A punição como um dispositivo de poder e dominação dentro da construção geosocial da América Ibérica

Autores

  • Marcelo Berdet Universidade de Brasília

Palavras-chave:

Punição, colonialidade, raça, diferença, outro

Resumo

Na construção geosocial da América Ibérica, a punição deve ser decifrada e entendida em retrospecto, como uma instituição colonial submetida a forças sociais, econômicas e políticas e forjada ao longo dos acontecimentos históricos. Em outras palavras, a punição contribuiu para o estabelecimento da autoridade colonial como fiadora de relações sociais hierárquicas e desiguais. Assim, a decolonialidade oferece um relato histórico, uma perspectiva e olhar intersubjetivo do “outro” acerca dos processos de poder e dominação sobre a população não branca nas Américas por meio da punição como um dispositivo racializado. O regime de punição colonial pode ser visto como um modo de governança e regulação institucional sobre a população, em particular, a força de trabalho. A diferença colonial e suas disposições de restrição social impuseram formas generalizadas de comportamento para o território e a população. Em termos gerais, a diferença colonial definia quem e como punir, e refletia, ainda, sobre as interações sociais entre governante e governado.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Marcelo Berdet, Universidade de Brasília

Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (2015). Mestre em pesquisa social pela Goldsmith University of London (2008). Especialista em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1993). Pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança; Grupo de Pesquisa Violência, Cidadania e Segurança, ambos na Universidade de Brasília–DF; Pesquisador do Grupo de Pesquisa Política Criminal, Faculdade de Direito/CEUB–DF.

Referências

Aguirre, Carlos. “Cárcere e Sociedade na América Latina, 1800-1940.” In História das Prisões no Brasil, edited by Maia, Clarissa Nunes, Flávio de Sá Neto, Marcos Costa, and Luiz Bretas, 35-77. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

MEDINA, Araceli Reynoso. Revueltas y recebeliones de los esclavos africanos en la Nueva España. Revista del CESLA. International Latin American Studies Review, Warsaw, n. 7, p.125–134, 2005.

ARAYA, Alejandra Espinoza. El castigo físico: el cuerpo como representación de la persona, um capítulo en la historia de al occidentalización de américa, siglos xvi–xviii. Historia (Santiago), v. 2, n. 39, p.349–367, 2006.

BES, Alberto Oriz. Los Indígenas En El Proceso Colonial: Leyes Jurídicas Y La Esclavitud. Anuario del Centro de la Universidad Nacional de Educación a Distancia en Calatayud , Zaragoza, n. 21, p.189–206, 2015.

BETHELL, Leslie. The Cambridge History of Latin America, Volume II: Colonial Latin America. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. 932 p.

BHAMBRA, Gurminder K. Postcolonial and decolonial dialogues. Postcolonial studies, London, v. 17, n. 2, p.115–121, 2014a.

BHAMBRA, Gurminder K. Postcolonial entanglements. Postcolonial Studies, London, v. 17, n. 4, p.418–421, 2014b.

BHAMBRA, Gurminder K. Comparative historical Sociology and the State: Problems of Method. Cultural Sociology, London, v. 10, n. 3, p.335–351, 2016.

BLAIR, Elsa. La política punitiva del cuerpo: “economia del castigo” o mecánica del sufrimiento em Colombia. Estudios Políticos, Medellín, n. 36, p.39–66, 2010.

BONILLA, Heraclio. Estructura colonial y rebeliones andinas. Apuntes. Revista De Ciencias Sociales, Lima, n. 7, p.91–99, 1977.

CARVALHO, Lucas Borges. Direito e barbárie na conquista da América indígena. Revista Sequência, Florianópolis, v. 25, n., 49, p.53–70, 2004.

CEBALLOS, Rodrigo. À margem do Império: autoridades, negociações e conflitos–Modos de governar na América espanhola (séculos XVI e XVII). Sæculum – Revista de História, João Pessoa, n. 21, p.161–171, jul/dez, 2009.

COLE, Michael. Culture and Cognitive Development in Phylogenetic, Historical, and Ontogenetic Perspective. In: EISENBERG, Nancy; DAMON,William;, LERNER, Richard M.(eds.). Handbook of Child Psychology Volume III, Sixth Edition. Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons, 2007a. p. 593–794.

COLE, Michael. Phylogeny and cultural history in ontogeny. Journal of Physiology–Paris, Paris, v. 101, n. 4–6, p.236–246, 2007b.

DERRIDA, Jacques. Declarations of independence. New Political Science, New York, v. 7, p.7–15, 1986.

DERRIDA, Jacques. Forces of law: the ‘mystical foundation of authority.’ In: CORNELL; Drucilla, ROSENFELD Michel; CARLSON; David Gray (eds.). Deconstruction and the Possibility of Justice. New York: Routledge, 1993. p. 920–1045

DIAS, Leonardo Guimarães Vaz. A Guerra dos Bárbaros: manifestações das forças colonizadoras e da resistência nativa na América Portuguesa. Revista Eletrônica de História do Brasil, Juiz de Fora, v. 5, n. 1, jan–jun, 2001. Disponível em: https://www.ufjf.br/rehb/files/2010/03/v5–n1–2001.pdf Accesso: 19 de maio 2018.

DUARTE, Evandro Piza; QUEIROZ, Marcos Vinícius Lustosa; COSTA,Pedro Argolo. A Hipótese Colonial, um diálogo com Michel Foucault: a modernidade e o Atlântico Negro no centro do debate sobre racismo e sistema penal. Universitas Jus, Brasília, v. 27, n. 2:1–31, 2016.

DU BOIS, W.E.B. The Souls of Black Folks. New York: Dover Publications, 1994 [1903]. 174 p.

DUSSEL, Enrique. 1492: El encubrimiento del Otro. Hacia el origen del mito de la Modernidad. La Paz: Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación Plural Editores, 1992. 220 p.

FANON, Frantz. Black skin, white masks. New York: Grove Press, 2008. 206 p.

FOUCAULT, Michel. Discipline and Punish: The Birth of the Prison. New York: Vintage Books, 1977. 333 p.

GARLAND, David. Punishment and Modern Society: a study in Social Theory. Chicago: The University of Chicago Press, 1990. 320 p.

GARLAND, David. Sociological perspectives on punishment. Crime and Justice, Chicago, v.14, p.115–165, 1991.

GARLAND, David. Penal Modernism and Postmodernism. In: BLOOMBERG, Thomas D.; COHEN, Stanley (eds.). Punishment and Social Control. Hawthorne, New York: Aldine De Gruyer, 1995. p. 181–209.

GARLAND, David. The Limits of the Sovereign State. British Journal of Criminology, Oxford, v. 36, n. 4, p.445–471, 1996.

GASKILL, Malcolm. Witchfinders: a seventeenth–century English tragedy. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2007. 257 p.

GIDDENS, Anthony. The Nation–State and Violence. Cambridge. UK: Polity Press, 1985. 409 p.

GÓMEZ, Zandra Pedraza. El régimen biopolitico en América Latina. Cuerpo y pensamiento social. Iberoamericana, Madrid, v. 4, n. 15, p.7–19, 2004.

GRIFFITHS, Paul. Introduction: Punishing the English. In: GRIFFITHS, Paul; DEVEREAUX, Simon, (eds.). Penal Practice and Culture 1500–1900: Punishing the English. New York, New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 1–35.

GRINBERG, Keila. Escravidão, Direito e Justiça no Brasil Colonial. Tempo, Rio de Janeiro, n. 17, p.217–222, 2005.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. 2000. EMPIRE. Cambridge, Massachuttes: Harvad University Press, 2000. 497 p.

HENSEL, Franz Dieter Riveros. Castigo Y Orden en la América Latina colonial: el nuevo Reino de Granada, um ezboso preliminar. Historia Crítica, Bogotá, n. 24, p.141–153, 2002.

LABAUNE–DEMEULE, Florence. Authority and Displacement. In: LABAUNE–DEMEULE (ed.) Authority and Displacement in the English–Speaking World Volume II: Exploring American Shores. Newcastlle: Cambridge Scholars, 2015. p. 143–170.

LANDER, Edgardo. La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas lationoamericanas. Buenos Aires: Clasco–Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2000. 246 p.

LeGRAND, Catherine. Comentario al estudio de historiografía sobre la violencia. In: ZAMBRANO, Bernardo Tovar (ed.) La historia al final del milenio: ensayos de historiografía colombiana y latinoamericana, Volume II. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 1994. p. 425–432.

LIZARRALDE, Roberto. El castigo de los índios chiguaraes. Boletín Antropológico, Mérida, v. 23, n. 65, p.377–396, 2005.

McBRIDE, Keally D. 2007. Punishment and political order. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2007. 212 p.

MaCDOWALL, Lachlan. Historicising Contemporary Bisexuality. Journal of Bisexuality, Philadelphia, v. 9, n. 1, p.3–15, 2009.

MARÍN, José María García. La Justicia del Rey en Nueva España. Córdoba: Servicio de Publicaciones, Universidad de Córdoba, 2011. 620 p.

McINTURFF, Kate. Disciplining Race: Crossing Intellectual Borders in African American and Postcolonial Studies. Canadian Review of American Studies, Toronto, v. 30, n. 1, p.73–91, 2000.

MEDRANO, Ethelia Ruiz, and Perla Valle. Los colores de la justicia, códices jurídicos del siglo XVI en la Bibliothèque Nationale de France. Journal de la Société des Américanistes, Paris, v. 84, n. 2, p.227–241, 1998.

MELLO, Isabele Matos Pereira. Instâncias de poder e justiça: os primeiros tribunais da Relação (Bahia, Rio de Janeiro e Maranhão). Tempo, Rio de Janeiro, v. 24, n. 1, p.89–115, 2018.

MIETHE, Terance D.; LU, Hong. 2005. Punishment: A comparative historical perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 2005. 258 p.

MIGNOLO, Walter D. Local Histories/Global Designs: Coloniality. Subaltern Knowledges and Border Thinking. New Jersey: Princeton University Press, 2000. 416 p.

MIGNOLO, Walter D. The darker side of western modernity: Global futures, decolonial options. Durham: Duke University Press, 2011. 453 p.

MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: indíos e bandeirantes na origem de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 330 p.

PATON, Diana. Punishment, Crime, and the Bodies of Slaves in Eighteenth–Century Jamaica. Journal of Social History, Oxford, v. 34, n. 4, p.923–954, 2001.

PIERCE, Steven. Punishment and the Political Body: Flogging and Colonialism in Northern Nigeria. Interventions:International Journal of Postcolonial Studies, London, v. 3, n. 2, p.206–221, 2001.

PRESCOTT, William H. History of Conquest of Peru. Mineola, New York: Dover Publications, 2005. 560 p.

QUIJANO, Aníbal; WALLERSTEIN, Immanuel. Americanity as a Concept, or the Americas in the Modern World–System. International Social Sciences Journal, London, v. 44, n. 4, p.549–557, 1992.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgard (ed.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Buenos Aires: CLASCO, 2000a. p. 201–246.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of World Systems Research, Pittsburgh, v. 6, n. 2, p.342–388, 2000b.

RAO, Anupama, and Steven Pierce. DISCIPLINE AND THE OTHER BODY: Correction, Corporeality, and Colonial Rule. Interventions:International Journal of Postcolonial Studies, London, v. 3, n. 2, p.159–168, 2001.

RICO, José M. 1998. Crimen y justicia en América Latina. Ciudad de Mexico: Siglo XXI, 1998. 318 p.

RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. Punishment and Social Structure. London: Routledge, 2003 [1939]. 321 p.

SALDANHA, Arun. Scale, Difference and Universality in the Study of Race. Postcolonial Studies, London, v. 18, n. 3, p.326–335, 2015.

SALVATORE, Ricardo D. Criminal justice history in Latin America: promising notes. Crime, Histoire & Sociétés/Crime, History & Societies, Genève, v. 2, n. 2, p.5–14, 1998.

SCARDEVILLE, Michael. C. Hpasburg) Law and (Bourbon) Order: state authority, popular unrest, and the criminal justice System in Bourboun Mexico City. The Americas, Cambridge, v. 50, n. 4, p.501–525, 1994.

SCHWARTZ, Stuart. B. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonia: O Tribunal Superior da Bahia e seus Desembargadores 1609–1751. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 480 p.

SMITH, Philip. Punishment and Culture. Chicago: University of Chicago Press, 2008. 229 p.

SPIERENBURG, Petrus Cornelis. Violence and punishment: civilizing the body through time. Cambridge, UK: Polity, 2013. 231 p.

TAGLE, Fernando Tenorio. Cultura, Sistema Penal y Criminalidad. Ciudade de México: Fondo De Cultura Económica, 2002. 129 p.

TESTART, Alain. Reconstructing Social and Cultural Evolution: The Case of Dowry in the Indo–European Area. Current Anthropology, Chicago, v.54, n. 1, p.23–50, 2013.

TILLY, Charles. Coercion, Capital and European States AD 990–1990. Oxford: Blackwell, 1992. 269 p.

WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World–System, vol. I: Capitalist Agriculture and the Origins of the European World–Economy in the Sixteenth Century. New York: Academic Press, 1974. 440 p.

Downloads

Publicado

13.08.2021

Como Citar

BERDET, M. A punição como um dispositivo de poder e dominação dentro da construção geosocial da América Ibérica. Revista Latino-Americana de Criminologia, [S. l.], v. 1, n. 1, p. 222–241, 2021. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/relac/article/view/35956. Acesso em: 16 out. 2021.