Tradução enquanto resistência e subversão

2020-06-15

A proposta desse número regular temático da revista Belas Infiéis, “Tradução enquanto resistência e subversão”, é a de um diálogo sobre tradução e ação política - mais precisamente, a tradução enquanto ato de resistência política e de subversão. Trata-se de refletir sobre mecanismos e recursos do processo tradutório capazes de ensejar políticas de resistências e reparação (Iveković, 2009, 2019) de relações perversas de assimetrias e hegemonias linguísticas e socioculturais, construídas por histórias de dominação de populações sobre outras. Essas formas de poder que assentam relações desiguais constituem-se como pano de fundo de uma discussão que coloca em perspectiva a tradução e os direitos linguísticos, sugerindo uma reflexão sobre direitos de tradução: o direito de ser traduzido; o direito de traduzir e o direito de se traduzir, como tendências complementares de um ativismo político de subversão e reparação.

A tradução, nessa perspectiva, ilustra e manifesta o contato, o confronto e o conflito - de línguas, de falantes, de normas e de realidades. É nesse aspecto que ela também comparece como um ato de resistência e de rebelião, ainda que implícito e inconsciente.

Ao constituir-se em um processo de realocação textual e assumir outros significantes, a tradução confere outros espaços de subjetivação e de diálogo. Com isso, novos engajamentos emergem da circulação que a tradução possibilita. Ao dar fluxo e voz, ela multiplica os pontos de partida. As relações de dominação e submissão, que são construções de um sistema de valores pré-estabelecido e de normas, transmitidas pelas línguas/culturas dominantes, se assentam na tensão entre tradição e modernidade, em que não há simetria ou igualdade entre as línguas. Esse estado de assimetria impele a tradução a se colocar como ação afirmativa.

Por outro lado, a tradução é protagonista da globalização linguística, enquanto agente central da relação entre as línguas, uma “língua” de circulação e de relações. Comparece como um recurso efetivo de visibilização de línguas e textos, invisibilizados, promovendo a diversidade linguística em cenários supranacionais.

Partindo desse pano de fundo, questiona-se que tipos de engajamentos se constroem pela tradução quando o tradutor empresta sua voz e sua língua àquele que não fala ou àquele que não é ouvido. É nesse ato que a tradução se institui como militância, pois o tradutor não está numa posição acessória, mas, perseguido pela obsessão do original, na posição do reclamante. Paralelamente, compromete-se com a acessibilidade e o direito a ser entendido e a entender, a participar e interagir, em nome de um ideal de justiça social. Esse ato ou ação política se executa como uma espécie de advocacia pro bono, para proporcionar acesso a direitos: direito de leitura, direito de escuta, direito de participar, interferir, afetar e ser afetado. Direito ao acolhimento e ao engajamento. Assim, percebe-se que as questões políticas da tradução são inseparáveis das questões éticas, já que o que está em jogo são relações.

 

Para isso, esse número propõe construir um diálogo sobre a tradução com alguns autores e conceitos: hospitalidade e desconstrução (Derrida); a virada ética na tradução no reconhecimento do outro enquanto outro (Berman, Venuti, Meschonnic, Spivak); as políticas de tradução e a tradução política (Iveković); a autoridade do tradutor e a tradução como resistência (Tymoczko); asilo e refúgio na tradução (Iveković, Alexis Nouss); a ecologia das línguas e a tradução como dispositivo de internacionalização (Calvet; Casanova).

 

Serão aceitos artigos individuais ou em coautoria, em português, inglês, francês e espanhol, que abordem um dos seguintes eixos temáticos:

 

  • Tradução: ação política e militante;
  • Internacionalização (científica) e políticas de tradução: por uma outra globalização;
  • Tradução e direitos linguísticos: migração, contatos e interações;
  • Tradução enquanto asilo, hospitalidade e refúgio;
  • Relação ética e tradução.

 

Prazo para submissão: 30 de janeiro de 2021

 

Diretrizes para Autores:

https://periodicos.unb.br/index.php/belasinfieis/guidelines

 

Folha de estilo:

https://periodicos.unb.br/index.php/belasinfieis/announcement/view/231

 

Organizadoras:

Alice Maria Araújo Ferreira (UnB)

Sabine Gorovitz (UnB)