Entre o íntimo e o político:
os contornos atuais da governança reprodutiva
Palavras-chave:
Governança reprodutiva; Desigualdades sociais; Maternidades; América Latina; Justiça reprodutivaResumo
Este artigo que abre o dossiê sobre os contornos contemporâneos de família e parentesco analisa como a reprodução humana se entrelaça com dimensões políticas, econômicas e sociais, particularmente no Brasil e América Latina. As autoras argumentam que, em contextos marcados por profundas desigualdades de classe, raça e gênero, a governança reprodutiva opera simultaneamente como mecanismo de controle estatal e arena de resistência, onde estratégias femininas de solidariedade e redes intergeracionais de cuidado emergem diante da ausência histórica de um estado de bem-estar social consolidado. O dossiê reúne etnografias que iluminam os "espaços de sombra" negligenciados em discussões anteriores e em outras realidades geográficas, examinando desde maternidades impedidas por barreiras legais e transfronteiriças até destituições do poder familiar, revelando como economias morais, emoções e negociações cotidianas materializam tensões entre direitos individuais, regulações estatais e éticas do cuidado, sempre permeadas por hierarquias sociais que determinam quem pode reproduzir, criar filhos e em quais condições.
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