Contexto pra lá, contexto pra cá

contribuições antropológicas para a formação de psicólogos-psicoterapeutas

Autores

Palavras-chave:

cuidado racializado, antropologia da ciência, antropologia da saúde, saberes psi, etnografia com documentos

Resumo

Este artigo pretende discutir possíveis contribuições da ciência antropológica para a formação de psicólogos, em especial no que se refere à atenção ao contexto sociocultural para um cuidado racializado em saúde mental. Como recorte de uma investigação etnográfica de maior escala junto a um grupo de estágio e serviço de psicoterapia racializada, analiso os documentos que regem a formação de psicólogos em uma universidade do centro-oeste brasileiro, especificamente, o Projeto Pedagógico do curso de Psicologia (PPC). Na análise deste documento, identifiquei e estranhei determinadas imposições de significação, como na demasiada utilização da palavra “contexto”, usado de forma ambígua, ora se referindo a ambiente, ora como sinônimo de cultura. A partir desta identificação, argumento que esta disposição reflexiva, de estranhamento e relativismo, é característica da pesquisa antropológica e pode contribuir para a formação de profissionais da saúde mental, no que se refere à desnaturalização do universalismo ontoepistêmico dos saberes psi. Portanto, aposto na antropologia como ferramenta metodológica que não oferece respostas manualísticas, mas pode gerar reflexividade por meio de perguntas, para potencializar a comunicação entre alteridades, a mediação diplomática entre mundos e um cuidado em saúde mental que ressoa com o contexto sociocultural, que seria, então, racializado.

 

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

João Paulo Siqueira, Universidade de Brasília

Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Bacharel em Psicologia pela mesma universidade. Integra o laboratório de pesquisa em Antropologia e Saúde Coletiva (CASCA) do PPGAS/UnB. Tem experiência de pesquisa sobre relações raciais e étnicas, saúde e racismo, formação de psicólogos, além de processos de subjetivação e decolonialidade.

Referências

ABBAD, Gardênia; BORGES-ANDRADE, Jairo. Aprendizagem humana em organizações de trabalho. In: Zanelli et al. (Org.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ASDAL, Kristin; MOSER, Ingunn. Experiments in Context and Contexting. Science, Technology & Human Values, v. 37, n. 4, p. 291-306, 2012.

BERNARDINO-COSTA, Joaze; MALDONADO-TORRES, Nelson; GROSFOGUEL, Ramon. Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

BERNARDINO-COSTA, Joaze. Dynamics of racialization and the anti-racism in Contemporary Brazil. In:Zakarov, Nikolay; Tate, Shirley; Law, Ian; Bernardino-Costa, Joaze (Orgs), Futures of Anti-Racism: paradoxes of deracialization in Brazil, South Africa, Sweden and the UK. Londres: Palgrave Macmillan, pp. 69-137, 2022.

CARTER, Robert. Racism and psychological and emotional injury: Recognizing and assessing race-based traumatic stress. Counseling Psychology, v. 35, n. 1, p. 13-105, 2007.

DAMASCENO, Marizete Gouveia; ZANELLO, Valeska Maria. Psicoterapeutas brancos/as e clientes negros/as: sobre racismo invisível e lacuna em relações raciais na formação profissional. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), v. 14, n. 42, p. 317-342, 2022.

DUSSEL, Enrique. Transmodernidad e interculturalidad: Interpretación desde la Filosofía de la Liberación. México City: UAM, 2005.

FANON, Frantz; AZOULAY, Jacques. A socioterapia numa ala de homens muçulmanos: Dificuldades metodológicas. In: FANON, Frantz (Org.). Alienação e liberdade: Escritos psiquiátricos. São Paulo: Editora Ubu, p. 171-194. 2020.

FANON, Frantz. Medicina e Colonialismo. Feira de Santana: Terra sem Amos, [1976] 2020.

FERREIRA DA SILVA, Denise. Homus Modernus: Para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro, Editora Cobogó, 2022.

FREIRE, Lucas. Indícios e registros da “realidade da crise”: A pesquisa etnográfica com documentos e suas possibilidades. Etnografías Contemporáneas, v. 8 n. 15, p. 98-121, 2022.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, p. 223-244, 1984.

INGOLD, Timothy. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação. Porto Alegre, p. 06-25, 2010.

IPEA. Atlas do Estado Brasileiro, 2020.

KNORR-CETINA, Karin. Epistemic cultures: Forms of reason in science. 1991.

LANGDON, Esther. Os diálogos da antropologia com a saúde: contribuições para as políticas públicas. Ciência & saúde coletiva, v. 19, n. 04, p. 1019-1029, 2014.

LÉVI-STRAUSS, Claude. A eficácia simbólica in: Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

LEWIS, Tené et al. Self-reported experiences of discrimination and health: scientific advances, ongoing controversies, and emerging issues. Annual Review of Clinical Psychology, v. 11 n. 1, p. 407-440, 2015.

LOWENKRON, Laura; FERREIRA, Leticia. Anthropological perspectives on documents. Ethnographic dialogues on the trail of police papers. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, v. 11, p. 76-112, 2014.

MARTINS-BORGES, Lucienne et al. Inflexões epistemológicas: a Etnopsiquiatria. Fractal: revista de psicologia, v. 31, p. 249-255, 2019.

MILANEZI, Jaciane; SILVA, Graziella Silêncio: reagindo à saúde da população negra em burocracia do SUS. In: PIRES, R. (Org.). Implementando Desigualdades: reprodução de desigualdades na implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: IPEA, 2018.

OLIVEIRA, Lucas; CARVALHO, Júlia. Saúde e racismo: reflexões sobre a violência racial. In: Cristiane Flôres Bortoncello. (Org.). Violência- Compêndio teórico-prático sobre vítimas e agressores. Novo Hamburgo: Sinopsys, pp. 355-372, 2024.

PEREIRA, Alexandre. Viajantes do tempo: imigrantes-refugiadas, saúde mental, cultura e racismo na cidade de São Paulo. Curitiba: CRV, 2020.

SCHUCMAN, Lia. Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Tese de Doutorado, São Paulo: Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2012.

SCORSOLINI-COMIN, Fábio; BAIRRÃO, José. Etnopsicologia e Saúde. São Carlos: Editora Pedro & João, 2023.

SIQUEIRA, João; VIEIRA, Luiz; LIMA, Emilly. Etnopsicanálise no Brasil: revisando literaturas e contextualizando subjetividades. Pensata, v. 10, n. 1, p. 102-105, 2021.

SMOLEN, Jenny; ARAÚJO, Edna. Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil: uma revisão sistemática. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 12, p. 4021–4030, 2017.

TEIXEIRA, Carla Costa; CASTILHO, Sérgio. IPEA: etnografia de uma Instituição, entre pessoas e documentos, 2020.

VELHO, Gilberto. Observando o familiar. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

WILLIAMS, David et al. Racial differences in physical and mental health: Socio-economic status, stress and discrimination. Journal of Health Psychology, v. 2, n. 3, p. 335-351, 1997.

WILLIAMS, David et al. Understanding how discrimination can affect health. Health Services Research, v. 54, n. 1, p. 1374-1388, 2019.

Downloads

Publicado

07/30/2025 — Atualizado em 08/19/2025

Versões

Como Citar

SIQUEIRA, João Paulo. Contexto pra lá, contexto pra cá: contribuições antropológicas para a formação de psicólogos-psicoterapeutas. Pós - Revista Brasiliense de Pós-Graduação em Ciências Sociais, [S. l.], v. 20, n. 1, p. 60–72, 2025. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/revistapos/article/view/56194. Acesso em: 8 fev. 2026.