Parentalidade: Pedra angular da governança reprodutiva
DOI:
https://doi.org/10.4000/151k7Palavras-chave:
parentalidade positiva, proteção à infância, sistemas de cuidado, moralidade familiar, govenança reprodutivaResumo
Propomos neste artigo refletir sobre a “parentalidade”, tema que emerge nos dias de hoje de forma recorrente nas políticas de família. Lançando mão de análises sociológicas e históricas realizadas sobre políticas de proteção à infância em vários países ocidentais, examinamos a operacionalização de noções de bom e mau cuidado, manifesta em termos como “crianças espancadas”, “abuso infantil”, “negligência” e, mais recentemente, “parentalidade positiva”. Ao examinar essas noções em diferentes circunstâncias e épocas diversas, olhando tanto para a influência dos especialistas quanto para as moralidades que encontram expressão nas subjetividades parentais, pretendemos provocar uma reflexão sobre onde e quem cria esses mecanismos de governança, assim como a maneira em que reforçam a reprodução estratificada. Terminamos por sugerir que a parentalidade positiva é para as famílias pobres e discriminadas o que a branquitude é para as raças marginalizadas. Enquanto reina silêncio sobre esse padrão de referência e os critérios de sua definição (carregados em muitos casos nem tanto de evidências científicas quanto de preconcepções de classe e cor), não avançaremos longe no entendimento das classificações problemáticas embutidas nas infraestruturas hierárquicas e desiguais do governo de infância, nem na apreciação das formas plurais de ser e estar no mundo.
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