Gêmeos naturais e gêmeos fertilizados in vitro: em questão a sacralidade de Ìbejì no diálogo de òògun com a biomedicina

Authors

DOI:

https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v9i2.60297

Keywords:

Antropologia médica, Gêmeos, Ibeji, Iorubá, Òògun, Propriedade intelectual de conhecimentos

Abstract

O presente artigo explora a concepção de Ibeji (Ìbejì) na sociedade tradicional iorubá (yorùbá), considerando tanto gêmeos naturais quanto aqueles concebidos por fertilização in vitro (FIV) ou inseminação artificial. Segundo a concepção iorubá, o nascimento é um fato biológico e espiritual e por serem considerados orixás, os gêmeos são reverenciados desde o momento em que chegam ao aiyê advindos do orum. Quando a biomedicina passou a realizar inseminação artificial e fertilização in vitro, nasceram muitos gêmeos fertilizados “artificialmente”, portanto, em condições distintas da fecundação natural de gêmeos. Este fato colocou em questão a sacralidade de gêmeos fertilizados in vitro e intensificou o diálogo entre a biomedicina e òògun, a medicina tradicional iorubá. O conhecimento iorubá sobre Ìbejì, sistema completo, coerente e culturalmente validado de cuidado, possui lógica operacional interna, distinta da lógica de paradigmas biomédicos tecnocráticos e de propriedade intelectual ocidental. Sistemas de cuidado em saúde analíticos e biomédicos, fundamentados no conhecimento definido como propriedade intelectual são incongruentes quando utilizados como parâmetros epistemológicos na abordagem do saber tradicional iorubá, que oferece alternativas culturalmente significativas aos modelos hegemônicos contemporâneos. Neste artigo são abordadas particularidades dessa temática em dois contextos complementares: no contexto da Antropologia Médica, com especial atenção à biomedicina e a òògun, e no contexto de debates sobre oralidade, escrita e propriedade intelectual de conhecimentos para melhor entendimento da questão da Sacralidade de Ìbejì fertilizados in vitro.

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Author Biographies

Adeyinka Olaiya, Obafemi Awolowo University

Adeyinka Olaiya é um artista, jornalista, pesquisador e pensador cultural nigeriano, nascido no seio do povo Yorùbá, cuja trajetória entre a África e a América do Sul o consagrou como uma das vozes mais expressivas da preservação e difusão da filosofia ancestral yorùbá no mundo contemporâneo.

Daniel Broggi Ciardullo, Universidade de São Paulo/Mestrado

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA) da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação do Prof. Dr. Artur Matuck e o tema "ABSTRAÇÃO DA AUTORIA E INDUSTRIALIZAÇÃO AUTORAL: A MONOPOLIZAÇÃO DAS IDEIAS, CRIATIVIDADES E COLETIVIDADES". É bacharel em Engenharia Química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e formado em Artes Plásticas pela Escola Panamericana. Desenvolveu projetos na área de pintura, combine, performance e teatro. Participações com obras em exposições na Escola Panamericana e no XII Congresso Internacional de Estética e História da Arte. Artigo publicado no XII Congresso Internacional de Estética e História da Arte (2022). Integrante do Grupo de Pesquisa da Cátedra José Bonifácio para o período 2023-2024. Pesquisador no Grupo de Pesquisa (CNPq-Unip) Estudos Transdisciplinares das Heranças Africana e Indí­gena, sob coordenação da Profª. Drª Ronilda Ribeiro.

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Published

2025-12-29

How to Cite

Olaiya, A., & Ciardullo, D. B. (2025). Gêmeos naturais e gêmeos fertilizados in vitro: em questão a sacralidade de Ìbejì no diálogo de òògun com a biomedicina. Revista Calundu, 9(2), 68–88. https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v9i2.60297

Issue

Section

Artigos acadêmicos -dossiê temático