Chamada para Submissão em Seção Temática
Reúso adaptativo de edifícios com valores patrimoniais
A reconversão ou o reúso adaptativo de edifícios com valores patrimoniais ganharam destaque no cenário internacional a partir dos anos 1980. No entanto, não se pode afirmar que, antes dessa data, esses edifícios não eram utilizados para outros fins além daqueles para os quais foram projetados, nem que não tenham sofrido intervenções que prolongassem sua utilidade ao longo do tempo. A prática de reutilização de edifícios ou de suas atualizações é ancestral e abrange um número incontável de realizações. Todavia, a partir dos anos 1980, o trabalho de intervenção de arquitetos em edificações representativas de valor patrimonial passou a ser tema de revistas especializadas. É preciso considerar que, na década de 1960, a crítica ao movimento moderno amadureceu, tanto no que diz respeito à preservação do patrimônio cultural quanto nos debates e reflexões teóricas sobre o tema expressos nas cartas patrimoniais. Além disso, deve-se levar em conta a ampliação do conceito de patrimônio cultural, em particular o patrimônio arquitetônico, com a inclusão de diferentes tipologias e a ampliação do espaço temporal a ser considerado em sua preservação. Somam-se a isso as mudanças econômicas em âmbito global, que implicaram um reordenamento do sistema produtivo, com a consequente desindustrialização de muitos países, além de mudanças ecológicas, de conservação de energia e de materiais. A nova ordem econômica tornou disponíveis um número significativo de edifícios industriais para os mais diversos usos, desde lofts novaiorquinos até museus, e afirmou definitivamente o valor econômico do patrimônio arquitetônico, que passou a fazer parte do circuito de consumo das cidades. Nesse cenário, os argumentos em defesa da reconversão de edifícios com valores patrimoniais para novos usos, bem como suas adaptações e atualizações para responder a novas necessidades e normas de segurança e acessibilidade, incluíam, além das reflexões baseadas nos princípios do campo preservacionista, discussões identitárias, argumentação ecológica, conservação de energia e de materiais. Ao mesmo tempo, em algumas situações, foram mobilizadas críticas contrárias à prática, por considerá-la uma estetização de passados dolorosos e uma manipulação de memórias coletivas.
Nos anos 1980, o sistema de proteção do patrimônio arquitetônico brasileiro, sob a direção de Aloísio Magalhães, revisou sua concepção de patrimônio cultural, incorporando uma dimensão antropológica ao termo e trazendo consigo as reflexões urdidas no Centro Nacional de Referência Cultural na década anterior. Com essa revisão conceitual, os bens de pedra e cal passaram a abranger não apenas a arquitetura e os conjuntos urbanos dos séculos XVII e XVIII, mas também a arquitetura eclética em suas diversas manifestações e tipologias, bem como edifícios industriais. Dessa maneira, em consonância com a ampliação do entendimento de patrimônio cultural e arquitetônico, observou-se no Brasil um aumento no número de edifícios de interesse para a preservação, que extrapolou a legitimidade da arquitetura barroca mineira e dos conjuntos urbanos do ciclo do ouro, incluindo os exemplares da arquitetura do ferro. Os estudos pioneiros de Geraldo Gomes (1993) sobre o tema ganharam fôlego nas pesquisas subsequentes de Beatriz Kühl (2008) e na realização do I Encontro de Patrimônio Industrial (2004), organizado por Silvana Rubino e Cristina Meneguelo. O patrimônio moderno também se insere nesse alargamento de interesse com a criação do DOCOMOMO Internacional em 1988 e do DOCOMOMO Brasil em 1992.
A disponibilidade de um parque imobiliário de interesse cultural em expansão e sem uso possibilitou experiências valiosas que devem ser lembradas. A título de exemplo, podem ser citadas as intervenções de Lina Bardi em Salvador: o Solar do Unhão (1963), a Ladeira da Misericórdia (1980) e o Sesc Pompéia, em São Paulo (1977-1986); o Mercado Modelo (1984), de Paulo Ormindo, na capital baiana; a Pinacoteca do Estado de São Paulo (1994-1998), de Paulo Mendes da Rocha; a incrível fábrica de Francisco Brennand, no Recife (1971), exemplo de reconversão de edifício industrial avant la lettre; a Casa de Cultura Mário Quintana (1982-1990), de Flávio Kiefer e Joel Gorski; e, mais recentemente, o SesiLab, em Brasília, projeto de Gustavo Penna. Se há um conjunto de intervenções dignas de reconhecimento, há outras que, ao contrário, são deletérias ou parasitárias, como as denomina Varagnoli (2017). Com elas, aprende-se o que não se deve fazer. Por isso, a reconversão ou o reúso adaptativo de edifícios com valores patrimoniais suscita questões cujas respostas não são simples. É necessário estudar esses edifícios para identificar seus valores, os atributos que os expressam, suas relações com o espaço urbano e sua importância para a paisagem, bem como problematizar as relações entre memória social e patrimônio material e propor o debate sobre os usos possíveis. Entre as questões técnicas, estão o potencial do espaço para abrigar novos programas e sua adaptação às normas de segurança e acessibilidade vigentes, além das questões teóricas que envolvem a interface entre o restauro, ato de conservação, e o projeto, ato essencialmente propositivo. Um estudo semelhante exige a elaboração de documentação que evidencie as instâncias históricas e estéticas de uma obra (Kühl, 2007). Propor o reúso ou a atualização de edifícios exige não só conhecimento histórico e técnico, mas também uma atitude crítica que oriente escolhas que não se limitem a reproduzir o existente, mas que atendam às demandas do presente (Carbonara, 2023).
Submissões
As submissões devem ser encaminhadas até o dia 31 de julho de 2026, pelo site da revista Paranoá. No ato da submissão, os autores deverão selecionar a opção “Seção Temática: Domínios da Tectônica” e observar as orientações relacionadas às “Condições para submissão”. Os trabalhos devem seguir o modelo de formatação da revista, conforme o Template de artigos da Paranoá, acompanhados da Carta de Apresentação de manuscritos no momento do envio.
Esperamos suas contribuições!
Ana Clara Giannecchini (UnB)
Elane Ribeiro Peixoto (UnB)
Flaviana Barreto Lira (UnB)
Natália Vieira-de-Araújo (UFPE)
Nivaldo Andrade (UFBA)
Editores Convidados
Flaviana Barreto Lira (Universiade de Brasília)
Natália Vieira-de-Araújo (Universidade Federal de Pernambuco)
Nivaldo Andrade (Universidade Federal da Bahia)
Editora Responsável
Elane Ribeiro Peixoto (Universiade de Brasília)
CARBONARA, G.; ANDRADE (trad.), N.; GRACO CAFEZEIRO (trad.), Y. A restauração não é conservação... Revista Thésis, Rio de Janeiro, v. 8, n. 16, 2023. DOI: 10.51924/revthesis.2023. v8.411. Disponível em: https://thesis.anparq.org.br/revista-thesis/article/view/411. Acesso em: 11 fev. 2026.
KÜHL, Beatriz M. Cesare Brandi e a teoria da restauração. PosFAUUSP, [S. l.], n. 21, p. 197-211, 2007. DOI: 10.11606/issn.2317-2762.v0i21p197-211. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/posfau/article/view/43516. Acesso em: 15 jan. 2026.
VARAGNOLI, Claudio. Teorias à prova do tempo: novos temas para a restauração na Itália. In: ARQUIMEMÓRIA: Encontro Internacional Sobre Preservação do Patrimônio Edificado, 5., 2017, Salvador. Anais [...]. Salvador: Instituto de Arquitetos do Brasil-Bahia, 2017.









