NOTAS AFRODIASPÓRICAS PARA UM ENSINO JURÍDICO ANTIRRACISTA

Autores

  • Luciano Góes Universidade de Brasília (UnB)

Palavras-chave:

Direito Antirracista, Ensino jurídico, Notas afrodiaspóricas

Resumo

A proposta inicial do presente artigo é problematizar a formação jurídica das pessoas que integram nosso "sistema de justiça", pois, ao nos atentarmos para quem (é) julga(do), temos uma visão muito clara de como nossa justiça se constitui, em quais bases e objetivos ela funciona, questionando, ao fim: que justiça estamos sustentando e defendendo?

Segundo o 2º Censo do Poder Judiciário, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), nossa magistratura é predominantemente branca e masculina. Em 2023, os magistrados brancos ocupavam 81,2% dos cargos de juízes titulares; 81,3% dos cargos de juízes substitutos e 88,5% dos desembargadores. Em relação às mulheres brancas, elas eram 82,8% das juízas titulares; 85,1% das juízas substitutas e 87,7% das que ocupam o cargo de desembargadoras. Nas cortes superiores, nenhuma diferença, mas destaco o contexto vivido enquanto escrevo essas linhas, no qual o presidente da República indicará uma pessoa para ocupar a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, tendo, novamente, a possibilidade de indicar a primeira ministra negra na história do Supremo Tribunal Federal (STF).

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Biografia do Autor

Luciano Góes, Universidade de Brasília (UnB)

Doutor em Direito na Universidade de Brasília (UnB - 2023), Mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC - 2015) e graduado em Direito pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL - 2012). Professor substituto de Direito Penal na Universidade de Brasília (UnB), do curso de Especialização Lato Sensu em Direitos Humanos e Contemporaneidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e de cursos de Pós-graduação. Consultor especial de Criminologia Cultural Negra do Instituto Brasileiro de Criminologia Cultural. Membro emérito do Instituto Baiano de Direito Processual Penal (IBADPP), associado à Sociedade dos Advogados Criminais do Estado do Rio de Janeiro (SACERJ), membro titular do Grupo de Trabalho instituído pela Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP/MJSP para elaborar propostas normativas para a atualização da Portaria Interministerial n 4.226, de 31 de dezembro de 2010, e para regulamentar a Lei n 13.060, de 22 de dezembro de 2014, que tratam do uso da força pelos agentes de segurança pública e foi membro do Grupo de Trabalho destinado à realização de estudos e elaboração de proposta de regulamentação que estabeleça diretrizes e procedimentos para o reconhecimento pessoal em processos criminais e sua aplicação no âmbito do Poder Judiciário (CNJ). Foi professor, coordenador-geral e advogado responsável pelos núcleos jurídicos dos projetos de extensão "Flores da Clô" e "Vicente do Espírito Santo - S.O.S Racismo", do Centro Universitário Estácio de Santa Catarina (2016-2019). Foi Conselheiro Estadual da Ordem dos advogados do Brasil, Seccional Santa Catarina (OAB/SC), onde foi Vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial, Subseção de São José/SC (2016-2018), e secretário da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil (2015-2017). Pesquisador/membro do projeto de Pesquisa e Extensão "Universidade Sem Muros" (UFSC) e, do grupo de pesquisa "Bases para uma Criminologia do controle penal no Brasil: em busca da brasilidade criminológica", ambos coordenados pela Prof. Dr. Vera Regina Pereira de Andrade (UFSC/CNPq). Advogado Abolicionista Quilombista e vencedor do Prêmio Jabuti (2017), na categoria "Direito", com a obra: A tradução de Lombroso na obra de Nina Rodrigues: o racismo como bases estruturante da Criminologia brasileira.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6620359831455900.

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Publicado

19-12-2025

Como Citar

GÓES, Luciano. NOTAS AFRODIASPÓRICAS PARA UM ENSINO JURÍDICO ANTIRRACISTA. Revista dos Estudantes de Direito da Universidade de Brasília, [S. l.], v. 22, n. 2, p. 38–55, 2025. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/redunb/article/view/60434. Acesso em: 15 jan. 2026.