade de Brasília e Secretaria de Educação do Distrito Federal

Cursando Doutorado no PÓSLIT-UNB - Programa de Pós-graduação em Literatura na Universidade de Brasília. Possui Mestrado em Educação pela faculdade de Educação da Universidade de Brasília (2021). Pós-graduação "Lato Sensu" em nível de especialização em Educação de Surdos pelo Instituto de Ensino Superior do Centro-Oeste (2007). Graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário de Brasília (2005). É professora na Secretaria de Educação do Distrito Federal desde 1998. Atua com o Ensino especial desde 2000, como professora especialista no ensino de surdos e na função de guia-intérprete com estudantes surdocegos. Tem experiência na área de Educação, com ênfase no Atendimento Educacional Especializado na área das deficiências sensoriais (surdez, cegueira e surdocegueira). 

Valdiceia Tavares-Santos, PPGL -Universidade de Brasília e Secretaria de Educação do Distrito Federal

Possui graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro-Oeste (1996), Especialização em Psicopedagogia Institucional pela Faculdade de Selviria e mestrado em Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília -UnB (2016), está cursando o doutorado em Linguística na UnB. Acrescido de Formação Continuada em Tradução e Interpretação da Libras pela Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação do DF. Dispõe da Certificação de Proficiência em Tradução e Interpretação da Língua Brasileira de Sinais/ Língua Portuguesa/ Libras- PROLIBRAS pelo MEC/2007. Atuou como professora temporária na UeG de 2006 à 2007, no curso de Pedagogia. Atualmente é doutoranda do Departamento de Linguística da UnB, ad hoc do Ministério da Educação e professora - Secretaria de Educação do Distrito Federal. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação de Surdos, Letramento formação de professores e na interpretação de Libras. Além de professora, atua também como intérprete de Libras em eventos. Desenvolve estudos e pesquisas principalmente nos seguintes temas: ensino especial, lúdico e educação, letramento, formação de professores e formação de professores para educação de surdos, tradução e interpretação em libras. 

José Vicente Rodrigues da Silva, Pós-LIT - Universidade de Brasília e Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal

José Vicente Rodrigues da Silva, servidor público da Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (SEDES), atualmente, trabalha na Unidade do Centro de Referência para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop-Brasília), graduado em Pedagogia pela Faculdade JK, em 2006, pós-graduado em Educação Especial e Educação Inclusiva pela Faculdade Internacional de Curitiba FACINTER, data de conclusão, 2011, também graduou em Língua de Sinais Brasileira-Português como Segunda Língua (LSB-PSL) pela Universidade de Brasília no ano de 2020. Atualmente estuda - Línguas Estrangeiras Aplicadas ao Multilinguíssimo e a Sociedade da Informação (LEA-MSI). Tem interesses em pesquisas sobre educação de pessoas surdas, pessoas surdocegas, Direitos Humanos, Educação Inclusiva, Educação Social de Rua.

José Vicente Rodrigues da Silva

Estudante de Mestrado do Departamento de Teoria Literária e Literaturas - Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (PosLit)

Kleber Aparecido da Silva, Universidade de Brasília

Kleber Aparecido da Silva é licenciado em Língua inglesa pela Universidade Federal de Ouro Preto. Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Campinas. Doutor em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual Paulista. Realizou seus estudos de pós-doutoramento no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, no Instituto de Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; em Linguística na Universidade Federal de Sana Catarina; e em Linguística Aplicada na Pennsylvania State University, USA. Atualmente, aprofunda seus estudos pós-doutorais em Estudos Linguísticos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); em Didáticas das Línguas na Universidade De Genebra, Suíça e em Educação Multilíngue e Letramento na Universidade de Witwatersand, África do Sul. Seus principais campos de interesse encontram-se na ampla área da linguagem, decolonialidade, formação de professores/as e internacionalização, que também incluem gênero, raça e educação linguística; raça e colonialidade, linguagem, discurso e práticas identitárias; (multi)letramento e educação crítica na formação de professores; teorias e pedagogias críticas, bem como práticas decoloniais na produção do conhecimento.

Referências

ÁLVAREZ REYES, D. Cap. 3: La surdoceguera: una discapacidad singular. In: ______. et al. La surdoceguera: una análisis multidisciplinar. Madrid: ONCE, 2005. p. 135-191.

ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

AUER, P.; WEI, L. (Ed.). Handbook of multilingualism and multilingual communication. [S.l.]: Mouton de Gruyter, 2007.

BATISTA, A. K. H. S. Currículo funcional no contexto da surdocegueira. Curitiba: Appris, 2021.

BAUMAN, Z. Isto não é um diário. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

BLOMMAERT, J. The sociolinguistics of globalization. New York: Cambridge: Cambridge University Press, 2010.

CADER-NASCIMENTO, F. A. A. A. Educação sensorial na surdocegueira. Revista Sala de Recursos, v. 1, n. 1, p. 20-26, jan.-abr. 2021a. Disponível em: http://www.saladerecursos.com.br/. Acesso em: 25 jan. 2022.

CADER-NASCIMENTO, F. A. A. A. Surdocegueira e os desafios da escrita. Curitiba: CRV, 2021b.

CADER-NASCIMENTO, F. A. A. A.; COSTA. M. P. R. D. Práticas pedagógicas de intervenção com famílias com filhos surdocegos. In: ANAIS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO MULTIDISCIPLINAR DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, Londrina, 2013.

CADER-NASCIMENTO, F.A.A.A.; FAULSTICH, E. Expressão linguística e a produção escrita de surdocegos. Revista MOARA, Estudos Linguísticos, n. 45, jan.-jun. 2016.

CANAGARAJAH, S. Navigating language polities: a story of critical praxis. In: NICOLAIDES, C. et al. Política e políticas linguísticas. Campinas, SP: Pontes Editores, 2013. P. 43-62.

CAVALCANTI, M.; SILVA, I. Transidiomatic practices in a deaf-hearing scenario and language ideologies. Revista da Anpoll, Florianópolis, n. 40, p. 33-4 5, jan./jun. 2016.

DIAS, N. Os sentidos construídos por estudantes surdos em práticas translíngues no Facebook. 2017. 108 f. Dissertação (Mestrado em Educação) –Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS, 2017.

FAVORITO, W.; SILVA, I. R. Políticas linguísticas e educação de surdos. In: SILVA, K. A. D. Bate papo. Brasília, DF: Editora UnB, 2021.

GARCÍA, O. Bilingual education in the 21st century: a global perspective. [S.l.]: Wiley-Blackwell, 2009.

GARCÍA, O.; KANO, N. Translanguaging as process and pedagogy: developing the English writing of Japanese students in the US. In: CONTEH, J.; MEIER, G. The Multilingual turn in languages education: opportunities and challenges. Bristol, UK: Multilingual Matters, 2014. p. 258-277.

GARCÍA, O.; WEI, L. Translanguaging, language, bilingualism and educacion. London: Palgrave Macmillan, 2014.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Decreto no 40.509, de 11 de março de 2020. Altera a estrutura organizacional que especifica e dá outras providências. Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília-DF,11 mar. 2020a. Disponível em: http://www.buriti.df.gov.br/ftp/diariooficial/2020/03_Mar%C3%A7o/DODF%20025%2011-03-2020%20EDICAO%20EXTRA/DODF%20025%2011-03-2020%20EDICAO%20EXTRA.pdf. Acesso em: 15 maio 2022.

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Decreto no 40.939, de 2 de julho de 2020b. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus e dá outras providências. Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília-DF, 2 jul. 2020b. Disponível em: http://www.buriti.df.gov.br/ftp/diariooficial/2020/07_Julho/DODF%20105%2002-07-2020%20EDICAO%20EXTRA/DODF%20105%2002-07-2020%20EDICAO%20EXTRA.pdf. Acesso em: 12 de abril de 2022.

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal. Orientações para o trabalho pedagógico da Educação de Jovens e Adultos na Rede Pública de Ensino do Distrito Federal. Brasília: SEEDF, 2020a.

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Plano Pedagógico da Educação Especial para atividades não presenciais na rede pública de ensino do Distrito Federal. Brasília: SEEDF, 2020b.

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Relatório de atendimento da itinerante de surdocegueira. Brasília, DF: SEEDF, 2021. (Circulação restrita).

LARAIA, R.de B. Cultura um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

MACIEL, R. F.; ROCHA, C. H. Diálogos sobre pesquisa e prática translíngue: entrelaçando visões com Suresh Canagarajah. Revista X, v. 15, n. 1, p. 7-31, 2020.

PENNYCOOK, A.; MAKONI, S. Innovations and challenges in Anpplied Linguistics from the Global South. New York: Routledge, 2020.

MOITA-LOPES, L. P. D. Fotografias da Linguística Aplicada brasileira na modernidade recente: contextos escolares. In: ______. (Org.). Linguística Aplicada na modernidade recente: festschrift para Antonieta Celani. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. p. 15-37.

MUSSI, R. F. F.; FLORES, F. F; ALMEIDA, C. B. de. Pressupostos para a elaboração de relatos de experiencia como conhecimento científico. Revista Práxis em Educação, v. 27, n. 8, p. 60-77, out./dez. 2021.

PAUSRUD, B. et al. perspectives on translanguaging in education. In: _____. (Ed.). New perspectives on translanguaging and education. São Paulo: Telos, 2019. p. 1-10.

PENNICOOK, A. Language as local practice. New York: Routledge, 2010.

PESSOA, R. R. Movimentos críticos de uma prática docente. In: PESSOA, R. R.; SILVESTRE, V. P. V.; MONTE MÓR, W. (Org.). Perspectivas críticas de educação linguística no Brasil: trajetórias e práticas de professoras/es universitárias/os de inglês. São Paulo: Pá de Palavra, 2018. v. 1. p. 185-198.

PRETTO, N. d. (21 de maio de 2020). Formação de professores, educação online e democratização do acesso às redes. In: CONGRESSO VIRTUAL DA UFBA, sala D. Bahia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UD0KrPkHBiY.

RAJAGOPALAN, K. Política linguística: do que é que se trata, afinal? In: NICOLAIDES, C. et e tal. Política e políticas linguísticas. Campinas, SP: Pontes Editores, 2013. p. 19-42.

ROCHA, C. H. Educação linguística na liquidez da sociedade do cansaço: o potencial decolonial da perspectiva translíngue. D.E.L.T.A., v. 35, n. 4, p. 1-39, 2019.

SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 6. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 1997.

VERTOVEC, S. Super-diversity and it’s implications. Ethnic and Racial Studies, v. 30, n. 6, p. 1024-1054, 2007. Disponível em: DOI:10.1080/01419870701599465. Acesso em: 22 maio 2022.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

YIP, J.; GARCÍA, O. Translinguagens: recomendações para educadores. Iberoaméricana Social: Revista-red de Estudios Sociales IX, p. 164-177, 2018.

Downloads

Publicado

2023-06-30

Como Citar

Rocha, B. P. de A. da, Tavares-Santos, V., Silva, J. V. R. da, & Silva, K. A. da. (2023). Surdocegueira e pontos de ancoragem no ensino remoto: translinguagem como caminho possível. Revista Horizontes De Linguistica Aplicada, 22(1), DT4. https://doi.org/10.26512/rhla.v22i1.43985

Edição

Seção

Dossiê: Translinguagem e educação linguística crítica em contexto (pós)pandêmico