A crise hipersticional do pensamento de esquerda da hiperstição negativa à imaginação instituinte, por uma mitopolítica menor

Conteúdo do artigo principal

Felipe
Emerson

Resumo

O conceito de hiperstição, originariamente proposto pelo CCRU, tanto ajuda a explicar o funcionamento imagético do capitalismo, quanto se revela crucial para a construção de uma ação política voltada para o futuro, orientada por contra-hiperstições emancipatórias. No entanto, o pensamento de esquerda parece ter se enredado em hiperstições negativas que, em vez de mobilizar as lutas contemporâneas, acabam por paralisá-las. Assim, este artigo propõe, primeiramente, uma definição e uma crítica das hiperstições negativas presentes na esquerda dogmática, ao mesmo tempo em que sugere uma aliança entre os exercícios hipersticionais e o método (pós-)operaísta da tendência, com o objetivo de desbloquear as potências criativas da imaginação. Em seguida, a partir dessas lutas hipersticionais, propomos a imaginação política como uma capacidade instituinte (inspirada por Spinoza e Castoriadis) e resgatamos, à luz de Deleuze, o papel essencial da afetividade, do mito e da fabulação no exercício hipersticional libertário. Dessa forma, buscamos fundar uma mitopolítica imanente, estruturada por mitos menores, abertos ao porvir, ao invés de por mitos maiores, arcaicos e transcendentes.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Detalhes do artigo

Como Citar
FORTES , Felipe; PIROLA, Emerson. A crise hipersticional do pensamento de esquerda: da hiperstição negativa à imaginação instituinte, por uma mitopolítica menor. Das Questões, [S. l.], v. 20, n. 1, 2025. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/59119. Acesso em: 8 jan. 2026.
Seção
Artigos

Referências

AVENESSIAN, Armen & HENNIG, Anke. Who’s afraid of (Left) Hyperstitions? Manuscript. S. S. Disponível em: https://www.academia.edu/23874475/Whos_Afraid_of_Left_Hyperstitions. Acesso em maio de 2025.

AVENESSIAN, Armen; MACKAY, Robin. Introduction. In.:Avanessian, Armen; Mackay, Robin. (eds.). #Accelerate# - The acceleracionist reader. United Kingdom: Urbanomic, 2014, p. 1-50.

BASTANI, Aaron. Comunismo de luxo totalmente automatizado. Tradução de Everton Lourenço, Melanie Castro Boehmer e Giuliana Almada. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Antropos, 1991.

BUSH, Willian Perpétuo; CLUNNES, Robert. Nas portas do pandemônio: Cybernetic Culture Research Unit e a invenção da tradição mágica. Revista Relegens Thréskeia, V.10 N 1, 2021, – p. 237-250.

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Tradução de Guy Reynaud. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

CCRU. CRRU Writings: 1997-2003. New York: Urbanomic, 2015.

CITTON, Yves. Populism and the Empowering Circulation of Myths. Open Cahiers, 2010, pp.169-180.

CLASTRES, Hélène. Terra sem Mal: o profetismo tupi‑guarani. São Paulo: Brasiliense, 1978.

COCCO. Giuseppe. KorpoBraz: Por uma política dos corpos. Rio de Janeiro: Mauad X, 2014.

COMITÊ INVISÍVEL. A insurreição que vem. Tradução de Murilo Duarte. São Paulo: n-1 edições, 2015.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2017.

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 1974.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo (Cinema 2). Trad. Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2006a.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução: Luiz Orlandi, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006b.

DELEUZE, Gilles. Espinosa e o problema da expressão. Trad. GT Deleuze (coordenação de Luiz B. L. Orlandi). São Paulo: Editora 34, 2017.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução: Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2011.

DELEUZE, Gilles; Guattari, Félix. O que é a filosofia?. Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

DELEUZE, GILLES; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – Capitalismo e esquizofrenia 2, v. 5. São Paulo: Editora 34, 2012.

DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

ELIADE, Mircea. Mito do eterno retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2002.

ENDNOTES. Comunização e teoria da forma-valor — Endnotes n. 2 (Abril, 2010). Disponível em: https://zeroaesquerda.com.br/index.php/2021/12/28/comunizacao-e-teoria-da-forma-valor-endnotes-n-2-abril-2010/. Acesso em julho de 2025.

FISHER, Mark. k‑punk : The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher (2004–2016). Org. Darren Ambrose; prefácio por Simon Reynolds. Londres: Repeater Books, 2018.

FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Trad. Rodrigo Gonçalves; Jorge Adeodato; Maikel da Silveira. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

FORTES, Felipe. Do operaísmo à autonomia na filosofia de Antonio Negri: por um perspectivismo e um aceleracionismo das lutas. Tese (Doutorado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS. 2024.

FORTES, Felipe. O que o neoliberalismo já não explica: sobre cegueiras conceituais, lutas em curso e a necessidade da reivenção democrática. Uninômade, 2025. Disponível em: https://uninomade.net/o-que-o-neoliberalismo-ja-nao-explica-sobre-cegueiras-conceituais-lutas-em-curso-e-a-necessidade-da-reinvencao-democratica/. Acesso em: 28 jul. 2025.

FORTES, Felipe. No tecnofascismo contemporâneo, o neoliberalismo é um ponto de partida, não de chegada: entrevista especial com Felipe Fortes. Instituto Humanitas Unisinos. 2025b Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/654823-no-tecnofascismo-contemporaneo-o-neoliberalismo-e-um-ponto-de-partida-nao-de-chegada-entrevista-especial-com-felipe-fortes. Acesso em: 28 jul. 2025.

FORTES, Felipe; PIROLA, Émerson. É o capital um acelerador? Aceleração como fuga e antagonismo das forças produtivas. Das Questões, v. 12, n. 1, p. 22-60, jun. 2021. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/34931. Acesso em: 28 jul. 2025.

FORTES, Felipe; PIROLA, Émerson. O fora imanente e o dinheiro: por um aceleracionismo biopolítico a partir do sul. Lugar comum. p. 225-255, 2025. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/56243 . Acesso em: 28 jul. 2025.

GONÇALVES, Rodrigo Santaella; MARQUES, Victor. Por uma política orientada ao futuro: a provocação filosófica e estratégica do “aceleracionismo de esquerda”. Das Questões, v. 12, n. 1, 2021.

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue – Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós humano. Tadeu, T. (org). Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 33 – 118.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Tradução de Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2001.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multitude: War and democracy in the age of Empire. The Penguin Press: New York, 2004.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Commonwealth. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Assembly: a organização multitudinária do comum. Tradução de Lucas Carpinelli e Jefferson Viel. São Paulo: Editora Filosófica Politéia, 2018.

HIPPLER, Thomas. The politics of imagination: Spinoza and the origins of critical theory. In: Bottici, Chiara; Challand, Benoît (org.). The Politics of Imagination. Abingdon; New York: Routledge, 2011. p. 55 - 72.

JAMESON, Fredric. The Seeds of Time: The Wellek Library Lectures at the University of California, Irvine. New York: Columbia University Press, 1994.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LAND, Nick. Hyperstition. In: Catacomic, 1995. Trad. Kelvin. https://medium.com/@v1nk3l/hyperstition-150dcb2d5276. Acesso em julho de 2025.

LAND, Nick. Fanged Noumena. Collected writings 1987-2007.Urbanomic, 2011.

LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. São Paulo: Autêntica, 2011.

LYOTARD, Jean François. A Condição Pós-Moderna. Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. 16ª ed. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 2015.

MARIÁTEGUY, José Carlos. O Homem e o mito. 1930. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mariategui/1925/01/16.htm. Acesso em julho de 2025.

MARQUES, Victor. Um Estudo em Práticas Hipersticionais: alças estranhas, guerras temporais e teoria-ficção. Revista Linguagem em pauta | V.3., N.1., JAN.-JUN. 2023, p. 82-113.

MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

MARX, Karl. O capital. Crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção do capital. Tradução: Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Rio de Janeiro: n-1 edições. 2018.

MIGUEL, Luis Felipe. Em Torno do Conceito de Mito Político. Dados [Internet]. 1998; 41(3): s. p.

MORFINO, Vittorio. A Ciência das Conexões Singulares. Trad. Diego Lanchiote. São Paulo: Editora Contracorrente, 2021.

NEGRI, Antonio. A anomalia selvagem: poder e potência em Spinoza. Tradução de Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

NEGRI, Antonio. Marx além de Marx: Ciência da crise e da subversão – Cadernos de trabalho sobre os Grundrisse. Tradução de Bruno Cava. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.

NEGRI, Antonio. Espinosa subversivo e outros escritos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

NEGRI, Antonio. Spinoza: Then and Now: Essays: Vol. 3. Tradução de Ed Emery. Cambridge: Polity Press, 2020.

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida. Tradução de André Luís Mota Itaparica. São Paulo: Hedra, 2017.

O’SULLIVAN, Simon. The Missing Subject of Accelerationism. Mute, 12 de setembro de 2014. Disponível em: http://www.metamute.org/editorial/articles/missing-subject-accelerationism. Acesso em: julho de 2025.

O’SULLIVAN, Simon. Accelerationism, Hyperstition and Myth‑Science. Cyclops Journal, n. 2, p. 11–44, ago, 2017a.

O’SULLIVAN, Simon. Accelerationism, Prometheanism and Mythotechnesis. In: Brits, Baylee; Gibson, Prudence; Ireland, Amy (eds.). Aesthetics After Finitude. Melbourne: re.press, 2017b, p. 171–189.

PINTO NETO, Moysés. Superstição e Hiperstição. Das Questões, Vol. 19, n. 1, dezembro de 2024, p. 223-244.

PIROLA, Émerson. Multidão como classe social depois do humanismo em Antonio Negri. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS. 2018a.

PIROLA, Émerson. O devir-outro e o texto antropológico como literatura menor em A queda do céu. In.: Madarasz, Norman R.; Costa, André Luiz (Orgs.). Deleuze-Guattari: A escrita e a literatura na imanência da velocidade. Porto Alegre: Editora Fi, 2018b, p. 141-168.

PIROLA, Émerson. O Sujeito Endividado como Doppelgänger do Empreendedor de Si: Subjetivação pela Dívida na Crise do Neoliberalismo. Mediações, Londrina, v. 25, n. 3, p. 675-694, set-dez. 2020. DOI: < http://dx.doi.org/10.5433/2176-6665.2020v25n3p675>.

PIROLA, Émerson. A teoria spinozista da ideologia e do corte epistemológico de Louis Althusser: da imaginação à ciência da causalidade estrutural. Revista Dialectus - Revista de Filosofia, v. 36, n. 36, p. 124–149, 2025.

PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. Tradução de Fernando Scheibe. São Paulo: n-1 edições, 2014.

PRECIADO, Paul B. Testo Junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro e Verônica Daminelli Fernandes. São Paulo: n‑1 edições, 2018.

SAAR, Martin. Spinoza and the Political Imaginary. Qui Parle: Critical Humanities and Social Sciences, University of Nebraska Press, v. 23, n. 2, p. 115–133, Spring/Summer 2015.

SCARTEZINI, Natália. Georges Sorel, José Carlos Mariátegui e a questão do mito revolucionário. Lutas Sociais, São Paulo, v. 17, n. 30, p. 44–56, jul. 2013.

SRNICEK, Nick; WILLIAMS, Alex, #Accelerate: Manifesto for an accelerate politics. In: Mackay, Robin; Avanessian, Armen (Orgs.). #Accelerate#: the accelerationism reader. UK: Urbanomic, 2014.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que vem. Tradução de Débora Danowski. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2015.

GREGORY, Sister M. John. "Myth and Transcendence in Plato". Thought, Volume 43, Issue 2, Summer 1968, pp. 273-296.

SOREL, Georges. Reflexiones sobre la violencia. Madrid: Alianza Editorial, 2016.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014a.

TRONTI, Mario. Operários e Capital. Porto: Edições Afrontamento, 1976.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O índio em devir. In: HERRERO, M.; FERNANDES U. (orgs.). Baré: O povo do rio. Edições Sesc São Paulo. 2015, p. 8-13.

VOUT, Malcolm; WILDE, Lawrence. 'Socialism and Myth: The Case of Sorel and Bergson', Radical Philosophy, 046, Summer, 1987.

WILLIAMS, Alex. Escape Velocities. e‑flux journal, n. 46, jun. 2013.

WILLIAMS, Caroline. Thinking the Political in the Wake of Spinoza: Power, Affect and Imagination in the Ethics. Contemporary Political Theory, 2007, 6 (3), p. 349-369.

ZUNINO, Pablo Enrique Abraham. A fabulação como ato criativo: religião, estética e política. Revista Limiar, São Paulo, v. 10, n. 20, p. 246–257, 2024.