REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
SOBRE O CONCEITO DE IDEOLOGIA
EM LOUIS ALTHUSSER
Júlio César Pereira dos Santos
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centro autodeterminado e livre de suas ações, como explicam as filosofias da consciência desde Descartes
até as teorias contemporâneas da ação racional; grande parte de nossas ações é inconsciente.
É nesse sentido que Althusser (1999, p. 285, grifos do autor) destaca o efeito de reconhecimento/
desconhecimento que se opera na ideologia: ao mesmo tempo que praticamos seus rituais, desconhecemos
o mecanismo das estruturas sociais nas quais estamos inseridos. Para ele (1999, p. 287), “os indivíduos são
sempre já sujeitos”, pois, mesmo antes de nascer, a criança já é esperada nos rituais da configuração ideológica
familiar, “fortemente estruturada”, e é nessa “estrutura implacável” que o futuro-sujeito deverá encontrar “o
seu lugar”, ou seja, tornar-se aquilo que já é (Althusser, 1999, p. 288). É por essa pressão e predeterminação
ideológica que, como ensina Freud (1978), o pequeno animal transforma-se em uma pequena criança,
atravessando o “espaço infinito” que separa “o biológico do histórico, a ‘natureza’ da ‘cultura’” (Althusser,
1980, p. 118). Assim, chegamos à terceira tese central de Althusser (1999, p. 286): “toda ideologia interpela os
indivíduos concretos como sujeitos”, de tal modo que ela “recruta” sujeitos entre os indivíduos, ou “transforma”
indivíduos em sujeitos.
E, na medida em que “Freud já dissera que tudo dependia da linguagem; Lacan precisa: ‘o discurso do
inconsciente está estruturado como uma linguagem’” (Althusser, 1980, p. 118). Para Althusser (1980, p. 120),
a parte mais original da obra de Jacques Lacan (1998), fundamentada na linguística estrutural de Ferdinand
de Saussure (1985), foi mostrar que essa passagem da existência biológica para a existência humana se dá
sob a “Lei da Ordem” — ou “Lei da Cultura”, como prefere Althusser — que “se confundia na sua essência
formal com a ordem da linguagem”. Assim, Lacan evidencia a eficácia da “Ordem Simbólica”, que “espreita
desde antes de seu nascimento o pequeno humano que vai nascer, e toma conta dele desde seu primeiro
grito, para lhe determinar seu lugar e seu papel, portanto seu destino forçado” (Althusser, 1980, p. 123). Em
conformidade com Lacan (1998, p. 50): “a ordem do símbolo já não pode ser concebida como constituída
pelo homem, mas constituindo-o”.
Althusser(1999)analisaamaneiracomoosatoreseseusrespectivospapéissãorefletidosnaprópriaestrutura
formal de toda ideologia, apoiando-se na teoria de Lacan (1998) sobre O estádio do espelho como formador
da função do eu. De acordo com Lacan (1998, p. 97, grifo do autor), temos que compreender o estádio do
espelho “como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação
produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. Assim, temos que nos reportar à relação entre o
ego e o superego na teoria de Sigmund Freud, uma vez que os detalhes dessa relação tornam-se inteligíveis
“quando são remontados à atitude da criança para com os pais” (Freud, 1978, p. 200). Além disso, o autor
salienta que não apenas a personalidade dos próprios pais contribui para a “influência parental” nas relações
entre ego e superego, “mas também a família, as tradições raciais e nacionais por eles transmitidas, bem
como as exigências do milieu social imediato que representam” (Freud, 1978, p. 200).
O psicanalista explica que o superego, ao longo do desenvolvimento de um indivíduo, “recebe contribuições
de sucessores e substitutos posteriores aos pais, tais como professores e modelos, na vida pública, de ideais
sociais admirados” (Freud, 1978, p. 200). Desse modo, sob a influência dos pais, educadores e autoridades
análogas,osuperegoseformapelainternalizaçãodasnormassociais,peloprocessodesocializaçãonointerior
dos vários aparelhos ideológicos de Estado5, em que os modelos ideais (ou ideológicos) de comportamento,
que em geral convêm às relações sociais dominantes, são subjetivados pela psique.
Em outras palavras, o sujeito é um efeito da identificação com o grande Outro (Lacan, 1998), por meio da
sujeição/submissão a uma estrutura simbólica. Na medida em que a interpelação “pressupõe a ‘existência’ de
um Outro Sujeito, Único e central” (Althusser, 1999, p. 289, grifos nossos), Althusser ilustra esse mecanismo
de interpelação dos sujeitos pelo grande Outro com sua tese central sobre a estrutura elementar de toda
ideologia, tomando o exemplo da ideologia religiosa:
Constatamos que a estrutura de toda a ideologia, interpelando os indivíduos como sujeitos em nome de um Sujeito Único e
Absoluto é especular, isto é, funciona como um espelho, e duplamente especular: esse desdobramento especular é constitutivo
da ideologia e garante seu funcionamento. Isso significa que toda ideologia tem um centro, que o Sujeito Absoluto ocupa o lugar
único do Centro e, à sua volta, interpela a infinidade dos indivíduos como sujeitos, em uma dupla relação especular tal que ela
submete os sujeitos ao Sujeito, ao mesmo tempo que lhes dá pelo Sujeito no qual todo sujeito pode contemplar a sua própria
imagem (presente e futura), a garantia de que se trata realmente deles e Dele e de que, passando-se tudo em família, “Deus
5 Althusser (1999, p. 263-264) destaca as instituições que formam os aparelhos ideológicos de Estado, reconhecendo que Antonio Gramsci “teve a
ideia ‘singular’ de que o Estado não se reduzia ao aparelho (repressivo) de Estado, mas compreendia certo número de instituições da ‘sociedade civil’:
a Igreja, as Escolas, os sindicatos, etc.” (1999, p. 263-264). Pensando nessas instituições da sociedade civil, formando “um Estado em sentido orgânico
e mais amplo (Estado propriamente dito e sociedade civil)” (Gramsci, 2007, p. 244), Gramsci (2001, p. 78) enxergava a necessidade de “um estudo de
como se organiza de fato a estrutura ideológica de uma classe dominante: isto é, a organização material voltada para manter, defender e desenvolver a
‘frente’ teórica ou ideológica”. Assim, Althusser (1999, p. 264) lista alguns desses “aparelhos ideológicos de Estado (AIE)”: o AIE familiar; o AIE escolar;
o AIE religioso; o AIE jurídico; o AIE político; o AIE sindical; o AIE da informação; o AIE cultural.