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Dossiê Políticas de representação nas artes visuais: entre conquistas e armadilhas

2022-04-11

Nos últimos anos, a entrada em cena de agentes historicamente excluídos ou silenciados (particularmente mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBTQIA+) transformou acervos, exposições e o perfil dos agentes que atuam ou são apresentados pelas instituições culturais e demais instâncias do circuito de arte no Brasil, assim como no meio acadêmico mudou currículos, temas de pesquisa e bibliografias, em um processo há muito tempo necessário, mas amplamente inconcluso, se considerarmos as questões de equidade e justiça social que isso envolve e que, todavia, seguem pendentes; sobretudo quando uma vontade de eliminação das diferenças é respaldada pelos poderes constituídos e parte da sociedade civil organizada.

Ao mesmo tempo, não parece haver evento, exposição ou programação que não sejam hoje, em alguma medida, “co-curados” por essas questões, que têm sido discutidas ou referidas por meio de termos como representatividade, inclusão, diversidade, reparação, decolonização etc. A situação evidencia certamente uma conquista, mas é também um sinal de que tais mudanças podem estar sendo consumidas por uma cultura dominante, ao menos no campo da arte, sob o risco de alcançarem um ponto de saturação, exaustão, acomodação. Afinal, trata-se de mudanças estruturais ou de fachada? Ou de ambas, em diferentes combinações? De que modo aqueles agentes transpõem ou restam condicionados às expectativas sobre seus corpos, experiências e discursos? Como não reduzir a visibilidade à mera aparição, a um discurso sem ação? Que papel as instituições culturais e outras instâncias têm desempenhado nesse processo? De que modo as concepções e epistemologias da arte moderna e contemporânea têm sido mantidas, reformadas ou transformadas? Um balanço mais bem apurado desse quadro também segue pendente.

Embora a importância daquelas mudanças seja inegável, elas ainda não parecem ter alcançado as diretorias e conselhos das grandes instituições. Do mesmo modo, permanece inalterado certo organograma que subalterniza os setores educativos em face do curatorial e do expositivo. Por exemplo, reivindicar “mais mulheres” na curadoria não tem o mesmo sentido na educação, uma área historicamente feminizada, por sua associação às atividades de reprodução e cuidado. Também a reconfiguração dos públicos parece muitas vezes postulada pela abertura das exposições, com base em noções de identificação e reconhecimento, como se não fosse necessário acompanhar o que ocorre no tempo das exposições. Além disso, a maneira como tais mudanças são, em parte, assimiladas por valores e práticas neoliberais, reiterando critérios baseados na singularidade, raridade e autenticidade, a esta altura, merece ponderação. Apesar do cenário de retração do setor cultural, não parece haver crise no mercado de arte, onde a perspectiva de uma carreira artística para aqueles agentes tem sido apoiada por um “colecionismo ativista”, interessado justamente na produção de “grupos minorizados”.

É diante de encruzilhadas como essas, onde as políticas de representação – para além de sua positividade – aparecem de modo dilemático, deixando entrever uma série de “questões laterais”, que propomos este dossiê. Nesse contexto, afirmar que as mudanças conquistadas até aqui são insuficientes, como se o caso fosse demandar “mais representação”, não parece satisfatório. Eventualmente, para que as políticas de representação tenham a devida consequência (em termos de equidade e justiça social), pode ser necessário rever rotas, estratégias, discursos e alianças, ou ainda, desvencilhar-se das armadilhas que a própria gramática da representação oferece, sem que exatamente seja possível se livrar da própria representação, enquanto um modo de inscrição no mundo em comum.

 

Editores

Cayo Honorato (UnB) et al.

 

Submissões

As submissões devem ser feita até o dia 31 de julho de 2022, por meio da plataforma da revista: <https://periodicos.unb.br/index.php/revistavis>

 

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Edição Atual

v. 20 n. 1 (2021): Dossiê 50 anos - Jornal Arte&Educação
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Imagem da Capa:
Primeira página da edição experimental do Jornal Arte & Educação
editado em setembro de 1970.
Fonte: MIRANDA, Orlando. Coletânea do Jornal Arte & Educação. RJ: Editora Teatral, 2009.

Publicado: 2021-07-21

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Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais