A hidra vermelha e a luta dos livros: a guerra pela memória e os legados de uma percepção conspiratória da redemocratização brasileira

Autores

DOI:

https://doi.org/10.26512/emtempos.v25i47.59148

Palavras-chave:

Redemocratização. Teoria da Conspiração. Anticomunismo.

Resumo

O artigo analisa a percepção de militares vinculados aos serviços de informação e repressão da ditadura militar brasileira acerca do processo de redemocratização, compreendido por eles como uma continuidade da chamada “guerra revolucionária” por outros meios. A partir de uma análise qualitativa do livro ‘A Hidra Vermelha’ e de documentos do Centro de Informações do Exército,
investiga-se como essas narrativas buscaram disputar a memória do período ditatorial e interpretar a transição democrática como uma tentativa de tomada de poder pelo comunismo. Argumenta-se que tais leituras constituem um tipo de teoria da conspiração ou mitologia política, marcada pela redução da complexidade histórica, pela construção de bodes expiatórios e por uma compreensão distorcida das relações de poder. Ao final, sustenta-se que essa percepção militar da redemocratização legou uma leitura conspiratória, ressentida e fantasiosa da chamada Nova República, cujos efeitos se projetam no debate político contemporâneo, especialmente na difusão do discurso do “marxismo cultural” e do negacionismo da ditadura.

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Biografia do Autor

Alexandre Siqueira Lima, Universidade de Brasília

Doutorando no Programa de Pós Graduação em História pela Universidade Brasília. Possui bacharelado e licenciatura em graduação realizada no Departamento de História e mestrado pelo PPGHIS-UnB. Durante o mestrado pesquisou sobre a juventude e a Ditadura Militar em Brasília, através de jornais alternativos, manuais e informes oficiais de estado, e relatos de vidas. Pesquisa agora sobre narrativas conspiratórias da ditadura militar e suas atualizações e instrumentalizações na atualidade.

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Publicado

2026-04-07

Como Citar

LIMA, Alexandre Siqueira. A hidra vermelha e a luta dos livros: a guerra pela memória e os legados de uma percepção conspiratória da redemocratização brasileira. Em Tempo de Histórias, [S. l.], v. 25, n. 47, p. 86–109, 2026. DOI: 10.26512/emtempos.v25i47.59148. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/emtempos/article/view/59148. Acesso em: 8 abr. 2026.

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