O bandido como fantasma
neoliberalismo, conservadorismo e racismo nas entranhas das violências e responsabilizações de Estado
Palavras-chave:
bandido, sistema de justiça, racismo, neoliberalismo, conservadorismoResumo
O objetivo deste artigo é analisar o bandido enquanto uma lógica de classificação fantasmagórica e suas reverberações nas práticas e discursos de atores do sistema de justiça e do Estado. Para isso, destaco três microcenas etnográficas: 1. o discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2016, no qual defendeu que “marginais” devem ser mortos; 2. a declaração de Guilherme Derrite, atual secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, segundo a qual críticos das operações Verão e Escudo teriam parentes envolvidos com o crime; 3. documento da Corregedoria da Polícia Militar sobre uma investigação de violência policial, arquivada por se tratar de uma denúncia feita por um “adolescente infrator”. A partir dessas cenas, busco contextualizar o bandido como um problema sociológico e, assim, por meio de um levantamento bibliográfico, exploro as moralidades neoliberais, conservadoras e racistas que balizam essa lógica de classificação. Para costurar esse debate, mobilizo a noção de política como forma de guerra. Proponho, portanto, que uma das principais reverberações da lógica classificatória do bandido se manifesta na orientação dos mecanismos de controle policial para a validação das narrativas policiais que legitimam a violência. Por fim, a partir das formas como a lógica do bandido tem sido acionada por operadores do Estado, busco dar evidência a como, no Brasil, a justificativa do combate à criminalidade legitima processos de genocídio no interior de um esqueleto administrativo-burocrático democrático. Concluo propondo uma hipótese teórico-metodológica: compreender o bandido como um dispositivo — um saber-poder — à luz da abordagem foucaultiana.
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