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Psicologia, arte e estética: pressupostos de um entendimento da arte e das experiências estéticas como constituintes de sujeitos e coletivos

2024-02-23

Psicologia, arte e estética: pressupostos de um entendimento da arte e das experiências estéticas como constituintes de sujeitos e coletivos

 

“A arte é uma produção de inutilidades imprescindíveis”

Cildo Meireles

 

Pressupostos teóricos e justificativas

O conceito de arte apresentado em epígrafe, cunhado por Cildo Meireles e incluída entre as 801 definições compiladas por Frederico Morais (2018) no livro Arte é o que eu e você chamamos arte, dá pistas para se compreender a proposta deste Número Especial. Entendemos a arte como inutilidade imprescindível e cada vez mais urgente, pois “Jamás el arte ha sido tan necesario como ahora, porque jamás el [ser humano] se vio tan amenazado por la deshumanización (Sánchéz Vázquez, 1979, p.117). 

A psicologia que praticamos e defendemos pauta-se na afirmação da potência da arte e dos processos de criação na luta contra a desumanização, na medida em que contribuem para tensionar visibilidades, dizibilidades e pensabilidades hegemônicas, constitutivas de modos de vida singulares e coletivos. Arte e política mantêm, por conseguinte, estreita relação, pois "têm em comum o fato de produzirem ficções. Uma ficção não consiste em contar histórias imaginárias. É a construção de uma nova relação entre a aparência e a realidade, o visível e o seu significado, o singular e o comum"  (Rancière, 2010, p.53).  Ficções são imprescindíveis, por conseguinte, para o delineamento de possibilidades de futuro ética, estética e politicamente comprometidas com uma sociedade plural, democrática, inclusiva. Ou ao menos com ideias que nos possibilitem adiar o fim do mundo, como nos alerta Ailton Krenak (2019).

Com a mediação da arte, apostamos na possibilidade de reinventar relações, as quais se caracterizam como expressão e fundamento do vivido. No manuscrito de 1929, Vigotski destaca a indissociável conexão entre singular e coletivo, entre relações sociais e processos psicológicos, ao afirmar, parafraseando Marx, que "a natureza psicológica da pessoa é o conjunto das relações sociais, transferidas para dentro e que se tornaram funções da personalidade e formas da sua estrutura" (Vigotski, 2000, p.27). A transformação das relações, por conseguinte, é condição para a transformação qualitativa de processos psicológicos superiores e da base afetivo-volitiva que os erige e sustenta. 

A arte é fundamental nesse processo de transformação das relações e de cada pessoa em particular na medida em que é compreendida como “uma organização do nosso comportamento visando ao futuro, uma orientação para o futuro, uma exigência que talvez nunca venha a concretizar-se, mas que nos leva a aspirar acima da nossa vida o que está por trás dela” (VIGOTSKI, 1998, p.320).

A arte e as experiências estéticas, uma vez compreendidas em sua importância nos processos de constituição de si, de identidades singulares e coletivas, de construções sociais e culturais, de relações em grupos, configuram-se como pauta de reflexão para diferentes vertentes da psicologia. Interessa-nos com este Número Especial visibilizar essa diversidade, a partir do acolhimento de artigos que trabalhem com as relações entre psicologia, arte e experiência estética. 

Como linguagem, uma obra de arte configura-se como enunciado concreto que responde à esfera da vida e à dialogia que a conota (BAKHTIN & VOLOCHINOV, 2006), visibilizando as tensões que a caracterizam. Buscam promover, essas obras, experiências estéticas em quem com elas se relacionam, experiências essas que provocam deslocamentos em sentidos instituídos. É a arte, nessa perspectiva, uma resposta que se insere na cadeia incessante de comunicação e que se apresenta, ao mesmo tempo, como abertura a respostas outras, as quais podem vir a ser objetivadas de modos e intensidades variadas.

Partindo de uma concepção da mediação semiótica e das interações sociais e dialógicas, encontramos nas diversas expressões artísticas uma suposição de que os recursos artísticos e estéticos funcionem como recursos simbólicos (ZITTOUN & GILLESPIE, 2015) que colaboram para uma constituição de um pensamento crítico e reflexivo tanto sobre si mesmo como em sua relação com outros, com o próprio mundo e o modo como o dele ativamente participamos.

Saiba mais sobre Psicologia, arte e estética: pressupostos de um entendimento da arte e das experiências estéticas como constituintes de sujeitos e coletivos

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v. 39 (2023)
Publicado: 2023-05-12

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