Limites da interação pessoa-máquina

Autores

DOI:

https://doi.org/10.26512/rfmc.v13i2.57719

Palavras-chave:

Descartes. Turing. Computação. Dependência contextual. Textura aberta.

Resumo

Muito trabalho já foi feito para aperfeiçoar a interação Pessoa-Máquina. A máquina deve ser provida de uma linguagem com uma sintaxe poderosa que a torna capaz de simular, até certo ponto, uma interação verbal entre duas pessoas. A sintaxe deve conter, por exemplo, indicadores de forças ilocucionárias que determinam quando uma enunciação conte como afirmação, questão, ordem etc. A máquina, para ter alguma utilidade, deve ter também “à sua disposição” um banco de dados considerável sobre os contextos mais frequentes de uso da linguagem, e sobre regularidades naturais, sociais, práticas e maneiras padrão de fazer as coisas. O ponto que quero destacar é o seguinte: a linguagem da máquina deve ser altamente arregimentada, ao passo que a língua comum usada por nós no dia a dia tem uma irredutível “textura aberta”, e manifesta uma forte dependência contextual. Todos os exemplares (tokens) de uma mesma frase de uma linguagem arregimentada devem ser compreendidos da mesma maneira por todos os usuários, em contextos de uma variedade bastante limitada que não alteram o significado expresso pela frase. Isso é fundamental para a comunicação científica. Os algoritmos processados por máquinas que funcionam “em ambientes fechados” também são imunes às influências contextuais. No entanto, na língua comum, os exemplares de uma mesma frase devem ser compreendidos diferentemente, de acordo com o contexto, para serem compreendidos corretamente. A máquina só pode processar algoritmos desprovidos de sensibilidade ao contexto. Essa diferença, a meu ver, é significativa. 

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

André Leclerc, Universidade de Brasília

Concluiu o doutorado em filosofia na Université du Québec em 1990. Atualmente é professor titular da universidade de Brasília. Publicou 39 artigos em periódicos especializados e 16 trabalhos em anais de eventos, 27 capítulos de livros e tem 7 livros organizados e mais dois livros autorais. É responsável por 55 itens de produção técnica. Participou de 96 eventos no brasil. Orientou 36 dissertações de mestrado, 7 teses de doutorado, além de ter orientado 13 trabalhos de iniciação cientifica e 23 trabalhos de conclusão de curso na área de filosofia. Recebeu 2 prêmios e/ou homenagens. Entre 1999 e 2019 coordenou 9 projetos de pesquisa. atua na área de filosofia, com ênfase em filosofias da linguagem, da mente e da ação. Em suas atividades profissionais interagiu com mais de 30 colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. Em seu currículo lattes os termos mais frequentes na contextualização da produção cientifica, tecnológica e artistico-cultural são: filosofia da mente, filosofia analítica, filosofia da linguagem, conteúdo mental, epistemologia, externismo, contextualismo, intencionalidade, anti-individualismo, semântica e naturalismo biológico. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica (2012-2014), e tesoureiro da Associação Latino-americana de Filosofia Analítica (2012-2014).

Referências

AUSTIN, J. L. Truth (1950). In: Proceedings of the Aristotelian Society. Reimpr. em: AUSTIN, J. L. Philosophical papers. Oxford: Clarendon Press, 1979.

BAR-HILLEL, Y. Indexical expressions. Mind, v. 63, n. 251, 1954, p. 359-379.

BEZUIDENHOUT, A. Truth-conditional pragmatics. Philosophical Perspectives, v. 16, 2002, p. 105-134.

BORG, E. Minimal semantics. Oxford: Oxford University Press, 2004.

BURGE, T. Comprehension and interpretation. In: HAHN, L. E. (org.). The philosophy of Donald Davidson. Chicago; La Salle: Open Court, 1999, p. 236-237.

CAPPELEN, H.; LEPORE, E. Insensitive semantics: a defence of semantic minimalism and speech act pluralism. Oxford: Blackwell, 2005.

CONDILLAC, E. B. de. La langue des calculs (1798). In: CONDILLAC, E. B. de. Œuvres philosophiques, t. II. (Corpus général des philosophes français). G. Le Roy (org.). Paris: PUF, 1948.

DESCARTES, R. Carta a Newcastle, 23 nov. 1646. Correspondance. Disponível em: https://athenaphilosophique.net/wp-content/uploads/2019/07/Descartes-René-Correspondance.pdf. Acesso em: 12 nov. 2024.

DESCARTES, R. Discours de la méthode. Introd. e notas de E. Gilson. Paris: Vrin, 2005.

GRICE, H. P. Meaning (1957). In: GRICE, H. P. Studies in the way of words. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1989, p. 213-223.

GRICE, H. P. Logic and conversation (1975). In: GRICE, H. P. Studies in the way of words. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1989, p. 22-57. (inclui “Further Notes”).

HAUGELAND, J. Artificial intelligence: the very idea. Cambridge, MA: MIT Press, 1987.

HOBBES, T. Computation or logic (1651). In: The English works of Thomas Hobbes, v. I, W. Molesworth (org.). London: John Bohn; reimpr. Aalen: Scientia Verlag, 1966a.

HOBBES, T. Leviathan, or the matter, form and power of a commonwealth ecclesiastical and civil (1651). In: The English works of Thomas Hobbes, v. III, W. Molesworth (org.). Aalen: Scientia Verlag, 1966b.

KAPLAN, D. Demonstratives. In: ALMOG, J.; PERRY, J.; WETTSTEIN, H. (eds.). Themes from Kaplan. Oxford: Oxford University Press, 1989, p. 481-563.

KUDITHIPUDI, D. et al. Biological underpinnings for lifelong learning machines. Nature Machine Intelligence, v. 4, 2022, p. 196-210. DOI: 10.1038/s42256-022-00452-0. Acesso em: 12 nov. 2024.

LECLERC, A. Meanings, actions and agreements. Manuscrito, v. 32, n. 1, 2009, p. 249-282.

LECLERC, A. Princípios para uma semântica das línguas naturais: os clássicos e os novos. Perspectiva Filosófica, v. 11, n. 30-31, 2008-2009, p. 11-33. (Número especial org. por André Abath.)

LECLERC, A. Spontaneous linguistic understanding: a few introductory remarks. Disputatio, v. 4, n. 34, dez. 2012, p. 713-737.

LECLERC, A. The second person in dialogue. Philosophy – International Journal, v. 6, 2023, p. 1-8. Disponível em: https://medwinpublishers.com/PhIJ/the-second-person-in-dialogue.pdf. Acesso em: 12 nov. 2024.

LECLERC, A. What is a serious discourse? Principia, v. 28, n. 1, 2024, p. 169-173.

MONTAGUE, R. Formal philosophy. R. Thomason (org.). New Haven: Yale University Press, 1974.

NEWTON-SMITH, W. H. (org.). A companion to the philosophy of science. Oxford: Blackwell, 2000.

NOË, A. Out of our heads. New York: Hill and Wang, 2009.

PARIENTE, J.-C. L’analyse du langage à Port-Royal: six études logico-grammaticales. Paris: Éditions de Minuit, 1985.

PERRY, J. Frege on demonstratives. In: PERRY, J. The problem of the essential indexical and other essays. New York: Oxford University Press, 1993.

PUTNAM, H. The threefold cord: mind, body, and world. New York: Columbia University Press, 1999.

RECANATI, F. Compositionality, semantic flexibility and context dependence. In: WERNING, M.; HINZEN, W.; MACHERY, E. (eds.). The Oxford handbook of compositionality. Oxford: Oxford University Press, 2012.

RECANATI, F. Literal meaning. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

RECANATI, F. Truth-conditional pragmatics. Oxford: Oxford University Press, 2010.

REICHENBACH, H. Elements of symbolic logic (1947). New York: The Free Press, 1966.

RUSSELL, B. An inquiry into meaning and truth. London: George Allen & Unwin, 1940.

SHAPIRO, S.; ROBERTS, C. Open texture and analyticity. In: SHAPIRO, S.; MAKOVEC, D. (orgs.). Friedrich Waismann: the open texture of analytic philosophy. London: Palgrave Macmillan, 2019, p. 190-210.

SMITH, B. C. Speech sounds and the direct meeting of minds. In: NUDDS, M.; O’CALLAGHAN, C. (eds.). New essays on sound and perception. Oxford: Oxford University Press, 2009, p. 183-210.

SUPPE, F. Definitions. In: NEWTON-SMITH, W. H. (org.). A companion to the philosophy of science. Oxford: Blackwell, 2000, p. 76-78.

TRAVIS, C. Meaning’s role in truth. Mind, v. 105, n. 419, 1996, p. 451-466.

TRAVIS, C. Thought’s footing: a theme in Wittgenstein’s Philosophical Investigations. Oxford: Oxford University Press, 2006.

TURING, A. M. Computing machinery and intelligence. Mind, v. LIX, n. 236, out. 1950, p. 433-460.

TVERSKY, A. Features of similarity. Psychological Review, v. 84, n. 4, 1977, p. 327-352.

WAISMANN, F. Verifiability. Proceedings of the Aristotelian Society, Supplementary v. XIX, 1945.

WITTGENSTEIN, L. Über Gewissheit / On certainty. Ed. G. E. M. Anscombe; G. H. von Wright. Oxford: Basil Blackwell, 1969.

Downloads

Publicado

21-10-2025

Como Citar

LECLERC, André. Limites da interação pessoa-máquina. Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea, [S. l.], v. 13, n. 2, p. 47–70, 2025. DOI: 10.26512/rfmc.v13i2.57719. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/fmc/article/view/57719. Acesso em: 9 jan. 2026.