Entre Masculinidades e Responsabilização

Políticas Públicas para Homens Autores de Violência

Autores

  • Beatriz Evelyn Silva UnB

Palavras-chave:

Gênero, violência doméstica, masculinidades, Políticas públicas, homens

Resumo

O presente artigo analisa a eficácia das políticas públicas voltadas aos homens autores de violência doméstica no Brasil, a partir de uma abordagem crítica que articula gênero, masculinidades e responsabilização. Partindo do pressuposto de que estratégias centradas exclusivamente na vítima, embora fundamentais, não têm sido suficientes para interromper a persistência da violência de gênero, o estudo propõe um deslocamento analítico para o agressor como sujeito central das políticas de prevenção. Metodologicamente, a pesquisa combina revisão bibliográfica e documental sobre o marco normativo nacional, com ênfase na Lei Maria da Penha e nas diretrizes institucionais do Conselho Nacional de Justiça, com a análise empírica do caso do Distrito Federal a partir de estudos prévios em que já constavam informações sobre o local. O desenvolvimento do debate sobre a região foi feito a partir da análise da literatura disponível – adotando a revisão narrativa – que possui como conteúdo entrevistas semiestruturadas com profissionais atuantes no Programa Acolher/DF, documentações relacionadas ao estruturamento do programa e dissertação crítica acerca do tema, permitindo confrontar as diretrizes teóricas e normativas com a realidade operacional do serviço. Os resultados indicam que, embora haja coerência metodológica entre as práticas adotadas e os referenciais teóricos contemporâneos sobre masculinidades, persistem desafios estruturais relevantes, como limitações institucionais, fragilidade na articulação intersetorial e ausência de mecanismos sistemáticos de avaliação da eficácia das intervenções. Conclui-se que políticas públicas voltadas aos homens autores de violência representam um campo estratégico para o enfrentamento da violência de gênero, desde que compreendidas como políticas de responsabilização e transformação das masculinidades, articuladas à proteção integral das mulheres.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

AGUIAR, Luiz Henrique Machado de; DINIZ, Gláucia Ribeiro Starling. Estudos sobre masculinidades e seus impactos no trabalho com homens autores de violência. Gênero, Niterói, v. 17, n. 2, p. 81–94, 1. sem. 2017. Disponível em: ESTUDOS SOBRE MASCULINIDADES E SEUS IMPACTOS NO TRABALHO COM HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA

BEIRAS, Adriano; MARTINS, Daniel Fauth Washington; SOMMARIVA, Salete Silva; HUGILL, Michelle de Souza Gomes. Grupos reflexivos e responsabilizantes para homens autores de violência contra mulheres no Brasil: mapeamento, análise e recomendações. Florianópolis: Academia Judicial de Santa Catarina, 2021. Disponível em: Grupos reflexivos e responsabilizantes

BORGES, Bárbara Crivas Fonseca; REZENDE, Gabriel Silva. A implementação de políticas públicas no combate e prevenção à violência doméstica contra a mulher: uma análise no município de Vassouras/RJ. Mosaico – Revista Multidisciplinar de Humanidades, Vassouras, v. 15, n. 2, p. 319–335, maio/ago. 2024.

BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Recomendação nº 124, de 7 de janeiro de 2022. Recomenda aos tribunais que instituam e mantenham programas voltados à reflexão e responsabilização de agressores de violência doméstica e familiar. Brasília: CNJ, 2022.

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 8 ago. 2006.

BRASIL. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Brasília, DF: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2011.BUTLER, J. Gender Trouble: feminism and the subversion of identity. New York: Routledge, 2006.

CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, James W. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 241–282, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2013000100014

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Justiça e Cidadania. Portaria nº 41, de 12 de maio de 2021. Institui diretrizes no âmbito dos Núcleos de Atendimento à Família e ao Autor de Violência Doméstica (NAFAVDs). Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília, DF, 12 maio 2021.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria da Mulher. Portaria nº 14, de 22 de março de 2022. Normatiza a implementação do Programa Acolher no âmbito dos Centros Especializados de Atendimento à Mulher (CEAMs). Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília, DF, 22 mar. 2022.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Justiça e Cidadania. Portaria nº 1, de 7 de janeiro de 2022. Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília, DF, 7 jan. 2022.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário brasileiro de segurança pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019.

GUARESCHI, Carla; GIANNINI, Renata Avelar; GODOY, Camila Nadalini de; ALKMIM, Marina. Guia prático para formulação de políticas públicas de prevenção à violência contra mulheres. Rio de Janeiro: Instituto Igarapé, 2023.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil de 2018. Infográfico. Rio de Janeiro: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2018.

LOPES, Paulo Victor Leite; LEITE, Fabiana (orgs.). Atendimento a homens autores de violência doméstica: desafios à política pública. 1ª ed. Rio de Janeiro: Iser, 2013. Disponível em:

https://www.iser.org.br/wp-content/uploads/2020/08/homens_miolo_9nov_.pdf

LOPES, Paulo Victor Leite; LEITE, Fabiana (orgs.). Atendimento a homens autores de violência doméstica: desafios à política pública. 1. ed. Rio de Janeiro: ISER, 2013. 164 p. Disponível em: Atendimento a homens autores de violência doméstica: desafios à política pública

LUGONES, María. Colonialidade e gênero. Tabula Rasa, Bogotá, n. 9, p. 73-101, 2008.

MARQUES, Verônica Teixeira; CARVALHO, Grasielle Borges Vieira de; NOGUEIRA JÚNIOR, Gabriel Ribeiro. Políticas públicas e violência doméstica: reflexões sobre programas para agressores – o ciclo da violência em questão. Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, n. 72, p. 599–627, jan./jun. 2018. Disponível em: https://revista.direito.ufmg.br/index.php/revista/pt_BR/article/view/1928/1821NOLASCO, Sócrates. O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

ONU MULHERES. A framework to underpin action to prevent violence against women. New York: UN Women, 2015. Disponível em: A FRAMEWORK TO UNDERPIN ACTION TO PREVENT VIOLENCE AGAINST WOMEN?. Acesso em: 30 jan 2026.

PASINATO, Wânia. Oito anos de Lei Maria da Penha: entre avanços, obstáculos e desafios. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 23, n. 2, p. 533–545, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br. Acesso em: 26 jan. 2026.

SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71–99, jul./dez. 1995. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721

SCOTT, Juliano Beck; OLIVEIRA, Isabel F. de. Grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica: estudo comparativo a partir de três programas brasileiros. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 1–26, 2021.

SEGATO, Rita Laura. As estruturas elementares da violência: ensaios sobre gênero entre a antropologia, a psicanálise e os direitos humanos. 2. ed. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2014.

SUXBERGER, Antonio Henrique Graciano; FERREIRA, Natália Neves Alves. Políticas de intervenção no enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. Revista de Gênero, Sexualidade e Direito, Minas Gerais, v. 2, n. 1, p. 243–260, jan./jun. 2016.

TÁVORA, Mariana Fernandes; COSTA, Dália; GOMES, Camilla de Magalhães; BEIRAS, Adriano. Análise de gênero e de cruzamentos interseccionais de um programa para autores de violência doméstica contra as mulheres. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2, p. 433-458, 2020. DOI: 10.5102/rbpp.v10i2.6802. Disponível em: Análise de gênero e de cruzamentos interseccionais de um programa para autores de violência doméstica contra as mulheres

WEIBLEN, Fabrício Pinto; MEZZOMO, Maria Luiza. Violência de gênero e eficácia dos programas de intervenção com agressores. [S. l.], p. 1–21, dez. 2021. Disponível em: https://revistajuridica.tjdft.jus.br/index.php/rdj/article/view/689

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO multi-country study on women’s health and domestic violence against women: initial results on prevalence, health outcomes and women’s responses. Geneva: World Health Organization, 2005. Disponível em: https://www.who.int.

ZANELLO,V. Masculinidades, cumplicidade e misoginia "homens casados": um estudo sobre os grupos de Whatsapp masculinos no Brasil. In:FERREIRA,L.Gênero Em Perspectiva. Curitiba: CRV, 2020. p.79-102. ZANELLO,V. Saúde Mental, gênero e dispositivos:cultura processo de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018. Vol 10, N.01-Jan - Mar., 2024

Downloads

Publicado

16.04.2026

Como Citar

SILVA, Beatriz Evelyn. Entre Masculinidades e Responsabilização: Políticas Públicas para Homens Autores de Violência. Revista Latino-Americana de Criminologia, [S. l.], v. 6, n. 1, p. 282–315, 2026. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/relac/article/view/61254. Acesso em: 17 abr. 2026.