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George Luiz Néris Caetano e Rosamaria Giatti Carneiro
SANTO DE CASA TAMBÉM FAZ MILAGRE: ANDARILHAGENS ETNOGRÁFICAS
JUNTO A UMA TERAPEUTA POPULAR
(Kimura; Mendes, 2021), onde os sequestrados-escravizados eram obrigados a girar ao redor do tronco para
perderem a memória da Vida livre (Caputo, 2012). Um ritual de esquecimento imposto, em que a violência
não se limitava ao corpo, pois atravessava a identidade, dissolvendo raízes e interditando pertencimentos.
No portão de Mãe Batá, a pergunta não apenas anuncia chegadas, mas reafirma existências.
“Quem vem lá?”, não é apenas uma saudação dirigida ao corpo que transita pelo território, mas um chamado
que ecoa para além da presença física. É uma interrogação que reconhece o Outro em sua inteireza, no
entrelaçamento de identidades, percursos e ancestralidades. Não pergunta apenas quem chega, mas o que
chega com ele, sendo a invocação do corpo-político e o corpo-território (Castilho; Guimarães, 2021). Mas
há, de fato, necessidade de responder à pergunta da interlocutora? A resposta se faz necessária quando se
entende que a interrogação não é uma mera formalidade, mas parte de um acordo sutil de convivência entre
o pesquisador e a interlocutora.
Assim, a pergunta se expande, transborda sentidos e, ao longo das visitas, revela-se como um fio que tece e
retece as relações dentro da vasta e densa rede de sociabilidade (Guimarães, 2017) que a terapeuta popular
sustenta para a promoção de cuidados e cura, em si mesma, a partir da sua casa, na sua cosmologia de Vida.
Para você ver, meu filho! Quando eu morava no interior, você chegava na casa de alguém e, naquela época não tinha isso de
portão de ferro nas casas não, era tudo aberto, e você ia entrando e, lá do quintal a dona da casa gritava “quem vem lá?!”. Hoje
nem tem mais isso. Tem o portão que te impede de entrar, não é?! Eu gosto de perguntar, me faz sentir que não estou presa,
parece que viajo no tempo, você acredita, menino?! Não vai colocar aí que eu sou louca, hein?! [fala gargalhando]. Tem história
que somente gente velha vai entender. É besteira para uns, mas me faz lembrar donde eu vim. Eu quero saber quem vem até
à minha porta, mas quem lida com energias, como a gente, não está perguntando por perguntar, pergunta para as Almas,
pergunta para o Povo da Rua. Vem com maldade? Vem com boa companhia? (Mãe Batá).
E, quem é que nos coloca diante da indagação? É a Cozinheira no salão paroquial. Também é possível achá-
la como a Madrinha do Bigorna, ou Tia do doce, Dona Maria das Farinhas, Marcelina das Jacas ou a Tia das
costuras de quadrilha. Nome é algo que não faltará para a mesma pessoa, mas, em cada contexto e situação,
haverá uma recepção específica para o interessado. De todo modo, estamos falando de uma mulher em
constante expansão do seu afeto, que sabe dar narrativa para fatos miúdos na comunidade e costura bem os
retalhos de cada pessoa que a constrói enquanto zeladora de Orixá.
Mãe Batá é um misto denso, emocionado e sincero da realidade da periferia do Distrito Federal, distante da
atenção do Estado que privilegia outras regiões da cidade. Não espere de Mãe Batá muita objetividade nas
falas, atos ou gestos. Como mulher iniciada no candomblé de Ketu, é alguém que dá tempo ao tempo, que se
apega ao analógico, que narra meio mundo de causos para não dar satisfação do segredo que carrega sobre
as suas tecnologias de cuidado e cura. A participação de Mãe Batá – nome que usa no terreiro e que elegeu
como forma de tratamento para esta pesquisa – é um resgate histórico da própria composição da Ceilândia,
a maior Região Administrativa do Distrito Federal.
A sua casa está na divisa entre a zona rural e a urbana, logo é moradora fronteiriça, sem CEP. Em um terreno
com inúmeras árvores sacralizadas, Mãe Batá conta com uma infraestrutura acolhedora e afetiva, tendo
construído ali um barracão de candomblé pequeno que se funde à sua própria casa, fato que coloca a Mãe
Batá imersa em sua religiosidade constantemente.
Quando cheguei aqui era barro, mas era tanto barro que dava para dar e vender, se quisesse. Esta parte toda aqui atrás [fala
apontando para atrás do muro, sentido norte] era só mato, que o povo usava para desovar corpos. Tinha de tudo aqui, ainda tem
se você procurar. Mas a vida tem sentido para tudo, menino. Vê só, você chegar nessa rua, toda esburacada, com casas bonitas
no começo e outras arrumadinhas no meio, mas é aqui, já no final dela que você encontra um terreiro, bem escondido. O que é
final para uns, é recomeço para outros. Também sou filósofa, não está vendo? [gargalha ao final]. A vida não é fácil para quem
nasce preto e pobre, todo mundo sabe disso. Mas olhe só, estou viva. Isso significa que eu contrariei a lógica de alguém, não é? A
pessoa que chega num lugar como este vem pensando que aqui só tem gente do mal, mas não, meu filho, aqui tem trabalhador,
gente que mata um leão, um dragão, um urso e o que mais for preciso para voltar vivo para casa (Mãe Batá).
Reconhecida como uma tomadora de decisão em sua comunidade, M. M. S. N., 68 anos, autodeclara-se negra
e atua como ialorixá, ou Mãe de Santo – como se autorreferência em alguns momentos –, no território do Sol
Nascente, espaço de resistências e insurgências encravado na periferia do Distrito Federal, quase em Goiás.
É apaixonada por samba e, quando canta, para os mais desavisados, passa facilmente a impressão de estar
dublando a cantora Alcione, fato que a faz gargalhar sempre que alguém comenta a semelhança. Possui
ensino médio completo, mas, em termos de conhecimento empírico do culto afro-diaspórico, é uma Doutora
Honoris Causa. Gosta de celebrar a Vida cantarolando ora cantigas de candomblé, ora hits do momento.