Processo como história de morte: silenciamentos sobre a vida das mulheres vítimas de feminicídio

Autores

DOI:

https://doi.org/10.26512/revistainsurgncia.v12i1.60883

Palavras-chave:

Feminicídio, Processo judicial, Prevenção, Memória

Resumo

O presente artigo tem como objetivo discutir os silenciamentos sobre a vida das mulheres nos processos judiciais que apuram o feminicídio. Busca refletir a responsabilidade do Estado na prevenção destas mortes e o fenômeno do esquecimento, pensando as suas consequências para a memória e verdade das mulheres assassinadas, para as vítimas indiretas e para a própria sociedade. As conclusões foram baseadas em pesquisas realizadas pelas autoras entre os anos de 2022 e 2025, na qual foram coletadas informações de processos judiciais e de entrevistas com familiares de mulheres vítimas de feminicídio no Estado da Paraíba. Conclui-se pela necessidade de ampliar os sentidos de justiça que podem se originar das práticas judiciais no âmbito dos processos de feminicídio.

Biografia do Autor

Tatyane Guimarães Oliveira, Universidade Federal da Paraíba, Santa Rita, Paraíba, Brasil

Professora Associada da Universidade Federal da Paraíba - Departamento de Ciências Jurídicas/Curso de Direito de Santa Rita. Possui graduação em Direito, mestre em Ciências Jurídicas na área de concentração em Direitos Humanos pela UFPB. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo - PPGNEIM/UFBA. Coordenadora do eixo gênero e saúde do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB. Coordenadora do Grupo MARIAS de extensão e pesquisa em gênero, educação popular e acesso à justiça.

Gilmara Joane Macedo de Medeiros, Universidade Federal da Paraíba, Santa Rita, Paraíba, Brasil

Professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba - Departamento de Ciências Jurídicas/Curso de Direito de Santa Rita. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília. Integrante do Centro de Referência a em Direitos Humanos da UFPB. Coordenadora do Grupo MARIAS de extensão e pesquisa em gênero, educação popular e acesso à justiça.

Clarissa Cecília Ferreira Alves, Universidade Federal da Paraíba, Santa Rita, Paraíba, Brasil

Professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba - Departamento de Ciências Jurídicas/Curso de Direito de Santa Rita. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal da Paraíba. Integrante do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB. Coordenadora do Grupo MARIAS de extensão e pesquisa em gênero, educação popular e acesso à justiça.

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Publicado

02.04.2026

Como Citar

OLIVEIRA, Tatyane Guimarães; MEDEIROS, Gilmara Joane Macedo de; CECÍLIA FERREIRA ALVES, Clarissa. Processo como história de morte: silenciamentos sobre a vida das mulheres vítimas de feminicídio. InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais, Brasília, v. 12, n. 1, p. 45–76, 2026. DOI: 10.26512/revistainsurgncia.v12i1.60883. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/insurgencia/article/view/60883. Acesso em: 3 abr. 2026.

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