Edição Atual

v. 6 n. 6 (2018): Extremophilia

PROLEGÔMENOS DA EXTREMOPHILIA

Notas da organização: Fabiane M. Borges 

A “REVISTA DAS QUESTÕES” do departamento de filosofia da Universidade de Brasília (UNB), nos propôs em 2018 a realização da sua 6ª Edição com o tema Arte e Ciência Espacial. Nós aproveitamos a oportunidade para criar nossa própria revista, fazendo a 6ª Edição da Revista das Questões ser ao mesmo tempo a 1º da Extremophilia. Pretendemos lançar o 2º número da Extremophilia em 2019, para poder continuar falando desse tema que relaciona subjetividade, arte e ciência espacial.

Como não tivemos nenhum suporte financeiro, contamos com o engajamento das pessoas, a partir de uma chamada aberta em portugês, espanhol e inglês, sugerindo os temas que nos interessavam para esse número:

/EXOBIOLOGIA / DIREITO E POLÍTICAS ESPACIAIS / COMUNAS INTERPLANETÁRIAS / ANCESTROFUTURISMO / CULTURA ESPACIAL / MULTIVERSOS / FICÇÃO ESPECULATIVA / CIÊNCIA E TECNOLOGIA ESPACIAL DISRUPTIVA E ARTE QUESTIONADORA /

Sobre os textos

Chegaram textos de várias partes do mundo nas três linguas da chamada aberta, publicados em sua lingua de origem. Vieram textos de pessoas conhecidas no meio da pesquisa em Arte e Ciências Espaciais como Joanna Griffin (Inglaterra/Índia) falando de resistência criativa com satélites, Alejo Duque (Colômbia/Suíça), com o tema da Declaração de Bogotá, que assim como Joanna tenta recuperar a discussão sobre a extensão da territorialidade até os limites da gravidade, e os problemas tratados na declaração de Bogotá em relação ao domínio dos países ricos e corporações sobre a linha do Equador. Pedro Soler (Espanha/Colômbia) falando da exposição Arte em Órbita feita em Quito em 2015 cujo tema foi Pós Colonização Espacial onde analisa os trabalhos de vários artistas de países da linha equatorial que participaram da exposição. Juan José Infante (México) do satélite Ulisses que conta sua história e saga, pois há anos percorre os caminhos burocráticos dos programas espaciais para poder enviar Ulisses para o Espaço, e seu trabalho se tornou exatamente deixar público todas as instâncias necessárias para lançar um satélite.

Kênia Farias (Bauru/SP) traz um pensamento apurado e propositivo sobre o Afrofuturismo e o afropessimismo, dizendo que o futuro será negro, ou não haverá futuro, Leila Lopes (Brasilia/DF) com imagens performativas autorais, afro-utópicas e erótico-espaciais conduz o imaginário negro interplanetário, Kongo Astronautas (República do Congo) discute os dilemas pós coloniais a partir de seu grupo de arte e performance que tem uma pegada de extraterrestre que cai na Terra e se surpreende, como mostra em seu filme Dilema Pós Colonial.

Recebemos também textos de filosofia especulativa como de Fabián Ludueña Romandini (Argentina) problematizando o aceleramento da contemporaneidade ou JP Caron (Rio de Janeiro) propondo um aceleracionismo de esquerda, ou o de Fabiane M Borges sobre  Astrofuturismo fazendo um recorte das utopias de alteridade expressas na ficção científica entre terrestres e não terrestres no período entre a pós II Guerra Mundial até final dos anos 1970, perguntado-se sobre a comunicabilidade possível entre o monolito, o oceano e o humanóide.

Tem o artigo crítico de Clara Meliande e Luiz Mors Cabral (Rio de Janeiro) que fala do lixo espacial e mostra os humanos como obsessivos criadores de lixo, que está tornando a órbita terrestre numa grande lixeira. Tatiana Avedaño (Colômbia/Equador) simula uma conversa entre uma câmera de vigilância, um drone e um satélite.

Tem textos mais científicos, de pesquisadores ligados ao Observatório do Valongo (UFRJ) como a astrônoma Silvia Lorenz Martins (Rio de Janeiro, RJ) que desenvolve modelos de planetas e funcionamento espacial para cegos, ou pesquisadores técnicos em sensoriamento remoto do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) como Othon Barros, Helena K. Boscolo e Laercio Namikawa (São José dos Campos, SP), que enviaram imagens que consideram poéticas dos satélites CBERS 2B e CBERS 4. Sensoriamento remoto também é tema do Adriano Belisário (Rio de Janeiro, RJ), que a partir de uma visão questionadora, quase jornalística traça um paralelo analítico  entre o desenvolvimento da tecnologia de sensoriamento remoto e as constituição de políticas publicas, como direitos humanos. Pedro Victor Brandão (Rio de Janeiro, RJ) também fala de satélites, para mineiração de moedas virtuais, e sobre a ECSA (Economic Space Agency).

O texto mais feminista provavelmente é de Helen Schell (Inglaterra) que fala da missão Leda 1 de um programa da NASA chamado “Woman in Space Program” e do desaparecimento em 2001 da astronauta Jeanne J. Crane, que supostamente teria ido para uma missão espacial e não teria voltado. 

Além disso tudo tem os Astronomous Astronauts (Europa) com suas experiências com bacterias extremófilas, os Astrovandalistas (Brasil/EUA) que fazem glifo-poemas em pedras e rochas encontradas na fronteira entre Estados Unidos e México, Lucas Bambozzi (São Paulo, SP) falando de invisibilidade e campo eletromagnético, enquanto Cila Macdowell (Rio de Janeiro, RJ) apresenta seu projeto de transensoriamento remoto, feito por telepatia e Arendse Krabbe & Mirko Nikolić (Dinamarca) fazem experiências com fungos e archaes. Sasha Engelmann (Inglaterra) fala das suas experiências com arte, balões e atmosfera e Jeronimo Voss faz poemas baseados em hipóteses astronômicas do século XIX.

Também tem a apresentação dos trabalhos da Kosmica Institute de Nahum Mantra (México, Alemanha) e do Quo Artis (Espanha), ambos com várias experiências de trabalhos voltados pra as políticas espaciais, arte contemporânea e educação, pensando em uma cidadania planetária. Tem as análises pulsantes do antropoceno através de animes japoneses de Mateus Felipe Xavier (Rio de Janeiro),  o questionamento sobre as relações entre ciborgues, mutantes e revolucionários de Carlos Henrique Carvalho (Goias), ou a viagem a pé de Rodrigo Paglieri (Chile-Brasil) com sua rádio mochila fazendo uma cartografia das ondas de rádio. Por fim Annick Bureaud (França) faz uma cartografia da cena contemporânea voltada à arte e ciência espacial, trazendo vários exemplos de ações ao redor do mundo, ajudando-nos a perceber as diferentes vertentes desse movimento. Mas o que abre a Extremophilia é o MANIFESTO TERRACOSMISTA feito coletivamente e especulativamente na II Comuna Intergaláctica, 2018.

Acreditamos que a revista consegue dar um bom panorama sobre o que anda acontecendo nesses domínios de Arte e Espaço, e as questões que isso suscita em termos críticos e propositivos.

Sobre o nome da revista: 

EXTREMOPHILIA surge como uma admiração às bacterias sobreviventes, capazes de habitarem ambientes de condições improváveis: temperaturas radicais de frio ou calor, salinidade exagerada, regiões abissais, falta de gravidade, hipergravidade, zonas bombardeadas com altos níveis de radiação, zonas vulcânicas, geleiras, fundo do mar...

Essas pequenas formas de vida têm sido protagonistas das mais variadas investigações exobiológicas. São assíduas nos vôos espaciais, produzindo suas nano colônias dentro de foguetes, satélites, rovers. Elas sobrevivem a tudo e, desde que são capazes de resistir às viagens interplanetárias - cientistas espaciais insistem na possibilidade delas sairem da terra disseminando a vida universo afora.

Para além dos domínios de bactérias e archaes, propomos o conceito de extremøphilia nos remetendo ao pensamento cosmopolítico, abrangendo as políticas radicais da atualidade, as identidades de gênero, raça, classe, os processos migratórios forçados, as ameaças climáticas prementes, a globalização corporativa. Nesse cenário de pressão civilizatória, nos vemos atravessados por um programa desenvolvimentista que promove com tenacidade sua sociedade ideal - individualista e hiper vigiada. Seus tentáculos  tentam alcançar todos os substratos, da matéria à psiche, estendendo suas ocupações intraterrenas e orbitais, em busca de mais informação, poder e controle. Entretanto outras formas de vida resistem, como os seres extremos que sobrevivem de forma autônoma, populando as beiradas desses sistemas e ambientes, alheios ao antropoceno e seus apocalipses.

A revista é uma plataforma de referência sobre o tema da Arte e ciência espacial no Brasil. Um espaço para produção especulativa e ficcional, e também para apresentação de pesquisas acadêmicas e projetos experimentais científicos - elaborada como um arquivo artístico e científico.

Alerta!!! O futuro será de toda as espécies!!!

 

Equipe:

Organização Fabiane M. Borges -

Capa: Rafael Frazão.

Colaboração: Eduardo Duwe e Marina de Moraes

Publicado: 2018-09-22

Artigos

Artes Visuais

Ver Todas as Edições