“Somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia”: uma análise dos discursos de Jair Bolsonaro na ONU (2019 – 2022)
DOI:
https://doi.org/10.18472/SustDeb.v16n3.2025.58913Palavras-chave:
Governo Bolsonaro, Política antiambiental, Coprodução, Negacionismo, Desmonte ambientalResumo
Um aspecto que chamou atenção no governo Bolsonaro (2019-2022) foi o seu discurso e a sua política antiambiental. O argumento central deste artigo é que ao negar as ciências ambientais, Bolsonaro não somente buscou desconstruir uma ordem epistêmica baseada no conhecimento científico mainstream, mas também (des)construir uma ordem social. Para sustentar esse argumento, realizamos uma análise dos seus discursos na ONU entre 2019 e 2022 a partir da noção de coprodução, conforme a definição de Jasanoff (2004a, 2004b) no âmbito dos Estudos Sociais das Ciências e Tecnologias (ESCT). Os resultados mostraram a tentativa de Bolsonaro de produzir novas representações para a Amazônia e novas identidades para a mídia, para a ciência, para países estrangeiros e para um “novo Brasil”. Conclui-se que Bolsonaro buscou nesses discursos redefinir o que seria a verdade sobre a questão ambiental no país de modo a embasar e legitimar a desconstrução de uma ordem institucional de proteção ao meio ambiente construída no Brasil ao longo de décadas. Com base nessa conclusão, refletimos criticamente sobre a literatura dos ESCT que tem se debruçado sobre o negacionismo de Jair Bolsonaro e de seus seguidores, e sobre o conceito de pós-verdade.
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