Chamada para novo número: Antropofagias futuras

2020-07-14

Antropofagias futuras 

 

Qual futuro podemos vislumbrar para a antropofagia enquanto tema de estudo, ou para perspectivas antropolÓgicas, filosÓficas e culturais que o reclamam? Podemos supor que a antropofagia, além de ser uma prática tradicional de povos ameríndios, contém em si um certo desenho de futuro? Este número da revista Das QuestÕes pretende explorar diversas respostas possíveis a essas duas perguntas, a partir de três eixos principais de análise: (1) a filosofia antropÓfaga de Oswald de Andrade; (2) o campo de estudo antropolÓgico dos rituais antropÓfagos ameríndios; e (3) as teorizaçÕes sobre aantropofagia no Ocidente. Assim, Antropofagias futuras indica, de saída, o desejo de mapear os sentidos e a importância que atribuímos à antropofagia em suas várias dimensÕes: filosÓficas, antropolÓgicas, artísticas, culturais, políticas, histÓricas, educativas, civilizacionais, em suas múltiplas perspectivas e textualidades. Sem querer delimitar questÕes que podem surgir desse convite, apresentamos breves consideraçÕes sobre cada um dos eixos indicados acima, a título de exemplo.

Com relação ao primeiro eixo, Oswald mirava sempre, por diversas vias, com estratégicas distintas, “os caminhos livres que o futuro indica”. É o futuro ele mesmo que indica os caminhos livres. Nos textos em que analisou as utopias, na elaboração de sua teorização antropofágica como perspectiva utÓpica, em sua incansável e combativa avaliação das artes, da cultura, da política, da histÓria e, podemos dizer, em todas as dimensÕes de sua vida, o futuro não é projeção messiânica, mas exercício de síntese a indicar caminhos livres. Daí a questão central do(s) sentido(s) do termo “utopia” na prosa e na poética antropÓfagas de Oswald. Em sua obra, o futuro é conjugado, no passado e no presente, de modo sempre prismático, aberto, mas decisivo. Em O caminho percorrido, por exemplo, Oswald escreve: “A Antropofagia foi, na primeira década do modernismo, o ápice ideolÓgico, o primeiro contato com nossa realidade política porque dividiu e orientou no sentido do futuro”. A atenção à forma como Oswald compÕe suas frases, suas análises e seus vaticínios, é fundamental. Agir (dividir, orientar) no sentido do futuro como critério de avaliação implica a pergunta (sempre aberta) por este sentido, e não (apenas) mera avaliação de acontecimentos, ideias, poéticas e textos passados tendo em conta seus frutos eventuais, que seria o mais usual. Vale pensar, portanto, a perspectiva futura da filosofia antropofágica de Oswald à luz de (ou em contraste com) suas prÓprias elucubraçÕes em torno do futuro, da utopia, da histÓria, etc.

Com relação ao segundo eixo, dos relatos de missionários e viajantes da época colonial à antropologia contemporânea, os rituais antropofágicos, presentes nos mais diversos cantos do planeta, figuram como um elemento recorrente na construção de narrativas e análises em torno das sociedades ditas “tradicionais” ou “primitivas”. A antropofagia, em suas múltiplas leituras, oscilou sobretudo entre a atribuição estigmatizadora de “selvageria” aos povos autÓctones e uma prática ritual que ajudaria a compreender a especificidade das culturas indígenas, chegando a servir ao reconhecimento de uma ”maior nobreza” dessas culturas frente ás culturas ocidentais, como em Montaigne. Nos mais recentes estudos antropolÓgicos sobre o tema, a questão da antropofagia associa-se a perspectivas teÓricas mais precisas, como em Claude Lévi-Strauss, Pierre e Helène Clastres, e as derivas brasileiras de Eduardo Viveiros de Castro, Aparecida Vilaça, ou Carlos Fausto, para ficarmos apenas em alguns dos estudiosos que a analisaram no âmbito dos povos indígenas americanos. Como avaliar as diferentes abordagens da antropofagia no campo da antropologia e a importância dessas abordagens do ponto de vista dos desafios postos pela urgente luta em defesa dos povos indígenas, cada dia mais ameaçados por todos os lados?

O último eixo, a antropofagia no Ocidente, pretende dialogar com outros conceitos de antropofagia, como aqueles referidos a aspectos literários e religiosos da tradição ocidental, ou sua presença na psicanálise, na histÓria e na filosofia. Da Grécia antiga ao capitalismo ultraliberal do século XXI, a antropofagia aparece como elemento recorrente na autocompreensão da cultura ocidental. Sigmund Freud elegeu o assassinato e a devoração do pai da horda primitiva como a cena fundadora da civilização, e localizou no canibalismo o cerne dos processos de luto e melancolia. Ele seguia em parte as intuiçÕes de Karl Abraham e Melanie Klein sobre o “instinto canibal”, prÓprio à fase oral e elemento essencial no processo de constituição da psiquê humana. Nicolas Abraham e Maria Torok inovaram a psicanálise com suas observaçÕes sobre a fantasia de incorporação do outro pela boca. Marcel Detienne analisou o sentido do termo em relação aos mitos e ás práticas sacrificiais da Grécia antiga. Estudos histÓricos, religiosos, filosÓficos e antropolÓgicos dedicam-se à atribuição ou condenação (protestante) de uma dimensão antropÓfaga do rito catÓlico da eucaristia. A antropofagia comparece na literatura ocidental no Calibán (anagrama de canibal) de Shakespeare e em Pentesiléia, de Kleist, por exemplo. Há um canibalismo pop no cinema alternativo e hollywoodiano, que aparece com insistência nos filmes de zumbi contemporâneos, ou no carismático psicopata, Hannibal Lecter, dentre outros. Já Achille Mbembe utiliza o termo para caracterizar a dimensão destrutiva e selvagem do capitalismo contemporâneo. Essas são algumas ocorrências da antropofagia que servem, cada uma a seu modo, para ajudar a compreender aspectos da autocaracterização do ser humano no Ocidente, indicando complementos, contrastes, ou mesmo incompatibilidades com a filosofia antropÓfaga de Oswald ou com o significado da antropofagia entre os ameríndios, e convidando a múltiplos e importantes desdobramentos nas perspectivas teÓricas decoloniais.

 

Editado por: Filipe Ceppas e João Camillo Penna

 

Prazo para submissÕes: 20 de dezembro de 2020