SOBRE A REVISTA  
A Pós – Revista Brasiliense de Pós-Graduação em Ciências Sociais é um periódico eletrônico de acesso  
aberto e de publicação semestral. Este periódico é destinado a divulgar e a ampliar, para estudantes e  
pesquisadores em geral, o campo de circulação e o debate acadêmico nas Ciências Sociais. É organizada  
por estudantes de pós-graduação das unidades que constituem o Instituto de Ciências Sociais da Universi-  
dade de Brasília (ICS-UnB): o Departamento de Antropologia (DAN), o Departamento de Sociologia (SOL)  
e o Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA). A Revista Pós publica textos em português, inglês  
e espanhol, após serem triados pela Equipe Editorial e serem encaminhados a pareceristas externos para  
avaliação em regime de anonimato  
EQUIPE EDITORIAL  
Erika Costa Silva (Editora-chefe/PPGSOL - UnB)  
Matheus Felipe Gomes Dias (Editor-chefe/PPGSOL - UnB)  
Beatriz Amorim de Barros (Editora Executiva/PPGSOL - UnB)  
Braima Sadjo (Editor Executivo/PPGSOL - UnB)  
Flávia de Freitas Cabral (Editora Executiva/PPGAS - UnB)  
Gabriel de Rezende Rocha Mota (Editor Executivo/PPGSOL - UnB)  
Isidoro Jacob Valia (Editor Executivo/PPGSOL - UnB)  
Jadhe Santana Azevedo Mineiro (Editora Executiva/PPGAS - UnB)  
Jediael Lucas Rodrigues Araújo (Editor Executivo/PPGSOL - UnB)  
João Batista Alves Neto (Editor Executivo/PPGAS - UnB)  
João Miguel D. de Araújo Lima (Editor Executivo/PPGSOL - UnB)  
Milena de Souza (Editora Executiva/PPGSOL - UnB)  
Thais Fonseca Cruz (Editora-executiva/PPGAS - UnB)  
Mariana Esteves Petruceli (Editora Executiva/PPGAS - UnB)  
CONSELHO CONSULTIVO  
Alberto Fidalgo Castro (UCM/Espanha);  
Amurabi Oliveira (UFPE);  
Ana Cláudia Rodrigues da Silva (UFPE);  
Ana Gretel Echazú Böschemeier (UFRN);  
Edna Ferreira Alencar (UFPA);  
Felipe Sotto Maior Cruz Tuxá (UNEB);  
Florêncio Almeida Vaz Filho (UFOPA);  
Francilene dos Santos Rodrigues (UFRR);  
Francirosy Campos Barbosa (USP);  
Guilherme Silva de Almeida (UFRJ);  
Gersem Baniwa José dos Santos Luciano (UnB);  
Hans Carrillo Guach (UFG);  
Jaqueline Gomes de Jesus (IFRJ);  
Lidiane Rodrigues (UFSCAR);  
Ludmila Costhek Abílio (UNICAMP);  
Messias Moreira Basques Junior (Harvard/EUA);  
Patrícia Alexandra Godinho Gomes (UFBA);  
Raphael Lana Seabra (UnB);  
Rosamaria Giatti Carneiro (UnB);  
Vera Regina Rodrigues da Silva (Unilab/CE).  
ILUSTRAÇÃO DA CAPA  
Jedi (@lucas_sdej)  
CAPA E DIAGRAMAÇÃO  
Janaina Holovatuk  
REVISÃO  
Vitória Carvalho  
DOSSIÊ - “PENSAMENTO SOCIAL NEGRO: (DES)CENTRALIDADES, (IN)VISIBILIDADES E  
RECONHECIMENTO”  
ORGANIZADORAS DO DOSSIÊ  
Jacqueline Moraes Teixeira (USP)  
Layla Daniele Pedreira de Carvalho (UnB-MIR)  
Matheus Felipe Gomes Dias (PPGSOL/UnB)  
Stefan Fornos Klein (UnB)  
EDITOR RESPONSÁVEL PELO DOSSIÊ  
Matheus Felipe Gomes Dias (UnB)  
AUTORES DO DOSSIÊ  
Ana Clara Damásio (UnB)  
Ana Terra Pimentel Santana (UnB)  
Andresa Cristina Xavier de Souza (UNIPAMPA)  
Augusto Cesar Silva Filgueiras (UnB)  
Bruno Vieira dos Santos (UFC)  
Clarice Carvalho Maués (UnB)  
Édvin Marlei Pereira (SEEBA)  
Hiann Riell Sotero da Silva (UnB)  
Izabele Caroline do Nascimento Canario (UFBA)  
Jhêniffer Lopes da Silva (UFPI)  
Laura Salvador Souto (UnB)  
Luane Bento dos Santos (UFF)  
Lucas Santos da Mota (UnB)  
Luciano Pereira dos Santos (Fiocruz)  
Maria Luiza dos Santos Bernardes (UnB)  
Marília Passos Apoliano Gomes (UFPI)  
Mylena Karine dos Santos Malheiros (UnB)  
Natalino Neves da Silva (UFMG)  
Ricardo Xavier Silveira (UnB)  
Sofia Maria do Carmo Nicolau (USP)  
Suzana Cavalheiro de Jesus (CLACSO)  
Tailane Santana Nunes (UFRB)  
Thiago Macedo de Carvalho (UnB)  
Wellington Pereira Santos (IFBA)  
AUTORES DAS RESENHAS  
João Pedro Inácio Peleja (UnB)  
NOMINATA DE PARECERISTAS  
Ana Carla de Oliveira Pinheiro (SEEDUC-RJ)  
Ana Paula Soares Pacheco (UFMG)  
Andrea Rosendo da Silva (USP)  
Bruna Ribeiro Troitinho (UEPA)  
Elen Cristina Ramos dos Santos (UFRGS)  
Flavia Mateus Rios (USP)  
Gabriela da Costa Silva (UNICAMP)  
Gabriela Vieira Rebouças (UECE)  
Gilliard de Oliveira Justino (UFCG)  
Gisele Cristina Tertuliano (UFRGS)  
Gregório Adélio Mangana (Universidade Pedagógica - Moçambique)  
Jaqueline Pereira de Oliveira (UFG)  
Kamilla Santos da Silva (UFG)  
Kethury Magalhães dos Santos (UnB)  
Patrícia Cristina de Aragão (UEPB)  
Rosana da Silva Pereira (UnB)  
Simone Rodrigues Amorim (Universidade de Lisboa - Portugal)  
Wellington Cardoso de Oliveira (IFG)  
Yordanna Lara Pereira Rego (UFG)  
Yuri Santos de Brito (UnB)  
FLUXO LIVRE  
AUTORES  
Artur André Lins (UnB)  
Daiane Daine de Oliveira Gomes (UFRN)  
Elisa Gonçalves Rodrigues (UFPA)  
Gabriela da Costa Silva (UNICAMP)  
Júlio César Pereira dos Santos (UEL)  
Laura Ferrari Cambraia (UnB)  
Lidomar Nepomuceno (UnB)  
Luiz Fernando de Assunção Corrêa (UFPA)  
NOMINATA DE PARECERISTAS  
Alcides André de Amaral (UFC)  
Ariane Fernanda dos Reis Moreira (UFRGS)  
Artemisa Odila Candé Monteiro (UNILAB)  
Cassi Ladi Reis Coutinho (UFRB)  
Janaína de Lima Ferreira (UFPB)  
João Pedro Inácio Peleja (UnB)  
Jonatã França Bittencourt (IFBA)  
José Rudimar Constâncio da Silva (UFRB)  
Larissa Neves da Costa (UnB)  
Lucinea dos Santos Ferreira (UFRJ)  
Michelle Rosa dos Santos (UERJ)  
Patrício Carneiro Araújo (UNILAB)  
CONTATO  
E-mail: revistaposunb@gmail.com  
Site: https://periodicos.unb.br/index.php/revistapos/index  
Instagram: @revistaposunb  
Universidade de Brasília - UnB  
Instituto de Ciências Sociais - ICS  
Campus Darcy Ribeiro - Edifício do ICS, CEP 70910-900, Brasília-DF, Brasil  
SUMÁRIO – V. 20, N. 2  
DOSSIÊ - “PENSAMENTO SOCIAL NEGRO: (DES)CENTRALIDADES, (IN)VISIBILIDADES E  
RECONHECIMENTO”  
Editorial - Por uma sociologia do pensamento social negro  
7
9
Apresentação - Antirracismo e práticas de resistência intelectual no Pensamento Social Negro  
ARTIGOS  
1. Intelectualidades negras: pós-graduação e processos coletivos de resistências  
15  
28  
2. A interseccionalidade desde o Brasil: teias de resistência entre o pensamento de feminis-  
tas negras brasileiras  
3.Silenciamento e resistência: Lélia Gonzalez e o apagamento epistemológico de intelectuais  
negras no pensamento social brasileiro  
41  
4. A divisão racial do trabalho e do espaço na obra de Lélia Gonzalez  
5. Feminismo negro acadêmico: experiências de professoras negras  
6. Redes afro diaspóricas: Abdias Nascimento e o (auto)exílio  
54  
65  
78  
90  
7. Juventude, memória e aquilombamento: todo mundo contra o epistemicídio  
ENSAIO  
8. Carta à minha mãe preta: um ensaio sobre o encontro de epistemes e a condição do negro  
102  
CONFERÊNCIAS  
9. Devolução, restituição e divulgação científica (a antropologia fora e dentro de casa)  
10. Trajetórias negras, percursos, avanços e retrocessos na academia  
112  
120  
ENTREVISTAS  
11. A educação como espaço de luta e esperança — entrevista com o professor Gersem  
Baniwa sobre cosmologias e interculturalidade no campo educacional  
135  
12. Por uma política externa inclusiva: diálogo com Fabrício Prado sobre igualdade racial  
13. Tecendo narrativas negras: cinema, memória e criação com Mariana Jaspe  
148  
158  
RESENHA  
14. A crítica marxista negra ao capitalismo racial  
168  
FLUXO LIVRE  
ARTIGOS  
15. Sobre o conceito de ideologia em Louis Althusser  
172  
183  
16. Do determinismo biológico à autonomia: reflexões sobre raça em Boas, Firmin, Du Bois  
e Hurston  
17. Desconstruindo o “paraíso racial”: a linha de cor como marca do Colonialismo  
191  
202  
18. As flores do jardim de Alice Walker: os diálogos entre gênero, violência e pertencimento  
em sua produção literária  
ENSAIO VISUAL  
19. “Cemitério é praça linda, mas ninguém quer passear”: ritualidades de matrizes africanas  
praticadas no Cemitério Santa Izabel (PA) no Dia de Finados  
216  
225  
239  
CONFERÊNCIA  
20. A diversidade cultural no sistema das artes: conferência proferida no evento Arte dos  
Mestres 2024  
RESENHAS  
21. Da negação do outro pelo racismo à produção de resistências negras: a emancipação  
pode e dever ser para todos  
EDITORIAL:  
POR UMA SOCIOLOGIA DO PENSAMENTO  
SOCIAL NEGRO  
ÉRIKA COSTA SILVA (EDITORA-CHEFE)  
ORCID: 0000-0003-0395-2819  
LIDOMAR NEPOMUCENO (EDITOR-CHEFE)  
ORCID: 0000-0003-1080-4048  
MATHEUS FELIPE GOMES DIAS (EDITOR-CHEFE)  
ORCID: 0000-0001-5953-0856  
A Revista Pós, nos últimos anos, tem se voltado, cada vez mais, para o debate acerca da diversidade e da  
inclusão. Esse processo se evidencia, sobretudo, a partir da construção e publicação bianual do Caderno Vir-  
ginia Bicudo, que se dedica especificamente à temática das relações étnico-raciais. Alinhada à perspectiva de  
universalizar e diversificar a ciência e a publicação científica, a Revista Pós aplica ações afirmativas tanto no  
ingresso de editores quanto na escolha de pareceristas e na composição da editoria-chefe.  
No que diz respeito às ações, realizamos, neste ano, a chamada para a renovação do Banco de Pareceristas  
Negros/as e obtivemos um número recorde de inscrições. Ao mesmo tempo, estivemos engajados na refor-  
mulação das normas editoriais, visando proporcionar maior diversidade de autores e de formatos. Por fim,  
realizamos, em parceria com o coletivo Zora Hurston, o “Prêmio Zora Hurston de Fotografia Etnográfica”.  
Essas ações, implementadas e construídas a muitas mãos, ganham maior expressividade neste número  
(v.20, n.2), em que publicamos o dossiê “Pensamento social negro: (des)centralidades, (in)visibilidades e re-  
conhecimento”, organizado pelos/as professores/as Dra. Jacqueline Moraes Teixeira (FSP/USP), Dra. Layla  
Carvalho (SOL/UnB e MIR) e Dr. Stefan Klein (SOL/UnB). Recebemos submissões de diferentes regiões do  
país e conseguimos, ao mesmo tempo, recorrer a uma diversidade ampliada de pareceristas.  
O dossiê reúne reflexões e debates importantes sobre as principais temáticas e questões que permeiam a  
sociologia do negro pelo negro brasileiro, permitindo observar que essa produção sociológica gera efeitos  
significativos no desvelamento das dinâmicas do racismo e na reflexão sobre diferentes formas de enfren-  
tamento. Convidamos os/as leitores/as à leitura do texto de apresentação e dos trabalhos que o compõem.  
A seção de artigos livres é composta por quatro artigos. O primeiro é o artigo de Laura Ferrari Cambraia,  
intitulado, “Do determinismo biológico à autonomia: reflexões sobre raça em Boas, Firmin, Du Bois e Hurt-  
son”, que visa analisar as contribuições dos teóricos, Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B Du Bois e Zora  
Neale Hurtson, para o debate das questões raciais na passagem do final do século XIX e início do século XX,  
no contexto dos Estados Unidos. Embora as formulações teóricas dos referidos autores apresentem conflu-  
ências e controvérsias em suas abordagens, todos partilham do ponto comum de desestabilizar o racismo  
da época.  
Na sequência, o artigo “Desconstruindo o ‘paraíso racial’: a linha de cor como marca do Colonialismo”, de  
Lidomar Nepomuceno, elabora uma reflexão analítica acerca do conceito “linha de cor”, de W.E.B. Du Bois,  
como uma característica fundamental do Colonialismo. Por meio de uma revisão bibliográfica, o autor ana-  
lisa como as dinâmicas de divisão socioespacial no contexto dos Estados Unidos, Brasil e África do Sul apre-  
sentam semelhanças entre si, desconstruindo assim, a concepção de “paraíso racial” referente ao cenário  
brasileiro.  
Posteriormente, o artigo “As flores do jardim de Alice Walker: os diálogos entre gênero, violência e per-  
tencimento em sua produção literária”, de Gabriela da Costa Silva, se propõe, numa perspectiva socioló-  
gica, a olhar para a trajetória de vida da autora negra estadunidense Alice Walker, a partir de algumas de  
suas obras literárias, considerando temas como: questões de gênero; a violência racial durante o período  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
8
segregacionista; e o pertencimento a terra e senso de comunidade construído pela experiência negra sulista.  
O artigo apresenta uma importante contribuição para a sociologia das relações raciais e da cultura.  
No último artigo, “Sobre o conceito de ideologia em Louis Althusser”, Júlio César Pereira dos Santos revisita  
o conceito de “ideologia” em Althusser. Ao se voltar para importantes textos de Althusser, o autor nos ajuda  
a pensar o modo como se estruturam e se organizam as sociedades de classe em sua relação com o Estado,  
tomando o conceito de “ideologia” como parte fundamental de uma teoria social que busca compreendê-las  
numa perspectiva materialista na qual ideias existem em práticas e aparelhos concretos. Trata-se de uma  
reflexão que ilumina debates clássicos e contemporâneos, que nos convida a olhar de forma mais atenta para  
o papel da ideologia na vida social.  
Além dos artigos, este número conta com um ensaio etnofotográfico, uma conferência e uma resenha. Nesse  
sentido, em “Cemitério é praça linda, mas ninguém quer passear”: ritualidades de matrizes africanas pratica-  
das no Cemitério Santa Izabel (PA) no Dia de Finados”, Luiz Fernando Corrêa e Elisa Rodrigues apresentam  
as simbologias presentes nas oferendas deixadas em cemitérios, especificamente no Cemitério Santa Izabel,  
em Belém/PA.  
Em seguida, encontra-se “A diversidade cultural no sistema das artes: conferência proferida no evento Arte  
dos Mestres 2024”, conferência apresentada por Artur André Lins. No contexto da roda de conversa “Diálo-  
gos entre arte contemporânea, arte popular e artesanato”, o autor observa as condições e as possibilidades  
de emergência da “arte popular brasileira” na cultura nacional.  
Por fim, o número conta com a resenha do livro “Dispositivo de racialidade: a construção do não ser como  
fundamento do ser”, de Sueli Carneiro (Zahar, 2023), escrita por Daiane Daine de Oliveira Gomes e intitu-  
lada “Da negação do outro pelo racismo à produção de resistências negras: a emancipação pode e deve ser  
para todos”. A obra, que deriva da tese de doutorado de Carneiro, defendida em 2004, permite compreender  
como esse dispositivo demarca o sentido de humanidade, associando-o à “brancura”, e como isso redefine e  
hierarquiza as dimensões humanas a partir desse critério de humanidade.  
Agradecemos a todos/as os/as autores/as, pareceristas, editores e ao Instituto de Ciências Sociais da Univer-  
sidade de Brasília que contribuíram de maneira fundamental para a construção e publicação deste número.  
Desejamos a todos/as/es uma ótima leitura e convidamos a acompanhar a Revista Pós.  
APRESENTAÇÃO  
ANTIRRACISMO E PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA  
INTELECTUAL NO PENSAMENTO SOCIAL NEGRO  
1
JACQUELINE MORAES TEIXEIRA  
ORCID: 0000-0001-9884-353X  
2
LAYLA PEDREIRA DE CARVALHO  
ORCID: 0000-0002-7966-0268  
3
STEFAN KLEIN  
ORCID: 0000-0001-7684-0565  
4
MATHEUS FELIPE GOMES DIAS  
ORCID: 0000-0001-5953-0856  
É com grande alegria que a revista Pós publica o dossiê Pensamento Social Negro: (des)centralidades, (in)visi-  
bilidades e reconhecimento, que foi proposto, conjuntamente, pelas professoras Jacqueline Moraes Teixeira  
e Layla Pedreira de Carvalho e pelo professor Stefan Klein, todas – à ocasião – parte do corpo docente do De-  
partamento de Sociologia da Universidade de Brasília (SOL/UnB), em colaboração com a equipe editorial da  
revista, mais especificamente na figura de seu editor-chefe, Matheus Felipe Gomes Dias, doutorando no Pro-  
grama de Pós-Graduação em Sociologia da UnB. A iniciativa nasce, em parte, no esteio do projeto realizado  
no âmbito do Programa de Educação Tutorial (PET) vinculado ao departamento referido acima, intitulado  
Pensando invisibilidade e resistências nas trajetórias de intelectuais negras e negros nas Ciências Sociais, sob  
a tutoria de Jacqueline e Stefan. Alimenta-se, ainda, da atuação fundamental de Layla junto ao Ministério da  
Igualdade Racial (MIR), primeiramente integrando a Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas e, a partir  
de dezembro de 2023, tornando-se Diretora de Políticas de Ações Afirmativas desta mesma Secretaria no  
Ministério da Igualdade Racial e, a partir de dezembro de 2023, tornando-se Diretora de Políticas de Ações  
Afirmativas da Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas, Combate e Superação do Racismo do Ministério  
da Igualdade Racial.  
Nesse sentido, a proposição, organização e, agora, a publicação deste dossiê podem ser lidas na chave de  
constituírem parte das práticas de combate ao racismo no espaço acadêmico. No entanto, como se mostra  
frequentemente, as contradições que permeiam o referido espaço exigem a distinção entre esses esforços  
e, ao mesmo tempo, a persistência de práticas de racismo acadêmico (Almeida, 2021) que ainda marcam e  
contaminam a universidade no Brasil. Elas se expressam, por exemplo, em falas no dia a dia, em decisões  
acerca da abertura de concursos públicos docentes ou das nomeações (ou não-nomeações) de candidatas/  
os, do lugar do debate étnico-racial em planos de ensino, etc. Reflete, em certa medida, o fato de que esforços  
institucionais exigem continuidade e engajamento individuais, uma vez que a tendência, no cotidiano acadê-  
mico, é a norma da branquitude e do sexismo prevalecerem nas mais variadas instâncias e contextos.  
1 Professora Doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP. Foi professora adjunta no Departamento de  
Sociologia da UnB (SOL/UnB). Doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) onde também obteve o título de mestre. Possui  
graduação em Ciências Sociais (USP/2008) e graduação em Teologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie/2012). É pesquisadora do Cebrap (Cen-  
tro Brasileiro de Análise e Planejamento) e pesquisadora colaboradora do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e coordenadora do CRESPO (Cultura,  
Religião, Sujeitos e Políticas). Lattes: http://lattes.cnpq.br/0018301593481016. Email: jacqueline.moraes.teixeira@usp.br  
2 Professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, atualmente Diretora de Políticas de Ações Afirmativas no Ministério  
da Igualdade Racial. É integrante da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política, da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, da Colectiva Protesta e  
do Comitê Gênero e Sexualidades da ANPOCS. Coordena o GT Relações raciais e desafios no Brasil: desigualdades, identidades e políticas públicas  
da Anpocs. Possui graduação (2005) em Ciência Política pela UnB. É mestre em Sociologia (2008) pela UnB. É doutora em Ciência Política (2017) pela  
Universidade de São Paulo (USP). Lattes: http://lattes.cnpq.br/6835118548783771. Email: layla.carvalho@UnB.br  
3 Professor do Departamento de Sociologia (SOL) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasília (UnB).  
Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista Produtividade do CNPq. Seus principais temas e interesses de atuação intelec-  
tual e pesquisa são as teorias sociais, em especial em perspectivas contra-hegemônicas, bem como as dinâmicas de produção e circulação de conhe-  
cimento e suas assimetrias. É um dos organizadores do Routledge Handbook of Academic Knowledge Circulation (Routledge, 2023). Lattes: http://  
lattes.cnpq.br/9418967460521170. Email: sfk@UnB.br.  
4 Bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestre em Sociologia pela  
Universidade de Brasília (UnB) e Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasí-  
lia (UnB). Atualmente é Editor-chefe da Revista Pós- Revista Brasiliense de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UnB. Lattes: http://lattes.cnpq.  
br/2764297852027018. Email: matheusdias543@gmail.com  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
10  
Conforme indicado pelo primoroso trabalho de Sueli Carneiro (2023), a efetividade do dispositivo de ra-  
cialidade, e o modo como o epistemicídio – explicitamente tematizado em mais de um dos textos do dossiê  
– marca, em especial, porém não exclusivamente, a cultura e a sociedade no Brasil, estão subjacentes às preo-  
cupações das organizadoras e autorias. Nesse sentido, a oportunidade de conferir o espaço a essa amplitude  
de intelectuais negras e à miríade de temas que vieram sendo pesquisados permite constatar, novamente,  
as mudanças pelas quais o espaço acadêmico no Brasil vem passando. A presença e, sobretudo, a crítica do  
conjunto de trabalhos aqui publicados – bem como, evidentemente, de todos aqueles outros trabalhos de  
pesquisa que se dedicam a questões semelhantes – também expressa as formas de resistências às quais Lélia  
Gonzalez (2020 [1979]) se referia quando pensava acerca dos modos de luta, tão plurais quanto necessários,  
das populações negras escravizadas.  
Para chegarmos a esse momento contamos com uma chamada aberta de submissão, que recebeu uma ele-  
vada quantidade e variedade de peças, desde artigos, passando por resenhas, entrevistas, ensaios – textuais  
e imagéticos – até duas conferências. Isso tanto alegrou as proponentes quanto, também, tornou o nosso  
trabalho mais difícil, na medida em que acabou sendo necessário se atentar mais estritamente aos textos  
que dialogavam de maneira próxima com a proposta do dossiê. Por isso, algumas das submissões recebidas  
foram encaminhadas ao fluxo regular da revista, na medida em que certamente atendiam ao que se esperava  
em termos do escopo e do alcance da Pós, porém extrapolavam o recorte que propusemos para o dossiê.  
O dossiê abre com o artigo “Intelectualidades negras: pós-graduação e processos coletivos de resistências”,  
de Suzana Cavalheiro de Jesus, professora da Universidade Federal do Pampa e Andresa Cristina Xavier de  
Souza, mestranda em Ensino pela Universidade Federal do Pampa, e Luciano Pereira dos Santos, professor  
da Universidade Federal do Pampa. Ela se apoia sobre uma pesquisa, por meio de grupo focal, realizada jun-  
to ao Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGE) no campus Bagé da Universidade Federal do Pampa  
(UNIPAMPA). A proposta de pensar as intelectualidades negras se deu com base nos processos de apaga-  
mento da presença, da atuação ativa na construção e, depois das formas de resistências de populações negras  
em Bagé. Tomando por referência, entre outras, as reflexões de Sueli Carneiro acerca das formas de episte-  
micídio e o (possível) papel da educação em seu enfrentamento, o artigo aponta uma concepção ampliada  
de intelectualidade, que extrapola a qualificação estritamente acadêmica. Considerando as experiências de  
violência nos espaços acadêmicos enfrentados por essas mulheres, os diálogos ao longo dos grupos focais  
também aumentam a importância redobrada de ocuparem esses espaços na universidade, questionando,  
muitas vezes apenas por estarem presentes, a branquitude arraigada enquanto retrato da superioridade.  
Trazer para o cerne autorias e produções negras constitui, portanto, uma prática intelectual de resistência  
vital, e que também precisa ser articulada com as cotas epistêmicas, conforme enunciado ao final do artigo.  
O segundo artigo do dossiê é “A interseccionalidade desde o Brasil: teias de resistência entre o pensamento  
de feministas negras brasileiras”, de Marília Passos Apoliano Gomes, professora da Universidade Federal do  
Piauí e Jhêniffer Lopes da Silva, Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí. A pesquisa  
que resultou neste texto buscou abranger os diálogos entre as produções de Lélia Gonzalez, tomada como a  
primeira referência desse conjunto de reflexões, e as obras de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akoti-  
rene, Juliana Borges e Letícia Nascimento. A proposta busca compor um panorama das análises brasileiras  
sobre desigualdades interseccionais, tendo sido guiada pela pergunta: como essas autoras tratam as dinâ-  
micas de opressão interseccional relacionadas à raça, classe, gênero, identidade de gênero e sexualidade no  
Brasil? O texto contribui de maneira indelével ao conferir maior relevo às formas de opressão relacionadas à  
sexualidade, e em especial às formas de transfobia e afronecrotransfobia. Destaca-se, igualmente, o cuidado  
analítico na articulação (interseccional) das diferentes questões postas. Ela encerra sugerindo a importância  
de pensar uma “democracia social de base amefricana”.  
Por sua vez, o artigo “Silenciamento e resistência: Lélia Gonzalez e o apagamento epistemológico de inte-  
lectuais negras no pensamento social brasileiro”, de Izabele Caroline do Nascimento Canario, mestranda  
em sociologia na Universidade Federal da Bahia, busca problematizar o lugar relegado de Lélia Gonzalez no  
pensamento social brasileiro. Tomando por base a crítica de Sueli Carneiro baseada no conceito de episte-  
micídio e o debate proposto por Syed Alatas em torno dos discursos alternativos, a autora elabora pesquisa  
que mapeia três eixos centrais em sua produção, a saber: (i) a crítica à democracia racial como mito fun-  
dacional do Brasil; (ii) a formulação da amefricanidade como projeto político, cultural e identitário; e (ii) a  
reivindicação da mulher negra como sujeito epistêmico e agente de transformação social. Dialogando com  
a bibliografia secundária, instigantemente provoca as leitoras a notarem as dinâmicas de silenciamento e os  
potenciais de resistência.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
11  
Em “A divisão racial do trabalho e do espaço na obra de Lélia Gonzalez”, Sofia Maria do Carmo Nicolau  
(mestra em Sociologia pela Universidade de São Paulo) e Natalino Neves da Silva (professor da Universidade  
Federal de Minas Gerais) realizam um breve percurso pela obra da autora no intuito de situar suas reflexões  
envolvendo os dois conceitos indicados no título. É um texto que, também no diálogo com outras referências  
– como W. E. B. Du Bois, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura – aponta não simplesmente o uso de ambos os  
conceitos, mas avança nos modos de sua articulação, e no lugar que ocupam para se pensar as formas de  
manifestação e expressão do racismo como constitutivo da sociedade brasileira. Desse modo, desvendam  
o alcance da concepção do lugar de negro que está presente na obra da autora, o que implica o potencial de  
questioná-lo e subvertê-lo.  
O artigo “Feminismo negro acadêmico: experiências de professoras negras”, de Wellington Pereira Santos,  
doutor em Estudos interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da  
Bahia, está apoiado sobre uma etnografia com professoras realizada na Universidade Federal da Bahia. O  
autor perpassa aspectos das trajetórias bem como da atuação dessas docentes e, com isso, traz os elementos  
da presença do racismo, ao mesmo tempo em que confere lugar relevante às iniciativas de enfrentamento  
dessa forma de preconceito e discriminação. Aponta, com isso, de que modo as mudanças no cenário da edu-  
cação superior no Brasil se fazem sentir em termos de lidar com a permanência das práticas de branquitude,  
mostrando as alternativas concretas e desmontá-la.  
No artigo “Redes afro diaspóricas: Abdias Nascimento e o (auto)exílio”, Tailane Santana Nunes, mestra em  
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e Édvin Marlei Pereira, da As-  
sociação de Pesquisadores/as das Questões Étnicas, Culturais e Educacionais do Território Velho Chico  
(Coletivo Marilene Matos), recorrem a cuidadosa pesquisa documental-bibliográfica no intuito de situar as  
contribuições de Abdias Nascimento. Em particular, destacam a relação ambígua dele com o exílio nos Es-  
tados Unidos da América, lançando mão de seu entendimento de que já fora exilado no Brasil, seu país de  
nascimento, em decorrência das perseguições e repressões sofridas. Identificam o lugar ocupado pela inter-  
locução com a négritude e o panafricanismo na organização das ideias de Nascimento. Desse modo, o texto  
permite compreender o alcance e as múltiplas dimensões do ativismo, tanto nas artes quanto na militância e  
na produção estritamente acadêmica, de uma figura ímpar como foi o caso dele.  
Em “Juventude, memória e aquilombamento: todo mundo contra o epistemicídio” Bruno Vieira dos Santos,  
que atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado junto à Universidade Federal do Ceará, parte do assassi-  
nato do poeta, slammer e rapper Japa Rua, ocorrido em Recife no início de 2022, para apresentar sua refle-  
xão sobre o epistemicídio e as possibilidades do aquilombamento. Apoiado em especial sobre a perspectiva  
de Sueli Carneiro, remete ao que denomina o “embarreiramento da subjetividade” a fim de pensar as mani-  
festações do racismo. Tomando por referência a produção cultural das juventudes negras, e o lugar da rua  
enquanto seu espaço privilegiado, aponta as contribuições que a memória e a arte oferecem enquanto ex-  
pressões do aquilombamento. Pensa, assim, que a preservação da memória é, também, o trabalho de manter  
viva aquela pessoa, resistindo ao esquecimento e, por conseguinte, ao epistemicídio.  
O dossiê também traz um ensaio intitulado “Carta à minha mãe preta: um ensaio sobre o encontro de epis-  
temes e a condição do negro”. Nele Thiago Macedo de Carvalho, doutorando em sociologia pelo PPGSOL/  
UnB, aborda, de maneira didática e afetuosa, o esforço de compartilhar, com a sua mãe, não apenas ser a  
primeira pessoa de sua família a alcançar a educação superior, como explicita o papel das ações afirmativas  
nesse processo. Realiza exercícios de aproximar a reflexão extra-acadêmica de críticas formuladas nos tex-  
tos, apontando que a capacidade de questionar e de ler (e desvelar!) o mundo está longe de ser algo restrito à  
produção acadêmica, tendo como pano de fundo a figura da mãe preta conforme presente, por exemplo, em  
Lélia Gonzalez. O ensaio recupera elementos de ancestralidade no diálogo com autorias negras que (ainda)  
se encontram marginalizadas. Trata, assim, de questões do cotidiano, de estranhamentos que permeiam a  
necessidade de tatear esse espaço e suas regras (algumas escritas, outras não ditas). A carta encerra trazendo  
a importância de construção da identidade negra que, de diferentes maneiras, foi desqualificada no processo  
de branqueamento que marca a nossa história colonizada. O texto combina, portanto, informalidade e rigor  
ao trabalhar questões complexas que decorrem dos ventos de mudança que sopram sobre o espaço acadê-  
mico no Brasil.  
Recebemos, também, duas conferências proferidas em eventos acadêmicos. Ana Clara Sousa Damásio, dou-  
tora em Antropologia pela Universidade de Brasĺia, teve o privilégio de abrir o primeiro seminário discente  
do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, programa associado entre a Universidade Federal  
do Ceará (UFC) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Refle-  
tindo sobre a sua trajetória e a prática da antropologia, o texto permite compreender diversos elementos que  
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circundam as ambiguidades das transformações atuais do espaço acadêmico no Brasil e as possibilidades  
que, assim, se abrem a novas formas de ver e pensar a(s) ciência(s). Desse ponto de vista, no diálogo com o  
seu percurso, a autora destaca, também, o lugar ocupado pela divulgação científica.  
Por sua vez, “Trajetórias negras, percursos, avanços e retrocessos na academia” foi a conferência proferida  
por Luane Bento dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense, por ocasião da abertura do  
III Seminário do Coletivo Negro do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio  
de Janeiro (IESP/UERJ), em setembro de 2024. Também tomando por referência a sua trajetória enquanto  
intelectual e professora negra, situa-a criticamente no contexto das políticas afirmativas e da produção in-  
telectual no âmbito da sociologia da educação. Ao mesclar o relato crítico-etnográfico com imagens desse  
percurso, ela confere proximidade e vivacidade às relevantes contribuições que acumulou ao longo desse  
período e de sua inserção docente.  
Também compõem esse conjunto de textos e reflexões três entrevistas. As entrevistas realizadas pelas es-  
tudantes do PET-SOL e publicadas neste número permitem compreender a trajetória e a formação inte-  
lectual/profissional de pessoas racializadas no espaço acadêmico. Esse exercício é importante, sobretudo,  
porque, embora as trajetórias dessas intelectuais sejam particulares, há elementos comuns que perpassam a  
negritude como experiência coletiva.  
Na entrevista “A educação como espaço de luta e esperança: entrevista com o professor Gersem Baniwa so-  
bre cosmologias e interculturalidade no campo educacional”, realizada por Maria Luiza Bernardes, Mylena  
Karine Malheiros e Ricardo Silveira, é possível compreender, sobretudo, a relação entre antropologia e edu-  
cação na formação de uma prática pedagógica baseada na diversidade e na interculturalidade. A partir da  
entrevista com Gersem Baniwa, pode-se observar que a construção de uma educação plural e diversa passa  
por questionar as bases do que se entende por conhecimento. A conversa nos estimula, assim, a outro olhar  
sobre os meandros de enfrentamento das desigualdades étnico-raciais.  
Em seguida, a entrevista “Por uma política externa inclusiva: diálogo com Fabrício Prado sobre igualdade  
racial”, produzida por Ana Terra Santana, Augusto Cesar Filgueiras, Hiann Riell da Silva e Laura Salvador  
Souto, permite compreender os desafios e as possibilidades que pessoas negras, indígenas e quilombolas  
enfrentam no âmbito da diplomacia. Dessa maneira, Fabrício Prado, homem negro, expõe como, durante  
muito tempo, a diplomacia brasileira foi exercida majoritariamente por homens brancos – o que possibili-  
tou a construção de práticas que, de um lado, deslegitimam as posições defendidas pelo Brasil no contexto  
das relações internacionais e, de outro, impedem uma representação internacional baseada na diversidade  
racial e de gênero do país.  
Por fim, em “Tecendo narrativas negras: cinema, memória e criação com Mariana Jaspe”, Lucas da Mota e  
Clarice Maués estabelecem um diálogo aberto e instigante com a diretora e roteirista soteropolitana Mariana  
Jaspe, buscando compreender sua formação, atuação e experiências na produção de um cinema negro. Isso  
implica desvelar o lugar da produção de imagens e narrativas sobre e de pessoas negras, conforme retratadas  
nos filmes. A entrevista volta o olhar a como a construção de uma perspectiva negra no cinema é também  
um exercício político, que desconstrói e reconstrói o olhar sobre o negro — antes como coadjuvante, agora  
como agente-protagonista.  
Trazemos, ainda, a resenha “A crítica marxista negra ao capitalismo racial”, de João Pedro Inácio Peleja,  
doutorando em sociologia do PPGSOL/UnB, que aborda as contribuições da obra Marxismo negro: a criação  
da tradição radical negra, de Cedric Robinson, publicada em tradução brasileira no ano de 2023.  
Finalmente, não poderíamos deixar de mencionar a arte que ilustra o dossiê. Desenvolvida por Jediael Lucas  
(ou Jedi), grafiteiro do Distrito Federal e mestrando em sociologia do PPGSOL/UnB, é também resultado e  
reflexo das políticas afirmativas em curso e que, felizmente, receberam ampliação neste ano de 2025 com a  
nova legislação da reserva de vagas para o ingresso de docentes nas instituições federais públicas de educa-  
ção superior.  
A oportunidade de tematizar o conjunto de questões percorridas pelos textos do dossiê – entre artigos, en-  
saio, conferências, entrevistas e uma resenha, bem como a produção visual que também o acompanha – traz  
um alento em meio às dificuldades encontradas para efetivar parte das transformações necessárias. Ao se  
pensar a produção acadêmica e as lógicas pelas quais a legitimação de autorias e de textos ocorre, o viés  
racializado é premente, e torna-se necessário, conforme refletido anteriormente (Carvalho; Klein, 2023),  
encontrar maneiras de formular críticas contundentes sem, no entanto, renunciar ao amplo conjunto de  
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ideias, muitas vezes conflitantes, que viabilizou os atuais diálogos. Esforços de síntese que tomem este cami-  
nho, como presentes na categoria de amefricanidade (Gonzalez, 2020 [1988]), expressam os potenciais do  
pensamento social negra na problematização de questões candentes do nosso cotidiano, seja ele acadêmico-  
-científico ou referente ao cotidiano extramuros.  
Entendemos, sem dúvida, que o acúmulo de críticas, de reflexões e de elaborações em torno e a partir do  
pensamento social negro, tomado de modo ampliado, refletem mudanças no espaço acadêmico no Brasil.  
O lugar ocupado pelo debate de interseccionalidade, fosse em sua compreensão avant la lettre, conforme se  
expressa nas teorizações de Lélia Gonzalez, seja na concepção mais recente de Patricia Hill Collins (2022),  
também atravessa o dossiê. Isso vale para o modo por meio do qual, nos textos, as abordagens são avança-  
das; na presença explícita do conceito em diversos momentos e, igualmente, no próprio conjunto diversos de  
autorias que assinam esses textos. Encontramos, assim, pessoas em diferentes momentos de sua trajetória,  
de graduandas/os até docentes de universidades públicas; uma participação significativa também de mu-  
lheres, bem como uma ampla maioria de pessoas negras sendo responsáveis pelos trabalhos de pesquisa e  
escrita. Esperamos, assim, acompanhar os efeitos que as mudanças iniciadas há décadas e ainda em curso  
deverão ter ao longo dos próximos anos, na medida em que permanecem refletindo movimentos iniciais de  
um processo que deverá se mostrar complexo e instigante.  
REFERÊNCIAS  
ALMEIDA, Mariléa de. Racismo acadêmico e seus afetos. História: Questões & Debates. 69 (2), pp. 96–109,  
2021. <https://doi.org/10.5380/his.v69i2.80267>.  
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser.  
Rio de Janeiro: Zahar, 2023.  
CARVALHO, Layla Pedreira; KLEIN, Stefan. Contribuições para o ensino de teoria e história da sociologia:  
reflexões sobre o presente e propostas desde o Brasil. Revista Brasileira de Sociologia. 11(27), pp. 103-132,  
2023.  
COLLINS, Patricia Hill. Bem mais que ideias: interseccionalidade como teoria social crítica. São Paulo,  
Boitempo, 2022.  
GONZALEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica. In: Rios,  
Flavia; Lima, Márcia (Orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar. 2020 [1979], pp.  
49-64.  
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Rios, Flavia; Lima, Márcia (Orgs.). Por  
um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar. 2020 [1988], pp. 127-138.  
ARTIGOS  
INTELECTUALIDADES NEGRAS: PÓS-GRADUAÇÃO  
E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
Black intellectuals: postgraduate studies and collective resistance processes  
Intelectuales negros: estudios de posgrado y procesos de resistencia colectiva  
1
SUZANA CAVALHEIRO DE JESUS  
ORCID: 0000-0002-5218-9816  
2
ANDRESA CRISTINA XAVIER DE SOUZA  
ORCID: 0009-0005-6579-239X  
3
LUCIANO PEREIRA DOS SANTOS  
ORCID: 0000-0003-4452-6613  
RESUMO  
O objetivo deste artigo foi apresentar as discussões emergentes de um grupo focal realizado com mestras e  
egressasdoProgramadePós-GraduaçãoemEnsino(PPGE)daUniversidadeFederaldoPampa(UNIPAMPA),  
Campus Bagé. Este primeiro grupo focal é um recorte de três grupos que compuseram o corpus de análise  
de uma dissertação que investigou os impactos do PPGE no desenvolvimento das intelectualidades negras  
que têm o programa como ponto comum de suas trajetórias, bem como o impacto dessas intelectualidades  
negras no próprio programa. O referencial teórico está ancorado nos estudos decoloniais e nos saberes  
construídos nos movimentos negros. A análise, a partir do enlace entre os temas emergentes dos grupos,  
o referencial teórico e o objetivo da pesquisa, evidencia que as intelectualidades negras construíram  
discussões e reflexões que propiciaram um refinamento coletivo da criticidade. A participação majoritária  
de mulheres negras indica a potência do feminismo negro, bem como o comprometimento das participantes  
com o coletivo, pois, como é possível observar nas discussões provenientes deste grupo, há na coletividade  
fatores que influenciam a permanência e a conclusão da Pós-Graduação.  
Palavras-chave: Ensino; Intelectualidades negras; Colonialidade; Cisgeneridade.  
ABSTRACT  
The aim of this article was to present the emerging discussions of a focus group conducted with graduates  
and former students of the Graduate Program in Teaching (PPGE) at the Federal University of Pampa  
(UNIPAMPA), Bagé Campus. This first focus group is a subset of three groups that composed the corpus  
of analysis of a dissertation that investigated the impacts of the PPGE on the development of Black  
intellectualities that have the program as a common point in their trajectories, as well as the impact of these  
Black intellectualities on the program itself. The theoretical framework is grounded in decolonial studies  
and in the knowledge produced within Black movements. The analysis, based on the connection between  
the themes emerging from the groups, the theoretical framework and the research objective, shows that  
Black intellectualities fostered discussions and reflections that enabled a collective refinement of critical  
1 Doutora em Antropologia Social, pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Adjunta da Universidade Federal do Pampa, no curso de  
Educação do Campo – Licenciatura (Campus Dom Pedrito) e no Programa de Pós-Graduação em Ensino (Campus Bagé). Líder do grupo de pesquisa  
Tuna: Gênero, Educação e Diferença. Pesquisadora no Programa de Investigação Pós-Doutoral em Ciências Sociais, Infâncias e Juventudes – CLAC-  
SO/RedINJU. E-mail: suzanajesus@unipampa.edu.br  
2 Licenciada em Letras Línguas Adicionais e mestranda em Ensino (UNIPAMPA). Organizações coletivas: Núcleo de Estudos Afro Brasileiro e Indí-  
genas (NEABI) Oliveira Silveira; TUNA: Gênero, Educação e Diferença e Grupo de estudo Etnosônicas. E-mail: andresasouza.auno@unipampa.edu.br  
3 Pós-doutor em Ciência Política (UFRGS); Mestre e Doutor em Educação (UFPel); Sociólogo e Cientista Político (FESPSP); Pedagogo e Especial-  
ista em Políticas Públicas Educacionais (Intervale). Grupos de pesquisa: Processos Participativos na Gestão Pública (UFRGS); DGNERUS (UFPel).  
Pesquisador bolsista MJSP- Senappen/ Fiocruz. Co-editor da Revista DGnerus; Conselheiro editorial da RBEP – Revista Brasileira de Execução Penal.  
E-mail: proflucianopereiraluciano@gmail.com  
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INTELECTUALIDADES NEGRAS: PÓS-GRADUAÇÃO  
E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
Suzana Cavalheiro de Jesus, Andresa Cristina Xavier de Souza e  
Luciano Pereira dos Santos  
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thinking. The majority participation of Black women indicates the strength of Black feminism, as well as  
the participants’ commitment to the collective, since, as can be observed in the discussions arising from this  
group, there are collective factors that influence the continuity and completion of graduate studies.  
Keywords: Teaching; Black Intellectuals; Decoloniality; Cisgenerity.  
RESUMEN  
Elobjetivodeesteartículofuepresentarlasdiscusionesemergentesdeungrupofocalrealizadoconmaestrasy  
egresadasdelProgramadePosgradoenEnseñanza(PPGE)delaUniversidadFederaldePampa(UNIPAMPA),  
Campus Bagé. Este primer grupo focal es un recorte de tres grupos que compusieron el corpus de análisis de  
una tesis que investigó los impactos del PPGE en el desarrollo de las intelectualidades negras que tienen el  
programa como punto común en sus trayectorias, así como el impacto de estas intelectualidades negras en  
el propio programa. El marco teórico está basado en los estudios decoloniales y en los saberes construidos  
en los movimientos negros. El análisis, a partir del enlace entre los temas emergentes de los grupos, el marco  
teórico y el objetivo de la investigación, evidencia que las intelectualidades negras construyeron discusiones  
y reflexiones que propiciaron un refinamiento colectivo de la criticidad. La participación mayoritaria de  
mujeres negras indica la potencia del feminismo negro, así como el compromiso de las participantes con lo  
colectivo, ya que, como se observa en las discusiones provenientes de este grupo, existen en la colectividad  
factores que influyen en la permanencia y finalización del posgrado.  
Palabras clave: Enseñanza; Intelectuales negros; Colonialidad; Cisgénero.  
1.  
INTRODUÇÃO  
Este artigo é um recorte de uma pesquisa realizada a partir do Programa de Pós-Graduação em Ensino  
(PPGE) da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé, e tem como objetivo apresentar  
o desenvolvimento de um grupo focal intitulado “Conhecer e reconhecer”, cujo pressuposto foi confluir  
as experiências de pessoas negras com o PPGE como ponto comum de suas trajetórias (mestrandas ou  
mestras), com vistas a analisar essas experiências a partir de uma perspectiva decolonial. A participação  
majoritária de mulheres negras indica o comprometimento das participantes com o coletivo, pois, como é  
possível observar nas discussões provenientes deste grupo, a coletividade exerce papéis fundamentais na  
permanência e conclusão da pós-graduação.  
O recorte racial neste contexto se justifica porque Bagé é uma cidade cujas bases de expansão e ocupação  
na fronteira estão vinculadas ao passado escravocrata do Brasil, além de conflitos envolvendo os povos  
originários que ocupavam a região antes da colonização. Em seu início, a história da cidade está atrelada  
ao acampamento militar São Sebastião de Bagé (1811), e dados da pesquisa de Matheus (2016) indicam que,  
em 1846, um ano antes da municipalização da cidade, a população era de aproximadamente 4.000 pessoas,  
sendo 30% composta por pessoas escravizadas. Isso evidencia que, desde o início, pessoas negras estiveram  
presentes em solo bageense; porém, de acordo com Silva (2018), há um apagamento histórico envolvendo  
a escravidão na história da cidade, bem como a importância da população negra em seu desenvolvimento.  
Essa breve contextualização histórica é necessária para compreender como, em Bagé, houve e há diversos  
mecanismos de resistência da população negra, uma vez que “[...] foi dentro da comunidade escravizada  
que se desenvolveram formas político-culturais de resistência que hoje nos permitem continuar uma  
luta plurissecular de libertação” (Gonzalez, 2020, p. 134). Para citar alguns exemplos de resistências que  
emergiram ao longo do desenvolvimento da pesquisa, destacam-se os quilombos, as casas de religiões afro-  
brasileiras, a capoeira e o carnaval como espaços de transmissão de saberes ancestrais; a imprensa negra no  
pós-abolição, que “[...] também foi responsável por dar novos significados à liberdade e forjar intelectuais que  
debatiamsobreasproblemáticasdopós-abolição(Silva,2018,p.83);amdasuniversidades,compreendidas  
por Godoi e Santos (2021) como espaços de disputas e, a partir dos resultados desta pesquisa, como espaço  
estratégico a ser ocupado.  
Além das discussões provenientes dos recortes raciais, a partir da interseccionalidade compreendida  
como “[...] uma articulação teórica, conceitual, mas também metodológica e política” (Ornelas, 2019, p.  
84), aproximações do transfeminismo possibilitaram desenvolver uma abordagem dialógica para pensar a  
cisgeneridade como categoria de análise.  
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[...] a categoria analítica da cisgeneridade vai exatamente demarcar que a diferenciação sexual binária é utilizada como critério  
de fixação de identidades sexuais nos corpos. Além disso, a cisgeneridade impõe a consequente produção de uma hierarquia  
social que considera abjeto todo aquele corpo que fugir a tal normatividade. Por isso, a crítica ao cisgenero como modelo único  
é tão importante, pois ela retira da naturalidade a materialidade dos corpos, propondo, de outra maneira, pensar que esses  
processos de materialização trazem as marcas práticas discursivas. (Nascimento, 2021, p. 121)  
Para Carneiro (2005), a universidade é um momento de confronto no campo do conhecimento, pois a  
autoridade e a intelectualidade nesse espaço são fortemente marcadas pela brancura. Nesse sentido, pensar  
em intelectualidades negras em relação ao PPGE demanda pautar as colonialidades. Cabe destacar que  
a Universidade Federal do Pampa surge em um projeto de expansão e interiorização do ensino superior  
público na primeira década dos anos 2000. Instala-se em uma região fronteiriça à Argentina e ao Uruguai,  
na larga faixa que compreende a fronteira oeste e sul do Rio Grande do Sul, em dez municípios que compõem  
a Campanha Gaúcha e a Costa Doce, região de concentração de terras e de renda, com a economia alicerçada  
no setor produtivo do agronegócio.  
Tomamos como base o Campus Bagé, que acolhe o Programa de Pós-Graduação em Ensino, mas as relações  
históricas e estruturais que configuram o cotidiano das intelectualidades negras na Unipampa como um  
todo não se diferenciam de forma significativa entre as unidades acadêmicas — diagnóstico que é possível  
experienciar a cada Fórum de NEABIs que a instituição promove e que reúne os Núcleos de Estudos Afro-  
Brasileiros e Indígenas de cada campus.  
Isso posto, interessa-nos colocar em diálogo, neste texto, a ideia de colonialidade, o espaço universitário e os  
demais espaços formativos das intelectualidades negras. Desejamos problematizar os desafios que o caráter  
afirmativo posto na discussão sobre a ampliação dos níveis de estudos para a população negra encontra no  
sul do Brasil. Para isso, estruturamos o artigo a partir dos seguintes pontos: iniciamos com reflexões sobre  
universidade, colonialidades e intelectualidades; explicitamos o percurso metodológico da investigação;  
apresentamos uma discussão sobre conhecer e reconhecer, pautada nas narrativas que as pessoas negras  
(majoritariamente mulheres) trouxeram sobre suas experiências no Programa; e, por fim, as considerações  
finais sobre esse caminho percorrido.  
2.  
DIÁLOGO ENTRE UNIVERSIDADE, COLONIALIDADES E INTELECTUALIDADES  
Para tratar das universidades, considerando o contexto desta investigação, importa registrar iniciativas  
como o programa Expandir (2023) e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das  
Universidades Federais – REUNI (2007), ambos com o objetivo de ampliar o acesso ao ensino superior e  
reduzir as desigualdades regionais. É a partir dessas ações que a UNIPAMPA foi fundada em 2008, com a  
característica de instituição multicampi, totalizando 10 campi ao longo da fronteira Sul do Brasil. Destaca-se  
o Campus Bagé, onde as atividades do PPGE são desenvolvidas desde 2017 e têm contribuído ativamente  
para a formação de profissionais da educação na cidade. É valioso salientar que o PPGE é marcado por  
pluralidades nas áreas de formação, tanto dos docentes quanto dos discentes, fato que confere ao programa a  
característica de espaço multidimensional. Contudo, como parte de uma instituição forjada numa sociedade  
na modernidade/colonialidade, na qual saberes e produções de pessoas socialmente desprestigiadas são  
invisibilizados, é igualmente necessário pensar as colonialidades neste contexto, pois, como registra Kilomba  
(2019), “[...] a academia não é um espaço neutro nem tampouco simplesmente um espaço de conhecimento  
e sabedoria, de ciência e erudição, é também um espaço de violência” (p. 51).  
A concepção de colonialidades instiga a reflexão sobre como a colonização também ocorreu e ocorre nas  
mentes, por meio de carregos que ainda são reproduzidos no espaço da universidade. “[...] a dimensão  
da colonialidade reflete o quanto são adoecidas as nossas mentalidades, o quão blindados são os nossos  
esquemas de saber, o quão regulados são os nossos corpos, tornando-nos impedidos cognitivamente de  
nos desvencilhar dessa trama” (Junior, 2017, pp. 64-65). Uma das materialidades da colonialidade nas  
universidades é o epistemicídio, que Carneiro (2005) generosamente ensina não ser referente “apenas” ao  
apagamento e desqualificação dos povos subjugados durante a colonização, mas persiste e segue produzindo  
indigência cultural “[...] pela negação ao acesso à educação [...] pela produção da inferiorização intelectual”  
(p. 97), dentre outros.  
Em contrapartida, a concepção de intelectualidade negra utilizada neste estudo é compreendida não  
apenas a partir dos títulos adquiridos numa perspectiva de intelectualidade aproximada da lógica burguesa  
meritocrata, mas também como reflexo das percepções das hierarquias sociais excludentes e das resistências  
coletivas, que analisam e transformam a realidade. Como registra Oliveira (2024), pessoas comprometidas  
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com fatores sociais, detentoras de conhecimentos tradicionais e protagonistas de seus engajamentos  
também são intelectuais. Desta forma, há uma aproximação com o pensamento de hooks (1995), que defende  
haver diferenças entre qualificação acadêmica e ser intelectual; nessa perspectiva, o trabalho intelectual está  
atrelado à política do cotidiano.  
Essa ideia insere na discussão outros espaços de desenvolvimento das intelectualidades negras que  
compartilham conhecimentos implicados, resistem e pressionam por transformações, considerando os  
carregos modernos que constroem e mantêm as colonialidades, que ainda resistem em reconhecer sujeitos  
negros como intelectuais. Assim, é tarefa das pessoas negras intelectuais apropriar-se dos conhecimentos que  
hierarquizam e excluem, a fim de compreender e questionar “[...] objetivando romper com os conhecimentos  
produzidos para massacrar, desumanizar, empobrecer, embranquecer, entre outras atrocidades” (Oliveira,  
2014, p. 88).  
3.  
METODOLOGIA  
Ainvestigaçãodesenvolvida,queresultounesterecorte,possibilitouanalisaralgumasexperiênciaseimpactos  
a partir da relação entre o PPGE e as intelectualidades negras que têm ou tiveram o programa como ponto  
comum de suas trajetórias. Para esse fim, utilizamos uma abordagem qualitativa, a partir da qual existem  
diversas formas de desenvolver a pesquisa. Segundo Chizzotti (2003), a pluralidade de métodos incluídos  
na pesquisa qualitativa, como os grupos focais e a observação participante — para citar exemplos utilizados  
no desenvolvimento desta investigação — resulta em “[...] formas textuais originais” (p. 222). Ainda, Flick  
(2009) defende que, nos estudos qualitativos, atitudes, sentimentos e impressões tornam-se dados e fazem  
parte da interpretação.  
Dessa forma, dentre os instrumentos utilizados para compor a averiguação, destacam-se a observação  
participante e o diário de campo. A observação, nesse sentido, é compreendida como uma forma de perceber  
o que acontece ao redor, e a participação é uma prática de correspondência (Ingold, 2016). Os registros no  
diário de campo são concebidos como reflexos da empiria, que podem ser “[...] eventos, acontecimentos,  
palavras, textos, cheiros, sabores, tudo que nos afeta os sentidos –, é o material que analisamos e que, para  
nós, não são apenas dados coletados, mas questionamentos, fonte de renovação” (Peirano, 2014, p. 380).  
O campo da pesquisa abarcou todo o processo formativo, envolvendo seminários, ateliês, aulas e reuniões  
durante o período de discência no PPGE (2023-2025).  
Além do exposto anteriormente, a autoetnografia auxiliou no desenvolvimento da pesquisa e pode ser  
compreendida como “[...] uma possibilidade de incorporar minha voz e realizar uma leitura atenta de  
vozes múltiplas” (Simakawa, 2015, p. 28). A autora também evidencia a potência da autoetnografia para  
a elaboração de críticas decoloniais, pois pode trazer para o centro da construção da narrativa vozes de  
grupos dissidentes. Para ampliar as vozes neste trabalho, um formulário no Google intitulado Identificação  
das referências foi o primeiro contato com outras estudantes ou egressas do PPGE dispostas a participar  
do desenvolvimento da pesquisa. O formulário buscava informações como nome, idade, autoidentificação  
como negra(o) (pretos e pardos), ano de ingresso no programa, pseudônimo a ser utilizado na pesquisa,  
local de origem e local de residência atual, profissão, vínculos com movimentos sociais e/ou associações  
comunitárias, gênero e orientação sexual.  
É importante registrar que a única pergunta de múltipla escolha referia-se ao ano de ingresso, enquanto  
as demais demandavam respostas curtas. A tabela a seguir apresenta os resultados das pessoas dispostas  
a participar do desenvolvimento da pesquisa e, seguindo as orientações do Código de Ética da Associação  
BrasileiradeAntropologia(ABA), foiorganizadapreservandoodireitoàconfidencialidadedasinterlocutoras.  
Foi também respeitado, ao longo de todo o estudo, o direito de recusa ou desistência da participação a  
qualquer momento por parte das participantes, conforme regem as normas de pesquisa com seres humanos  
dispostas na Resolução 196/96 (BRASIL, 1996).  
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INTELECTUALIDADES NEGRAS: PÓS-GRADUAÇÃO  
E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
Suzana Cavalheiro de Jesus, Andresa Cristina Xavier de Souza e  
Luciano Pereira dos Santos  
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Tabela 1 – Relação das informações a partir do formulário “Identificação das referências”  
Vínculo com movimen-  
Ano de ingresso no  
PPGE unipampa  
Pseudônimos  
Idade  
tos sociais e/ou víncu-  
los comunitários  
Alícia  
2021  
2022  
2023  
2021  
2022  
2023  
2023  
42  
44  
43  
47  
40  
38  
35  
Comunidade Surda  
Sem vínculos efetivo  
Sem vínculos efetivo  
Sem vínculos efetivo  
Sem vínculos efetivo  
Sem vínculos efetivo  
Sem vínculos efetivo  
Cilene  
Gana  
Gérbera  
Guiné  
Imani  
Isabela  
Movimento quilombis-  
ta, educadores negros,  
dentre outros  
Okin  
2017  
2021  
56  
38  
MST, MPA, CIMI e Pas-  
toral da Juventude  
Oxum  
Rede Nacional de  
Ravena  
Ryana  
2023  
2022  
26  
23  
Mulheres Negras no  
Combate á Violência  
Grupos de pesquisa  
Associação de deficien-  
tes físicos e associação  
de deficientes visuais,  
NEABI e pastoral da  
juventude  
Zâmbia  
2021  
26  
Fonte: Elaborado pela autoria a partir dos dados do formulário (2025)  
Na sequência, após ter encontrado outras discentes ou egressas do PPGE dispostas a dialogar, foram  
realizados três grupos focais. Barbour (2009) evidencia que os grupos focais, embora sejam ferramentas  
para coleta de dados, também podem desempenhar um papel de intervenção. Cada grupo durou cerca  
de uma hora e 30 minutos, levou aproximadamente oito horas para ser transcrito, e todos ocorreram aos  
sábados, devido às agendas e à disponibilidade das participantes.  
Utilizando as transcrições como material de análise, sete temas foram destacados, considerando as  
ocorrências nos grupos focais. Ao final deste processo, emergiram os seguintes temas: 1. PPGE; 2. Pesquisa  
em desenvolvimento; 3. Importância do coletivo; 4. Ancestralidade; 5. Maternidades Negras; 6. Subjetividade/  
Performance; e 7. Intelectualidades Negras. Estabelecer relações entre os temas, a partir das partilhas  
ocorridas nos grupos, do referencial teórico e do objetivo da pesquisa, constituiu o início do processo de  
análise.  
Os temas supracitados são resultados do processo de análise dos três grupos focais, porém o recorte para  
esta escrita estará restrito ao primeiro grupo focal, cujo convite foi enviado no dia 22 de maio de 2024 e  
ocorreu em 1º de junho de 2024. As discussões e relações estabelecidas a partir do primeiro grupo focal são  
apresentadas a seguir.  
4.  
CONHECER E RECONHECER  
O pontapé inicial deste grupo foi a proposição de partilha sobre como o PPGE influencia nossas trajetórias:  
“[...] o convite para este primeiro momento é que a gente possa fazer uma apresentação e falar sobre as nossas  
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E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
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experiências dentro do PPGE” (pessoa pesquisadora). A partir disso, as falas generosas contaram histórias  
entrelaçadas aos movimentos sociais e às graduações das participantes.  
Oxum relata que a aproximação com os movimentos sociais a fez repensar e compreender as violências  
sofridas durante a graduação, em um contexto no qual ela era a única mulher negra no curso de engenharia:  
“[...] e quando tu tira uma nota alta, ele [professor] chama atenção de outros alunos porque era absurdo eu  
ter tirado essa nota mais alta sendo mulher e uma mulher negra. Sem pudor” (Oxum). Além disso, Isabela  
compartilha que, quando passou na universidade federal, sua mãe orgulhosa a presenteou com um notebook:  
“[...] e eu lembro de chegar na aula toda entusiasmada e um professor perguntar pra mim de quem eu tinha  
pegado” (Isabela).  
Imani, outra participante, relata que, em 2007, ao cursar o segundo semestre da licenciatura em Matemática,  
fez parte de um processo de seleção para trabalhar no laboratório de informática, ficando em primeiro lugar  
e assumindo a posição como bolsista: “[...] quando eu comecei a trabalhar no laboratório de informática [...]  
os meninos da engenharia iam lá pra ver quem é que tinha passado no lugar deles, né? [...] além de mulher  
do curso de matemática, negra. Quando eles chegavam lá e me viam, meu Deus, que horror” (Imani).  
Essas violências sofridas durante as graduações foram responsáveis por afastar as três participantes da  
universidade, como fica evidente no trecho que segue:  
E aí eu não tinha coragem de retornar pra UNIPAMPA, que foi um período que não foi tão legal pra mim, principalmente porque  
eu tava ali muitas vezes disputando as melhores notas com as colegas e ainda tinha aqueles professores que queriam saber o  
por que, como, sabe? Então eram coisas que parecia que a gente tinha que tá se provando a todo momento, né? Então entrar pro  
PPGE era uma coisa que eu queria muito e não tinha coragem de tentar. (Isabela [pseudônimo], relato pessoal, 2025)  
A partir do excerto, é possível observar uma sensação de não pertencimento decorrente das violências  
sofridas durante a graduação, fator que influencia a possibilidade de participar do processo de seleção do  
mestrado. Para ampliar a discussão, ao realizar uma análise inicial da colonialidade e da decolonialidade,  
Maldonado-Torres (2019) registra que a colonização envolveu, além de uma catástrofe demográfica, uma  
catástrofe metafísica: “[...] da estrutura Eu-Outro de subjetividade e sociabilidade” (Maldonado-Torres, 2019,  
p. 37), fator que influenciou a emergência das diferenças entre os seres. A colonização, nesse sentido, ocorre  
nos territórios e também nas mentes, terreno fértil para a reprodução das colonialidades.  
Seguindo essa linha de pensamento, consideram-se como fundamentais da modernidade/colonialidade  
as dimensões de ser, conhecimento (saber) e poder, pois constituem uma visão de mundo. Para cada  
dimensão, identificam-se pelo menos três componentes: Saber – sujeito, objeto, método; Ser – tempo,  
espaço, subjetividade; e Poder – estrutura, cultura, sujeito. São comuns a todos os componentes o sujeito e a  
subjetividade (Maldonado-Torres, 2019, p. 42).  
Nas situações relatadas de violência, considerando a dimensão do ser (tempo, espaço e subjetividade), estão  
implicadas leituras sociais de corpos negros limitadas ao imaginário racista. A surpresa está impregnada de  
uma lógica eurocêntrica que não reconhece sujeitos negros como possíveis produtores de conhecimento e,  
com isso, ocasiona o afastamento de pessoas negras, principalmente mulheres, dos lugares de intelectuais,  
comoevidenciadonoscasosrelatados. Assim, diferentescontextosdesalasdeaulaemumamesmainstituição  
exemplificam as relações entre as colonialidades de poder, evidentes na figura do professor e de colegas  
discentes; da colonialidade do saber, uma vez que o cenário das ocorrências é a universidade, validada como  
produtora de ciência, mas também como produtora e reprodutora de uma lógica de objetividade e método  
que muitas vezes tenta afastar a influência do sujeito no conhecimento ou desconsiderar a subjetividade nos  
espaços de sala de aula; e da colonialidade do ser, manifestada nas participantes envolvidas nas situações,  
expondo diferentes relações de poder entre docentes e discentes, que são inexoravelmente reproduzidas  
entre os próprios discentes.  
No que se refere à colonialidade do ser, também se evidenciam relações de poder associadas ao marcador de  
identidade de gênero, uma vez que, nas situações relatadas, mulheres cis negras – Oxum, Isabela e Imani –  
foram questionadas por homens cis. Destaca-se, nesse contexto, a relação entre branquitude e cisgeneridade,  
pois ambas as ideias evidenciam lugares sociais não marcados e permitem “[...] tomar consciência da vigência  
de um sistema colonial de gênero” (Simakawa, 2015, p. 42), ampliando a percepção da hierarquização cis-  
têmica e interseccional das produções de diversidades. Assim, nos casos relatados, observa-se não apenas  
uma concepção de inferioridade racial, mas também sexista.  
Com relação à colonialidade do poder (estrutura, cultura, sujeito), como discentes, Isabela, Imani e Oxum  
estavam hierarquicamente em desvantagem em relação aos docentes e aos demais colegas brancos, que  
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21  
são posicionados no lugar de humanidade, conforme lembra o dispositivo de racialidade (Carneiro, 2005).  
Nesse sentido, quanto mais distante da brancura social, maior o desprestígio hierárquico, o que impacta  
a colonialidade do ser (tempo, espaço e subjetividade), cujas identidades e atividades são produzidas e  
desenvolvidas a partir das experiências vividas: “[...] colonialidade do ser envolve a introdução da lógica  
colonial nas concepções e na experiência de tempo e espaço, bem como na subjetividade” (Maldonado-  
Torres, 2019, p. 43).  
É importante considerar também o sujeito corporificado, pois as violências relatadas expõem colonialidades  
a partir do sujeito que se ocupa em ensinar e produzir conhecimentos científicos. Assim, nos casos narrados,  
há um lugar de poder na docência e, simultaneamente, uma evidente carga subjetiva na produção objetiva de  
“verdades” em disputa na academia. Vale lembrar que, mesmo com a desvalorização econômica e social da  
profissão docente na atualidade brasileira, há na docência uma legitimação da fala qualificada.  
Na sequência do encontro, a fala de Cilene deu o tom para debatermos as ações afirmativas:  
[...] as pessoas são obrigadas a aceitar ações afirmativas, são obrigadas a aceitar os negros, pretos e pretas, pardos dentro deste  
espaço em função das cotas. Eu me senti muito bem dentro da minha turma por ter muitos, eu achei que ia ser eu mais um ou  
mais dois, e mesmo assim éramos cinco. Mas eu sempre falo, dentro dum lugar onde a maioria se considera pretos e pardos,  
num país na verdade, ainda somos poucos. É sobre isso que eu vim falando [...] a minha trajetória no MAE foi muito boa assim,  
sabe? Pessoas que conheci, trabalhos que eu vi. Eu gostei e não gostaria de sair deste meio da academia. (Cilene [pseudônimo],  
relato pessoal, 2025)  
O levantamento feito por Bernardino-Costa, Borges, Ferreira e Carlos (2021) constatou que em 2021 havia  
1.200 PPGs, oriundos de 33 universidades federais que adotaram ações afirmativas por força de seus  
Conselhos Superiores, correspondendo a 48,13% do total das universidades federais. Na Unipampa, as ações  
afirmativas para a pós-graduação apoiam-se nas experiências da graduação e são regidas pela Resolução  
295 de 30 de novembro de 2020, do CONSUNI (Conselho Universitário). No cenário brasileiro, temos a  
Lei 12.711/124 como um marco importante que traz, para o cenário da legislação educacional, práticas  
que historicamente foram desenvolvidas por autonomia universitária. A lei trata da reserva de vagas nos  
processos seletivos de instituições federais de ensino superior e ensino médio técnico para estudantes  
pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência, além de estudantes de baixa renda, tendo  
como ponto de partida comum o fato de terem cursado integralmente o ensino básico em escolas públicas  
(Brasil, 2012).  
Nesse caso, as reservas de vagas “[...] se tratam de modalidade de uma política pública mais ampla que se  
chama Ações Afirmativas” (Gasparotto; Nunes; Manke; Altmann, 2016, p. 18-19). Além disso, de acordo com  
Mattos (2019), as ações afirmativas direcionam ações para dirimir hierarquias sociais e têm a finalidade  
de igualar as oportunidades e condições, além de ter um papel fundamental para o reconhecimento social  
e representação política. Como disposto no artigo sétimo da lei em questão, uma avaliação foi feita no ano  
de 2022 e resultou no relatório intitulado “Dez anos da lei federal das cotas universitárias: Avaliação de  
seus efeitos e propostas para sua renovação e aperfeiçoamento”, elaborado por Marciano Seabra de Godoi e  
Maria Angélica dos Santos.  
Dentre as mudanças registradas neste documento, estão o aumento de 15% de estudantes oriundos de escolas  
públicas nas universidades federais. No que concerne a estudantes pretos, pardos e indígenas, esse aumento  
foi de 39%. Esses dados comprovam a coerência da afirmação de Mattos (2019) de que as ações afirmativas  
influenciam a reconfiguração da sociedade brasileira. Além disso, o estudo faz referência às fraudes nas  
cotas e defende o uso da autodeclaração combinada com as bancas de heteroidentificação, de modo que “[...]  
fraudar esse sistema montado para romper com a lógica opressora é também uma forma de deslegitimar  
qualquer estratégia emancipatória para a população negra” (Godoi; Santos, 2021, p. 24). No documento, as  
autorias também versam e defendem a importância das cotas na pós-graduação: “[...] ser negra ou negro e  
ser, ao mesmo tempo, intelectual significa situar-se num lugar fronteiriço, pois os que fazem parte do grupo  
subalterno não são naturalizados como seres pensantes e produtores de saberes, de conhecimento científico”  
(Godoi; Santos, 2021, p. 25).  
Ainda sobre as ações afirmativas, a partir da avaliação realizada em 2022, em 13 de novembro de 2023 foi  
sancionada a Lei nº 14.723, que altera o texto da Lei nº 12.711/2012. Entre as principais mudanças, destacam-  
se: a redução do critério de renda para acesso por baixa renda, de 1,5 salário mínimo para 1 salário mínimo  
per capita; a inclusão de quilombolas como possíveis beneficiários das reservas de vagas; e a possibilidade de  
candidatos que se enquadrem nas reservas de vagas concorrerem também à ampla concorrência, utilizando,  
4 Texto da lei disponível na íntegra em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.html  
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se necessário, as vagas reservadas. Além disso, a Lei nº 14.723/2023 determina que a prioridade para  
concessão de bolsas e auxílios deve ser destinada às pessoas que ingressam por meio das ações afirmativas e  
que se encontrem em situação de vulnerabilidade. Por fim, a lei indica a inserção das cotas na pós-graduação  
stricto sensu.  
Essa legislação prevê que a proporção da reserva de vagas deve ser “[...] no mínimo igual à proporção  
respectiva de pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência na população da unidade  
da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo do IBGE” (Brasil, 2023). Dados do  
censo de 2022 do IBGE indicam que a população do Rio Grande do Sul é de 10.882.965 pessoas, das quais  
78,4% se autodeclararam brancas, 14,7% pardas, 6,5% pretas e 0,3% indígenas. No que se refere a Bagé, a  
população é de aproximadamente 117.938 pessoas, sendo 70,3% autodeclaradas brancas, 18,5% pardas, 11%  
pretas e 0,08% indígenas5. Se projetarmos a aplicação das alterações promovidas pela Lei 14.723/2023, a  
reserva mínima de vagas deverá ser de 21,66% no Estado do Rio Grande do Sul e de 29,75% em Bagé.  
Na Unipampa, os editais de pós-graduação têm sido elaborados com base nos dispositivos da Lei 12.711/2012,  
seguindo os princípios da autonomia universitária. Contudo, a porcentagem de vagas ofertadas não respeita  
integralmente os critérios estabelecidos na legislação, configurando um formato de reserva de vagas que  
se soma a uma política já existente na instituição destinada a servidores Técnicos-Administrativos em  
Educação. A normativa interna que regula esses processos é a Resolução 295, do Conselho Universitário,  
de 30 de novembro de 2020, que define as normas para os Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu. Ao  
tratar dos processos seletivos, o documento estabelece:  
Art. 44. A cada processo de seleção de novos discentes dos programas de pós-graduação, será realizada a reserva de 10% (dez  
por cento) de vagas para técnico-administrativos em educação (TAE) da UNIPAMPA, nos termos estabelecidos no Programa de  
Incentivo à Capacitação e Qualificação dos Servidores Técnico-administrativos em Educação.  
§ 1° Na hipótese de quantitativo fracionado para o número de vagas reservadas a candidatos técnico-administrativos, esse será  
aumentado para o primeiro número inteiro subsequente, em caso de fração igual ou maior que 0,5 (zero vírgula cinco), ou dimi-  
nuído para o número inteiro imediatamente inferior, em caso de fração menor que 0,5 (zero vírgula cinco).  
§ 2° Nos programas cuja oferta de vagas anual for menor que 05 (cinco), o programa ofertará 01 (uma) vaga específica para  
técnico-administrativo a cada 02 (dois) anos.  
§ 3° A reserva de vagas para candidatos técnico-administrativos constará expressamente nos editais dos programas.  
§ 4º Os candidatos técnico-administrativos concorrerão concomitantemente às vagas reservadas e às vagas destinadas à ampla  
concorrência, de acordo com a sua classificação na seleção.  
§ 5º Os candidatos técnico-administrativos aprovados dentro do número de vagas oferecidas para ampla concorrência não  
serão computados para efeito do preenchimento das vagas reservadas.  
§ 6º Em caso de desistência de candidato técnico-administrativo aprovado em vaga reservada, a vaga será preenchida pelo  
candidato técnico-administrativo posteriormente classificado.  
§ 7º Na hipótese de não haver número de candidatos técnico-administrativos aprovados suficientes para ocupar as vagas re-  
servadas, as vagas remanescentes serão revertidas para a ampla concorrência e serão preenchidas pelos demais candidatos  
aprovados, observada a ordem de classificação.  
§ 8º A aprovação e a classificação do servidor concorrente observarão os requisitos do Regimento do Curso e do edital de  
seleção.  
Art. 45. A cada processo de seleção de novos discentes dos programas de pósgraduação, será realizada a reserva mínima de 10%  
(dez por cento) das vagas para negros (pretos e pardos), indígenas e pessoas com deficiência.  
§ 1° Na hipótese de quantitativo fracionado para o número de vagas reservadas a candidatos negros (pretos e pardos), indígenas  
e pessoas com deficiência, esse será aumentado para o primeiro número inteiro subsequente, em caso de fração igual ou maior  
que 0,5 (zero vírgula cinco), ou diminuído para o número inteiro imediatamente inferior, em caso de fração menor que 0,5 (zero  
vírgula cinco).  
§ 2º Nos programas cuja oferta de vagas anual for menor menor que 10 (dez), o programa ofertará 01 (uma) vaga específica  
para reserva a cada 02 (dois) anos.  
§ 3º A aprovação e a classificação do candidato à reserva de vagas obedecerão aos critérios de inscrição e de aprovação no pro-  
cesso seletivo, de acordo com as normas vigentes e o edital do qual participam.  
5 Censo de 2022 na íntegra disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/  
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Luciano Pereira dos Santos  
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§ 4º Os candidatos inscritos na reserva de vagas para negros (pretos e pardos), indígenas ou pessoas com deficiência concor-  
rerão concomitantemente às vagas reservadas e às vagas destinadas à ampla concorrência, de acordo com a sua classificação  
na seleção.  
§ 5º Os candidatos inscritos na reserva de vagas para negros (pretos e pardos), indígenas ou pessoas com deficiência aprovados  
dentro do número de vagas oferecidas para ampla concorrência não serão computados para efeito do preenchimento das vagas  
reservadas.  
§ 6º Em caso de desistência de candidato inscrito na reserva de vagas para negros (pretos e pardos), indígenas ou pessoas com  
deficiência aprovado em vaga reservada, a vaga será preenchida pelo candidato inscrito na reserva de vagas para negros (pretos  
e pardos), indígenas ou pessoas com deficiência posteriormente classificado.  
§ 7º Na hipótese de não haver número de candidatos inscritos na reserva de vagas para negros (pretos e pardos), indígenas ou  
pessoas com deficiência aprovados suficientes para ocupar as vagas reservadas, as vagas remanescentes serão revertidas para  
a ampla concorrência e serão preenchidas pelos demais candidatos aprovados, observada a ordem de classificação. (UNIPAM-  
PA, 2020)  
Essa configuração é apresentada no edital de ingresso de 2024 do Programa de Pós-Graduação em Ensino  
da seguinte forma:  
6.1. Serão disponibilizadas 30 (trinta) vagas para ingresso discente do Curso stricto sensu de Mestrado Acadêmico em Ensino no  
1º (primeiro) semestre de 2024, distribuídas a seguir, de acordo com a Resolução nº 295, de 30 de novembro de 2020, alterada  
pela Resolução nº 315 de 29 de abril de 2021 e, considerando a Resolução nº 136, de 22 de março de 2016, ambas do CONSUNI/  
UNIPAMPA: a) 24 (vinte e quatro) vagas para ampla concorrência (universais); b) 03 (três) vagas reservadas a candidatos técni-  
co-administravos em educação da UNIPAMPA; c) 03 (três) vagas reservadas a candidatos negros (pretos e pardos), indígenas e  
pessoas com deficiência (UNIPAMPA, 2023)  
Com o intuito de traçar um panorama da reserva de vagas no PPGE, a tabela abaixo apresenta a relação  
de editais compreendendo os anos de 2017 até a seleção de 2024, referente aos discentes que iniciaram as  
atividades no primeiro semestre de 2025.  
TABELA I - Relação de reserva de vagas nos processos seletivos do programa de pós-graduação em ensino  
(2017-2024)  
TABELA I - Relação de reserva de vagas nos processos seletivos do programa de pós-graduação  
em ensino (2017-2024)  
Ano/se-  
mestre de  
início no  
programa  
Reserva  
a partir  
da Lei  
% de res-  
erva a par-  
tir da Lei  
12.711/12  
Ampla  
concor-  
rência  
Nº do  
edital  
Saldo de  
vagas  
Reserva  
TAE  
% de res-  
erva TAE  
12.711/12  
152/2017  
192/2018  
178/2019  
380/2020  
359/2021  
365/2022  
408/2023  
435/2024  
2017.2  
2018.2  
2019.2  
2021.1  
2022.1  
2023.1  
2024.1  
2025.1  
25  
20  
24  
34  
26  
33  
30  
44  
22  
15  
3
2
2
4
3
3
3
4
12  
0
3
3
4
3
3
3
4
0
10  
15  
19  
8,33  
11,76  
11,53  
9,09  
10  
12,5  
11,76  
11,53  
9,09  
10  
26  
20  
27  
24  
36  
9,09  
9,09  
Fonte: Elaborada pela autoria a partir de dados constantes nos editais do PPGE de 2017 a 2024 (2024).  
A partir da tabela, é possível perceber que, em 2017, não houve reserva de vagas para o público-alvo da Lei  
12.711/2012. Além disso, entre 2018 e 2021, a porcentagem de vagas destinadas a pretos, pardos, indígenas  
e pessoas com deficiência esteve acima do mínimo de 10% estipulado pela Resolução nº 295, de 2020, do  
Conselho Universitário da Unipampa. Em 2022 e 2024, o percentual de reserva ficou abaixo do mínimo  
indicado na resolução, enquanto em 2023 a reserva atingiu o mínimo estabelecido.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
INTELECTUALIDADES NEGRAS: PÓS-GRADUAÇÃO  
E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
Suzana Cavalheiro de Jesus, Andresa Cristina Xavier de Souza e  
Luciano Pereira dos Santos  
24  
[...] a gente precisa garantir um ambiente saudável pra essas pessoas [...] Por que é muito fácil daqui a 10 anos fazer um evento e  
dizer: Aí, essas daqui foram as primeiras pesquisadoras negras, isso e aquilo, aquilo e outro, dar florzinha e plaquinha. Mas não  
contar todos os processos de violências que a gente passou pra construir isso (Oxum).  
A partir da fala de Oxum, a tokenização é pautada, compreendida aqui como “[...] um método estratégico  
de contra-argumentação utilizado para refutar acusações de práticas discriminatórias” (Godói; Santos,  
2021, p. 27). Nesse sentido, trata-se de uma prática que usufrui de pessoas negras e de pesquisas sobre  
temas sociais para posicionar o programa como preocupado com transformações sociais, mesmo quando  
não se atentam às dificuldades enfrentadas pelos sujeitos (negros, indígenas, quilombolas ou pessoas com  
deficiência) ao longo do programa. A partir disso, emergiu neste grupo focal a necessidade de vigilância  
para que pesquisas sobre negritude e outros recortes sociais não se tornem panfletárias: “[...] olha como nós  
temos pesquisas sobre ações afirmativas, sobre negritude, sobre educação das relações étnico-raciais, sobre  
interseccionalidade, surdez e negritude” (Arandu).  
Nas falas subsequentes, estabeleceram-se relações entre a permanência no programa, a disponibilidade  
de bolsas e os fatores estressantes da pós-graduação, destacando-se, neste último ponto, as demandas por  
publicações e a quantidade significativa de leituras, apontadas por Silvia; Marsico (2022) como as principais  
causas de ansiedade. Nesse sentido, Leão; Ianni; Goto (2019) registram que uma perspectiva individualista  
do sofrimento psíquico na pós-graduação pode impedir a percepção da complexidade dos fenômenos,  
atentando para situações que são coletivamente individualizadas: “[...] a gente tem fragilidades e a gente  
precisa ser acolhida e isso não acontece [...] Poderia ter sido mais gentil? Poderia!” (Lizzie).  
A partir dessa discussão, Imani e Angola, em suas contribuições, levaram o grupo a abordar o  
autoconhecimento implicado no processo de pesquisa: “[...] eu não posso ficar me julgando. Eu tô fazendo  
alguma coisa, não tô fazendo nada, eu tô lendo, a minha família tá bem, então eu tô fazendo alguma coisa”  
(Imani); “[...] eu apliquei um questionário e interpretei esses dados, foi também um processo doloroso porque  
pude conhecer as dificuldades que esses alunos enfrentavam, foi bem complicado” (Angola). A partir desses  
excertos, é possível observar distintas relações entre as participantes e os afetos no processo de pesquisa,  
atravessando acolhimento, desenvolvimento da escrita e análise, como fica evidente na fala de Angola.  
Em termos de permanência, o coletivo foi recorrente nas falas das participantes: “[...] no sentido acadêmico,  
o mestrado me ensinou o poder de uma resiliência que nem eu sabia que tinha” (Ryana); “[...] eu tive muita  
ajuda dos colegas da minha turma e das turmas anteriores também, então aí foi ficando mais fácil” (Angola).  
Ao final dessa discussão, Imani destacou a relação com a ancestralidade, presente também nas falas de Lizzie  
e Oxum: “[...] eu acho que esses encontros que a vida dá, essas aproximações que nos trazem têm muito da  
nossa ancestralidade, que nos coloca nos lugares certos, com as pessoas adequadas para a gente evoluir”  
(Lizzie); “[...] a nossa forma de pensar é diferente da branquitude. Nós pensamos muito ligados ao território  
e ao corpo, às experiências emocionais e às experiências ancestrais, mesmo que às vezes a gente não tenha  
consciência disso” (Oxum).  
De acordo com Bernardo (2018), a ancestralidade pode ser compreendida como uma categoria de trans-  
alteridade, por possuir “[...] uma natureza fenomenológica sociocultural, enfatizando a quebra de primazia  
da razão como definidora de verdades” (Bernardo, 2018, p. 231), ao passo que referencia os conhecimentos  
deixados pelos mais velhos e antepassados, dos quais extraímos ensinamentos. Nessa leitura, o corpo é  
escritura em construção a partir do contato com os outros; além disso, a morte ganha outras simbologias,  
aproximando-se de um estágio de mutação da vida.  
Foi a partir das relações com a ancestralidade que iniciaram as partilhas sobre as maternidades negras, uma  
vez que essas figuras maternas evocam relações entre passado e presente e/ou presente e futuro. Em outras  
palavras, nesse encontro foram compartilhadas memórias sobre as mães e mulheres negras mais velhas,  
antecessoras das participantes do grupo, e sobre a maternidade desempenhada pelas próprias presentes.  
Por exemplo, Isabela conta a história de sua mãe, que começou a trabalhar como doméstica aos oito anos e,  
mais velha, conseguiu concluir um curso e trabalhar como funcionária pública, impactando diretamente as  
possibilidades de Isabela, que seguiu compartilhando como sentiu a necessidade de ocupar espaços que não  
haviam sido ocupados por sua mãe. Ao mesmo tempo, é evidente os impactos na vida de sua filha, conforme  
relatado no excerto que segue:  
[...] eu sempre digo pra [filha] que tem 16 anos, é sobre representatividade, a gente precisa estar em alguns lugares, a gente preci-  
sa ter umas fotos nossas estampadas em algumas paredes pra que ela [outras mulheres negras] se sintam encorajadas a chegar  
e ir além. (Isabela [pseudônimo], relato pessoal, 2025)  
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E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
Suzana Cavalheiro de Jesus, Andresa Cristina Xavier de Souza e  
Luciano Pereira dos Santos  
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A partir da ocupação desse espaço e da coletivização, fica evidente o comprometimento com a continuidade  
das pesquisas e dos debates, mesmo após a conclusão das atividades do programa: “[...] eu vou continuar  
pesquisando, vou continuar trabalhando e próxima ao PPGE, por causa dessa responsabilidade” (Oxum). A  
responsabilidade expressa na fala de Oxum estabelece uma relação com a compreensão de intelectualidade  
adotada nesta pesquisa, que, em suas palavras, “[...] nós somos intelectuais e que a intelectualidade pode  
ser diferente do que a gente viu a vida toda [...] e a gente constrói intelectualidade dentro de uma cidade que  
invisibiliza o pensamento negro. Isso é revolucionário, isso é história” (Oxum).  
5.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Considerando nosso objetivo para este artigo, que foi apresentar as discussões do grupo focal Conhecer e  
Reconhecer, a partir das colonialidades evidenciadas nos excertos de falas que explicitam disputas existentes  
na universidade, é possível afirmar que o coletivo de mulheres negras formado a partir dos grupos  
focais constituiu um espaço seguro para ressignificar o lugar ocupado no programa, além de auxiliar no  
reconhecimento das contribuições individuais para a construção das intelectualidades negras, como fica  
evidente na fala: “[...] nós somos intelectuais e que a intelectualidade pode ser diferente do que a gente viu a  
vida toda [...] e a gente constrói intelectualidade dentro de uma cidade que invisibiliza o pensamento negro”  
(Oxum).  
A partir dos relatos que apontam o funcionamento do dispositivo de racialidade (Carneiro, 2005), seja  
nos ambientes de trabalho ou nas salas de aula que as sujeitas ocupam ou ocuparam, importa discutir a  
qualificação e a legitimação das falas. Essa legitimação é atravessada pelo dispositivo de racialidade, uma  
vez que, ao expor seus conhecimentos, pessoas negras são constantemente descredibilizadas, ao passo que  
sujeitos com marcadores de prestígio e privilégio, como a brancura e a cisgeneridade, têm seus discursos  
validados. Essa validação ocorre mesmo quando suas concepções e conhecimentos carregam estereótipos  
depreciativos, evidenciando uma carga subjetiva presente nas narrativas desses espaços acadêmicos,  
reconhecidos como produtores de verdades.  
Ainda, a partir da discussão sobre ações afirmativas, é possível perceber o comprometimento coletivo  
voltado a mudanças no PPGE para as futuras gerações de intelectuais negras que acessarem o mestrado. Na  
discussão sobre tokenização, fica evidente a necessidade de (re)existir e criar mecanismos de vigília para que  
pesquisas sobre negritude, gênero e outros marcadores de diferença não sejam tratadas de forma superficial  
ou meramente formal, sobretudo diante da ausência de mecanismos para expor e enfrentar as violências  
sofridas pelas participantes desta pesquisa. Por fim, é possível afirmar que há, nas intelectualidades que  
participaram desse grupo e em suas experiências, uma relação com a ancestralidade que permeia não apenas  
as experiências e construções da intelectualidade das mulheres negras participantes, mas também das  
futuras gerações (filhas, sobrinhos, entre outros), evidenciando o caráter transgeracional dessas relações.  
Considerando as relações com o epistemicídio, podemos afirmar que as bancas de qualificação e defesa  
têm sido pensadas pelas sujeitas negras que participaram da pesquisa como momentos estratégicos de  
diálogo com saberes produzidos por intelectuais negros e teóricos dissidentes, muitas vezes invisibilizados  
nas bibliografias do programa. Esse movimento visa pluralidade em sua constituição, de modo que outros  
diálogos possam ser acessados e validados como ciência.  
No que tange às ações afirmativas e às reservas de vagas restritas aos discentes, observa-se que essas medidas  
não garantem pluralidade de representação e participação entre os docentes do programa. Nesse sentido,  
uma alternativa são as cotas epistêmicas (Carvalho, 2019), que ampliam as possibilidades de diálogos  
nas pesquisas elaboradas no PPGE. Essa proposta dialoga com estratégias de acesso e conclusão da pós-  
graduação, conforme consta na versão preliminar do PNPG, em especial na seção 1.2.3, que versa sobre a  
inclusão de ações para promover o “[...] acesso equitativo de grupos sub-representados no corpo docente  
atuando na pós-graduação, incentivando que os programas prevejam no seu planejamento estratégico o  
aumento do índice de diversidade do seu corpo docente” (PNPG, 2024, p. 94).  
As considerações acima são importantes porque as instituições são feitas por pessoas. Nesse sentido, as  
intelectualidades negras que participaram deste grupo focal, ao acessarem e participarem do mestrado  
acadêmico em ensino, promovem quebras de ciclos. Essas quebras podem ser pensadas também a partir  
das relações familiares; entretanto, no contexto do PPGE, vale registrar que os movimentos realizados pelas  
intelectualidades negras para transformar este espaço geram deslocamentos e provocam reflexões antes  
invisibilizadas, ocasionando incômodos, mas também avanços significativos.  
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E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS  
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Data de submissão: 09/04/2025  
Data de aceite: 22/11/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
A INTERSECCIONALIDADE DESDE O BRASIL: TEIAS DE  
RESISTÊNCIA ENTRE O PENSAMENTO DE FEMINISTAS  
NEGRAS BRASILEIRAS  
Intersectionality from Brazil: webs of resistance among the  
thinking of black brazilian feminists  
Interseccionalidad desde Brasil: redes de resistencia en el  
pensamiento de las feministas negras brasileñas  
1
MARÍLIA PASSOS APOLIANO GOMES  
ORCID: 0000-0002-2159-8975  
2
JHÊNIFFER LOPES DA SILVA  
ORCID: 0009-0004-3114-1188  
RESUMO  
Nesta pesquisa, exploramos a interseccionalidade no contexto brasileiro por meio de diálogos entre Lélia  
Gonzalez, SueliCarneiro, DjamilaRibeiro, CarlaAkotirene, JulianaBorgeseLetíciaNascimento. Oarcabouço  
teórico articula estas autoras às Epistemologias do Sul, aos saberes e experiências construídos contra as  
formas de opressão e ao feminismo decolonial, em uma crítica anticapitalista, anticisheteropatriarcal  
e antirracista. O objetivo foi compreender como o conceito de interseccionalidade permite analisar as  
relações entre raça, classe, gênero e sexualidade no Brasil, evidenciando as articulações entre vários eixos de  
dominação na produção teórica dessas autoras. A pesquisa adota uma abordagem qualitativo-interpretativa,  
na qual a interseccionalidade se configura simultaneamente como objeto de investigação e como perspectiva  
teórico-metodológica. Enquanto tema, orienta a análise das formas como autoras negras brasileiras a  
mobilizam para compreender as relações entre raça, classe, gênero e sexualidade; enquanto método, oferece  
a lente crítica que guia a leitura comparativa e relacional das produções teóricas publicadas entre 2010 e o  
início dos anos 2020.  
Palavras-chave: Interseccionalidade; Feminismos negros; Pensadoras negras brasileiras.  
ABSTRACT  
In this research, we explore intersectionality in the Brazilian context through dialogues between Lélia  
Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, Juliana Borges, and Letícia Nascimento. The  
theoretical framework articulates these authors with Epistemologies of the South, with knowledge and  
experiences constructed against forms of oppression, and with decolonial feminism, in an anti-capitalist,  
anti-cisheteropatriarchal, and anti-racist critique. The objective was to understand how the concept of  
intersectionality allows us to analyze the relationships between race, class, gender, and sexuality in Brazil,  
highlighting the articulations between various axes of domination in the theoretical production of these  
authors. The research adopts a qualitative-interpretative approach, in which intersectionality is configured  
simultaneously as an object of investigation and as a theoretical-methodological perspective. As a theme, it  
guides the analysis of the ways in which Black Brazilian women authors use it to understand the relationships  
1 Socióloga, advogada, especialista em educação, mestre e doutora em Sociologia. Professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais e mem-  
bro permanente do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Piauí. Coordena o núcleo de pesquisa e extensão Afrofem:  
Feminismos afrodiaspóricos, afrocentricidade e decolonialidade. E-mail: mariliapassos@ufpi.edu.br  
2 Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e  
Tecnologia do Piauí (IFPI). Membro do Núcleo de Pesquisa e Extensão Feminismos afrodiaspóricos, afrocentricidade e decelonialidade (AFROFEM) e  
do Núcleo de Estudos em Gênero e Desenvolvimento (ENGENDRE-UFPI). E-mail: jhenifferlopess@ufpi.edu.br  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
A INTERSECCIONALIDADE DESDE O BRASIL: TEIAS DE RESISTÊNCIA ENTRE  
O PENSAMENTO DE FEMINISTAS NEGRAS BRASILEIRAS  
Marília Passos Apoliano Gomes e Jhêniffer Lopes da Silva  
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between race, class, gender, and sexuality; as a method, it offers the critical lens that guides the comparative  
and relational reading of theoretical productions published between 2010 and the beginning of the 2020s.  
Keywords: Intersectionality; Black feminisms; Brazilian black women thinkers.  
RESUMEN  
Enestainvestigación,exploramoslainterseccionalidadenelcontextobrasileñoatravésdediálogosentreLélia  
Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, Juliana Borges y Letícia Nascimento. El marco  
teórico vincula a estas autoras con las epistemologías del Sur, con conocimientos y experiencias construidos  
en contraposición a las formas de opresión, y con el feminismo decolonial, en una crítica anticapitalista,  
anticisheteropatriarcal y antirracista. El objetivo fue comprender cómo el concepto de interseccionalidad  
permite analizar las relaciones entre raza, clase, género y sexualidad en Brasil, destacando las articulaciones  
entre diversos ejes de dominación en la producción teórica de estas autoras. La investigación adopta un  
enfoque cualitativo-interpretativo, en el que la interseccionalidad se configura simultáneamente como  
objeto de investigación y como perspectiva teórico-metodológica. Como tema, orienta el análisis de las  
formas en que las autoras negras brasileñas lo utilizan para comprender las relaciones entre raza, clase,  
género y sexualidad; como método, ofrece la perspectiva crítica que guía la lectura comparativa y relacional  
de las producciones teóricas publicadas entre 2010 y principios de la década de 2020.  
Palabras clave: Interseccionalidad; Feminismos negros; Pensadoras negras brasilenãs.  
1.  
INTRODUÇÃO  
Este artigo apresenta resultados de pesquisa realizada entre 2022 e 2024 sobre a influência de Lélia  
Gonzalez nas Ciências Humanas contemporâneas, com ênfase em seu papel pioneiro nas discussões sobre  
interseccionalidade e no feminismo negro diaspórico no Brasil. A pesquisa abrange os diálogos entre as  
produções de Gonzalez, entre os anos 1970 e 1980, e as obras de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla  
Akotirene, Juliana Borges e Letícia Nascimento, publicadas entre 2010 e o início dos anos 2020, compondo  
um panorama das análises brasileiras sobre desigualdades interseccionais. A pergunta que nos moveu foi:  
como essas autoras tratam as dinâmicas de opressão interseccional relacionadas à raça, classe, gênero,  
identidade de gênero e sexualidade no Brasil?  
A seleção das autoras seguiu dois critérios principais: primeiro, reunir teóricas brasileiras que discutem  
as condições de mulheres negras, cis e trans, em perspectiva crítica ao paradigma moderno-colonial, que  
historicamente deslegitima saberes negros; segundo, contemplar pensadoras cujas obras estão articuladas  
à sua atuação política, sem separar militância e produção acadêmica. Buscou-se também considerar a  
dimensão histórica: Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro compõem a primeira geração do feminismo negro  
brasileiro (1970-1990), enquanto Ribeiro, Akotirene, Borges e Nascimento representam uma geração mais  
recente, atuante a partir dos anos 2000. A correlação entre elas é evidenciada pela coleção Feminismos  
Plurais, organizada por Djamila Ribeiro, que inclui obras de Ribeiro (2017), Borges (2018), Akotirene (2019)  
e Nascimento (2021b).  
Com essa escolha, o objetivo foi compreender, no Brasil, a constituição do feminismo negro diaspórico,  
definido por Santos (2007) como um conjunto de práticas políticas e intelectuais desenvolvidas por  
feministas afrodescendentes, articulando gênero, raça, classe, identidade de gênero e sexualidade. Essa  
perspectiva nos convoca a repensar a própria noção das identidades, incorporando o debate sobre gênero e  
cisgeneridade, como propõe Letícia Nascimento (2021b), ao questionar a naturalização da mulher cis como  
sujeito universal do feminismo. Tal deslocamento epistêmico permite compreender as experiências de  
mulheres negras, trans e travestis como constitutivas das epistemologias de resistência, revelando o caráter  
metodológico e político da interseccionalidade: pensar a partir das encruzilhadas onde se cruzam opressões  
e possibilidades de reexistência.  
Essas formulações contemporâneas encontram suas raízes nas elaborações pioneiras de Lélia Gonzalez,  
que compreendia raça, classe e gênero como dimensões indissociáveis da dominação e da resistência.  
Compreendemos, assim, Gonzalez como precursora de uma leitura interseccional avant la lettre. Embora o  
termo “interseccionalidade” tenha sido cunhado por Kimberlé Crenshaw (1989) para discutir as múltiplas  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
A INTERSECCIONALIDADE DESDE O BRASIL: TEIAS DE RESISTÊNCIA ENTRE  
O PENSAMENTO DE FEMINISTAS NEGRAS BRASILEIRAS  
Marília Passos Apoliano Gomes e Jhêniffer Lopes da Silva  
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formas de subordinação das mulheres negras nos EUA, Gonzalez, já na década de 1970, criticava a tripla  
opressão estrutural vivida por mulheres negras e pobres no Brasil. Destaca-se que o conceito ganhou  
notoriedade acadêmica a partir de diversas vertentes do feminismo negro – estadunidense (Collins; Bilge,  
2016; Davis, 2016; hooks, 2019), afro-latino-americano e afro-caribenho decolonial (Curiel, 2007) – e, no  
contexto brasileiro, constitui também uma forma de crítica epistemológica e política à colonialidade do  
saber.  
Costuma-se associar à “terceira onda” do feminismo, nos anos 1990, o questionamento da categoria universal  
de “mulher”. Contudo, a crítica à ideia de uma experiência feminina homogênea já estava presente nas lutas  
das mulheres negras desde o século XIX, como evidencia o célebre discurso “E eu não sou uma mulher?”,  
de Sojourner Truth (1851). Tais formulações, retomadas e aprofundadas por autoras negras brasileiras  
contemporâneas, como Letícia Nascimento (2021b) e Yordanna Rêgo (2019), demonstram a atualidade  
das discussões inauguradas por Gonzalez sobre a impossibilidade de um sujeito feminino universal. Essas  
autoras, em diálogo com a tradição amefricanista e decolonial, expandem o alcance da interseccionalidade  
ao incorporar criticamente as questões de identidade de gênero e transfeminismo.  
É nessa direção que Letícia Nascimento (2021b) tensiona os limites da categoria “mulher” ao discutir  
corpo, identidade e dissidência de gênero. Para a autora, raça, classe e gênero não operam isoladamente,  
mas conformam um campo de poder no qual branquitude e cisgeneridade se tornam normas. Ao  
defender o transfeminismo, Nascimento amplia o debate de forma interseccional ao incluir experiências  
de mulheres negras, lésbicas, travestis, trans, gordas e com deficiência, denunciando como o racismo e o  
cisheteropatriarcado se articulam na produção das desigualdades contemporâneas. Essa reflexão dialoga  
com a análise de Yordanna Lara Pereira Rêgo (2019) sobre a afronecrotransfobia, processo através do qual  
o Estado e as estruturas de poder produzem a morte social e física de corpos negros, sobretudo de pessoas  
negras trans e travestis. Ao mesmo tempo, Rêgo evidencia que esses corpos forjam práticas de reexistência  
que desestabilizam a lógica necropolítica e reinscrevem a agência negra nas disputas pela humanidade.  
As autoras analisadas estruturam suas discussões em bases afrocentradas, articulando uma perspectiva  
histórica que evidencia como ideologias políticas e formas de dominação herdadas do período colonial  
sustentam desigualdades estruturais até o presente. Tais opressões se mantêm também pela normatividade  
da branquitude, entendida como lugar social e simbólico de privilégio racial historicamente construído,  
que opera como referência universal e invisibiliza hierarquias raciais em benefício dos sujeitos brancos  
(Schucman, 2014). Ao trazer a branquitude como categoria analítica, torna-se possível compreender como  
os discursos de neutralidade, universalidade e mérito sustentam desigualdades de raça, gênero e classe,  
fazendo da interseccionalidade um instrumento para desvelar esses mecanismos e reconhecer a branquitude  
como sustentáculo de poder e produção de privilégios.  
Ancoradas no pensamento dessas teóricas e inspiradas pela historiadora Silmária Reis (2024), defendemos  
a existência de uma “interseccionalidade desde o Brasil” ou “à brasileira”, cujas raízes remontam a  
Lélia Gonzalez. Essa noção sustenta a estratégia metodológica da pesquisa, que adota uma abordagem  
qualitativo-interpretativa e interseccional (Goldenberg, 2004), combinando análise bibliográfica e  
documental com leitura comparativa das trajetórias e produções das autoras. Mais que um procedimento  
analítico, a interseccionalidade constitui aqui um eixo epistemológico e político que orienta toda a reflexão,  
reconhecendo as opressões como estruturais e interdependentes (Akotirene, 2019; Collins; Bilge, 2016). Essa  
estratégia permitiu identificar aproximações e distanciamentos entre perspectivas teóricas, epistemológicas  
e políticas, aprofundando o diálogo entre diferentes gerações do feminismo negro brasileiro. Demarca-se,  
assim, que a interseccionalidade, mais do que um método, foi o ponto de partida para a leitura do mundo  
social.  
Ao tomar a interseccionalidade como lente analítica, o diálogo com o feminismo decolonial (Lugones, 2014;  
Vergès, 2020) torna-se incontornável, uma vez que ambos os referenciais denunciam o entrelaçamento das  
estruturas capitalistas, raciais e cisheteropatriarcais na produção das desigualdades que afetam de modo  
particular as mulheres negras, sobretudo trans e travestis. Nesse cenário, Lélia Gonzalez emerge como uma  
das vozes mais influentes da América Latina, cuja perspectiva amefricanista e crítica à colonialidade do saber  
constitui uma contribuição inovadora e decisiva ao feminismo diaspórico. Como afirma Sueli Carneiro,  
“quando Crenshaw chegou com esse debate da interseccionalidade, eu já estava com essa concepção  
consolidada de feminismo negro. Eu sou filhote de Lélia Gonzalez” (Carneiro, 2017, grifo nosso).  
Como veremos, a obra de Gonzalez ecoa e inspira as produções contemporâneas de feministas negras  
brasileiras, que, articulando-se a tradições teóricas de autores como Abdias do Nascimento (1978), Beatriz  
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Nascimento (2021a), Angela Davis (2016), bell hooks (2019), Patrícia Hill Collins (2016) e Frantz Fanon  
(2008), reafirmam a necessidade de compreender a interseccionalidade como ferramenta teórico-política  
fundamental na crítica às desigualdades e violências estruturais.  
2.  
LÉLIA GONZALEZ E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A DISCUSSÃO DA  
INTERSECCIONALIDADE  
Nas décadas de 1970 e 1980, Lélia de Almeida Gonzalez (1935–1994) formulou análises pioneiras sobre a  
cultura afro-latino-americana, o racismo e as desigualdades de gênero no Brasil. Graduada em História,  
Geografia e Filosofia, mestra em Comunicação e doutora em Antropologia, foi professora na Pontifícia  
Universidade Católica do Rio de Janeiro e a primeira a ministrar um curso sobre Cultura Negra no país, na  
Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nessa trajetória, destacou-se também como uma das fundadoras do  
Movimento Negro Unificado (1978) e do Coletivo de Mulheres Negras Nzinga (1983), iniciativas fundamentais  
para articular o feminismo negro no Brasil (Rios; Freitas, 2018).  
Embora anterior ao paradigma decolonial, sua obra expressa, segundo Silmária Reis (2024), uma  
“decolonialidade à brasileira”, que reúne múltiplas tradições anticoloniais e destaca Gonzalez e Beatriz  
Nascimento como vozes precursoras dessa perspectiva. Nos anos 1980, Lélia publicou ensaios fundamentais  
como “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, “Por um feminismo afro-latino-americano” e “A categoria  
político-cultural de amefricanidade”, nos quais articulou raça, classe e gênero para compreender as  
estruturas coloniais do pensamento e da sociedade brasileira. Esses textos foram inicialmente reunidos na  
coletânea Primavera para rosas negras, organizada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas (Gonzalez,  
2018), iniciativa essencial para manter viva sua obra em um contexto de silenciamento acadêmico, e  
posteriormente sistematizados por Flávia Rios e Márcia Lima na coletânea Por um feminismo afro-latino-  
americano (Gonzalez, 2020).  
Em 1982, a autora lançou Lugar de negro (Gonzalez; Hasenbalg, 2022), consolidando sua contribuição às  
ciências humanas, e, em 1987, escreveu Festas Populares no Brasil, obra publicada ainda em vida, porém  
em tiragem limitada e sem inserção no mercado editorial. Apenas em 2024 o livro se tornou acessível ao  
público, revelando uma profunda análise sobre as manifestações culturais afro-brasileiras como espaços de  
memória, resistência e recriação das identidades negras e indígenas (Gonzalez, 2024).  
Nessas obras, a autora criticou o sexismo no movimento negro, o racismo no feminismo hegemônico e o  
classismo do sindicalismo, demonstrando que as opressões não atuam de modo isolado, mas se entrecruzam  
de forma estrutural na vida das mulheres negras. Denunciou ainda o mito da democracia racial como  
ideologia que naturaliza essas hierarquias, sustentando a invisibilidade da dominação racial e de gênero.  
Em contraponto aos “intérpretes do Brasil”, como Oliveira Viana e Gilberto Freyre, Gonzalez questionou o  
elogio à mestiçagem e demonstrou que a formação nacional se deu por meio da violência do estupro colonial  
e da exploração de corpos negros e indígenas.  
Ao propor conceitos como amefricanidade (unidade cultural e política da diáspora negra), feminismo  
afro-latino-americano (de alcance transnacional) e pretuguês, Gonzalez criticou a razão logocêntrica e o  
racismo linguístico que hierarquiza modos de falar e exclui saberes populares. Com o pretuguês, denunciou  
a colonialidade da linguagem e afirmou o valor epistêmico das expressões afro-diaspóricas e periféricas,  
aproximando a produção científica da oralidade e da experiência cotidiana, o que contribui para a  
deselitização e a popularização da ciência no Brasil.  
Lélia Gonzalez antecipa a interseccionalidade ao demonstrar que a opressão das mulheres negras é  
produzida simultaneamente por estruturas raciais, sexuais, econômicas e culturais, as quais são impossíveis  
de se compreender separadamente. Para além dos mais conhecidos e já citados ensaios “Racismo e Sexismo  
na Cultura Brasileira”, “Por um feminismo Afro-Latino-Americano” e “A categoria Político-Cultural de  
Amefricanidade, nos textos “A mulher negra” e “Cultura, etnicidade e trabalho: efeitos linguísticos e políticos  
da exploração da mulher”, a autora evidencia que o capitalismo latino-americano é racialmente hierarquizado  
e sexualmente dividido, destinando às mulheres negras as posições mais precárias e invisibilizadas.  
Sua abordagem, que integra economia política, psicanálise e análise cultural, mostra que o racismo e o  
sexismo não apenas se somam, mas se reforçam mutuamente, definindo o lugar social da mulher negra.  
Isso porque o desenvolvimento desigual e os padrões específicos de integração social denotam a eficácia do  
sistema de superexploração de negras e negros na sociedade brasileira. É nesse entrecruzamento, no qual  
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raça, classe e gênero se tornam indissociáveis, que se encontra a antecipação de uma leitura interseccional  
da realidade brasileira.  
3.  
DIÁLOGOS ENTRE LÉLIA GONZALEZ E FEMINISTAS NEGRAS CONTEMPORÂNEAS  
Entendemos que, além de ser pioneira na evidência das desigualdades interseccionais, Gonzalez  
desempenhou um papel crucial na criação e no debate de categorias inovadoras, tais como: racismo por  
negação; amefricanidade; pretuguês; feminismo afro-latino-americano (abordagem tanto regional quanto  
transnacional) e tridimensionalidade das opressões, sofridas pelas mulheres negras pobres no Brasil. Desde  
1970, Lélia já abordava a tripla discriminação enfrentada por essas mulheres nos meios de comunicação,  
como novelas e publicidades (Gonzalez; Hasenbalg, 2022). A autora desenvolveu uma perspectiva  
interseccional e transdisciplinar, evidenciando a urgência de elaborar políticas públicas que considerassem  
a multidimensionalidade das opressões. Essa continua sendo uma pauta fundamental do feminismo  
diaspórico, com Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Juliana Borges, Carla Akotirene e Letícia Nascimento.  
Em diversas de suas reflexões, Gonzalez utiliza a imagem da mulher negra para analisar as manifestações  
de opressão e as ideologias políticas que perpetuam representações coloniais. Isso inclui o triplo estereótipo  
que limitava o lugar social da mulher negra no Brasil, a saber: a mulata, enquanto objetificação/sexualização  
da mulher negra, supostamente para atender o desejo masculino no cotidiano e em eventos extraordinários  
como o carnaval; a mãe-preta como a figura materna que cuidava e educava os filhos dos senhores no  
período escravocrata; e, por fim, a mucama, que, no período colonial, era a mulher escravizada que cumpria  
o serviço no lar, tarefas análogas ao que desempenham hoje as mulheres em trabalho doméstico. Gonzalez  
demonstrou que são representações essencialistas que simbolizam as maneiras pelas quais as mulheres  
negras foram e seguem sendo exploradas no Brasil. A análise da autora denuncia como esse imaginário  
continua a ser reproduzido no cotidiano, nas práticas e na indústria cultural, consolidando as desigualdades  
e violências atuais.  
A antropóloga fundamenta seu trabalho em Guerreiro Ramos, na análise das relações raciais e da identidade  
nacional, bem como em Abdias Nascimento e Beatriz Nascimento, na formulação de uma história escrita  
por mãos negras (Nascimento, 2021a), trazendo à tona verdades não escritas pela história hegemônica,  
desconstruindo estruturas de discriminação cultural e de desumanização das pessoas negras. Nesse mesmo  
escopo, Gonzalez dialoga com Frantz Fanon, que desenvolve uma proposta anticolonial para a Psicanálise,  
um dos paradigmas com que a autora mais trabalha, articulando Fanon com Sigmund Freud e Jacques Lacan.  
Analisamos a produção de Lélia Gonzalez a partir de três vertentes: 1) a abordagem anticolonial ou  
“decolonial à brasileira” (Reis, 2024), na crítica à visão eurocêntrica e autoproclamada neutra das ciências  
e do feminismo dominante no Ocidente; 2) a perspectiva psicanalítica, refletindo o interesse da autora pelas  
obras de Sigmund Freud, Frantz Fanon e Jacques Lacan, cruciais para sua compreensão do “racismo à  
brasileira” ou “racismo por denegação”; 3) abordagem interseccional, trazendo a complexidade das opressões  
de raça, classe e gênero, o que revela a originalidade de sua obra, mesmo antes da definição posterior do  
termo “interseccionalidade” por Crenshaw em 1989 (Ratts; Rios, 2010).  
A crítica de Lélia Gonzalez à razão colonial e logocêntrica, que hierarquiza os saberes e desqualifica aqueles  
produzidos fora do cânone eurocêntrico, encontra ressonância no pensamento de Letícia Carolina do  
Nascimento (2021b). Em sua formulação sobre o transfeminismo, Nascimento propõe o reconhecimento  
do corpo como dimensão constitutiva da produção de conhecimento, rompendo com a cisnormatividade  
e com o modelo abstrato e desincorporado de intelectualidade. Ao adicionar as necessárias reflexões sobre  
identidade de gênero e sexualidade, Nascimento amplia e atualiza o projeto de descolonização do saber  
defendido por Gonzalez, reafirmando que pensar a partir das margens negras, femininas, trans e periféricas  
é construir outras racionalidades possíveis. Vemos, assim, uma convergência entre Gonzalez e Nascimento  
na recusa à separação entre corpo e razão e na defesa de epistemologias situadas que insurgem contra o  
universalismo ocidental e reconhecem nas vivências subalternizadas potentes fontes de elaboração teórica  
e política.  
3.1 A oferenda analítica ancestral do feminismo negro, por Carla Akotirene  
Carla Akotirene, pesquisadora baiana, assistente social e doutora em Estudos Interdisciplinares sobre  
Mulheres, Gênero e Feminismo, no início de seu livro Interseccionalidade (2019), demarca a influência  
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teórica e política de Gonzalez (2020) em seu pensamento e na promoção do pretuguês brasileiro – categoria  
que trata da influência africana no português falado no Brasil – e na luta anticolonial relacionada à definição  
do que constitui conhecimento legítimo. Na citada obra, Akotirene define interseccionalidade como uma  
encruzilhada de diversas estruturas, uma “oferenda analítica ancestral” preparada pelas feministas negras  
para alimentar aqueles que são vistos como “Outros”, em processos de desumanização (Fanon, 2008;  
Carneiro, 2023). Ela lembra que, muito antes do termo ser criado, as feministas negras já compreendiam  
a “encruzilhada das avenidas identitárias” que a abordagem representa, unindo-se em suas lutas e  
desenvolvendo coletivamente formas de resistência que se distanciam das abordagens liberais do feminismo  
branco dominante no enfrentamento dos efeitos do patriarcado. Trata-se de um conceito que permite uma  
compreensão mais abrangente, superando as narrativas simplistas de classe, raça, gênero, sexualidade e  
nacionalidade.  
Akotirene e Ribeiro (2017) defendem que a proposta política e epistemológica da interseccionalidade já  
estava presente na primeira onda do feminismo, nas vozes das ativistas negras. Além disso, a necessidade de  
analisar de forma combinada raça, classe e gênero também estava nas autoras da chamada segunda onda,  
com hooks (2019) e Lorde (1983). Diferentemente do que alguns apregoam, a exemplo da socióloga francesa  
Daniele Kergoart, o feminismo negro não traz cisões ou hierarquia de desigualdades. Pelo contrário, como  
afirmam Angela Davis e Audre Lorde, ele propõe justamente que o discurso de “primazia” de opressões seja  
abandonado. O que trouxe o feminismo negro foi a exigência de um novo marco civilizatório, expandindo  
noções anteriores de justiça baseadas na simples distributividade econômica. As existências e resistências  
das mulheres negras sempre existiram na história, porém as fortes demarcações sociais que lhes negavam o  
status de sujeitos de direitos, sujeitos históricos e produtores de conhecimento de si e do mundo promoveram  
forte silenciamento e invisibilização destas mulheres na historiografia feminista hegemônica.  
3.2 Pensar localizado e enegrecer o debate a partir de Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro  
Outra pesquisadora de grande relevância no feminismo negro brasileiro é a filósofa, escritora e ativista  
Sueli Carneiro, fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Carneiro é doutora em Filosofia, com a  
tese A construção do outro como não-ser como fundamento do ser (2005), publicando ainda Mulheres negras e  
poder: um ensaio sobre a ausência (2009) e o livro Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil (2011). Carneiro  
discute e propõe políticas públicas eficazes que considerem os variados segmentos da população, com suas  
dimensões históricas, culturais e raciais, destacando a necessidade de desconstruir a ideia da democracia  
racial que fundamenta a ideologia meritocrática, pois essa narrativa esconde a realidade de que a formação  
histórica do Brasil não é de harmonia racial.  
Para a autora, a premissa de que havia uma democracia racial e igualdade formal disfarçou os reais modos  
de inclusão do povo negro na sociedade após a abolição da escravatura. A autora tem alertado que o Estado  
brasileiro persiste na adoção de políticas públicas com enfoque universal, abrangendo áreas como educação,  
saúde e cultura, e alocando recursos e iniciativas para grupos inteiros, em vez de abordagens segmentadas.  
As políticas direcionadas especificamente para a população negra ou para a saúde de mulheres lésbicas e  
homens trans, por exemplo, são exceções.  
Considerando as profundas desigualdades sociais, que são interseccionais, Carneiro ressalta a necessidade  
de implementar políticas setoriais específicas, que geralmente contrastam com a gestão atual do Brasil.  
Apesar disso, as contribuições da autora não se reduzem à proposição de políticas interseccionais. Em sua  
tese, a autora tematiza o processo da desumanização das pessoas racializadas, o que leva grande parte da  
sociedade a invisibilizar e naturalizar essas desigualdades (Carneiro, 2023).  
Um exemplo do que denuncia Carneiro é a alta taxa de letalidade entre os jovens no Brasil, um fenômeno que  
possui forte marcação racial, permitindo afirmar a ocorrência de genocídio da juventude negra. De acordo  
com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2023 em relatório da Anistia Internacional, 99% dos  
homicídios cometidos pela polícia tiveram como vítimas homens, dos quais 84% eram negros e 52% tinham  
menos de 25 anos (Anistia Internacional, 2023). Outro aspecto importante é o crescimento dos casos de  
feminicídio no país. Segundo o mesmo relatório, em 2023 se observa uma verdadeira escalada na violência  
contra as mulheres.  
No primeiro semestre de 2022, foram registrados 699 feminicídios, violência que não afeta igualmente as  
mulheres. Esse relatório aponta que 62% das vítimas eram negras, reforçando as conclusões de diversos  
estudos, como o de Paiva (2024). As pesquisas mostram que é fundamental considerar a perspectiva  
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racial nas políticas públicas de segurança, tanto para a prevenção quanto para o enfrentamento desse tipo  
de violência. Além disso, os dados sobre transfeminicídio no Brasil reforçam a urgência dessa ampliação  
analítica: em 2023 foram registrados 145 assassinatos de pessoas trans e 10 suicídios após violência ou  
invisibilidade, segundo o 7º Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA).  
Desse modo, as políticas de enfrentamento à violência de gênero e racial precisam considerar que os  
feminicídios e os transfeminicídios são expressões interligadas de sistemas opressivos que atravessam raça,  
gênero, classe, identidade de gênero e sexualidade, conforme lembram Nascimento (2021b) e Rêgo (2019).  
Sueli Carneiro ressalta que, enquanto não se alcançar uma compreensão teórica e política clara sobre as  
intersecções das opressões de raça, classe e gênero no Brasil, o Estado continuará a elaborar e implementar  
políticas universalistas que se mostram ineficazes para aqueles que enfrentam as maiores vulnerabilidades,  
como é o caso das mulheres negras e de baixa renda.  
Carneiro sugere que devemos “enegrecer” o debate, destacando a força do feminismo negro na luta contra  
o racismo, o sexismo e o capitalismo de maneira integrada, relacionada à busca por direitos humanos que  
promovam liberdade e igualdade, evitando a objetificação dos corpos negros no contexto do colonialismo.  
A autora ressalta que, desde a infância, a população negra enfrenta a discriminação racial, sendo a escola o  
ponto de partida desse processo. Essas experiências se transformam em situações mais graves com o passar  
do tempo.  
Muitos meninos e meninas lidam com uma realidade social marcada pela violência, enfrentando diversas  
formas de alienação que contribuem para a formação de ideias que os afastam da chance de imaginar  
um futuro em que a mobilidade social é possível. Essa realidade é ainda mais acentuada para as mulheres  
negras, como aponta Gonzalez: a combinação da exclusão racial com práticas sexistas agrava a exploração  
e opressão que essas mulheres enfrentam, e, junto a fatores socioeconômicos, restringe significativamente  
suas oportunidades de ascensão.  
Carneiro (2011) enfatiza os significativos efeitos da desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho  
do Brasil, evidenciando a escassez de mulheres e pessoas negras em posições elevadas nas instituições  
públicas e privadas. No contexto brasileiro, as mulheres negras representam uma coletividade que ocupa a  
base da pirâmide social, sendo o grupo mais marginalizado, enfrentando opressão de diversas origens. Esse  
grupo é não apenas o mais mal pago, mas também o que se encontra em maior situação de vulnerabilidade  
social. Sendo o trabalho essencial para a manutenção da vida e com acessos extremamente desiguais, essa  
exclusão do mercado laboral configura uma negação de cidadania.  
Assim, entendemos que a estrutura do racismo obstaculiza a concretização dos direitos fundamentais e  
garante a continuidade das hegemonias e da subalternidade racial. Alinhando-se a Gonzalez, Carneiro propõe  
a urgência de incluir a perspectiva negra nas discussões, visando desenvolver estratégias que fortaleçam os  
direitos da população negra. As duas autoras corroboram a visão de que as mulheres negras e em situação  
de pobreza enfrentam opressões interligadas, resultantes das desigualdades de raça, classe e gênero, que se  
entrelaçam e tornam a realidade ainda mais complexa, refletindo as estruturas das desigualdades sociais do  
país.  
Por essa razão, a abordagem da amefricanidade, proposta por Gonzalez, revela-se fundamental. Ela sugere  
a necessidade de descolonizar a forma como enxergamos a formação sociohistórica e cultural da Améfrica  
Ladina, cuja narrativa ainda é predominantemente moldada pela perspectiva do colonizador, criando uma  
distância, mesmo nas vivências que nos conectam aos outros países dessa região. Essa abordagem traz uma  
nova compreensão sobre a luta da população afrodescendente diante do imperialismo europeu e norte-  
americano, ressaltando a importância e o protagonismo dos grupos negros e indígenas na formação do  
Brasil e de outros territórios.  
A manutenção das desigualdades interseccionais depende da continuação das crenças na democracia  
racial e na meritocracia, impedindo transformações estruturais, como a melhoria das condições de vida da  
população negra no Brasil. Gonzalez (2020) e Carneiro (2011) reconhecem que, junto a essas ideologias,  
há processos interligados e intricados de desumanização e silenciamento, bem como uma resistência a  
mudanças estruturais. Trata-se da negação do racismo brasileiro, que, ancorada no mito da democracia  
racial, ao mesmo tempo em que exalta uma suposta “cultura nacional”, rejeita as raízes culturais africanas  
e indígenas da identidade brasileira. Esse processo Gonzalez nomeia como “racismo por denegação” ou  
“racismo à brasileira”, uma neurose coletiva que atua como um mecanismo de disfarce das desigualdades,  
performando coletivamente uma suposta harmonia brasileira nas relações raciais.  
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Gonzalez traz ainda o conceito lacaniano de infans (aqueles que não têm voz) para se referir a pessoas que  
são objeto de discurso, mas não têm a oportunidade de se expressar. Isso não ocorre por falta de desejo, mas  
porque são silenciadas por aqueles que se consideram autorizados a falar em seu nome. O silenciamento gera  
uma infantilização e uma negação da plena humanidade. Como Lélia destacava, a população negra no Brasil  
sempre foi representada a partir de uma ótica branca, patriarcal e capitalista. Devido à desumanização e à  
exploração de diversas formas, seu pensamento, sua cultura e sua voz foram desconsiderados por séculos,  
estando sujeitos a uma ideologia de pacificação sustentada pelo mito da democracia racial, de modo que é  
essencial tomar as rédeas de sua própria narrativa.  
Lembramos que o legado colonial, que continua a atuar como uma colonialidade que afeta o ser, o saber  
e o poder (Quijano, 2005), tem colocado as pessoas negras na posição de “Outro”, aquele que é descrito a  
partir de um suposto “eu” universal, caracterizado como branco, cristão e cisheteropatriarcal. A proposta  
da Amefricanidade sugere que as análises levem em conta as opressões de maneira interligada e sejam  
fundamentadas nos feminismos negros, criando suas narrativas únicas. Nesse contexto, Gonzalez estabelece  
um diálogo com Simone de Beauvoir (1960), filósofa francesa que argumenta que as mulheres foram vistas  
como o “Outro” em relação aos homens, compreendidas enquanto o que falta aos homens, definidas como  
um “Outro absoluto ou universal”. Gonzalez refuta essa ideia, afirmando que não há uma “mulher universal”,  
pois as experiências das mulheres negras diferem significativamente das vivências das mulheres brancas.  
Dessa forma, a abordagem interseccional fundamenta-se no feminismo diaspórico, representando sujeitos  
em coletividade que, ao longo da história, foram vistas como os “Outros dos Outros”, negadas de humanidade  
e voz: infans, de acordo com a análise de Gonzalez. As mulheres que compõem esse grupo não o fazem por  
uma essência inata, mas por relações sociais estabelecidas ao longo do tempo, enfrentando uma “dupla  
ausência” de poder (Kilomba, 2019): ao não serem brancas nem homens, elas se opõem tanto à branquitude  
quanto à masculinidade, criando um terceiro espaço onde é ainda mais desafiador estabelecer reciprocidade  
e empatia, ao que recordamos a solidão da mulher negra e a fala de Sojourner Truth (“E eu não sou uma  
mulher?”, Truth apud hooks, 2019). Elas são objeto de discursos, mas raramente têm a oportunidade de se  
pronunciar, o que torna essencial a realização de pesquisas que partam de suas perspectivas, experiências  
e vivências. Essas experiências não são universais, mas profundamente enraizadas nas identidades e nos  
contextos socialmente construídos, que, muitas vezes, são erroneamente considerados como “neutros” ou  
“naturais”.  
Nesse sentido, o conceito de infans em Gonzalez, que denuncia a negação da voz e da humanidade, dialoga  
diretamentecomodispositivoderacialidadeformuladoporSueliCarneiro(2005),noqualonegroéconstruído  
como “não ser” diante de um “eu” branco universal. As autoras revelam como o processo de desumanização  
opera também no campo do conhecimento, produzindo o epistemicídio: a eliminação simbólica e material  
dos saberes negros e indígenas, que sustenta a colonialidade do poder e do saber. Ao articularem corpo, voz  
e conhecimento como dimensões inseparáveis, Gonzalez e Carneiro afirmam a urgência de uma política do  
enegrecimento do saber, que recupere as memórias e epistemes silenciadas pela modernidade colonial.  
3.3 Lugar de fala para existir: a potência da fala enquanto resistência ao epistemicídio  
Nesta reflexão sobre interseccionalidade, é importante incluir Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e  
pesquisadora. Ela tem desempenhado um papel fundamental na edição e circulação de estudos relacionados  
ao antirracismo, principalmente por meio da curadoria da coleção Feminismos Plurais, que busca expandir  
os debates para além do âmbito acadêmico. Na obra “O que é lugar de fala?”, Ribeiro não se anuncia autora  
do conceito e resgata de maneira cuidadosa aspectos históricos e políticos, argumentando que essa noção  
deve ser abordada a partir da perspectiva feminista:  
Não poder acessar certos espaços acarreta em não se ter produções e epistemologias desses grupos nesses espaços; não poder  
estar de forma justa nas universidades, meios de comunicação, política institucional, por exemplo, impossibilita que as vozes  
dos indivíduos desses grupos sejam catalogadas, ouvidas, inclusive, até de quem tem mais acesso a internet. O falar não se res-  
tringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. [...] Quando falamos do direito à existência digna, à voz estamos falando de  
locus social, de como esse lugar imposto dificulta a possibilidade de transcendência. (Ribeiro, 2017, p. 66)  
Impedir alguém de se expressar ou agir como se estivesse ouvindo essa pessoa, sem de fato ouvir, é, na  
prática, privá-la do direito a uma vida digna. Nesse contexto, o termo “lugar” se refere a uma posição social  
determinada pelas hierarquias e pelas diferenças marcadas que existem na sociedade. A fala vai muito além  
de simplesmente formar frases, conforme destaca Ribeiro, pois expressar-se é uma forma de existir, resistir  
e reexistir. Em um país onde a população negra e jovem enfrenta genocídio, Ribeiro enfatiza que ter voz é  
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uma forma de manter-se vivo. Isso implica garantir que as falas sejam escutadas e levadas em consideração,  
promovendo, por exemplo, a criação de políticas públicas que combatam as desigualdades e melhorem as  
condições de vida da população negra no Brasil.  
Embora Gonzalez não mencione diretamente a expressão “lugar de fala” em seus ensaios, Ribeiro reconhece  
nela um caráter pioneiro na discussão e análise desse tema. É importante notar que, em diversos escritos,  
Gonzalez tem por mote a declaração de Millôr Fernandes de que no Brasil “não existe preconceito de  
cor porque aqui o negro conhece o seu lugar”. Diante disso, é significativo que a obra de Djamila Ribeiro  
(2017) comece com uma citação de Gonzalez em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, ressaltando a  
importância de que as mulheres negras reivindiquem sua própria voz.  
E o risco que assumimos aqui é o ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sidos falados, infantilizados  
(infans é aquele que não tem fala própria, é a criança se que fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que nesse tra-  
balho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa. (Gonzalez, 2020, p. 77-78, grifo nosso)  
Assim, o lugar de fala em Ribeiro pode ser compreendido como a atualização política do gesto teórico de  
Gonzalez: ambas reivindicam o direito de falar por si, rompendo o silêncio imposto aos sujeitos infans, aqueles  
historicamente citados, mas não ouvidos. Tal gesto não é apenas discursivo, mas epistêmico, pois insurge  
contra o epistemicídio, que nega à população negra o estatuto de produtora de conhecimento. Djamila  
Ribeiro destaca a relevância da descolonização do saber e da promoção e disseminação de epistemologias  
afrocentradas, que possuem uma longa trajetória histórica. Ela questiona a alegada neutralidade da ciência  
moderna ocidental, uma visão igualmente defendida por Gonzalez nas décadas de 1970 e 1980.  
Ribeiro também sugere a desconstrução da amplamente aceita teoria da democracia racial, que sustenta a  
ideia de meritocracia no imaginário coletivo, frequentemente legitimando e exacerbando as consequências  
das desigualdades e os efeitos do racismo. Nas obras de Ribeiro e de Gonzalez, há uma forte indicação da  
urgência em desenvolver estratégias de resistência não apenas contra o racismo, mas igualmente contra  
uma variedade de formas de exploração e opressão que buscam deslegitimar a existência, os conhecimentos,  
as narrativas e as vozes da população negra.  
O importante enfoque de Gonzalez destaca que as pessoas negras têm enfrentado processos de infantilização  
e “outrificação”. Para um entendimento mais profundo do fenômeno da “outrificação”, sugerimos a obra da  
filósofa Sueli Carneiro, que nos instiga a refletir sobre temas como a racialidade, o epistemicídio, a ilusão da  
democracia racial, o feminismo negro e os direitos humanos, por exemplo. Recentemente, a autora lançou o  
livro “Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser” (2023), em  
que analisa diferentes mecanismos de poder imbuídos de racialização. Em suma, o dispositivo da racialidade  
estabelece uma divisão entre os brancos (o “Eu”), que se percebem como neutros ou como não-raça, e os não-  
brancos, aqueles/as vistos/as como racializados/as, nos quais se marca um “outro” que ocupa uma posição  
inferior e desumanizada. Assim, o Eu-branco se inscreve enquanto ideal e o Outro-racializado é subjugado e  
negado a sua existência (Carneiro, 2023).  
Para Carneiro, a outrificação é arraigada na mentalidade colonial e eurocêntrica, que impõe a assimetria  
colonizador-colonizado, designando o “eu” hegemônico em status de ascensão hierárquica e social em  
oposição ao “outro”, rebaixado a categorias não-humanas. Ocorrem também as práticas de epistemicídio e de  
forte naturalização de supostas diferenças biológicas entre brancos e negros, que colocam a população negra  
em posições de duplo e até mesmo triplo trabalho, pois estão nessa posição concreta de desumanizados/as, o  
que ocorre até hoje. No Brasil, a igualdade formal garantida em lei contrasta com as profundas desigualdades  
raciais, de classe e gênero que estruturam o cotidiano.  
O epistemicídio opera como mecanismo de destruição dos saberes daqueles e daquelas que são lidos  
como outros/as, anulados/as enquanto sujeitos produtores de saber, impulsionando a toada colonial que  
sustenta a ideologia do discurso hegemônico branco. Tal análise em Sueli Carneiro dialoga intensamente  
com a abordagem de Lélia Gonzalez (1984) sobre a produção de infans, isto é, o sujeito invalidado enquanto  
alguém a ter direitos, aquele que assume a posição de sujeito “outro” do qual se fala. Assim, a harmonia  
social funciona como uma cortina que cobre apenas superficialmente a divisão racial existente no Brasil,  
mascarando a opressão interseccional sofrida há séculos pelo povo negro, sendo este o ponto em que a  
neurose cultural brasileira se manifesta.  
Gonzalez explicita que é por meio dessa neurose coletiva que se ocultam práticas individuais e coletivas  
de discriminação racial, acobertadas pela reiterada negativa do racismo, o que, de maneira estrutural e  
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sintomática, fragiliza o cenário brasileiro, propiciando múltiplas formas de violências direcionadas ao povo  
negro. Afinal, como se sabe, apesar de que muitos neguem, “um dos mecanismos mais cruéis da situação do  
negro brasileiro na força de trabalho se concretiza na sistemática perseguição, opressão e violência policial  
contra ele” (Gonzalez, 2020, p. 46). Sendo esta uma das inúmeras formas de opressão, é fazendo uso da  
violência nas suas diferentes esferas que o Estado permite a perpetuação das desigualdades interseccionais.  
3.4 Pensando o encarceramento em massa brasileiro em uma perspectiva interseccional  
Juliana Borges, antropóloga de São Paulo com especialização em política criminal e relações raciais, é  
cofundadora da Articulação Interamericana de Mulheres Negras na Justiça Criminal/Núcleo Brasil. Borges  
se identifica como uma feminista antipunitivista e antiproibicionista e escreveu duas obras fundamentais  
sobre o tema: O que é encarceramento em massa? (2018) e Prisões: espelhos de nós (2020). Em seus livros,  
Borges ressalta que as prisões no Brasil representam um mecanismo de encarceramento em massa que afeta  
particularmente a população negra jovem, refletindo um novo tipo de aprisionamento que evoca os horrores  
da escravidão. Ela destaca que as instituições prisionais não tratam todos os indivíduos de forma equitativa,  
sendo notadamente mais severas com aqueles identificados como “racializados”, ou seja, não brancos, como  
se a branquitude não fosse uma categoria racial.  
Nessas estruturas, ocorre a restrição de território e a limitação da liberdade da população negra, com os  
corpos negros sendo vistos como os principais alvos de controle e punição. A situação é alarmante, já que o  
Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo, com 64% desse total composto por indivíduos  
negros. Além disso, ao incorporar a análise de gênero, Borges enfatiza a importância da interseccionalidade  
na compreensão desse fenômeno e na busca por soluções e pela construção de um novo paradigma  
civilizatório.  
A autora, com isso, destaca o aspecto fundamental da interseccionalidade à luz de seus estudos voltados ao  
sistema judiciário e prisional brasileiro, fazendo uso da categoria para analisar como o sistema penal atua  
desumanizando corpos racializados. Ela enfatiza como a categoria analítica é essencial para a formulação  
de projetos estratégicos que possibilitem construir outras possibilidades, a partir de medidas direcionadas  
a mulheres negras em situação de cárcere, por exemplo. Juliana Borges aponta que as mulheres são  
profundamente impactadas, tanto por estarem em situação de privação de liberdade (totalizando 37.380),  
quanto pelos efeitos decorrentes do encarceramento de seus familiares. Portanto, ao considerar as mulheres  
negras nas prisões, é essencial analisar os dados de forma cruzada para captar a complexidade desse  
fenômeno.  
Borgesrefere-seaumarealidadecontemporânea,pós-ConstituiçãoFederalde1988,achamadaConstituição  
cidadã”, que trouxe o princípio da igualdade descrito no artigo 5º: somos todos iguais perante a lei. Porém,  
vemos que se trata de um imperativo de igualdade formalista e liberal, que não constitui a materialidade  
da igualdade nas condições de vida. A despeito do princípio da igualdade, o Estado no Brasil promove  
necropolítica, uma vez que ensina e promove a perseguição policial contra a população negra. Nessa ordem  
e com inúmeros dispositivos de racialidade (Carneiro, 2023), seriam então os negros e negras considerados  
“não humanos”, logo sem direitos humanos e civis. Isso entra em total dissonância com a harmonia social  
que o mito da democracia racial afirma existir no Brasil, porém é apenas uma aparente contradição, pois está  
estruturada na sólida ordem racista e cisheteropatriarcal que não pode ser dita, razão pela qual Gonzalez  
trata o fenômeno como “racismo por denegação”.  
5. CONCLUSÃO  
Todas as autoras, em consonância com Lélia Gonzalez (2020), além de reconhecerem suas ancestrais  
teóricas e políticas, lembram da necessidade de não hierarquizar as opressões. Assim sendo, é evidente que a  
questão racial é um dos fatores primários da desigualdade social brasileira, somando-se às desigualdades de  
classe, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade e outras. Nesse sentido, a discussão racial não pode  
ser colocada de lado na formulação de estratégias para a implementação de políticas públicas que visem  
assegurar minimamente um caráter equitativo. Para tal, como bem discutido por Sueli Carneiro, é preciso  
que se revise de forma crítica o aspecto universalista adotado pelo Estado e que sejam construídas políticas  
de forma segmentada, a fim de perceber os pontos que estruturam as desigualdades no Brasil em seu aspecto  
interseccional, pensando raça, classe, gênero e os demais marcadores e vulnerabilidades existentes em cada  
contexto.  
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Concordando com Carneiro, Ribeiro e Akotirene, pensamos que o feminismo negro/diaspórico já nasce  
falando de interseccionalidade, sendo esta uma fundação teórica e política de muitas mulheres, ativistas e  
intelectuais negras ao longo da história, dentro e fora do campo acadêmico. Essa discussão já estava presente  
em Sojourner Truth (1851) e em outras mulheres desde a primeira onda do feminismo, de forma precursora,  
porém tolhidas, com suas vozes silenciadas e tornadas “infans”, como vimos em Lélia Gonzalez.  
O feminismo diaspórico compreende a união entre pensamento e prática, análise e resistência, sem a  
separação moderno-colonial entre corpo e mente, rejeitando as dualidades/oposições endossadas pelo  
modelo científico ocidental. Trata-se de um feminismo antirracista inspirador e comprometido com a  
prática (práxis), observável em hooks, Truth, Gonzalez, Carneiro, Ribeiro, Nascimento, Borges e Akotirene.  
Assim, defendem as autoras aqui analisadas que é paradoxal descolar a crítica interseccional da crítica à  
colonialidade moderno-ocidental e/ou eleger opressões prioritárias (como a de classe), desconsiderando  
que algumas opressões derivam justamente da colonialidade.  
Dessa forma, o descolamento crítico que alguns propõem, a exemplo de Danièle Kergoat, é contrário  
ao próprio conceito de interseccionalidade. Desse modo, a pesquisa buscou contribuir para ampliar o  
conhecimento que se tem dessas importantes autoras que compõem a matriz do feminismo diaspórico  
brasileiro, intelectuais que denunciam há décadas a situação da mulher negra no Brasil e a necessidade de  
políticas públicas voltadas especificamente para elas, no sentido da equidade e da justiça social.  
Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, Letícia Nascimento e Juliana Borges são  
destacadas intelectuais negras que promovem uma discussão profunda e relevante sobre a realidade do  
povo negro brasileiro, com ênfase especial nas múltiplas camadas de opressão e desigualdade enfrentadas  
pelas mulheres negras, cis e trans. Essas autoras não oferecem apenas uma análise crítica das estruturas  
sociais e raciais do Brasil, que perpetuam a injustiça, mas também desafiam o status quo, propondo novas  
formas de resistência e empoderamento.  
É necessário que suas obras sejam amplamente lidas e discutidas em diversos espaços, tanto acadêmicos  
quanto comunitários, pois o letramento racial é uma condição vital para que a sociedade brasileira avance  
em direção a uma convivência mais justa e equitativa. Somente por meio do reconhecimento e da valorização  
das vozes dessas intelectuais, bem como de outras e outros intelectuais negros e negras, poderemos construir  
um futuro em que a igualdade seja uma realidade concreta.  
Acreditamos que, a partir de estudos como este, é possível estimular o debate e a construção de um espaço  
de aprendizagem mais dialógico e menos racista e menos cisheteropatriarcal. Esperamos contribuir, ainda  
que de forma indireta, para a construção de um novo espaço de educação e de ensino-aprendizagem, no qual  
haja a ampliação das discussões sobre as tentativas de subalternização da mulher negra ao longo da história  
e seus reflexos no contexto atual.  
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Data de submissão: 11/06/2025  
Data de aceite: 11/11/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
SILENCIAMENTO E RESISTÊNCIA: LÉLIA GONZALEZ  
E O APAGAMENTO EPISTEMOLÓGICO DE  
INTELECTUAIS NEGRAS NO  
PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO  
Lélia Gonzalez and the Amefrican-Based Social Democracy:  
Resistance and Legacy in Brazilian Social Thought  
Lélia Gonzalez y la democracia social de base amefricana:  
resistencia y legado en el pensamiento social brasileño  
1
IZABELE CAROLINE DO NASCIMENTO CANARIO  
ORCID: 0009-0001-1654-6396  
RESUMO  
Este artigo propõe uma análise crítica da ideia de Brasil a partir da obra de Lélia Gonzalez, intelectual negra  
cuja contribuição teórica permanece marginalizada nos cânones das Ciências Sociais. Movido por um  
incômodo político-epistêmico, o estudo mobiliza os conceitos de epistemicídio (Carneiro, 2005), racismo  
epistêmico (Grosfoguel, 2016) e a categoria de amefricanidade (Gonzalez, 1988), com o intuito de tensionar  
os limites da teoria social dominante. A pesquisa, de caráter qualitativo, articula a análise de conteúdo das  
obras da autora com a leitura crítica de textos que denunciam a colonialidade do saber. Mais do que evidenciar  
silenciamentos, o artigo enfatiza a resistência e o legado de Gonzalez, propondo, como contribuição original,  
a noção de democracia social de base amefricana, que desloca a ideia de democracia dos marcos liberais e  
institucionais para práticas enraizadas na ancestralidade, nas redes de cuidado e na centralidade da mulher  
negra como sujeito político. O objetivo é reivindicar Gonzalez como autora clássica do pensamento social  
brasileiro e afirmar a urgência de epistemologias negras, situadas e insurgentes, comprometidas com a  
reconstrução do país desde as margens.  
Palavras-chave: Lélia Gonzalez; Amefricanidade; Democracia social de base amefricana;  
Epistemologias negras; Pensamento social negro.  
ABSTRACT  
This article proposes a critical analysis of the idea of Brazil through the work of Lélia Gonzalez, a Black  
intellectual whose theoretical contribution remains marginalized within the canons of Social Sciences.  
Motivated by a political-epistemic unease, the study mobilizes the concepts of epistemicide (Carneiro, 2005),  
epistemic racism (Grosfoguel, 2016), and the category of Amefricanity (Gonzalez, 1988) to challenge the  
limits of dominant social theory. The qualitative research combines content analysis of Gonzalez’s writings  
with a critical reading of texts that denounce the coloniality of knowledge. More than exposing silencing,  
the article emphasizes Gonzalez’s resistance and legacy, proposing as its original contribution the notion  
of an Amefrican-based social democracy, which shifts the idea of democracy from liberal and institutional  
frameworks to practices rooted in ancestry, networks of care, and the centrality of Black women as political  
1 Mestranda em Ciências Sociais pela (UFBA), orientada pela Profª Dra. Paula Barreto. Integra o grupo de pesquisa “Programa A Cor da Bahia –  
Programa de Pesquisa e Formação sobre Relações Raciais, Cultura e Identidade Negra na Bahia”. Pesquisa pensamento social negro, com foco na  
obra de Lélia Gonzalez. Tem interesse nas áreas de relações raciais, epistemologias negras, feminismo negro e produção de conhecimento decolonial.  
E-mail: izabelecanario@gmail.com  
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SILENCIAMENTO E RESISTÊNCIA: LÉLIA GONZALEZ E O APAGAMENTO  
EPISTEMOLÓGICO DE INTELECTUAIS NEGRAS NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO  
Izabele Caroline do Nascimento Canario  
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subjects. The goal is to reclaim Gonzalez as a classic author of Brazilian social thought and to affirm the  
urgency of Black, situated, and insurgent epistemologies committed to reconstructing the country from the  
margins.  
Keywords: Lélia Gonzalez; Amefricanity; Amefrican-based social democracy; Brazilian social  
thought; Black epistemologies.  
RESUMEN  
Este artículo propone un análisis crítico de la idea de Brasil a partir de la obra de Lélia Gonzalez, intelectual  
negra cuya contribución teórica sigue siendo marginada en los cánones de las Ciencias Sociales. Movido por  
una incomodidad político-epistémica, el estudio moviliza los conceptos de epistemicidio (Carneiro, 2005),  
racismo epistémico (Grosfoguel, 2016) y la categoría de amefricanidad (Gonzalez, 1988), con el objetivo de  
tensionar los límites de la teoría social dominante. La investigación, de carácter cualitativo, articula el análisis  
de contenido de las obras de la autora con una lectura crítica de textos que denuncian la colonialidad del saber.  
Más que evidenciar silenciamientos, el artículo enfatiza la resistencia y el legado de Gonzalez, proponiendo  
como contribución original la noción de una democracia social de base amefricana, que desplaza la idea de  
democracia de los marcos liberales e institucionales hacia prácticas enraizadas en la ancestralidad, las redes  
de cuidado y la centralidad de la mujer negra como sujeto político. El objetivo es reivindicar a Gonzalez como  
autora clásica del pensamiento social brasileño y afirmar la urgencia de epistemologías negras, situadas e  
insurgentes, comprometidas con la reconstrucción del país desde los márgenes.  
Palabras-clave: Lélia Gonzalez; Amefricanidad; Democracia social de base amefricana; Pensamiento  
social brasileño; Epistemologías negras.  
1
INTRODUÇÃO  
Por que Lélia Gonzalez não está entre os nomes considerados clássicos da teoria social brasileira? Como é  
possível que, mesmo após décadas de contribuições fundamentais para compreender a cultura, o racismo,  
a política e as desigualdades no país, seu nome permaneça frequentemente ausente das salas de aula, das  
ementas, dos currículos e das discussões centrais das Ciências Sociais? Este trabalho nasce desse incômodo  
intelectual, político e existencial.  
Essa ausência não é casual. Trata-se do que Carneiro (2005) denomina epistemicídio: o apagamento  
sistemático da produção intelectual de sujeitos negros, excluídos do que se reconhece como conhecimento  
válido. Grosfoguel (2016) amplia essa compreensão ao discutir o racismo epistêmico, uma hierarquia global  
que define não apenas o conteúdo, mas também os corpos e territórios autorizados a produzir saber. A  
exclusão de Gonzalez do cânone sociológico brasileiro não é apenas um erro de omissão; ela evidencia a  
persistência de estruturas coloniais no próprio coração das Ciências Sociais.  
Lélia Gonzalez nasceu em 1935, em Belo Horizonte, registrada como Lélia de Almeida. Filha de mãe indígena  
e de pai negro ferroviário, foi a penúltima de dezoito irmãos. Ao se casar, adotou o sobrenome Gonzalez, que  
manteve mesmo após a separação — nome pelo qual se tornaria publicamente conhecida. Formou-se em  
História e Filosofia, realizou pós-graduação em Comunicação e Antropologia e estabeleceu diálogos críticos  
com a psicanálise. Faleceu em 1994, no Rio de Janeiro, deixando um legado que atravessa teoria, militância,  
espiritualidade e afetividade, como destacam Ratts e Rios (2010). Gonzalez figura entre as pensadoras  
negras mais relevantes da história intelectual brasileira, articulando uma produção que funde experiência  
vivida, elaboração conceitual e engajamento político.  
Professora, ativista e pensadora de fronteira, Gonzalez propõe uma leitura do Brasil desde os corpos  
e territórios historicamente marginalizados, em especial o das mulheres negras. Categorias como  
amefricanidade sintetizam sua proposta política e cultural, enraizada na experiência da diáspora africana e  
nos cruzamentos entre África e América Latina. Nos últimos anos, a obra de Lélia Gonzalez tem sido objeto  
de uma produção acadêmica crescente, o que reforça sua centralidade. Cláudia Pons Cardoso (2014) destaca  
Gonzalez como formuladora de um feminismo afrolatino-americano, capaz de recuperar práticas históricas  
de resistência de mulheres negras e indígenas e de transformá-las em teoria crítica e inspiração política.  
Flávia Rios (2022) identifica em Gonzalez uma teórica crítica do social, cuja abordagem multidimensional  
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articula raça, classe e gênero como categorias analíticas indissociáveis, deslocando os limites da teoria  
sociológica brasileira.  
Mireile Silva Martins (2023) demonstra como Gonzalez antecipou o debate sobre interseccionalidade  
ao sistematizar a tríade raça, classe e gênero como chave para compreender as contradições estruturais  
da sociedade brasileira, revelando a centralidade das mulheres negras como sujeitas epistêmicas. Já  
Fernanda Cardoso Fonseca (2021) aproxima Gonzalez das teorias decoloniais, evidenciando a potência da  
amefricanidade como categoria capaz de complexificar os debates sobre colonialidade, decolonialidade e  
modernidade no campo das Relações Internacionais.  
Este artigo parte da necessidade de recolocar Gonzalez no centro da teoria social brasileira, não como  
reverência tardia, mas como urgência epistemológica. Sua produção não apenas tensiona os pilares do  
pensamento dominante, como oferece alternativas teóricas e metodológicas para pensar um Brasil possível,  
fora dos moldes do universalismo branco. Adota-se uma abordagem qualitativa, baseada na análise de  
conteúdo de seus textos, com o objetivo de compreender a ruptura que sua obra representa dentro do campo  
sociológico. O objetivo não é apenas denunciar silenciamentos, mas, sobretudo, evidenciar a resistência e  
o legado de Gonzalez, propondo, como contribuição original, a formulação da democracia social de base  
amefricana. Essa noção desloca o debate democrático dos marcos liberais e institucionais para práticas  
enraizadas na ancestralidade, nas redes de cuidado e na centralidade da mulher negra como sujeito político.  
Apesquisamapeoutseixoscentraisemsuaprodução:(1)acríticaàdemocraciaracialcomomitofundacional  
do Brasil; (2) a formulação da amefricanidade como projeto político, cultural e identitário; e (3) a reivindicação  
da mulher negra como sujeito epistêmico e agente de transformação social. A partir desses eixos, Gonzalez  
desenha um Brasil insurgente, plural e coletivo — um país forjado na oralidade, na ancestralidade, na dor e  
na invenção dos que sempre resistiram ao apagamento. Recolocar Lélia Gonzalez no centro da teoria social  
brasileira não é apenas um gesto de reconhecimento: é um compromisso ético e político, em especial com  
a vida, com a vida negra, com os saberes periféricos, com os territórios historicamente negados. Pensar o  
Brasil a partir de Gonzalez é negar a narrativa hegemônica da conciliação e da branquitude como norma.  
É reivindicar as favelas, os quilombos, os terreiros, as cozinhas e as encruzilhadas como fontes legítimas de  
produção de conhecimento. E, assim, reconstruir o pensamento social brasileiro à altura do país que somos,  
e não apenas do país que nos foi narrado.  
Para quem percorre este artigo, o caminho está dividido em duas grandes travessias. Na primeira, lançamos  
um olhar crítico sobre o pensamento social brasileiro, revelando como ele foi construído a partir de  
silenciamentos e exclusões, especialmente das vozes negras. A partir de conceitos como epistemicídio e  
racismo epistêmico, buscamos evidenciar como a produção de conhecimento foi sistematicamente moldada  
por uma lógica de apagamento que ainda hoje persiste nos currículos e nas estruturas acadêmicas.  
A segunda seção é dedicada à reconstrução do projeto teórico de Gonzalez sobre o Brasil, articulando as  
categorias de amefricanidade, democracia racial, mestiçagem e interseccionalidade como pilares de uma  
leitura insurgente da realidade nacional. Ao longo dos quatro subitens dessa seção, o artigo destaca sua  
contribuição para uma sociologia crítica, forjada nas encruzilhadas entre raça, gênero e classe, e apresenta,  
como resultado teórico, a formulação da democracia social de base amefricana como uma proposta de  
reconfiguração radical do projeto de país. Por fim, a conclusão retoma os principais achados da pesquisa,  
reafirmandoolegadoepistêmicodeGonzalezedefendendosuainclusãocomoautoraclássicadopensamento  
social brasileiro.  
2.  
O PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO E O APAGAMENTO EPISTEMOLÓGICO DE VOZES  
NEGRAS  
Opensamentosocialbrasileiroconsolidou-se, aolongodoséculoXX, comoumcampoepistêmicoracializado,  
estruturado por um pacto implícito de exclusão das vozes negras na produção de conhecimento. A sociologia  
brasileira operou, historicamente, um duplo movimento: por um lado, reconheceu a centralidade da questão  
racial como elemento constitutivo da formação nacional; por outro, restringiu o debate sobre essa questão a  
intelectuais brancos, de classe média, geralmente vinculados a redes acadêmicas hegemônicas (Figueiredo;  
Grosfoguel, 2007, p. 37–38). Esse processo engendrou o silenciamento sistemático de pensadores e  
pensadoras negras, cuja produção teórica foi desconsiderada ou relegada à condição de objeto de estudo.  
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EPISTEMOLÓGICO DE INTELECTUAIS NEGRAS NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO  
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Esse quadro configura o que Carneiro (2005) nomeia epistemicídio: um apagamento que atinge presenças  
e racionalidades.  
Para nós, porém, o epistemicídio é, para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, um  
processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso a educação, sobretudo de qualidade; pela  
produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de  
conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da autoestima  
pelos processos de discriminação correntes no processo educativo (Carneiro, 2005, p. 97).  
Essa lógica de exclusão, profundamente enraizada nas estruturas de produção de conhecimento no Brasil,  
revela-se com nitidez na forma como o cânone da teoria social foi construído. Autores como Gilberto Freyre,  
Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Raymundo Faoro, por exemplo, foram elevados à condição  
de clássicos indiscutíveis, mesmo quando suas obras sustentam mitos como o da democracia racial ou o  
luso-tropicalismo, que diluem o conflito racial sob a aparência de harmonia. Essas leituras romantizadas da  
mestiçagem não apenas obscurecem as violências do passado, mas também atuam como véus ideológicos  
que naturalizam a dominação racial e contribuem para a perpetuação das desigualdades no presente (Moura,  
2019, p. 42–43).  
Enquanto isso, as vozes negras que ousaram pensar o Brasil a partir de outros marcos — como Lélia  
Gonzalez, Clóvis Moura, Guerreiro Ramos e Beatriz Nascimento — foram relegadas a um lugar de silêncio  
ou marginalização. Quando não ignoradas por completo, suas obras são frequentemente enquadradas como  
relatos de experiência, objetos de estudo ou discursos militantes, mas raramente como pensamento teórico  
de alto nível. É como se suas contribuições não fossem dignas de disputar o campo das ideias em pé de  
igualdade com os clássicos brancos. Esse é o funcionamento do racismo epistêmico: um sistema que define  
não apenas o que é conhecimento válido, mas também quem pode produzi-lo e de onde esse saber pode  
emergir (Grosfoguel, 2016, p. 25).  
No fim das contas, o que se observa é um duplo gesto violento: transforma-se o sujeito negro em objeto de  
análise e, ao mesmo tempo, nega-se a legitimidade de sua produção intelectual. O que está em jogo não é  
apenas a ausência de nomes nas bibliografias, mas a negação de outras formas de pensar o mundo. Formas  
que nascem da resistência, da ancestralidade e da insistência em existir, apesar de todos os mecanismos que  
tentam apagar.  
2.1  
A CRÍTICA AO CÂNONE E À POLÍTICA DO ESQUECIMENTO: EPISTEMOLOGIAS  
ALTERNATIVAS E O DESAFIO DA DESCOLONIZAÇÃO  
Esse silenciamento sistemático das contribuições intelectuais negras nas Ciências Sociais é compreendido  
por Figueiredo e Grosfoguel (2007) como parte de uma política do esquecimento, que atua por meio da  
omissão deliberada de autores negros nas bibliografias, ementas e debates acadêmicos. Como destacam  
os autores em seu texto, “raramente os autores negros estão nas bibliografias dos cursos ministrados nas  
universidades. Consequentemente, poucas vezes temos tido a oportunidade de conhecer a contribuição  
desses autores” (Figueiredo; Grosfoguel, 2007, p. 36). O caso de Guerreiro Ramos é exemplar nesse processo:  
mesmo com uma obra extensa, inovadora e reconhecida internacionalmente, o autor foi excluído do  
panteão dos grandes sociólogos brasileiros, evidenciando como a exclusão racial opera como uma estrutura  
persistente no campo científico, e não como falha isolada ou pontual.  
Como analisa Oliveira (2020), a crítica ao cânone sociológico não pode se limitar à simples adição de  
novos nomes a um repertório historicamente excludente. É preciso tensionar a própria lógica que define  
o que é reconhecido como teoria, questionando os critérios de legitimidade construídos sob os pilares do  
eurocentrismo e do androcentrismo. Segundo o autor, os currículos de Sociologia, tanto em países centrais  
quanto periféricos, como o Brasil, mantêm uma uniformidade teórica sustentada por autores homens,  
brancos e oriundos do Norte Global. Essa configuração revela a persistência das colonialidades do saber na  
formação da disciplina, mesmo em contextos marcados por desigualdades históricas e raciais.  
A partir da leitura crítica do livro de Syed Farid Alatas e Vineeta Sinha, o autor ressalta que a estrutura do  
ensino sociológico é organizada por esses dois vieses epistêmicos — o eurocêntrico e o androcêntrico —, que  
silenciam sistematicamente epistemologias não ocidentais, produções de intelectuais do Sul Global e autoras  
negligenciadas. A proposta de Alatas e Sinha, conforme interpretada por Oliveira (2020), não consiste em  
descartar os clássicos, mas em promover uma abordagem crítica que revele seus limites e amplie o campo  
teórico por meio da inclusão de outras geografias, experiências e tradições intelectuais. A crítica ao cânone,  
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portanto, implica não apenas revisar quem está ausente, mas repensar as estruturas que sustentam tais  
ausências como naturais ou inevitáveis.  
Diante da constatação de que o cânone sociológico está estruturado a partir de uma lógica excludente,  
eurocêntrica e androcêntrica, que silencia saberes produzidos no Sul Global, torna-se fundamental repensar  
não apenas os autores consagrados, mas os próprios fundamentos que sustentam o que é legitimado como  
teoria.ÉnessecontextoqueseinsereapropostadeAlatas(2010),aoformularanoçãodediscursosalternativos  
como caminhos para a reconfiguração epistêmica das ciências sociais. Para o autor, essas alternativas não se  
limitam a críticas externas ao mainstream, mas propõem a incorporação ativa de tradições intelectuais não  
ocidentais na formulação de conceitos e teorias.  
O ponto central da argumentação de Alatas é que os discursos alternativos não devem ser vistos como  
rejeições totais da ciência social ocidental, mas como formas de descolonização epistemológica que  
valorizam o pensamento situado, criativo e endógeno, especialmente em contextos historicamente marcados  
pela dependência intelectual. As tradições de conhecimento não ocidentais podem ser consideradas como  
fontes potenciais para conceitos e teorias, uma possibilidade real de universalização e internacionalização  
das ciências sociais a partir de outras geografias do saber (Alatas, 2010, p. 229-230).  
Esse desafio de reconfigurar o campo das ciências sociais por meio de epistemologias situadas não se limita  
ao plano teórico. A dissertação de Elen Santos (2022) demonstra como o apagamento se concretiza no âmbito  
do ensino do Pensamento Social no Brasil. A autora mapeou programas de pós-graduação em Ciências  
Sociais e Sociologia que oferecem a disciplina Pensamento Social no Brasil e/ou Sociologia Brasileira,  
analisando ementas disponíveis e conduzindo entrevistas em profundidade com docentes responsáveis  
pelas disciplinas. As entrevistas revelam nuances significativas desse processo: dos sete professores que  
ministram ou já ministraram a disciplina, apenas dois afirmaram utilizar textos de Gonzalez em suas aulas.  
A maioria conhece a autora, mas opta por não incluí-la em seus programas por não dominar suficientemente  
sua obra. Mesmo entre os que a utilizam, o uso é parcial, limitado a alguns textos específicos2.  
Contudo, como conclui Santos (2023, p. 173), a maior parte dos interlocutores mantém forte apego aos  
intelectuais canônicos e clássicos do Pensamento Social Brasileiro, o que impede uma compreensão mais  
abrangente e plural dos(as) pensadores(as) sociais que abordaram criticamente as questões raciais e o  
racismo estrutural inerente à sociedade brasileira. Assim, a pesquisa evidencia que o racismo epistêmico não  
apenas organiza bibliografias, mas também molda escolhas docentes, reafirmando a centralidade de autores  
homens, brancos e eurocentrados como referências universais e incontestáveis — lógica que reproduz, no  
espaço formativo, o padrão de exclusão já criticado por Alatas (2010).  
Esse padrão de reconhecimento seletivo também aparece em uma pesquisa citada por Brandão (2005), na  
qual cientistas sociais brasileiros foram convidados a indicar os principais autores do século XX. As respostas  
recaíram quase exclusivamente sobre nomes como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo  
Faoro, Florestan Fernandes, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna. Nenhum autor negro foi mencionado  
como referência fundante da teoria social brasileira. Esse dado ilustra como o campo científico nacional  
permanece atrelado a um imaginário racializado do conhecimento, no qual a branquitude ainda ocupa o  
lugar exclusivo de legitimidade teórica.  
A persistente exclusão de intelectuais negros no campo da sociologia brasileira vai além de uma falha  
curricular: ela revela a base ideológica que sustenta a construção do saber legítimo nas Ciências Sociais. A  
suposta neutralidade desse conhecimento hegemônico é contestada por Figueiredo e Grosfoguel (2007),  
que, com base em Santiago Castro-Gómez, mobilizam o conceito de epistemologia do “ponto zero”. Essa  
noção descreve o esforço da ciência ocidental em apagar seu próprio lugar de enunciação, apresentando-  
se como objetiva e universal, quando na verdade se ancora em uma posição geopolítica e corpo-política  
específica: branca, europeia, masculina e letrada (Figueiredo; Grosfoguel, 2007, p. 38).  
No contexto brasileiro, essa lógica se expressa no que Clóvis Moura identificou como preconceito acadêmico,  
uma estrutura que sustenta o apagamento sistemático das contribuições negras à produção de conhecimento.  
Esse apagamento não é acidental, mas opera como base do mito da democracia racial, ideologia que  
encobre o conflito racial e, ao mesmo tempo, legitima a marginalização contínua da população negra. Esse  
mito atua como um mecanismo de naturalização da desigualdade, operando tanto nas instituições quanto  
2 Uma das entrevistadas, identificada como professora Marta, observa que as ideias de Gonzalez permitem articular as dimensões de raça, gênero e  
classe, enriquecendo a compreensão da formação nacional, tema central do Pensamento Social no Brasil. Já o professor Fernando destaca a impor-  
tância da autora para a consolidação de uma tradição intelectual capaz de desafiar a perspectiva hegemônica do campo, reconfigurando abordagens  
sobre temas e objetos de estudo anteriormente tratados de maneira restrita e equivocada (Santos, 2022, p. 168–170).  
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na subjetividade das pessoas negras, constantemente atravessadas por exclusões simbólicas e materiais  
(Moura, 2019, p. 39).  
A crítica de Moura (2019) alcança diretamente as Ciências Sociais. Segundo o autor, mesmo a chamada  
“sociologia do negro”, em muitos casos, é elaborada a partir de um arcabouço conceitual branco, que trata o  
sujeito negro como objeto de análise e não como produtor autônomo de teoria. Essa abordagem reforça uma  
lógica de subalternização epistêmica, negando à população negra o lugar de sujeito histórico de sua própria  
narrativa (Moura, 2019, p. 32). Como consequência, saberes produzidos a partir das favelas, dos quilombos,  
dos terreiros e dos movimentos negros organizados continuam sendo deslegitimados como fontes válidas  
de interpretação da sociedade, mesmo quando oferecem chaves críticas fundamentais para compreender o  
Brasil.  
A exclusão sistemática das contribuições negras no campo das Ciências Sociais não é um erro isolado ou  
uma distração do olhar acadêmico: é o retrato de um projeto de conhecimento que, historicamente, operou  
com base na negação de vozes negras como produtoras de teoria. Essa dinâmica, que Carneiro (2005) define  
como epistemicídio, é mais do que o silenciamento de nomes: trata-se da desqualificação intencional de  
formas de saber que nascem da experiência de resistência, de dor, de luta. Nesse cenário de apagamento, é  
justamente da margem que irrompe, com potência transformadora, a figura de Lélia Gonzalez. Intelectual  
negra, militante, professora e pensadora de fronteira, Gonzalez representa um desafio profundo aos alicerces  
da ciência social tradicional.  
Sua obra não apenas denuncia o racismo estrutural presente no cânone, mas propõe um novo modo de  
produzir conhecimento. Ela pensa a partir das encruzilhadas: entre a psicanálise e o candomblé, entre  
a linguagem formal e o pretuguês, essa variação linguística que carrega a força da presença africana nos  
modos de dizer e existir no Brasil (Gonzalez, 1988a, p. 70). A categoria de amefricanidade, elaborada por  
Gonzalez, é mais que um conceito teórico: é uma chave de leitura do mundo forjada na vivência de povos  
negros e indígenas nas Américas. Uma epistemologia que se recusa a caber nos moldes ocidentais da  
neutralidade e da abstração, e que parte da experiência encarnada, situada, afetiva. Como destaca Cláudia  
Cardoso, o pensamento de Gonzalez “tem força epistêmica, pois pretende outra forma de pensar, de produzir  
conhecimento, a partir dos subalternos, dos excluídos, dos marginalizados” (Cardoso, 2014, p. 972). Isso  
significa desafiar diretamente o paradigma ocidental moderno, não apenas criticá-lo, mas revirar suas  
fundações, abrindo espaço para outras racionalidades, outros corpos, outros modos de teorizar a vida.  
A amefricanidade, portanto, emerge como categoria de reinterpretação da história e da cultura a partir dos  
sujeitos racializados e marginalizados, em oposição à lógica colonial do saber. Nesse sentido, a exclusão de  
Gonzalez dos currículos e bibliografias em Ciências Sociais não deve ser lida como um lapso, mas como parte  
de um projeto político de silenciamento. Seu pensamento convoca uma refundação epistêmica do campo  
sociológico brasileiro, propondo uma ciência voltada à justiça social, à vida e às margens que historicamente  
foram negadas como fonte legítima de teoria.  
Reconhecer Lélia Gonzalez como uma autora clássica não é um gesto de concessão ou inclusão tardia, mas  
a afirmação de um novo paradigma: um pensamento social enraizado nas experiências de resistência, no  
legado de saberes afrodiaspóricos e na potência das epistemologias forjadas fora do eixo euro-atlântico.  
Trata-se de reivindicar outra fundação possível para o pensamento social brasileiro — uma sociologia  
amefricana, insurgente, plural e racialmente consciente.  
2.2  
A MULHER NEGRA COMO FUNDAMENTO ÉTICO-POLÍTICO: A DEMOCRACIA SOCIAL NA  
OBRA DE LÉLIA GONZALEZ  
A obra de Lélia Gonzalez formula uma crítica contundente à promessa de uma democracia brasileira  
universal, revelando como o ideal liberal de cidadania foi historicamente construído sobre a exclusão de  
sujeitos racializados e, em especial, das mulheres negras. Sua leitura parte de uma perspectiva interseccional  
e anticolonial, que não separa as lutas por direitos civis das batalhas por justiça epistêmica, política e afetiva  
(Gonzalez, 2018, p. 44-45). Ela localiza a mulher negra no epicentro da contradição brasileira: invisibilizada  
pelas instituições estatais, mas central na sustentação material e simbólica da vida nacional.  
A autora revela que o conceito de cidadania no Brasil foi racial e sexualmente delimitado desde sua formação.  
O sujeito político presumido, o “cidadão universal”, sempre foi o homem branco, proprietário e heterossexual,  
enquanto as mulheres negras foram sistematicamente excluídas dos marcos da pertença. Desde a colônia,  
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foram lançadas à condição de mão de obra explorada, objeto de fetichização sexual ou alvo de discursos  
médicos e religiosos que patologizavam suas práticas culturais. Como argumenta Gonzalez (1984 [1985]), a  
democracia brasileira ergue-se sobre os escombros da senzala, reproduzindo, sob novas formas, a exclusão  
histórica da população negra, sobretudo das mulheres.  
No ensaio Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984 [1985]), a autora interpreta a figura da “mãe preta”  
como símbolo de uma lógica perversa: enquanto cuida dos filhos da elite branca, seus próprios filhos  
permanecem sob o risco da violência estrutural e do abandono. Essa figura carrega em si a contradição de  
um país que consome os afetos, saberes e corpos das mulheres negras, ao mesmo tempo em que lhes nega  
reconhecimento e cidadania. A cultura negra continua sendo sistematicamente desvalorizada, ao mesmo  
tempo em que é apropriada e consumida como folclore, enquanto o negro continua sendo excluído da  
cidadania real (Gonzalez, 1984 [1985], p. 232).  
Ao olhar criticamente para os intelectuais consagrados como intérpretes do Brasil, Gonzalez (1984 [1985])  
questiona os limites de uma brasilidade idealizada e racialmente seletiva. Ela confronta diretamente autores  
como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Dom Avelar Brandão Vilela e Mário de Andrade. De Freyre, critica  
o projeto de mestiçagem idealizada e o elogio ao patriarcado colonial como forma de conciliação racial,  
ao passo que ignora a violência estrutural que sustentou a Casa-Grande. De Caio Prado, rebate a leitura  
romantizada da mulher negra como símbolo da brasilidade. De Dom Avelar, contesta o uso da ideia de  
“africanização da cultura” como degeneração moral, apontando para a ignorância e o preconceito embutidos  
nessa leitura. E, de Mário de Andrade, retoma o personagem Macunaíma como figura emblemática do  
projeto de embranquecimento: “Macunaíma nasceu negro, preto retinto e filho do medo da noite. Depois  
ele branqueia, como muito crioulo que a gente conhece, que, se bobear, quer virar nórdico” (Gonzalez, 1984  
[1985], p. 237).  
Essas críticas compõem um projeto de reestruturação profunda do pensamento social, no qual Gonzalez  
desloca os parâmetros da análise para sujeitos historicamente marginalizados, questionando os  
fundamentos eurocêntricos e propondo uma epistemologia forjada na vivência e na ancestralidade negra.  
Por isso, propõe que a mulher negra, historicamente desumanizada, seja reconhecida como sujeito fundante  
de uma nova ordem social e política. A democracia, nesse sentido, não pode mais ser entendida apenas como  
institucionalidade, mas como prática cotidiana, ancestral e afetiva.  
Esse deslocamento dialoga com a crítica formulada por Lugones (2008), ao afirmar que a colonialidade  
do gênero é uma tecnologia de desumanização que desqualifica a mulher negra não apenas como cidadã,  
mas como sujeito humano pleno. Gonzalez antecipa essa leitura ao demonstrar que a mulher negra foi  
construída socialmente como o avesso do sujeito político moderno. De forma convergente, Dussel (1998;  
2000) defende que a política deve emergir da exterioridade, isto é, dos sujeitos historicamente excluídos  
do pacto civilizatório, exatamente aqueles que Gonzalez posiciona como produtores de uma outra forma de  
democracia.  
Ao evidenciar o papel do trabalho reprodutivo das mulheres negras na sustentação das cidades e da vida  
cotidiana, Gonzalez antecipa também debates contemporâneos sobre a economia do cuidado. Sua análise  
revela como essas mulheres, mesmo à margem da cidadania formal, são o esteio invisível do Brasil  
urbano. Seu feminismo afrolatino-americano é uma prática de refundação da política, e sua linguagem, o  
“pretuguês”, é a afirmação de um saber forjado nas ruas, nas cozinhas, nos terreiros, nas maternidades e nas  
lutas cotidianas.  
A mulher negra, para Gonzalez, não é resíduo da escravidão: é o fundamento vivo de um novo projeto de  
país. Sua existência, marcada pela luta e pela reinvenção constante da vida, constitui uma epistemologia  
encarnada, em que o corpo é também pensamento e resistência. Ao denunciar a exclusão institucional e  
reivindicar os territórios populares como espaços legítimos de produção política e epistêmica, Gonzalez não  
apenas critica o Brasil formal: ela constrói, com as ferramentas das margens, um Brasil possível — um Brasil  
onde a democracia não é uma promessa abstrata, mas um exercício concreto de dignidade e liberdade.  
2.3  
INTERSECCIONALIDADE ANTES DE SER NOMEADA: O LEGADO TEÓRICO DE LÉLIA  
GONZALEZ  
Muito antes de a interseccionalidade se tornar um termo reconhecido nos círculos acadêmicos, Gonzalez  
já produzia uma leitura profundamente sofisticada das estruturas de poder que moldam a sociedade  
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brasileira. Sua obra desafia o cânone ao propor uma teoria crítica construída a partir dos corpos e territórios  
historicamente silenciados, especialmente os das mulheres negras latino-americanas. Diferentemente  
de Kimberlé Williams Crenshaw, que estrutura a interseccionalidade com base em marcos jurídicos nos  
Estados Unidos, Gonzalez parte de uma vivência enraizada na diáspora negra latino-americana. Sua  
análise incorpora afetividade, espiritualidade e território como dimensões fundamentais da opressão e da  
resistência, aproximando-se de uma interseccionalidade vivida e forjada no cotidiano.  
A teoria social elaborada por Gonzalez emerge da tensão entre experiência vivida e reflexão crítica; entre  
candomblé e psicanálise; entre ativismo político e linguagem acadêmica. Sua proposta epistemológica não  
parte da abstração, mas da dor coletiva, da ancestralidade e da ação concreta. É nesse gesto que sua obra  
antecipa, com radicalidade, o que autoras como Crenshaw (1989), Collins e Bilge (2021) e Vigoya e Pinho  
(2023) mais tarde consolidariam como o núcleo da interseccionalidade: uma forma situada de pensar, uma  
ética de pesquisa, uma política do conhecimento.  
Ao propor um feminismo afrolatinoamericano, como expressa no ensaio “Por um feminismo  
afrolatinoamericano”, Gonzalez denuncia o racismo dentro do próprio movimento feminista latino-  
americano e exige o reconhecimento da pluralidade de experiências entre as mulheres. Essa crítica desloca  
a interseccionalidade de um campo descritivo para uma postura ética e política. Em sua formulação, o  
entrelaçamento das opressões não é apenas objeto de análise, mas também fonte de uma epistemologia  
insurgente, forjada nas lutas de base, nos movimentos populares e nas práticas cotidianas de resistência.  
Sua perspectiva é radical porque propõe um giro no ponto de vista: abandona a suposta neutralidade  
universal do sujeito branco, masculino e europeu e reconstrói a análise a partir de quem carrega, nas costas,  
a sustentação invisível da sociedade. Para Gonzalez, a interseccionalidade é método, porque organiza o  
olhar; é teoria, porque explica o mundo; é epistemologia, porque desafia quem pode produzir conhecimento;  
e é prática política, porque aponta para a transformação concreta da realidade.  
Num contexto em que a interseccionalidade corre o risco de ser institucionalizada de forma esvaziada, como  
alertam Vigoya e Pinho (2023), o pensamento de Gonzalez serve como lembrete de sua origem combativa.  
Ela não pensava apenas para dentro da academia, mas também a partir da favela, do terreiro, da sala de aula  
e da militância. Sua contribuição está em demonstrar que teoria se faz com corpo e memória, e que conhecer  
também é um ato de insurgência.  
Conclui-se, portanto, que o legado intelectual de Lélia Gonzalez não apenas antecipa a interseccionalidade,  
como também a aprofunda e ressignifica a partir da experiência histórica das mulheres negras nas Américas.  
Sua obra nos mostra que pensar a partir dessas vivências é repensar os próprios pilares da teoria social, é  
questionar quem pode produzir conhecimento, com quais vozes, em quais lugares e com que finalidade.  
Gonzalez nos ensina que raça, gênero e classe não são categorias isoladas, mas dimensões que se entrelaçam  
no cotidiano das desigualdades. Ao propor um novo ponto de partida para pensar a sociedade, ela desafia  
os modelos universais e oferece, em seu lugar, uma epistemologia enraizada na luta, na memória e na  
ancestralidade. Seu pensamento é mais do que crítica: é projeto. Um projeto que nos obriga a escutar quem  
sempre foi silenciado e a reconstruir, a partir dessas vozes, outras formas de saber, de viver e de transformar  
o mundo.  
2.4  
ENTRE MITO  
E
INSURGÊNCIA: AMEFRICANIDADE  
E
A
CONSTRUÇÃO DE UMA  
DEMOCRACIA SOCIAL DE BASE AMEFRICANA  
A colonização ibérica deixou marcas profundas e duradouras nas estruturas sociais da América Latina. Não  
se tratou apenas de uma imposição externa, mas de um modelo de dominação enraizado em hierarquias  
sociais forjadas nas sociedades portuguesa e espanhola, estruturadas por guerras contra povos negros e  
muçulmanos e marcadas pelo controle racial e cultural. O racismo que se consolidou nas Américas não  
atuou apenas de forma violenta no plano material, mas também no simbólico, colonizando mentalidades,  
afetos e identidades (Gonzalez, 2018, p. 311–312).  
No Brasil, essa lógica manifesta-se por meio de um racismo negado e disfarçado sob o mito da democracia  
racial. A ideologia do embranquecimento operou como um projeto cultural e subjetivo, no qual negar  
a própria identidade racial passou a ser, para muitos, condição de pertencimento e aceitação social. A  
alienação das culturas negras e indígenas foi ensinada, institucionalizada e tomada como sinal de civilidade.  
Essa forma de dominação é tão violenta quanto a segregação aberta, sobretudo porque foi incorporada até  
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mesmo por setores progressistas, que por muito tempo negligenciaram o papel do racismo na estrutura da  
desigualdade latino-americana (Gonzalez, 2018, p. 315).  
É nesse contexto de apagamento e resistência que Lélia Gonzalez formula a categoria de amefricanidade,  
uma proposta teórica, política e epistêmica que desloca o centro do pensamento social latino-americano  
(Gonzalez, 1988b, p. 76). Mais do que uma identidade, a amefricanidade constitui-se como uma chave de  
leitura que reconhece os povos negros e indígenas das Américas como fundadores de saberes, culturas e  
modos de existência historicamente silenciados. Trata-se de pensar a identidade cultural negra a partir de  
um espaço político e histórico chamado América Latina, no qual Gonzalez cunha o termo amefricanidade  
(Gonzalez, 1988b, p. 70–71).  
Essa formulação também questiona o uso de expressões como Afro-American e African-American, que, ao  
restringirem o termo “América” aos Estados Unidos, excluem as experiências negras e indígenas da América  
Latina e do Caribe. Gonzalez propõe, assim, uma reconfiguração desse imaginário geopolítico, sugerindo  
termos como “ameríndios” ou “americans” para marcar a presença ativa e insurgente desses povos na  
construção do continente. A amefricanidade, nesse sentido, conecta práticas culturais e espirituais diversas,  
como os referenciais jamaicanos, akan e iorubás, para construir uma cartografia crítica do saber a partir do  
Sul Global (Gonzalez, 1988b, p. 76).  
Essa proposta, contudo, não se reduz a um reposicionamento cultural. Trata-se de uma recusa à lógica da  
invisibilização e de um gesto de refundação epistemológica, que reposiciona corpos, saberes e territórios  
racializados como fundamentos de uma nova leitura da América Latina. Uma leitura que nasce das favelas,  
quilombos, terreiros e comunidades indígenas e se opõe radicalmente ao universalismo branco da teoria  
social dominante.  
A crítica de Gonzalez ao mito da democracia racial insere-se nesse mesmo movimento. O Brasil foi ensinado  
a se ver como uma nação cordial, mestiça e sem conflitos — um país que teria acolhido povos diversos e,  
em um suposto abraço fraterno, construído uma sociedade harmônica. Gonzalez rompe essa fantasia com  
coragem e lucidez, convocando-nos a encarar o espelho trincado da nossa história. Para ela, a democracia  
racial é uma invenção que não apenas mente, mas fere. Essa ideologia, articulada por nomes como Gilberto  
Freyre, funciona como um véu que encobre desigualdades raciais profundas e organiza a exclusão como se  
fosse destino (Gonzalez, 1979, p. 8).  
Gonzalez não rejeita a mestiçagem enquanto experiência concreta, mas denuncia seu uso como ferramenta  
política de apagamento. Transformada em discurso de conciliação racial, a mestiçagem atua como um  
mecanismo que tolera a presença negra apenas quando esta se aproxima da estética e da moralidade  
da branquitude. Nessa lógica, a diferença é permitida desde que domesticada, enquanto a resistência é  
silenciada, marginalizada e caricaturada (Gonzalez, 1984 [1985], p. 235).  
Essa lógica também atravessa a escola, que muitas vezes educa para o conformismo. Ao mesmo tempo  
em que ensina que o Brasil é gentil, pacífico e sem conflitos, reforça estereótipos sobre o povo negro —  
“passividade, infantilidade, incapacidade intelectual” (Gonzalez, 2018, p. 36). Gonzalez confronta esse  
currículo de silenciamento com a história viva das resistências negras: quilombos, revoltas populares,  
terreiros e corpos insurgentes. No centro de sua crítica não está o passado distante, mas o presente negado,  
o agora adormecido.  
A modernização brasileira, especialmente após o golpe de 1964, aprofunda a exclusão da população negra.  
O chamado “milagre econômico” inchou as cidades, mas não as tornou mais justas. Gonzalez chama esse  
processo de “inchaço urbano”: um crescimento sem estrutura, que empurra a população negra para favelas  
sem saneamento, sem acesso à saúde e sem direito à cidade (Gonzalez, 2022, p. 19). Essa geografia da  
exclusão materializa uma segregação racial persistente, que separa fisicamente dominantes e dominados  
desde os tempos coloniais.  
Ainda assim, nas margens emergem formas criativas de reinvenção da vida. Gonzalez valoriza espaços como  
a Frente Negra Brasileira (FNB), o Teatro Experimental do Negro (TEN), os terreiros, os cordões, os afoxés  
e as escolas de samba. São territórios onde a cultura também é política e onde o cotidiano se transforma  
em gesto de resistência. Nessas práticas, ela identifica o embrião de movimentos mais organizados, como o  
Movimento Negro Unificado (MNU), do qual participou ativamente (Gonzalez, 2022).  
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50  
No mundo do trabalho, Gonzalez revela o que o capitalismo tenta esconder: sua estrutura se sustenta nos  
corpos negros, especialmente nos das mulheres. Inspirada em Marx, mas recusando o apagamento da raça,  
mostra como a população negra forma o “exército de reserva” — uma massa descartável, precarizada e  
desprotegida (Gonzalez, 1979). Ela classifica esse processo em três tipos (A, B e C), todos marcados pela  
insegurança e pela invisibilidade. A partir de sua análise (Gonzalez, 1979), compreende-se que a mulher  
negra ocupa uma posição estrutural, sustentando, de forma invisível, tanto o trabalho produtivo quanto o  
reprodutivo — aquela que mantém a vida, alimenta, cuida e acolhe. Mesmo sem reconhecimento, são essas  
mulheres que sustentam a base.  
É nesse cenário que se delineia a ideia de democracia social de base amefricana. Lélia Gonzalez não escreveu  
sobre democracia nos moldes formais; ela a viveu com o corpo em movimento, com o afeto como estratégia  
e com a palavra que nasce da encruzilhada. A partir dessa escuta radical do vivido, emerge o conceito de uma  
democracia que nasce do chão das lutas, da memória que resiste e da sabedoria ancestral que, embora nunca  
autorizada a se chamar teoria, sempre foi prática de sobrevivência e reinvenção.  
Essa democracia não se funda em promessas feitas do alto, mas no que as mulheres negras constroem todos  
os dias, entre panelas, terreiros, escolas, quintais e ruas. Ela rompe com os moldes liberais da cidadania  
abstrata e nos convida a enxergar a política não como um direito concedido, mas como uma experiência  
vivida, tecida na precariedade e na potência.  
A democracia social de base amefricana ergue-se sobre três pilares que não cabem nas cartilhas institucionais,  
mas pulsam nas margens esquecidas do Brasil. O primeiro é a ancestralidade como fundamento ético — não  
se trata de romantizar o passado, mas de se reconectar com a sabedoria que os navios negreiros tentaram  
calar, o saber que vem das velhas, das folhas, dos ritos, dos corpos que sabem mais do que os livros. É uma  
ética que escuta, acolhe e honra os que vieram antes, e que transforma a memória em bússola para seguir  
em frente.  
O segundo pilar são as redes de cuidado como prática política cotidiana. Aqui, o cuidado não é um afeto  
despolitizado: é ato de resistência. É a comida dividida, o filho da vizinha cuidado como se fosse seu, o axé  
compartilhado no terreiro, o ombro dado nos dias de dor. Gonzalez nos mostra que essas redes, criadas por  
mulheres negras e periféricas, são espaços de governança real, onde se decide quem come, quem vive, quem  
é protegido. Nesses gestos de cuidado, a política se refaz como gesto de amor radical.  
O terceiro pilar é a mulher negra como sujeito organizador da vida social — não como símbolo, mas como  
fundamento. Gonzalez nos convida a vê-la não como objeto de políticas públicas, mas como arquiteta de um  
novo pacto social. Ela sustenta a cidade com seu trabalho invisível, pensa o país com sua prática cotidiana,  
inventa saídas aonde o Estado não chega. Não há projeto de Brasil possível sem reconhecer que a mulher  
negra já faz democracia, com os recursos que tem, com a força que carrega, com a sabedoria que a história  
oficial tentou apagar.  
A democracia social de base amefricana é, portanto, mais do que uma crítica: é uma proposta viva, pulsante  
e insurgente. É uma forma de existir politicamente que desloca o poder dos palácios para os terreiros, das  
urnas para os quintais, das teorias abstratas para os corpos vivos. Ao reconhecer o território, o corpo e a  
oralidade como dimensões legítimas do fazer político, essa democracia se constrói com os pés descalços na  
terra e a cabeça erguida diante do mundo.  
Lélia Gonzalez não nos ofereceu respostas prontas: ela nos deu mapas desenhados com memória, coragem  
e amor. Reivindicar sua obra é mais do que citar sua teoria — é escutar o que ela disse com o corpo inteiro.  
A democracia por vir já está sendo vivida pelas mulheres negras. Cabe à sociologia brasileira, e a todos nós,  
finalmente reconhecê-la.  
3
CONCLUSÃO  
A partir da análise crítica da obra de Lélia Gonzalez, este artigo demonstrou como sua produção intelectual  
rompe com os pilares fundacionais do pensamento social brasileiro. Gonzalez não buscava inserir-se em um  
pensamento previamente estabelecido; ela buscava desestabilizá-lo. Sua obra desloca o centro da análise  
para os saberes produzidos nas margens: nos terreiros, nas favelas, nas experiências das mulheres negras,  
nos territórios culturais da resistência. Esses espaços, desprezados pelo saber hegemônico, revelam-se como  
lugares férteis de elaboração política e epistêmica.  
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SILENCIAMENTO E RESISTÊNCIA: LÉLIA GONZALEZ E O APAGAMENTO  
EPISTEMOLÓGICO DE INTELECTUAIS NEGRAS NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO  
Izabele Caroline do Nascimento Canario  
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A categoria de amefricanidade, construída por Gonzalez, atua como eixo de uma teoria que vai além da  
identidade, sendo uma chave para ler o Brasil a partir dos corpos historicamente silenciados. Ao reconhecer  
a mulher negra como sujeito político e epistemológico e não como objeto de tutela ou intervenção, Gonzalez  
propõe uma virada radical. Sua abordagem não é apenas interseccional, mas insurgente, afirmando um  
campo legítimo e potente de produção de conhecimento e de reinvenção da política.  
A ausência sistemática de Gonzalez nos currículos universitários, nas bibliografias obrigatórias e nos  
manuais de teoria social não é uma lacuna acidental: é parte de uma engrenagem racista e sexista que  
define quem pode ser considerado um “clássico”. Essa exclusão expressa a lógica de um campo que ainda se  
recusa a reconhecer como legítimos os saberes que nascem do corpo negro, feminino, dissidente e coletivo.  
Reivindicar Gonzalez como pensadora central do pensamento social brasileiro é, portanto, um gesto de  
justiça epistêmica e de transformação política.  
Sua noção de teoria não se escreve apenas com conceitos, mas com corpo, memória e vida cotidiana. Ao  
incorporar o pretuguês, a oralidade, o afeto e os saberes ancestrais em sua elaboração teórica, Gonzalez  
desloca a fronteira entre ciência e experiência, entre política e existência. Sua obra não é apenas acadêmica: é  
insurrecional. Como resultado da leitura crítica realizada ao longo desta pesquisa, propõe-se aqui o conceito  
de “democracia social de base amefricana” como síntese interpretativa do pensamento de Lélia Gonzalez.  
Trata-se de uma formulação que emerge da análise de sua crítica à democracia liberal e à falsa universalidade  
da cidadania no Brasil.  
Essa democracia social de base amefricana não nasce das instituições do Estado, mas das práticas cotidianas  
de resistência e cuidado, das mulheres negras que sustentam a vida, dos quilombos, dos terreiros e das redes  
de solidariedade. É uma democracia que se estrutura nos valores da coletividade, da ancestralidade e da  
escuta, forjada no chão da luta e não nas promessas formais do Estado. Que sua obra siga abrindo caminhos  
e fazendo da encruzilhada não um ponto de dúvida, mas de decisão. Que a sociologia brasileira reconheça,  
enfim, que a democracia por vir já está sendo praticada, com corpo, com afeto, com resistência, por aquelas  
que sempre estiveram à frente: as mulheres negras.  
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194–200.  
Data de submissão: 29/05/2025  
Data de aceite: 07/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
A DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO E DO  
ESPAÇO NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ  
The racial division of labor and space in Lélia Gonzalez’ work  
La división racial del trabajo y del espaço en la obra de Lélia Gonzalez  
1
SOFIA MARIA DO CARMO NICOLAU  
ORCID: 0000-0003-2478-0526  
2
NATALINO NEVES DA SILVA  
ORCID: 0000-0002-1746-8713  
RESUMO  
O presente artigo objetiva refletir, de maneira sistemática, acerca dos conceitos de divisão racial do trabalho  
e divisão racial do espaço no pensamento da intelectual brasileira Lélia Gonzalez. Tratando-se de categorias  
que se articulam ao conjunto de sua obra, Gonzalez as pontua em diferentes contextos de sua atuação  
intelectual, entre os anos 70 e 80, denotando a estruturação racial da sociedade brasileira. Nesse sentido, a  
pesquisa em tela buscou retomar como essas categorias se apresentam na obra da autora, como dialogam  
entre si e com outros trabalhos, como são mobilizadas por intelectuais contemporâneos e, por fim, suas  
potencialidades para a área das relações raciais em contextos afrodiaspóricos.  
Lélia Gonzalez; Intelectual negra; Divisão racial do trabalho; Divisão racial do espaço.  
ABSTRACT  
The present article aims to reflect, in a systematic manner, on the concepts of racial division of labor and  
racial division of space in the thought of the Brazilian intellectual Lélia Gonzalez. As categories that articulate  
with the body of her work, Gonzalez highlights them in different contexts of her intellectual activity between  
the 1970s and 1980s, denoting the racial structuring of Brazilian society. In this sense, the research at hand  
sought to revisit how these categories appear in the author’s work; how they dialogue with each other and  
with other studies; how they are mobilized by contemporary intellectuals; and, finally, their potential for the  
field of race relations in Afrodiasporic contexts.  
Keywords: Lélia Gonzalez; Black Intellectual; Racial division of labor; Racial division of space.  
RESUMEN  
El presente artículo tiene como objetivo reflexionar, de manera sistemática, sobre los conceptos de división  
racial del trabajo y división racial del espacio en el pensamiento de la intelectual brasileña Lélia Gonzalez. Al  
tratarse de categorías que se articulan con el conjunto de su obra, Gonzalez las señala en diferentes contextos  
1 Mestranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP). Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  
Integrante e uma das idealizadoras do Coletivo Retomadas Epistemológicas. Foi bolsista de monitoria na disciplina Sociologia II (2020 - 2022). Moni-  
tora da disciplina sociologia urbana. Iniciação científica no Grupo Filosofia, Direito e Poder (GFDP). Membro do Centro de Estudos Urbanos da UFMG  
(CEURB) (2018- 2021). Tem interesse nos seguintes temas: Sociologia das relações raciais, sociologia urbana, migrações, gênero e desigualdades.  
E-mail: Sofiacarmo56@gmail.com  
2 Professor Adjunto da Faculdade de Educação (FaE), Departamento de Administração Escolar (DAE), da Universidade Federal de Minas Gerais  
(UFMG). Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É doutor e mestre em Educação pela Universidade Fede-  
ral de Minas (UFMG). Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa Afrodiáspora e Educação (Gepe Afro). Pesquisador associado do Núcleo de Estudos  
e Pesquisas sobre Relações Étnico-Raciais e Ações Afirmativas (NERA), do Sou Ciência – Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência  
(UNIFESP) e do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEJA). É membro da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN).  
E-mail: professornatalino@gmail.com  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
A DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO E DO ESPAÇO  
NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ  
Sofia Maria do Carmo Nicolau e Natalino Neves da Silva  
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de su actuación intelectual entre los años setenta y ochenta, lo que evidencia la estructuración racial de la  
sociedad brasileña. En este sentido, la investigación aquí presentada buscó retomar cómo estas categorías se  
manifiestan en la obra de la autora; cómo dialogan entre sí y con otros trabajos; cómo son movilizadas por  
intelectuales contemporáneos; y, por último, sus potencialidades para el campo de las relaciones raciales en  
contextos afrodiaspóricos.  
Palabras clave: Lélia Gonzalez; Intelectual negra; División racial del trabajo; División racial del  
espacio.  
INTRODUÇÃO  
O presente artigo é fruto das discussões realizadas em um trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais,  
cujo objetivo foi debruçar sistematicamente acerca dos conceitos de “divisão racial do trabalho” e “divisão  
racial do espaço” na obra da intelectual e militante Lélia Gonzalez. As categorias são articuladas pela autora  
como parte dos mecanismos de discriminação racial no Brasil, sendo ora descritas de maneira conjunta, ora  
separadas, mas partem de uma mesma matriz conceitual: uma forma de organização das relações sociais no  
Brasil que passa pelo crivo da raça.  
Apesar de presentes, essas categorias não são abordadas de maneira sistemática na obra de Lélia Gonzalez.  
Em outros termos, a intelectual não dedica uma comunicação ou texto específico para conceituá-las ou  
explicitá-las. No entanto, aparecem com recorrência em suas palestras, textos e entrevistas, mesmo que de  
maneira dispersa. A contribuição desta pesquisa insere-se precisamente nesse contexto, dada a lacuna de  
um estudo que busque compreender, de maneira aprofundada, como ambos os conceitos se articulam entre  
si e com a obra de Gonzalez.  
Dessa forma, neste artigo, pretendemos refletir, de maneira sistemática, sobre os conceitos de divisão racial  
do trabalho e de divisão racial do espaço em seus contextos de elaboração pela já mencionada intelectual  
brasileira, levando em consideração que são pilares para compreender a posição que a população negra  
ocupa no Brasil e os aspectos reprodutivos desse lugar social. As reflexões aqui desenvolvidas são resultantes  
de apreensões e diálogos estabelecidos por meio de leituras pessoais e de caráter mais sistematizado da obra  
de Lélia Gonzalez. Assim, busca-se empreender esforços teórico-metodológicos com vistas a estabelecer  
uma interpretação crítica desses conceitos.  
Considerando a natureza do problema de pesquisa, o presente estudo é qualitativo (Flick, 2004), sendo a  
revisão de literatura o principal procedimento metodológico utilizado para analisar e interpretar o material  
coletado (André; Ludke, 1986). Para tanto, foi feito um mapeamento dos registros em que os conceitos  
supracitados são considerados, sobretudo por meio de livros que organizam sua obra, a saber: Primavera  
para rosas negras, Por um feminismo afro-latino-americano e Lugar de negro, sendo este último escrito pela  
intelectual em parceria com Carlos Hasenbalg.  
Inicialmente, abordaremos o conceito de divisão racial do trabalho, que explicita o papel da raça na  
distribuição de posições na estrutura ocupacional e dialoga com a noção de “seleção racial”, também  
elaborada por Lélia Gonzalez. Posteriormente, debruçar-nos-emos sobre a concepção de divisão racial do  
espaço, entendida como uma linha de demarcação racial que opera tanto no espaço físico quanto no social.  
No último tópico, realizaremos uma cartografia conceitual, mapeando as menções dessa pensadora e ativista  
negra em relação a esses conceitos em diferentes tipos de registros. É importante destacar que, apesar de  
serem abordadas em sessões diferentes, a divisão racial do trabalho e a divisão racial do espaço emergem de  
maneira correlacionada em seu pensamento.  
A DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO NO PENSAMENTO DE LÉLIA GONZALEZ  
Desde a constituição da modernidade, a colonialidade se faz presente na organização global das relações  
sociais e na estruturação das desigualdades (Mignolo, 2017). Isso ocorre porque a formação social e as ideias  
que embasam o processo civilizador carregavam em suas entranhas aquilo que as constitui profundamente:  
o terror racial (Gilroy, 2001). Em continuidade e como efeito, no Brasil, a distribuição na estrutura de classes  
e de oportunidades também é ancorada nas diferenciações raciais que resultam e constituem a modernidade  
e o estabelecimento do capitalismo.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
A DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO E DO ESPAÇO  
NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ  
Sofia Maria do Carmo Nicolau e Natalino Neves da Silva  
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A divisão racial do trabalho é apreendida por Lélia Gonzalez levando em consideração essa compreensão.  
Em outras palavras, essa divisão atua diretamente na distribuição das posições ocupacionais de maneira  
desfavorável aos não brancos, consequentemente relegando a população negra às posições mais baixas  
da estrutura ocupacional. O conceito evidencia, portanto, o lugar da raça na consolidação do capitalismo  
periférico no país e, sobretudo, o lugar da população negra nesse processo. Assim, a divisão racial do trabalho  
é um fenômeno que perpassa todos os aspectos da organização social sob o regime do capital, tanto no Brasil  
quanto no mundo:  
É nesse sentido que o racismo – enquanto articulação ideológica e conjunto de práticas – denota sua eficácia estrutural na me-  
dida em que estabelece uma divisão racial do trabalho e é compartilhado por todas as formações socioeconômicas capitalistas  
e multirraciais contemporâneas. Em termos de manutenção do equilíbrio do sistema como um todo, ele é um dos critérios de  
maior importância na articulação dos mecanismos de recrutamento para as posições na estrutura de classes e no sistema da  
estratificação social. Desnecessário dizer que a população negra, em termos de capitalismo monopolista, é que vai constituir,  
em sua grande maioria, a massa marginal crescente. Em termos de capitalismo industrial competitivo (satelitização pelo setor  
hegemônico), ela se configura como exército industrial de reserva. (Gonzalez, 2020, p. 35)  
Analogamente, Du Bois (2021) entende a linha de cor como uma linha de separação racial que, de maneira  
global, rege as relações sociais. Hasani Santos (2021) a interpreta como uma organização global das relações  
e estruturas sociais mediadas pelo processo de racialização. Essa demarcação racial acontece mediante o que  
o sociólogo chama de véu, ou seja, um encobrimento da humanidade de pessoas negras sob o signo racial. O  
que Du Bois (2021) elabora conceitualmente como linha de cor é expresso em Gonzalez, de maneira similar, a  
nosso ver, pela divisão racial do trabalho, que, como bem aponta Fernanda Fonseca (2021), demarca aqueles  
que serão privilegiados pela estrutura social racista no processo de estabelecimento do capitalismo e aqueles  
que serão relegados à massa marginal no mercado de trabalho.  
Lélia Gonzalez, no entanto, apesar de pontuar o caráter global da divisão racial do trabalho, atém-se à  
forma com que o racismo organiza as relações raciais no contexto nacional. É exatamente como efeito dessa  
organização que a divisão social do trabalho passa também pelo crivo da raça. Para a autora:  
O que existe no Brasil, efetivamente, é uma divisão racial do trabalho. Por conseguinte, não é por coincidência que a maioria  
quase absoluta da população negra brasileira faz parte da massa marginal crescente: desemprego aberto, ocupações “refúgio”  
em serviços puros, trabalho ocasional, ocupação intermitente e trabalho por temporada etc. (Gonzalez, 2020, p. 46)  
Além disso, Lélia compreende a divisão racial do trabalho como um fenômeno resultante do racismo no  
Brasil e de sua capilarização estrutural. Apesar de anterior ao momento em que Sílvio Almeida (2018)  
escreve, pode-se estabelecer uma correlação entre a forma com que a antropóloga aborda a divisão racial  
do trabalho como fenômeno estrutural no país e o racismo estrutural elaborado pelo jurista. Isso porque  
o racismo estrutural e a divisão racial do trabalho e do espaço, em ambos os autores, apresentam-se como  
processos históricos e sociopolíticos que, de maneira macrossocial, viabilizam as condições da discriminação  
e das desigualdades raciais.  
No entanto, ao contrário de Almeida, Gonzalez não realiza distinção ou sobreposição dos mecanismos  
institucionais, estruturais e individuais do racismo, como o faz o jurista. Para a autora, o racismo se apresenta  
“como uma construção ideológica cujas práticas se concretizam nos diferentes processos de discriminação  
racial” (Gonzalez, 2020, p. 55). Partindo de uma perspectiva relacional, além da posição de pessoas negras  
na estrutura ocupacional, o lugar do negro, em Lélia Gonzalez, também perpassa aspectos microssociais no  
que concerne às discriminações que se manifestam cotidianamente na vida das pessoas negras. Um exemplo  
dessas formas de manifestação do racismo, que se efetiva na divisão racial do trabalho, é a “seleção racial”.  
A seleção racial é um termo utilizado pela autora para expor os impeditivos pelos quais pessoas negras  
passam ao tentarem ingressar em determinados cargos, sendo evidenciada por crivos e filtragens por meio  
das consideradas características importantes para o aceite em uma vaga. Não coincidentemente, essas  
características são atribuídas à branquitude, de modo que a demanda social por esses tipos de estéticas e  
“habilidades” significa apenas um eufemismo racista para direcionar pessoas negras a determinadas vagas  
e excluí-las de outras.  
A seleção racial já pode ser notada em anúncios de emprego que exigem “boa aparência”. Essa expressão,  
como sabemos muito bem, significa “Não aceitamos negros”. Não é por acaso que 83,1% das mulheres negras  
e 92,4% dos homens negros se concentram em ocupações ligadas ao trabalho manual não qualificado. Ou  
que quatro quintos da força de trabalho negra exerçam ocupações caracterizadas por baixa remuneração e  
por baixos índices de escolaridade. (Gonzalez, 2020, p. 67)  
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NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ  
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Na obra de Gonzalez, essa seleção se torna ainda mais evidente contra mulheres negras, uma vez que as  
atividades burocráticas que se “feminizaram” na década de 1970, como trabalhos em escritórios e bancos,  
exigiam padrões estéticos da branquitude que eram atendidos apenas por mulheres brancas. Assim, a seleção  
racial no mercado de trabalho tem implicações diretas na distribuição racial da estrutura ocupacional ou,  
nos termos aqui apresentados, na divisão racial do trabalho. Essa seleção torna-se especialmente expressiva  
devido à sua clivagem de gênero, pois relega mulheres negras a cargos voltados, por exemplo, ao cuidado  
e ao serviço doméstico. Em uma nota de rodapé, a autora já alertava para a divisão racial do trabalho por  
gênero e raça nos idos da década de 1980, ao ponderar que  
Pesquisas realizadas recentemente demonstram que a divisão racial do trabalho opera de maneira muito mais contundente, em  
termos de prejuízos para a população negra, do que a divisão sexual do trabalho contra o setor feminino da população brasileira.  
Queremos dizer que mais uma vez se confirma a terrível situação da mulher negra, uma vez que em termos de distribuição de  
renda a distância que marca as diferenças entre brancas e negras é muito maior do que aquela que separa homens e mulheres.  
(Oliveira, Porcaro e Araújo Costa, 1980 apud., Gonzalez, 2020, p. 64)  
Quanto a isso, a intelectual assinala que opera na sociedade brasileira uma divisão sexual do trabalho com  
suas articulações raciais. Nesse caso, a divisão racial e a divisão sexual do trabalho se efetivam por meio do  
fenômeno nomeado por ela como dupla ou tripla discriminação sofrida por mulheres negras. Esse tipo de  
discriminação as relega a lugares específicos no mercado de trabalho, como o trabalho doméstico, por meio  
dos marcadores de raça, classe e gênero na estrutura ocupacional.  
Na divisão racial e sexual do trabalho a mulher negra sofre as duas discriminações. Vejam bem, as duas, e isso é conduzido  
historicamente, de forma muito sutil, disfarçadamente… assim tem sido… no campo, nos trabalhos muito importantes e fun-  
damentais da economia nacional você encontra a mulher como um todo – e a negra – sendo discriminada na escala social. Na  
vida urbana, lá está a mulher doméstica – e a negra – no segundo ou terceiro escalão dessa vida. A mulher negra trabalha sem  
garantias, não tem carteira assinada – uma conquista já aceita pela nossa legislação trabalhista –, não tem seus direitos de traba-  
lhadora assegurados. (Gonzalez, 2020, p. 302)  
A DIVISÃO RACIAL DO ESPAÇO E O LUGAR DO NEGRO  
O processo de revisão da literatura revela que Gonzalez (2018) compreende a divisão racial do espaço por  
meio, dentre outros elementos, da separação entre espaços físicos e sociais ocupados por grupos dominantes  
e dominados. Para ela, desde a casa grande até os grandes edifícios residenciais, e em seu polo oposto, da  
senzala às favelas, a segregação socioespacial e racial se mantém presente. A autora discute a divisão racial  
do espaço para além da segregação urbana ou regional, atentando também aos lugares, na estrutura social,  
destinados às pessoas negras.  
Quer dizer, temos uma divisão racial do espaço não só no nível do país, mas também no nível das entidades, no nível do campo e  
no nível, evidentemente, da própria estrutura social, como já dissemos anteriormente. O Brasil está estruturado também numa  
perspectiva racial. (Gonzalez, 2020, p. 248)  
Essa concepção da divisão racial do espaço pode ser correlacionada à ideia de linha de continuidade  
histórica, proposta por Beatriz Nascimento (2021). Isto é, remete às separações raciais que se estabeleceram  
na escravidão e permanecem no pós-abolição por meio da marginalização da população negra no  
estabelecimento do capitalismo periférico. Se, para a autora, durante a escravidão, a mobilidade geográfica  
da/o escravizada/o estava ligada ao tipo de atividade econômica realizada no país, no pós-abolição, a  
população negra permanece submetida e imobilizada pelos mecanismos de barragem social, nos termos de  
Clóvis Moura (2005). Esses mecanismos, que a população negra, na condição de ex-escravizada, carregava  
consigo, expressam-se em seus corpos como marcas simbólicas e materiais daquilo que se tornara através do  
sequestro, da travessia pelo Atlântico e de séculos de degradação existencial proporcionada pela escravidão.  
A condição do negro, portanto, vincula-se profundamente à experiência da pessoa escravizada e da ex-  
escravizada, atuando como uma roupagem social que determinará suas relações interpessoais, sua posição  
no mercado de trabalho e sua ocupação dos espaços físicos e sociais. Assim, a divisão racial do espaço  
organiza e delimita o lugar social do negro, seus lugares físicos e sua posição no mercado de trabalho. Essa  
interpretação aparece como uma constante na obra da intelectual negra.  
Por essa breve caracterização, vê-se que na “democracia racial” brasileira, com sua divisão racial do trabalho, a população negra  
é sempre forçada a permanecer nas escalas inferiores da hierarquia social. Não é por acaso que uma expressão, atribuída a um  
famoso humorista, afirma sarcasticamente que “no Brasil não existe racismo porque o negro conhece o seu lugar”. Também não  
é por acaso que o movimento negro se refere à noção de “democracia racial” como um mito. (Gonzalez, 2020, p. 67)  
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No trecho acima, além de abordar a divisão racial do trabalho, Gonzalez também aborda a ideia de “lugar”,  
ou seja, propriamente o “lugar de negro”. Esse elemento, além de presente e fundamental na elaboração  
do seu pensamento, está intrinsecamente ligado a suas elaborações acerca da divisão racial do trabalho e  
do espaço. Esse lugar social a que são relegadas as pessoas negras é um efeito não apenas do Brasil, mas  
também de outras sociedades3 em que a raça e o racismo são organizadores das relações sociais. Segundo a  
reflexão da autora:  
O pessoal aqui diz: “Não existe racismo no Brasil”, e o povo complementa da seguinte maneira: “Porque o negro se põe no seu  
lugar”. Além de uma discriminação, uma divisão racial do trabalho que a gente percebe tranquilamente, há uma divisão racial  
do espaço também. Aí nós vamos perceber o seguinte: que a atuação da polícia, da repressão policial, ela é típica… Então veja: no  
nosso caso, quando eu falava de semelhança com a África do Sul, a polícia brasileira ataca as favelas, invade as casas das pessoas,  
rouba os objetos das famílias e, vejam, a questão do desemprego, da própria crise econômica brasileira, como ela é articulada  
com o racismo. (Gonzalez, 2020, p. 290-291)  
Gonzalez aborda, em sua obra, que a população negra não conhece ou reconhece esse lugar. Ainda assim,  
ela é continuamente compelida a ele por meio do racismo e de seus mecanismos: a divisão racial do trabalho  
e do espaço. Nos termos de Fanon (2008), não é o negro que cria a inferiorização e sim o racista. Isso,  
entretanto, não impede a exploração dos meandros desse lugar social que demarca a condição do negro no  
Brasil. Ao longo do século XX, estudiosos direcionaram sua atenção para os efeitos da raça no processo de  
estratificação. O lugar de negro definido por Gonzalez nomeou as tentativas de compreender de que forma a  
raça e o racismo distribuem diferencialmente os grupos raciais na estrutura de classes.  
Há, ainda hoje, um amplo debate acerca da relação entre raça e classe. Para muitos estudos, raça e classe  
são sinônimos, enquanto outros compreendem que a raça é uma forma de vivenciar a classe, sendo ambas  
distintas, porém interligadas. Partindo da segunda concepção, as contribuições de Gonzalez evidenciam a  
correlaçãoentreraça,classeemobilidadesocialnoBrasil.Talcompreensãoresultadosdiálogosestabelecidos  
com o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg (2005), que defendia que a classe seria a posição estrutural do  
indivíduo sob a mediação do sistema capitalista, enquanto a estratificação seria uma distribuição desigual  
de privilégios. A raça, no entanto, funciona como um critério em si para determinar as posições no sistema.  
Em suas palavras:  
A proposição mais geral é a de que a raça opera como um critério com uma eficácia própria no preenchimento, por não bran-  
cos, de lugares na estrutura de classes e no sistema de estratificação social. Para esclarecer em que sentido a raça opera como  
critério independente, a distinção de Poulantzas entre os dois aspectos da reprodução ampliada das classes sociais, isto é, a  
reprodução das posições (lugares) de classe e a reprodução e distribuição dos agentes entre essas posições deve ser lembrada. A  
raça, como atributo socialmente elaborado, está relacionada principalmente ao aspecto subordinado da reprodução das classes  
sociais, isto é, a reprodução (formação qualificação - submissão) e distribuição dos agentes. Portanto, as minorias raciais não  
estão fora da estrutura de classes das sociedades multirraciais, em que as relações de produção capitalista - ou quaisquer outras  
relações de produção no caso são dominantes. Outrossim, o racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada  
através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos  
nas relações de produção e distribuição. (Hasenbalg, 2005, p. 120-121)  
Em Lugar de negro, Gonzalez e Hasenbalg trazem uma proposição semelhante sobre a importância da raça  
ao se pensar o processo de produção e reprodução das classes na sociedade:  
A raça, como atributo social e historicamente elaborado, continua a funcionar como um dos critérios mais importantes na dis-  
tribuição de pessoas na hierarquia social. Em outras palavras, a raça se relaciona fundamentalmente com um dos aspectos da  
reprodução das classes sociais, isto é, a distribuição dos indivíduos nas posições da estrutura de classes e dimensões distributi-  
vas da estratificação social. (Gonzalez; Hasenbalg, 1982, p. 88-89)  
Raça, portanto, é um fator importante no processo de distribuição na estrutura de classes, existindo  
no Brasil uma distribuição desigual de oportunidades entre negros e brancos. A distribuição regional,  
o acesso à educação e a estrutura de emprego são constantemente atravessados pelos mecanismos de  
barragem à mobilidade social de pessoas negras por meio do racismo. Márcia Lima (2002) realiza um  
caminho semelhante ao elaborar um estudo acerca do mercado de trabalho como revelador e reprodutor  
de desigualdades. A socióloga mobiliza a categoria nativa “lugar” para se referir às posições ocupacionais  
de pessoas negras no mercado de trabalho, relacionando dados estatísticos ao imaginário popular acerca  
da distribuição ocupacional por raça. Esse imaginário sobre o “lugar” do negro não apenas aponta para as  
posições no mercado de trabalho, mas atua também como perpetuador de desigualdades.  
Como aponta Bourdieu (1996; 2013), muitas vezes o lugar no espaço social coincide com o lugar no espaço  
físico. Ou seja, a posição que os agentes ocupam dentro do sistema de distribuição de capitais materiais,  
3 Gonzalez, como militante negra e intelectual afrodiaspórica, reflete sobre a violência colonial racial que incide sobre a divisão racial do espaço e  
do trabalho não só no Brasil como também na África do Sul. Ressalta-se que, no momento histórico de sua análise, esse país do continente africano  
enfrentava o sistema político oficial apartheid, regime de segregação racial.  
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simbólicos e culturais liga-se aos espaços físicos ou sociais reificados. Em uma sociedade em que há  
hierarquias sociorraciais, essas hierarquias também se manifestam espacialmente. Gonzalez aborda  
a divisão racial do espaço como uma demarcação espacial e social dos lugares ocupados pela população  
negra. Há, portanto, em sua obra, uma correlação entre os aspectos materiais e simbólicos do racismo por  
meio da divisão racial do espaço e do assim chamado lugar de negro. Esse lugar social e, muitas vezes, físico,  
que divide a população brasileira, demarca aqueles que irão para as escolas, para o ensino superior e para os  
altos cargos da estrutura ocupacional e aqueles que irão para os presídios, para as casas de detenção, “pro  
camburão” e para as ruas, tornando-se, muitas vezes, o corpo designado ao alvo da bala.  
Essa separação social é compreendida por Collins e Birge (2021) como condutos, isto é, uma metáfora  
que elucida o papel de políticas educacionais que direcionam estudantes brancos para as universidades  
e jovens negros para a prisão, para cargos técnicos ou para o desemprego. No Brasil, esses condutos se  
concretizam, no pensamento de Gonzalez, por meio da perseguição policial que, no começo do século XX, no  
período pós-abolição, foi institucionalizada pela Lei da Vadiagem, a qual marginalizava a população negra  
“desempregada”, legitimando abordagens policiais truculentas como parte operacional do Estado.  
Contemporaneamente, essas medidas são atualizadas pelas políticas de combate às drogas, como a Lei nº  
11.34/2006, que deixa a cargo da polícia a classificação de usuário ou traficante. Constata-se, assim, a mesma  
brecha no âmbito da segurança pública estatal: determinar os corpos negros, ou os lugares de negros, que  
serão marcados socialmente como criminosos.  
Enquanto isso, o negro, o nosso povo, continua marginalizado nas favelas, alagados, conjuntos “habitacionais”, invasões etc.  
Continua sendo discriminado na admissão aos empregos, racialmente perseguido no trabalho e sofrendo a sistemática repres-  
são da polícia, que o prende como vadio (desemprego, no caso do negro, é sinônimo de vadiagem, sabia?). (Gonzalez, 2020, p.  
179-180)  
Esse conjunto de elementos transforma o negro no que Gonzalez (2020) nomeia de massa marginal.  
Cabe a essa massa realizar trabalhos esporádicos, subtrabalhos, ou estar abertamente desempregada. A  
marginalização do negro, a subvalorização de seu trabalho e a precarização das condições de vida resultam  
do que Gonzalez aponta ser a divisão racial do trabalho. Como denunciado pelo geógrafo negro Milton  
Santos (2014), a cidadania construída na periferia do capital, nesse caso a sociedade brasileira, ocasiona um  
tipo de cidadão e cidadã multilado(a).  
Gonzalez também denuncia o que seria uma cidadania estraçalhada e dilacerada vivenciada por parte dessa  
população. Para a antropóloga, o que opera neste país é uma cidadania apenas no papel, mas não uma  
cidadania social, civil e política. Isso faz com que essa população tenha um descompasso em relação aos  
acessos e direitos básicos, o que impede sua incorporação plena na estrutura social.  
Em Gonzalez, no entanto, o lugar social do negro não é um lugar estático e imposto de maneira unilateral,  
mas um lugar em trânsito, em disputa, e que elucida a dinâmica denominada por Collins (2019) de dialética  
entre opressão e ativismo. Em outros termos, da mesma forma com que a população negra é relegada  
a determinados espaços, outros espaços são criados como fruto da resistência negra em contextos  
afrodiaspóricos. Gonzalez destaca as escolas de samba, os bailes soul, os terreiros, o movimento negro e  
de mulheres negras, entre outros, como espaços socioculturais, políticos, religiosos e educacionais de  
resistência negra.  
Assim, simultaneamente à vulnerabilidade e à violência racial contra a população negra, há também  
movimentos de reivindicações por direitos por parte da população negra cujo direito à cidadania não é  
plenamente garantido.  
As assembleias nacionais realizadas no Rio de Janeiro e em Salvador apontam para essa combinação de objetivos. Por exemplo,  
num tópico relacionado à discriminação racial ou à divisão racial do trabalho, as questões do desemprego ou do subemprego,  
a criação de creches ou a melhoria das condições de moradia nas cidades e nas áreas rurais também vieram à tona. Ao mesmo  
tempo em que denunciam a violência policial contra a população negra e a discriminação racial nas prisões, também atacam  
a exploração do trabalho prisional, exigindo o direito de organização para os presidiários e a criação de centros de recupera-  
ção para sua efetiva reintegração à sociedade. Ao mesmo tempo em que denunciam a exploração comercial, a inferiorização  
e a distorção da cultura negra, eles exigem a criação de teatros nas periferias e rejeitam a colonização cultural como um todo.  
Enquanto protestam contra a perseguição racial nos locais de trabalho, também reivindicam melhores salários, o direito à sin-  
dicalização e o direito de greve. (Gonzalez, 2020, p. 119-120)  
Passemos então a analisar, a partir do processo de revisão de literatura realizado, como a divisão racial do  
trabalho e do espaço emergem na obra da autora.  
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DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO E DO ESPAÇO NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ: BREVE SISTEMA-  
TIZAÇÃO  
A realização deste procedimento de pesquisa contribuiu para cartografar, do ponto de vista conceitual,  
momentos em que não apenas Gonzalez os aciona, mas também em que outros(as) intelectuais o fazem.  
Partindo dessa perspectiva, foi elaborada uma breve sistematização dos registros (textos, palestras,  
entrevistas etc.) em que a intérprete brasileira mobiliza a divisão racial do trabalho, a divisão racial do espaço,  
ou ambas, em seu pensamento.  
Quadro 1 – Divisão racial do trabalho e do espaço na obra de Lélia Gonzalez  
Título  
Ano  
Tipo de registro  
Segunda Conferência Anual  
do African Heritage Studies  
Association  
A juventude negra brasileira e a  
questão do desemprego  
1979  
Cultura, etnicidade e trabalho:  
efeitos linguísticos e políticos da  
exploração da mulher  
1979  
1979  
Comunicação Pittsburgh – LASA  
Entrevista com Lélia Gonzalez  
Mediação: Carlos A. Pereira e  
Heloisa B. Holanda (Patrulhas  
ideológicas)  
O racismo no Brasil é  
profundamente disfarçado  
Reunião da subcomissão dos  
negros, populações indígenas e  
pessoas com deficiência  
Discurso na Constituinte  
1979  
1979  
A mulher negra na sociedade  
brasileira: uma abordagem  
político-econômica  
Symposium The Political  
Economy of the Black World CLA  
O apoio brasileiro à causa  
da Namíbia: dificuldades e  
possibilidades  
1980  
1980  
Apresentação – ANPOCS  
Cadernos trabalhistas  
A questão negra no Brasil  
O movimento negro na ultima  
década  
(O Movimento Negro Unificado:  
um novo estágio na mobilização  
política negra)  
1982  
Lugar de negro  
Carta  
Mulher negra  
1983  
1984  
Revista de Ciências Sociais  
da Associação Nacional de  
Pós-Graduação e Pesquisa em  
Ciências Sociais (Anpocs)  
Racismo e sexismo na cultura  
brasileira  
Aula do curso cidadania e  
racismo – IPCN (Instituto de  
Pesquisa das Culturas Negras)  
Cidadania de segunda classe  
1988  
Fonte: Quadro elaborado pela autora, 2025.  
Muitas das comunicações, palestras e demais registros de Gonzalez foram publicados e republicados em  
mais de um veículo de comunicação. Na elaboração da sistematização, decidimos manter registrada a  
primeira menção encontrada. Cabe ressaltar que os trabalhos de Alex Ratts e Flávia Rios (2010), de Flávia  
Rios e Márcia Lima (2020) e o catálogo Lélia Gonzalez (2021), dentre outros, foram fundamentais para a  
realização desse quadro.  
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Conforme podemos notar, a primeira menção aos conceitos elaborados pela autora ocorreu em 1979  
e a última, em 1988, em uma aula ministrada no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), em  
um contexto de retomada da democratização no Brasil. Gonzalez mobiliza esses conceitos em diferentes  
momentos da conjuntura social brasileira. As menções aparecem em caráter de constatação: após expor  
dados acerca das desigualdades, a autora afirma que há uma divisão racial do trabalho e/ou do espaço.  
Notamos, ainda, que alguns intelectuais retomaram, nos últimos anos, essas categorias trabalhadas por  
Gonzalez em seus próprios estudos. Flávia Rios, em Lélia Gonzalez, uma teoria crítica do social (2022), aciona  
a divisão racial do trabalho para demonstrar que, na obra da intelectual, existe uma interdependência entre  
a formação do capitalismo e o racismo no país. Rios (2022), por sua vez, propõe observar os deslocamentos  
analíticos tecidos por Gonzalez por meio de uma teoria crítica que incorpora elementos da teoria clássica,  
sobretudo marxista, mas que centraliza a correlação com a dominação sexual e racial.  
Fernanda Fonseca (2021), de maneira análoga, dedica um tópico da sua dissertação de mestrado intitulada  
Nossa América Ladina: o pensamento (decolonial) de Lélia Gonzalez ao tema. Assim como Rios, Fonseca  
ressalta o papel da divisão racial do trabalho na economia brasileira, sob a imbricação entre raça e classe no  
processo de estratificação social. A divisão racial do espaço, por sua vez, é trabalhada por Alex Ratts em sua  
contribuição à coleção Questões urbanas e racismo, organizada por Emerson dos Santos (2013). No texto Os  
lugares da gente negra: temas geográficos no pensamento de Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, o pesquisador  
retoma uma citação de Lélia sobre a divisão racial do espaço para compreender os lugares naturalizados da  
população negra.  
Outra contribuição que mobiliza as reflexões de Gonzalez acerca da divisão racial do trabalho e do espaço é a  
do sociólogo Jair Costa Silva (2023), em Capital racial e as cifras do genocídio. Nesse texto, o autor utiliza essas  
categorias para fundamentar a noção de capital racial, conceito elaborado em sua dissertação de mestrado,  
que emerge tanto das entrevistas realizadas em sua pesquisa sobre abordagem policial em Belo Horizonte  
quanto da correlação entre capital simbólico e racialização.  
O pensamento de Gonzalez tem obtido cada vez mais reconhecimento e alcance social e acadêmico nos  
últimos anos. Um exemplo é a publicação do livro Por um feminismo afro-latino-americano, organizado por  
Rios e Lima (2020). Pesquisas acadêmicas começam, agora, a incorporar de forma sistemática o pensamento  
da intelectual. Não obstante, a partir desta investigação, constatamos que as referências à divisão racial do  
trabalho e do espaço ainda são incipientes. Um dos possíveis motivos é a dispersão dessas categorias ao  
longo de sua obra. É precisamente nesse ponto que se insere a contribuição desta pesquisa.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O presente artigo buscou explorar os conceitos de divisão racial do trabalho e de divisão racial do espaço  
na obra de Lélia Gonzalez. Ao longo do texto, buscamos demonstrar em quais contextos sociopolíticos e  
culturais a intelectual aciona esses conceitos e de que forma eles organizam tanto seu pensamento quanto  
a estrutura social brasileira. Compreendemos que, ao retomar continuamente a divisão racial do trabalho e  
do espaço em seus textos e demais produções, Lélia Gonzalez nomeia fenômenos que demarcam clivagens  
raciais e, consequentemente, os lugares a que são relegados os corpos racializados no Brasil.  
Constatamos que a “divisão racial do trabalho” e a “divisão racial do espaço” foram utilizadas pontualmente  
por Gonzalez em suas palestras, aulas, comunicações orais, entrevistas e textos. Assim, foi necessário  
dialogar com outros trabalhos acadêmicos da área das relações raciais que dialogam com o pensamento de  
Lélia Gonzalez ou com as categorias propriamente ditas.  
Compreendemos que a pensadora e militante do movimento negro e de mulheres negras realiza o que  
Guerreiro Ramos (1996) denomina redução sociológica: uma aplicação de termos e teorias sociológicas  
submetida a um processo de autodefinição da realidade nacional, filtrando técnicas, métodos e instrumentos  
de análise para o contexto brasileiro. Nesse sentido, a divisão racial do trabalho e a divisão racial do espaço  
são conceitos que denominam fenômenos sociais fundamentais para compreender o racismo e seus  
mecanismos de reprodução nas especificidades brasileiras. Esses conceitos evidenciam as cisões raciais e  
seus efeitos nas relações sociais, espaciais, trabalhistas e interpessoais. Em outras palavras, contribuem para  
a compreensão de como a raça se capilariza na vida social de sujeitos racializados.  
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Faz-se importante dizer que Gonzalez reflete sobre as desigualdades raciais em contextos afrodiaspóricos  
na segunda metade do século XX, período marcado pela ebulição de movimentos sociais e culturais ao  
redor do mundo. Esse contexto socio-histórico impactou significativamente a busca por direitos de grupos  
marginalizados. No entanto, apesar dos avanços e conquistas decorrentes da resistência e da luta do  
movimento negro, a divisão racial do trabalho e do espaço, enquanto dispositivos das desigualdades raciais,  
permanece vigente no século XXI.  
Ao analisar outras pesquisas realizadas nas últimas décadas que dialogam direta ou indiretamente com o  
pensamento de Gonzalez, constatamos que suas interpretações críticas acerca dessas categorias continuam  
oferecendo suporte teórico e empírico para compreender as desigualdades ocupacionais e espaciais da  
atualidade. Além disso, elas se entrecruzam com outras formas de manifestação do racismo, de modo que  
tais concepções constituem uma base conceitual importante no campo das relações raciais, pois auxiliam a  
desnudar o lugar do negro em meio às transformações sociopolíticas e históricas.  
Nesse sentido, a realização deste trabalho demonstra que o pensamento de Lélia Gonzalez necessita ser  
conhecido e trabalhado de maneira profunda e sistemática. Esse esforço vem sendo empreendido por  
diversos(as) intelectuais negros(as) e não negros(as) nas últimas décadas. Portanto, esta não é uma retomada  
meramente simbólica, uma vez que a obra da intelectual e militante negra oferece elementos e ferramentas  
analíticas, conceituais e práticas fundamentais para compreender o funcionamento do racismo no Brasil. A  
divisão racial do trabalho e a divisão racial do espaço, aqui analisadas, evidenciam essa potencialidade de  
sua obra que, além de permanecer atual, ainda é capaz de propiciar novas interpretações da realidade social,  
tanto no país quanto em outros contextos afrodiaspóricos.  
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quadros de guerra que tornam vidas precárias: encontros entre Michel Foucault, Achille Mbembe e Judith  
Butler. Curitiba: Editora CRV, 2023. p. 1-758.  
Data de submissão: 29/05/2025  
Data de aceite: 15/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
FEMINISMO NEGRO ACADÊMICO:  
EXPERIÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS  
Academic black feminism: experience of black teachers  
Feminismo negro académico: experiencia de docentes negros  
1
WELLINGTON PEREIRA  
ORCID: 0000-0002-4109-0896  
RESUMO  
Nopresenteartigo,serãoabordadasalgumasreflexõesemtornodascategoriastrabalhoetrabalhointelectual,  
bem como as formas como esses conceitos incidem sobre a vida de professoras negras na Universidade  
Federal da Bahia, na construção do que se entende como intelectual negra. O acesso às entrevistadas deu-se  
a partir de informantes dessa instituição de ensino. Formalizado o primeiro contato, iniciou-se a vivência  
com as sujeitas, construída a partir de três bases que considero fundamentais: 1) empatia: colocar-se no lugar  
da outra, refletindo sobre a condição da sujeita naquele espaço; 2) escuta: estar atento às histórias contadas  
pela entrevistada, buscando compreender e interpretar sua representação sobre determinado fenômeno;  
e 3) vivência do contexto: de modo que a prática pedagógica feminista negra leva as sujeitas professoras  
negras a uma (re)dimensão de sua condição de trabalho e de trabalho intelectual. O trabalho acadêmico  
estabelece relação não apenas com a construção do conhecimento, mas também com o engajamento político  
e social, visando à transformação do espaço universitário brasileiro.  
Palavras-chave: Feminismo negro; Insurgência; Raça; Pedagogia feminista negra.  
ABSTRACT  
In the present article, some reflections are presented on the categories of work and intellectual work, as well  
as on the ways in which these concepts impact the lives of Black female professors at the Federal University  
of Bahia, in the construction of what is understood as a Black intellectual. Access to the interviewees was  
facilitated through informants from this educational institution. Once the first contact was established, the  
immersion with the participants began, built upon three fundamental pillars: 1) empathy: putting oneself  
in the other’s place, reflecting on the participant’s condition in that space; 2) listening: being attentive to  
the stories told by the interviewee, seeking to understand and interpret her representation of a given  
phenomenon; and 3) contextual experience: in such a way that Black feminist pedagogical practice leads  
Black female professors to a (re)dimensioning of their condition as workers and as intellectuals. Academic  
work is related not only to the construction of knowledge but also to political and social engagement aimed  
at transforming the Brazilian university space.  
Keywords: Black feminism; Insurgency; Race; Black feminist pedagogy.  
1 Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM). Mestre em Ciências So-  
ciais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (2015). Atualmente, pesquisa trajetórias de professoras negras no magistério superior federal.  
É membro pesquisador do Coletivo Angela Davis/UFRB. Cientista social com ênfase em Antropologia, possui experiência em pesquisas sobre raça,  
gênero e suas intersecções com sexualidade e alteridades. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1184814869354130  
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RESUMEN  
En el presente artículo se presentan algunas reflexiones sobre las categorías de trabajo y trabajo intelectual,  
así como sobre las formas en que estos conceptos inciden en la vida de las profesoras negras de la Universidad  
Federal de Bahía, en la construcción de lo que se entiende como intelectual negra. El acceso a las entrevistadas  
se realizó a partir de informantes de esta institución educativa. Una vez establecido el primer contacto,  
comenzó la inmersión con las participantes, construida sobre tres pilares fundamentales: 1) empatía: ponerse  
en el lugar de la otra, reflexionando sobre la condición de la participante en ese espacio; 2) escucha: estar  
atento a las historias contadas por la entrevistada, buscando comprender e interpretar su representación  
de un fenómeno determinado; y 3) experiencia contextual: de manera que la práctica pedagógica feminista  
negra conduce a las profesoras negras a una (re)dimensión de su condición como trabajadoras y como  
intelectuales. El trabajo académico se relaciona no solo con la construcción del conocimiento, sino también  
con el compromiso político y social orientado a la transformación del espacio universitario brasileño.  
Palabras clave: Feminismo negro; Insurgencia; Raza; Pedagogía feminista negra.  
1.  
INTRODUÇÃO  
No presente artigo, apresento algumas reflexões em torno das categorias trabalho e trabalho intelectual,  
e as formas como esses conceitos incidem sobre a vida de professoras negras na Universidade Federal da  
Bahia (UFBA) na construção do que se entende como intelectual negra, pois observo que estar nesse lugar  
significa ter uma conexão integral com as ações políticas, sociais e coletivas, além de estar constantemente  
na luta contra o racismo e o sexismo. Para tanto, tenho como base o Feminismo Negro e sua epistemologia  
na construção desse debate e dessa reflexão social2.  
A etnografia desenvolvida na tese de doutorado que dá origem a este artigo contou com a participação de  
dez interlocutoras, todas autodeclaradas negras, sendo que seis delas nasceram na Bahia e quatro em outros  
estados (duas em São Paulo, uma no Rio Grande do Sul e uma no Espírito Santo). As sujeitas da pesquisa  
advêm dos Institutos de Letras (cinco), de Química (uma) e de Física (uma) e das Escolas de Enfermagem  
(uma), Direito (uma) e Arquitetura e Urbanismo (uma). Realizei a pesquisa entre 2018 e 2019, e o contato  
inicial com as entrevistadas ocorreu primeiramente através de indicação e depois da técnica de snowball, e,  
por conta disso, há um maior número de interlocutoras vinculadas ao Instituto de Letras.  
Saliento que todos os nomes das entrevistadas/interlocutoras são fictícios, escolhidos por elas a partir  
de sentimentos de afinidade, afeição e/ou admiração intelectual. Entre as escolhas, algumas optaram por  
nomes de personagens de livros, enquanto outras preferiram nomes de escritoras, intelectuais e ativistas –  
todas mulheres negras. O grande desafio da pesquisa se constituiu em reunir os dados a partir de diferentes  
técnicas de coleta, privilegiando a etnografia como o principal meio para este fim. Mas, afinal, o que é uma  
etnografia? Quais são os passos para realizá-la? É possível conduzir uma etnografia na contemporaneidade?  
A etnografia é construída na relação entre os/as sujeitos/as e os códigos culturais e na forma como se  
constroem os significados que daí emergem. Ela é um método e ao mesmo tempo um mecanismo que  
contribui para a interpretação e a reflexão social. De modo prático, podemos dizer que a etnografia é  
constituída a partir da observação participante, do caderno de campo, das entrevistas, das informações  
dos/as interlocutores/as e das análises. E realizar etnografia na contemporaneidade é um grande desafio,  
sobretudo em razão das relações que precisamos estabelecer com os diferentes grupos sociais.  
Clifford Geertz (2008) destaca a necessidade de realizar uma leitura da cultura, compreendendo-a como  
uma teia de significados e símbolos que orientam a interpretação. Propõe, assim, a elaboração de uma  
descrição densa, que considere o modo como cada pessoa se relaciona com os signos e lhes atribui sentido.  
James Clifford (1998), por sua vez, evidencia elementos centrais da experiência etnográfica que atravessam  
a autoridade do etnógrafo, a partir de sua vivência, bem como sua relação com o caderno de campo e com a  
escrita.  
Malinowski (1982), um dos primeiros a se aventurar na etnografia, enfatiza a importância de uma descrição  
que expresse o “estar lá”, o “sangue e a carne” da experiência – ou seja, a necessidade de o/a antropólogo/a  
2 Este artigo é uma construção realizada a partir da tese de doutorado intitulada “Feminismo negro acadêmico: resistência e práticas insurgentes nas  
trajetórias de professoras universitárias negras”, defendida em 2022 no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre  
Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA), sob a orientação da professora Angela Figueiredo, que contribuiu com as análises do caderno de  
campo sob a ótica do feminismo negro, colaborando para a percepção do feminismo negro acadêmico.  
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estar presente no locus da pesquisa. O autor destaca a relevância de trazer os dados empíricos por meio de  
sua codificação e interpretação, como resultado da observação, das anotações no caderno de campo e do  
contato estabelecido com o/a informante da pesquisa, aquele/a que orienta o/a pesquisador/a no caminho  
até os/as entrevistados/as..  
No sentido do que foi apresentado, destaco a condição do/a antropólogo/a que vivencia diferentes contextos  
e estabelece relações com os/as sujeitos/as e grupos, compartilhando o cotidiano da comunidade – morando,  
comendo e dormindo no local de pesquisa. Nesse processo, o caderno de campo torna-se um instrumento  
fundamental para a coleta e a sistematização dos dados. Estar em campo é, portanto, estar imerso/a no  
contexto da comunidade. Roberto Cardoso de Oliveira (1996) ressalta que é necessário desenvolver um  
olhar treinado para observar, interpretar os signos e representar seus significados, sendo essencial ouvir o/a  
informante ou entrevistado/a para extrair o máximo de informações que subsidiem a escrita etnográfica.  
Atrevo-me a escrever sobre o fazer etnográfico na contemporaneidade, apresentando como experienciei a  
etnografia, o campo, a utilização do caderno de campo, a observação, a descrição e o acesso às informantes  
deste trabalho. O início da vivência com as sujeitas deu-se a partir de uma construção fundamentada em três  
bases que considero essenciais: (1) empatia, como a capacidade de se colocar no lugar da outra, refletindo  
sobre sua condição naquele espaço; (2) escuta, compreendida como uma atenção ativa à narrativa da  
entrevistada, buscando apreender e interpretar sua representação sobre determinado fenômeno – enquanto  
ouvir é um ato mecânico vinculado ao sentido da audição, a escuta exige atenção e reflexão sobre o que é  
dito; e (3) vivência do contexto, entendida como a experiência cotidiana construída no decorrer do processo,  
na qual o pesquisador se pergunta, a cada encontro, sobre a relação estabelecida com a sujeita pesquisada,  
observando a sequência de fatos e dados que serão posteriormente interpretados.  
Nas idas ao campo de pesquisa para encontrar-me com as professoras negras, eu estava sempre munido  
do caderno de campo e utilizava essas três importantes técnicas para a coleta de dados. Ao articular esses  
três pontos, buscava exercitar a observação participante. Outro aspecto significativo era o empenho em  
interpretar os símbolos e códigos sociais registrados no caderno de campo após as observações, buscando  
dialogar com as análises das entrevistas e refletindo sobre as anotações e os achados simbólicos – afinal, é de  
suma importância analisar os dados coletados.  
A etnografia é um exercício cotidiano que requer disciplina, tempo, dedicação e rigor no trato dos dados.  
Isso significa que o/a pesquisador/a precisa estar intensamente envolvido/a com o tema. A etnografia não  
é apenas uma metodologia nem somente um mecanismo de reflexão antropológica; ela é ambas as coisas  
ao mesmo tempo. Pode ser caracterizada como uma simbiose entre teoria, prática científica, metodologia e  
instrumento de coleta de dados.  
Tomo agora a categoria tempo para refletir sobre aspectos relevantes do fazer etnográfico. O tempo aqui é  
compreendido como circular, e não linear – tal como o orixá Tempo/Iroco, que representa a circularidade  
e a ancestralidade, com sua grande árvore de raízes que crescem de forma não linear, desenhando curvas,  
subindo e descendo, trançando-se e conectando-se com o espaço e consigo mesma. Penso nos encontros  
entre as pessoas, que criam laços, se comunicam, desviam de barreiras e estão sempre em busca de vencer  
obstáculos. Refletir sobre a trajetória das professoras negras é, portanto, pensar de forma circular, visto que,  
a partir da memória e da atuação em rede, as identidades e as trajetórias vão se formando.  
Outro fator que compõe o tempo é a cronologia, constituída pela ancestralidade. Se o tempo é uma criação  
humana que articula presente, passado e futuro – dimensões nas quais os fenômenos se manifestam –, ele se  
revela circular, pois conecta os/as sujeitos/as ancestrais aos/às sujeitos/as contemporâneos/as, compondo  
fenômenos sociais históricos que se expressam em nossa sociedade de forma diversa e articulada. Assim, a  
forma circular do tempo se manifesta nas ações das professoras negras, por meio do diálogo entre elas e a  
comunidade externa, bem como entre elas e os/as estudantes negros/as.  
Podemos pensar nesse tempo circular que conecta diferentes tempos e realidades históricas, como na  
tradução de autoras feministas negras norte-americanas que as professoras apresentam aos/às estudantes,  
ao mesmo tempo em que vivenciam o ingresso de estudantes negros/as por meio das políticas públicas  
de ações afirmativas, via cotas raciais. Nesse contexto, emergem temas de pesquisa relacionados às suas  
realidades, assim como demandas — entre elas, a necessidade de bolsas de permanência, de assistência  
estudantil e o desafio de construir um currículo plural. A circularidade, presente nas raízes profundas de  
Tempo, desvia dos obstáculos por baixo da terra, tal como os fenômenos sociais que se desenvolvem nas  
relações cotidianas de nosso contexto social.  
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O tempo circular também se relaciona com a ancestralidade e com as mulheres do Movimento Negro. As  
professoras que lutaram e ainda lutam pelas ações afirmativas e por melhorias na educação também integram  
esse círculo, pois suas trajetórias influenciam outros/as professores/as e estudantes negros/as. Essas mulheres  
são pontos de ligação na luta por uma educação mais justa, atuando como exemplos de intelectuais negras,  
militantes e feministas. É importante ressaltar que as professoras entrevistadas têm suas ações na UFBA  
fundamentadas em práticas feministas negras, especialmente vinculadas ao feminismo negro acadêmico, que  
tem possibilitado a construção de agendas políticas tanto no contexto universitário quanto fora dele.  
2.  
NAVEGANDO COM A PROFESSORA KEHINDE  
A professora Kehinde3 convidou-me para participar do grupo de pesquisa que ela coordena, composto por  
estudantes de graduação, mestrado e doutorado, totalizando 18 integrantes. No dia 5 de maio, às 14h30min,  
iniciava-se mais uma reunião, cujo objetivo era debater o texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira”  
(1984), de Lélia Gonzalez, refletindo sobre como abordar o racismo e o sexismo, bem como a naturalização  
do racismo no Brasil. A discussão era sempre bem conduzida e coordenada pela professora, que levantava  
questões instigantes, buscando extrair o máximo de diálogos e debates.  
O grupo também se propõe a traduzir textos estrangeiros, sobretudo de feministas negras norte-americanas.  
Sobre essa questão, a interlocutora aponta:  
É preponderante traduzirmos pessoas/sujeitos/as negras, pois existe uma exclusão da literatura negra estrangeira nesse país,  
a tradução é muito pouca de intelectuais negras, porém o que se traduz é o que as editoras querem, e principalmente o que está  
no que eles colocam como importante e no auge. Não que traduzir livros de determinada intelectual não seja importante, mas as  
editoras escolhem o que deve ser traduzido, daí é preciso traduzirmos o que eles não traduzem. [...] outra coisa é uma tradutora  
ou tradutor negro traduzindo a obra de intelectuais negros e negras, é uma outra cosmovisão, linguagem, isso faz diferença,  
esse é nosso papel aqui! Além de discutirmos textos e debatermos temas, são discutidos os projetos de pesquisa, a orientação, a  
tradução, esse exercício de possibilitar, a partir da tradução, que outros estudantes que não dominam o inglês tenham acesso a  
esses textos. (Kehinde [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
Podemos perceber que o trabalho intelectual vai além da sala de aula, de ministrar conteúdos das diferentes  
disciplinas, dos projetos de pesquisa e das reuniões de colegiado. Amplas e profundas reflexões são  
desenvolvidas nos grupos de pesquisa, de tal maneira que o trabalho intelectual também se relaciona com  
uma agenda de democratização do conhecimento, possibilitando leituras de textos ainda desconhecidos pelo  
grande público. Traduzir esses textos é oferecer aos/às estudantes que não dominam uma língua estrangeira  
– neste caso, o inglês – a oportunidade de acesso ao conteúdo, o que constitui uma disputa em torno da  
produção do conhecimento.  
Retomando o texto de Lélia Gonzalez, o debate também abordou as questões da consciência e da memória,  
refletindo sobre como a mulher negra e sua imagem foram construídas, pensadas a partir das figuras da  
mãe preta e da ama de leite. Durante a reunião, o debate fluiu intensamente, e um dos estudantes observou:  
“Lélia Gonzalez tem influência no que conhecemos hoje como interseccionalidade”. A professora Kehinde  
respondeu: “Sim, ela, como outras autoras, como Angela Davis, já trabalhavam gênero e classe junto com  
raça e sexualidade. A categoria tem toda uma construção”. Ao final do encontro, houve a partilha de um  
afetuoso lanche: não faltaram empadas doces, pães, sucos e um espaço para diálogos sobre as pesquisas dos/  
as integrantes do grupo, em um momento de grande descontração. Nesse contexto, a professora ouviu as  
demandas, sugeriu leituras e perguntou sobre o andamento das demais disciplinas.  
Ainda no campo da relação entre trabalho e intelectualidade, em 8 de junho de 2018 ocorreu o Oduduwa –  
I Colóquio Internacional: Língua, Literatura e Epistemologia Iorubana. No Auditório de Medicina da UFBA,  
localizado no Terreiro de Jesus, foi realizada uma mesa com a presença das intelectuais negras Conceição  
Evaristo, Wanda Machado, Wándé Abimbía e Wole Soyinka, que teve como tema “Literatura e epistemologia  
iorubana”, com foco na linguagem e na língua iorubá. O evento contou também com a presença do Rei de  
Ifé (Nigéria), Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi Ojaja II, que, naquele período, esteve em contato com  
terreiros de candomblé de Salvador, fortalecendo laços culturais e espirituais.  
A professora Kehinde foi uma das organizadoras do Colóquio, realizado pelo Programa de Pós-Graduação  
em Literatura e Cultura da UFBA, e aproveitou a visita do rei nigeriano para destacar a relevância de se  
discutir as 147 línguas não coloniais, com especial atenção ao iorubá, uma vez que muitas de suas palavras  
influenciam e enriquecem a linguagem cotidiana e o português falado no Brasil. Tal reflexão implica pensar  
3 Seguindo recomendações do conselho de ética da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), foram utilizados nomes fictícios para fazer referência  
às entrevistadas, escolhidos pelas próprias interlocutoras da pesquisa. Dentre as escolhas, as entrevistadas optaram por nomes de personagens de  
livros, de escritoras, de intelectuais e ativistas; outras escolhas se deram por afeto, rememorando mulheres presentes em suas trajetórias.  
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a descolonização do conhecimento por meio da incorporação das línguas e da valorização das tradições dos  
povos colonizados.  
O evento foi transmitido também de forma on-line para aqueles/as que não puderam adentrar o auditório,  
com o objetivo de democratizar a atividade e ampliar seu alcance. Essa foi mais uma ação do grupo de  
pesquisa coordenado pela professora, na qual todos/as os/as estudantes se envolveram: desde a preparação  
e as questões técnicas até a divulgação e a coordenação das mesas. Trata-se de um aprendizado amplo, que  
abrange desde o planejamento e a concepção do evento até sua execução.  
Enquanto pesquisador e homem negro, oriundo de diversos encontros com intelectuais negras, reitero  
que esses momentos sempre se configuram como oportunidades de troca, reciprocidade e aprendizagem  
— experiências que inspiram e fortalecem. A escritora Conceição Evaristo foi a mais procurada pelos/  
as estudantes, o que se deve à sua intensa produção, ao seu engajamento na luta contra o racismo e ao  
pertencimento comum à área de Letras. Ela também inspira jovens estudantes negros/as de outras áreas do  
conhecimento, por sua produção acadêmica, literária e intelectual, mas, sobretudo, pela forma como utiliza  
a escrita como instrumento de combate ao racismo e ao sexismo.  
O evento foi cuidadosamente planejado durante os encontros do grupo de pesquisa, e foi extremamente  
interessante observar a ampla participação dos/as integrantes. Segundo a professora Kehinde, tratou-se  
de uma ação de grande relevância, pois proporcionou aos/às estudantes o contato com um pensamento  
que rompe com os padrões eurocentrados e os incentivou a refletir sobre novas questões etnográficas  
relacionadas ao campo.  
3.  
“SOMOS OS POUCOS PROFESSORES NEGROS DESSA ESCOLA, SOMOS REFERÊNCIA PARA  
OS ESTUDANTES NEGROS”  
No dia 22 de junho de 2018, peguei o ônibus da UFBA que transporta estudantes universitários, o BUZUFBA,  
que faz o roteiro do campus de Ondina ao Vale do Canela, saindo às 07h30min da manhã. O veículo estava  
cheio de estudantes eufóricos/as com a chegada do São João. Desembarquei, passei em frente aos prédios das  
Faculdades de Educação e Administração e subi uma grande escadaria até chegar à Escola de Direito. Fui ao  
encontro da docente Luiza Bairros, para participar da reunião de um dos grupos de pesquisa mais engajados  
na luta racial na UFBA, o Programa Direito e Relações Raciais (PDRR), do qual a referida professora faz  
parte, juntamente com outro professor negro. Luiza considera que “há todo um debate racial que o mesmo  
[o grupo de pesquisa] vem fazendo dentro da Escola de Direito. Somos os poucos professores negros dessa  
Escola, somos referência para os estudantes negros”.  
Naquele dia seria discutido o livro Os condenados da terra, de Frantz Fanon (1968). Ao chegar à sala da  
reunião, já se encontrava presente um número grande de estudantes, majoritária ou até exclusivamente  
composto de mulheres e homens negros/as. A professora ressaltou que o curso tem agora, com o advento  
das cotas raciais nos últimos anos, um perfil mais negro ainda, mas que esses/as estudantes são, em sua  
maioria, oriundos/as da classe C e cursam durante a noite, isso por conta de estarem realizando atividades  
profissionais durante o dia.  
Os encontros do grupo, que acontecem uma vez por mês, contam com um contingente de negros/as bolsistas.  
Aqui cabe registrar a importância dos programas de bolsas de graduação, de iniciação científica e de  
permanência, pois garantem que estudantes negros/as cotistas possam se dedicar aos estudos, contribuindo  
com suas pesquisas para a construção do conhecimento. A sala tinha cerca de 16 estudantes, e o debate  
naquele dia começou com uma provocação para pensar a relação entre a violência colonial e a luta contra a  
opressão na construção da nação.  
As reflexões giraram em torno da constituição do Direito por meio da concepção colonial, levando à reflexão  
sobre as formas como o racismo permeia o campo jurídico. A professora Luiza Bairros e o professor negro  
que compartilha com ela a coordenação do grupo dividiram a fala, através de um trabalho conjunto, o que  
demonstra uma parceria de gênero entre pares negros. Outro ponto a ressaltar é a atuação de ambos para a  
formação de estudantes engajados/as na luta antirracista, em busca de construir uma concepção do Direito  
menos racista e classista.  
Durante o encontro, os/as estudantes demonstraram bastante interesse, levantando questões e reiterando a  
nossa condição de sujeitos/as negros/as na contemporaneidade em relação à colonização, sempre apontando  
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para as construções históricas e sociais. Surgiram questões como a violência que advém desde o período da  
escravidão e de como o corpo negro era extremamente violentado — o que continua nos tempos de hoje,  
através da ação policial, da estrutura social racista e da negação de proteção ao corpo negro. Foi uma manhã  
de intensos debates e, chegando ao meio-dia, o encontro foi se encerrando, com a despedida para o recesso  
junino. Muitos/as estudantes são do interior da Bahia e comentaram que, após quase quatro meses, iriam  
rever os pais, familiares e amigos/as, falando sobre como estavam saindo daquele momento revigorados/as  
e fortalecidos/as para enfrentar cotidianamente o racismo.  
Após a reunião, a professora Luiza se despediu dos/as estudantes e do professor que também coordena o  
grupo, e me convidou para ir à cantina tomar um café antes de irmos embora. Paramos na cantina da Escola  
de Direito e conversamos mais um pouco. A professora me perguntou se eu gostei do encontro e falou da  
importância desses debates, visto que os/as estudantes de Direito têm pouco acesso à literatura que reflete  
sobre as relações raciais. Ela destacou a importância de estar sempre fomentando esse diálogo e afirmou que  
o grupo é mais que um espaço para o debate epistemológico e de construção do conhecimento — é uma ação  
social crítica que visa despertar a consciência racial dos/as estudantes.  
Luiza também pontuou o importantíssimo papel do professor que divide com ela a coordenação do grupo,  
que foi um dos primeiros professores negros a adentrar na Escola de Direito da UFBA. Enquanto fundador  
do grupo PDRR, ele a convidou para participar, além de estar sempre envolvido na luta contra o racismo  
estrutural na universidade. Ele é muito combativo no departamento, está sempre atento e envolvido nas  
bancas de heteroidentificação da UFBA para ingresso de estudantes negros e negras na graduação.  
A entrevistada aponta que, além dele, há outro professor na Escola, cuja identidade ela lê como sendo a de  
um homem negro, mas que não se envolve nas lutas raciais. Luiza cita também uma relação de respeito com  
outro professor, que entende que o racismo em nossa sociedade existe, apoia as ações e debates sobre o  
tema, porém não se reconhece como negro — o que ela vê como contraditório, e mesmo apoiando os eventos  
na Escola de Direito, ele não está presente.  
Entre um cafezinho e outro, a conversa foi fluindo; a professora pediu uma empada para acompanhar, e  
já passava do meio-dia. Então, a docente retomou um tema que havia mencionado na entrevista que me  
concedera meses antes: sua relação com os professores homens no departamento:  
[...] é uma relação de trabalho que é um pouco difícil, tem coisas que vamos pegando aos poucos, como a relação com o machis-  
mo, em um espaço de trabalho, em um local que forma pessoas/estudantes para trabalhar com leis. Em uma reunião estava eu  
no colegiado, e vários temas na pauta, então, fui me posicionar em um desses pontos, um professor branco, quando eu iniciei a  
fala, me interrompe bruscamente: “Ei... é... você é representante estudantil? Qual semestre você é?”. Respirei fundo... é... Wellin-  
gton, na hora retruquei: “Sou professora, o senhor me vê aqui todas as reuniões. Eu não falto uma reunião. Passa por mim nos  
corredores e não me conhece?”. É... acho que não é só machismo, é racismo também. Ele justificou que eu sou muito jovem,  
pediu desculpa, mas sabemos que não é só isso. Tinha que me posicionar, que demarcar meu lugar. Acontece de professores  
homens, e os professores negros também, de eu entrar e não puxarem a cadeira para eu sentar, não que eu queira esse lugar  
de estar sendo hiper tratada, gentileza e respeito vai além do ato de puxar a cadeira, mas eu observo que eles puxam para as  
professoras brancas, isso diz muito de como nos vêm, de como é marcado o gênero a partir da cor, na relação com o sexismo.  
(Luiza Bairros, entrevista pessoal, 2025)  
A interlocutora continua: “Essa é inusitada, mas fala do racismo [rimos], mas é o que acontece”. Com um leve  
sorriso, ela conta que um segurança, ao vê-la chegar à Escola de Direito de carro, de um modelo popular, foi  
ao seu encontro, e disse:  
“Ei! E você, é estudante? Não pode estacionar nesse lugar, é reservado para professores”. Naquele momento eu ri, olhei – e ele é um  
dos nossos, negro, mas o racismo na nossa sociedade o condiciona a pensar que nós negr@s não podemos chegar a ser professores.  
Eu, então, disse: “Sou professora!”. Ele ficou sem graça, me pediu desculpas, eu desculpei rapidamente [risos]. Aí ele emenda as  
desculpas informando que ele vinha de Administração e que estava há dez dias no novo posto, mas que o meu carro era diferente  
dos outros, não era carrão, além de eu ser jovem. Eu disse: “Certo!”. Saí e me encaminhei para o departamento, mas fiquei pensando  
muito nessa condição de como somos vistas, nós mulheres negras, na academia ou em outros postos, que somos poucas. Essas são  
algumas das situações vividas nessa minha vivência universitária, enquanto professora. (Luiza Bairros, entrevista pessoal, 2025)  
4.  
ESPAÇOS SONHADOS POR NÓS: REDE DE APOIO ENTRE PROFESSORAS NEGRAS E  
ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO E PÓS-GRADUAÇÃO  
Nas idas e vindas da observação participante, percorri caminhos e fui compreendendo melhor as professoras  
negras. Trago mais vivências da imersão em campo, buscando refletir na perspectiva da intelectualidade  
e considerando as ações cotidianas das professoras negras docentes da UFBA, desta vez na Escola de  
Enfermagem, com a professora Laura, em uma disciplina do mestrado. A pesquisa foi se desenvolvendo  
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como uma árvore: a cada dia havia a necessidade de perseverança no cuidado, na forma de regar e construir  
o processo da etnografia. Assim, ela se desenvolveu, o tempo passou, e chegamos ao mês de dezembro de  
2019, na observação participante e nas etnografias em sala de aula.  
Trago aqui este exemplo por ter sido a única oportunidade de acompanhar as apresentações de monografia,  
registrando a importância desse momento por considerá-las uma atividade de trabalho intelectual produzido a quatro  
mãos, a partir da orientação da professora Laura. Neste caso, ela orienta trabalhos de conclusão de curso sempre  
envolvendo a perspectiva racial, sendo também muito presente a temática da violência contra crianças negras.  
No dia 11 de dezembro, no período da tarde, saí caminhando do fim de linha do Garcia, onde residia, até a  
Escola de Enfermagem. O clima do bairro já anunciava a chegada do fim do ano. O dia estava bonito, o sol  
brilhando. Percorri as ruas do Garcia, reduto de uma população negra que mantém, no carnaval, a tradicional  
Mudança do Garcia, aproveitando a festividade para reivindicar melhorias sociais no âmbito local e na área  
da saúde, junto às esferas estaduais e federais.  
Coincidência, confluência do universo ou olhar e ouvido atentos do pesquisador: ao passar pela Escola  
Edgard Santos, de nível médio, que fica ao lado da Escola Municipal Hildete Lomanto, dos níveis infantil  
e fundamental, vi jovens comemorando suas aprovações na escola — jovens negros/as sonhando com a  
aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), alimentando a esperança de, por meio do Sistema  
de Seleção Unificada (SISU), garantir uma vaga em uma universidade pública federal ou estadual. Um grupo  
de estudantes comentava sobre suas opções, e duas jovens mencionaram que tentariam a seleção para  
Enfermagem na UFBA. Eu caminhava justamente para a Escola de Enfermagem, a fim de acompanhar três  
apresentações de monografias de estudantes negras, refletindo sobre possibilidades e oportunidades que  
nos dão condições de alcançar os espaços sonhados.  
Seguindo a caminhada, dirigi-me à Escola de Enfermagem, situada nas imediações do Hospital das Clínicas  
e da Reitoria. Cheguei ao prédio de destino e, em seguida, ao auditório, onde aconteceriam três defesas no  
mesmo dia. Os olhos do pesquisador que vos fala brilharam ao ver as famílias negras presentes: pais, mães,  
irmãs, namorados/as e amigos/as que estavam ali para assistir às apresentações. A docente Laura afirmou  
que este “é um momento mais que de avaliação. É de comemoração, de festa”.  
O primeiro trabalho apresentado teve como título “Violência institucional contra crianças: percepções  
da equipe de enfermagem”; seguiu-se outro, “Criança hospitalizada e as percepções de profissionais de  
enfermagem”; e o terceiro, “Crianças e suas mães no cárcere”. Todos eles foram muito elogiados pela banca.  
A professora ressaltou o trabalho coletivo, no qual dividiu a orientação com estudantes de doutorado que,  
segundo ela, acompanham os/as estudantes de graduação — salientando que esse é também um processo de  
aprendizagem para os/as pós-graduandos/as — e enfatizou que, sem eles/as, não conseguiria dar conta de  
todas as demandas: dar aula nas disciplinas, escrever e publicar artigos, participar de eventos, propor grupos  
de trabalho (GTs) em congressos, participar de reuniões de colegiado e ministrar aulas na pós-graduação.  
Portanto, essa parceria com os/as estudantes de mestrado e doutorado é salutar.  
Outro ponto trazido pela professora foi sobre a participação em grupos de pesquisa, quando explicou com  
bom humor:  
Eu aceito no grupo, mas faltou três vezes, pergunto logo qual o caso da falta, de não estar indo. Aqui tem que ter regularidade e  
compromisso e... mas se pego nas reuniões olhando celular no WhatsApp, reclamo logo, namorar via internet aqui não [risos].  
Faço isso porque o racismo não admite que nós, negros, falhemos, ou que dispersemos. E depois, temos que ter compromisso  
para chegarmos nos nossos objetivos. Esse é o resultado de estar nos grupos de pesquisa, nos eventos da graduação e na relação  
com os pós-graduandos. Parabéns para vocês! (Laura, entrevista pessoal, 2025)  
Essa fala aponta a constituição de uma rede de apoio entre professores/as, estudantes de graduação e de  
pós-graduação negros/as, que implica em uma dimensão de acolhimento. Mas, como afirma a professora  
Laura, existe uma cobrança sobre o/a estudante negro/a, para que tenha responsabilidade, engajamento,  
comprometimento e tomada de consciência racial, ou seja, é uma formação integral que valoriza a cidadania  
e, mais que isso, a consciência racial. Essas observações, registradas no caderno de campo, estão conectadas  
com o debate sobre o trabalho intelectual e a prática pedagógica feminista negra.  
5.  
PRODUÇÃO  
ACADÊMICA  
E
TRABALHO:  
FEMINISMO  
NEGRO  
ACADÊMICO  
Existem conexões e pontes que confirmam a existência de ligações e comunicações que envolvem a forma e  
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o fazer acadêmico epistemológico, que tem muito a ver com os/as sujeitos/as, com as identidades de gênero,  
raça, sexualidade e com biografias sociais na construção de si e do/a outro/a. Felipe Fernandes, Míria Dantas  
e Marina Pereira (2016, p. 111) tratam a produção das mulheres na UFBA e questionam o masculino universal,  
afirmando que isso “acaba por dar lugar a uma percepção ou valorização do lugar e participação da mulher  
na vida social profissional”.  
Os autores refletem sobre os privilégios na produção do conhecimento, em especial na Antropologia,  
apontando que a categoria gênero dos/das pesquisadores/as é essencial nesse processo, e questionam:  
“Qual o lugar da mulher pesquisadora?” Giovana Cabral e Valter Bazzo (2005), em uma pesquisa realizada  
no contexto das Ciências Exatas e Tecnológicas, refletem sobre como as mulheres estão fora do campo da  
produção do saber científico nessas áreas de estudo, o que colabora para a compreensão desses espaços  
como locais privilegiados para a produção masculina, exacerbando ainda mais o androcentrismo na ciência,  
conforme podemos observar a seguir:  
Atualmente, no Brasil, a média de professoras e pesquisadoras em áreas como a engenharia e a ciência da computação é de  
aproximadamente 25%. As mulheres estão mais presentes em áreas como letras, linguística, artes e ciências humanas, por  
exemplo. O cenário é balizado por desigualdades e discriminação, diferenças de oportunidades e desprezo às peculiaridades do  
trabalho feminino. (Cabral; Bazzo, 2005, p. 4)  
Osautoresressaltamanecessidadedepensarmosnopercursoqueenvolveaproduçãocientífica, nãosomente  
a partir da relação de gênero, centrada no homem branco europeu, apontando para o privilégio masculino.  
Propomos deslocar o olhar também para a condição racial dos/das sujeitos/as pesquisadores/as, visto que  
o fazer científico e a produção intelectual também se relacionam com a condição e hierarquização racial.  
Não basta apenas contestar o privilégio masculino; é necessário pensar na estrutura racista da sociedade  
brasileira, que permeia também a produção científica.  
Podemos considerar, com isso, as reflexões propostas por Iris Oliveira (2019), ao abordar as subjetividades  
e a construção de si, refletindo sobre as experiências e pensando a condição de negritude no fazer científico.  
Isso coaduna com o pensamento de Angela Figueiredo (2020, p. 4), que propõe o resgate do percurso teórico-  
metodológico do Feminismo Negro: “Do ponto de vista da experiência acadêmica, há um movimento político  
decolonial que pressiona professoras e professores a incorporarem na biografia dos cursos ministrados  
autoras e autores negros e africanos”. Por isso, a autora destaca a produção científica baseada na categoria  
experiência, tão cara ao Feminismo Negro.  
Nossa proposta é pensar a concepção de um feminismo acadêmico na relação entre o Movimento de Mulheres  
Negras, o Movimento Quilombola e os coletivos negros dentro das universidades. A partir das trocas e  
contatos, constrói-se uma relação que produz o que podemos chamar de feminismo negro acadêmico. Nesse  
percurso, a travessia guia os/as sujeitos/as que ingressam na universidade por meio das cotas, permitindo  
apresentar novas perspectivas de pesquisa, novos olhares sobre o fazer científico, propostas inovadoras  
para o currículo e leituras que questionem a estrutura hierárquica da universidade.  
Esse feminismo negro acadêmico se forma a partir da categoria experiência, construído por sujeitas que  
provêm de grupos minoritários e que, ao se encontrarem com outras professoras negras, se reconhecem nelas  
e passam a dialogar, formando redes e alianças. Assim, podemos pensar em uma agenda política proposta  
pelos/as estudantes que ingressam nas universidades, muitos/as já identificados/as como feministas negras,  
muitas oriundas do Movimento de Mulheres Negras. Isso faz com que as professoras negras também se  
reconheçam nesses corpos e pensamentos, a partir das experiências vivenciadas por meio dos diálogos  
com diferentes movimentos sociais, estreitando a relação entre professoras e estudantes acadêmicas e  
fomentando uma produção científica engajada, alinhada a uma perspectiva ativista, já sinalizada pelas  
professoras.  
Segundo Angela Figueiredo (2020, p. 6), “algumas intelectuais e ativistas brasileiras, como Luiza Bairros  
[autora], foram responsáveis pela tradução, no sentido mais amplo do termo, das importantes contribuições  
de feministas afro-americanas”. Patricia Hill Collins, por exemplo, nos foi apresentada por Luiza Bairros  
(1995) no artigo “Nossos feminismos revisitados”, em que a autora articula nossas experiências à perspectiva  
da intelectual afro-americana na análise de um programa culinário de televisão, no qual uma mulher negra  
é subordinada a uma mulher branca.  
O trabalho acadêmico se relaciona não apenas com a construção do conhecimento, mas também com o  
engajamento político e social para a transformação do espaço universitário brasileiro. Essa relação se  
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manifesta na dimensão cosmológica das professoras negras, a partir de suas biografias e da forma como  
foram constituídas. Assim, esse modo de fazer ciência e esse trabalho intelectual reverberam em uma  
produção acadêmica engajada, com consciência racial, incluindo autores/as negros/as, construindo projetos  
de pesquisa e extensão que abordam questões raciais, lecionando disciplinas e promovendo debates.  
É importante destacar, ainda, o diálogo entre o Feminismo Negro brasileiro e o afro-americano. O  
Movimento de Mulheres Negras e suas agendas pressionam a academia brasileira e contribuem para o  
trabalho intelectual, sendo um motor propulsor da produção científica. Nessa encruzilhada de saberes, a  
construção do ser pesquisadora se conecta à sua capacidade de agenciamento diante da estrutura e de seus  
pares, à condição por ela criada e aos caminhos percorridos durante a carreira docente.  
6.  
TRABALHO E CIÊNCIA: DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DO TRABALHO INTELECTUAL  
O conceito de trabalho é uma categoria de análise importante para as Ciências Sociais, tanto no seu próprio  
desenvolvimento quanto para o entendimento dos diferentes grupos sociais, pois trata-se de uma categoria  
que considera a relação entre o/a sujeito/a e o capital. Nesse sentido, refletir sobre o trabalho perpassa  
a análise do trabalho intelectual, dos caminhos da construção do saber, da aprendizagem, da avaliação e  
da produção científica. Conforme aponta Antonio Gramsci (1981), algumas instituições influenciam a  
concepção de mundo do/a sujeito/a e, portanto, a percepção sobre o trabalho também sofre influência em  
conformidade com os contextos.  
Seria interessante estudar concretamente, em um determinado país, a organização cultural que movimenta o mundo ideologi-  
camente e examina o seu funcionamento prático. Um estudo da relação numérica entre o pessoal que está ligado profissional-  
mente ao trabalho cultural ativo e a população de cada país seria igualmente útil, com um cálculo aproximativo das forças livres.  
A escola – em todos os seus níveis – e a Igreja são as duas maiores organizações culturais em todos os países, graças ao número  
de pessoas que as utilizam. Os jornais, as revistas e a atividade editorial, as instituições escolares privadas, tanto as que integram  
a escola de Estado quanto as instituições de cultura do tipo das universidades populares. Outras profissões incorporam em  
sua atividade especializada uma fração cultural não desprezível, como a dos médicos, dos oficiais do exército, da magistratura.  
(Gramsci, 1981, p. 20)  
O autor sinaliza a importância das escolas e universidades na concepção de mundo que cada sociedade  
desenvolve, afirmando que esse processo precisa ocorrer de forma crítica e consciente, de modo que o  
trabalho intelectual esteja relacionado à produção reflexiva e à escolha dos/das diferentes sujeitos/as.  
Gramsci (1981) ressalta que ações teóricas devem ser resultado da prática, enfatizando essa relação. Nesse  
sentido, o/a intelectual deve vivenciar, na prática, o seu discurso. Ele/ela precisa, a partir de suas vivências e  
ações, ser um/a intelectual engajado/a, com compromisso social.  
Já bell hooks (1995) chama a atenção da importância e do impacto do trabalho intelectual negro na construção  
de uma relação com sua comunidade, e, para isso, traz o exemplo da sua própria experiência:  
No meu caso, voltei-me para o trabalho intelectual na busca desesperada de uma posição posicional que me ajudasse a sobrevi-  
ver a uma infância dolorosa. Criada numa comunidade segregada sulista pobre e operária, onde a educação era valorizada so-  
bretudo como um meio de mobilidade de classe, a vida intelectual sempre esteve ligada à carreira do ensino. Tratava-se mais do  
serviço externo como professor ajudando a elevar a raça no qual os professores podiam conquistar aceitação individual dentro  
da comunidade negra do que de uma vida interior intelectual e personalizada. Criada num mundo assim era mais que evidente  
que havia uma diferença socialmente aceita entre qualificação acadêmica e tornar-se um intelectual. Qualquer um podia ensi-  
nar, mas nem todos seriam intelectuais. E embora a função de professor nos rendesse status e respeito. (hooks, 1995, p. 465)  
A autora afirma que encontrou refúgio na vida intelectual e não dissocia intelectualidade da vida política  
e cotidiana. Explicita que, quando se falava em vida intelectual de negros/as no debate acadêmico afro-  
americano, apenas os homens negros eram citados como referência, e mesmo os/as estudantes, quando  
mencionavam alguém, faziam referência a poucas mulheres negras, o que evidencia o sexismo e o machismo  
presentes nessa questão. As reflexões tecidas apontam para um diálogo muito próximo da realidade  
brasileira, visto que a experiência das mulheres negras ficou de fora dos debates realizados no interior da  
academia, e mesmo nas discussões propostas pelos estudos de gênero e feministas, as pesquisadoras brancas  
não consideraram a experiência de mulheres negras. Sandra Azeredo (1994) e Kia Lilly Caldwell (2000) já  
apontavam para essa invisibilidade.  
hooks (1995, p. 466), ao afirmar que “o papel de ser intelectual negra quanto a sua relação com o mundo  
de ideias transcende as produções individuais”, chama atenção para o silenciamento das produções das  
mulheres negras, em razão do modus operandi das estruturas racistas, eurocêntricas e patriarcais. Ou  
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seja, ser intelectual negra é estar conectada às ações políticas e sociais coletivas e estar constantemente  
na luta contra o sexismo e o racismo. A autora enfatiza que devemos pensar o trabalho intelectual a partir  
da produção intelectual, destacando a matriz patriarcal e capitalista, bem como a supremacia branca.  
Nesse sentido, a luta das mulheres negras vai além da perspectiva de Gramsci (1981), que propõe pensar  
teoria e prática exercendo a reflexividade. As mulheres negras precisam romper os limites impostos pelo  
sexismo e pelo racismo, bem como superar as invisibilidades intra-gênero, esforçando-se para contrariar a  
naturalização da inferioridade, ao mesmo tempo em que se dedicam a ser intelectuais voltadas para o bem  
comum, representando um trabalho intelectual engajado com a comunidade negra.  
Mulheres negras buscam elaborar uma produção ancorada no Feminismo Negro e nas epistemologias  
feministas negras, que possibilitam o diálogo com a comunidade externa à universidade, de modo a contribuir  
para o desenvolvimento social. “O bom ensino deve ocorrer não como um armazenamento de informações,  
mas como formação de referenciais e desenvolvimento da capacidade de avaliação, o que vai ser fundamental  
para a produção científica e tecnológica” (Werneck, 2006, p. 173). Nesse sentido, educação e pesquisa são  
espaços de produção de trabalho, que, de certa forma, se constituem em mercado de empregabilidade para  
os/as sujeitos/as pesquisadores/as que vivenciam a produção do conhecimento.  
Vera Wernerk (2006) trata da compreensão da formulação das perspectivas científicas:  
Pode ter um conhecimento por experiência como, por exemplo, o modo de dirigir um automóvel sem que tenha a compreensão  
do processo mecânico que sua ação desencadeia. Pode ainda aceitar, por um comportamento de fé, um ensinamento que lhe é  
transmitido sem nenhuma consciência de seu conteúdo, como é o caso das superstições. Aquele que toma uma cápsula de remé-  
dio, acreditando curar a sua doença com tal procedimento, não tem, na maioria das vezes, nenhum conhecimento da relação da  
substância contida na pílula com o seu mal-estar. Não se pode, nesses casos, falar em conhecimento propriamente dito ou, pelo  
menos, em conhecimento científico. Pode-se entender como sabedoria a adequada hierarquização dos valores para a promoção  
da dignidade humana, o domínio do conhecimento científico e tecnológico de seu tempo, ou a vivência do respeito e da justiça  
que permitem um melhor desempenho social. (Werneck, 2006, p. 177)  
Os trabalhos intelectual e científico advêm de uma construção do conhecimento que envolve técnica e  
domínio da reflexão teórica. Aqui, cabe um debate que não se restringe ao que é ciência, à construção do  
conhecimento ou à objetividade, mas que também problematiza o conceito de trabalho, no que diz respeito à  
função das pesquisas que as professoras negras da UFBA realizam cotidianamente no exercício da profissão.  
Dessa forma, compreendemos a construção de si e a consciência de si, considerando o exercício e a vivência  
negra da intelectualidade, a partir dos insights das participantes da pesquisa. De acordo com a interlocutora  
Carolina Maria de Jesus:  
[...] Se eu faço um Feminismo Negro acadêmico são duas dimensões vinculadas. Para mim, as maiores referências vinculadas,  
acho que antes de pensar a academia e pensar uma militância, tem muito mais a ver com as mulheres que me cercam. Sou filha  
de uma mãe pedagoga, de uma avó professora. Pensar o lugar da formação, como um lugar emancipador de emancipação, para  
mim vem antes de pensar o feminismo, e antes de pensar a academia, em estando na academia. E pensando no feminismo, eu  
acho que identifico essas questões, dimensões que me afetam a pensar formação nessas referências anteriores que já carregava.  
Pensando na minha trajetória, esse lugar do que eu identifico como um modo feminista, uma prática, enfim, de constituição  
de prover a vida, né? Tipo, é muito deste lugar que estou hoje, olhando para isso dessa forma, mas, tipo minha avó jamais se  
reconheceria nessa chave, inclusive tem uma construção em torno das questões de gênero extremamente complicadas, assim,  
é por parte da minha avó. Então, eu acho que, ao mesmo tempo, tem uma prática de prover uma emancipação para as filhas e  
mulheres da família, entendendo que a formação é a única forma de assegurar a uma vida, que ela não colocaria na chave da  
independência, mas talvez colocasse na chave, e autonomia para lidar com as contingências da vida. (Carolina Maria de Jesus  
[nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A docente demonstra a importância da militância a partir de um compromisso com a formação engajada,  
numa concepção de emancipação pautada na experiência — algo que, para ela, se encontra na relação familiar,  
especialmente com a mãe pedagoga e a avó professora. Esse percurso aponta para uma perspectiva de  
emancipação feminista, colocando a educação como elemento central. Ao chegar à academia, o feminismo se  
apresenta como emancipatório, oferecendo uma forma diferenciada de conhecimento dentro desse espaço.  
Em sua fala, a construção de sentido está ancorada na relação com essas duas mulheres negras de sua família,  
que a influenciam na ação e na prática engajadas, estabelecendo uma conexão com o feminismo negro,  
ainda que não explicitamente nomeada como tal, visto que, na agenda do Feminismo Negro, emancipação e  
educação estão intrinsecamente relacionadas. As informações trazidas pela interlocutora permitem, ainda,  
refletir sobre a perspectiva feminista a partir de um olhar geracional e político:  
Pensando nas perspectivas feministas, pensando geracionalmente, eu acho que, assim, a geração da minha mãe já é uma geração  
que constrói uma leitura sobre gênero, que não apenas informada por uma chave feminista exatamente, mas uma aproximação  
com os movimentos, Movimento Negro. Minha mãe já vai para a academia. Então, talvez e, sobretudo, pensando essa dimensão  
potencial de emancipação da formação, talvez eu diria, sim, é... mas pensando a academia como lugar da emancipação, tipo,  
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talvez sim, talvez não, tenho tentado escrever inclusive a educação, a formação, para além da academia, e no sentido também  
de emancipações possíveis. Então, talvez eu não tenha uma resposta fechada. Assim, eu acho... penso a formação, a prática pro-  
fissional. Assim, me vejo mais, hoje, como uma formadora do que prioritariamente uma acadêmica, embora seja, mas eu acho  
que talvez esse lugar da formação é onde eu finco mais a minha crença, de que, digamos assim, num potencial emancipador e  
feminista, dentro desse Feminismo Negro ancorado nas mais velhas do que especificamente na academia, sabe? Com A maiús-  
culo. Mas, é isso, estando na academia tento fazer uma possibilidade de uma prática de formação ancorada numa perspectiva  
emancipatória, formada pelas mulheres que me formaram. (Carolina Maria de Jesus [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A entrevistada explica que, a partir da emancipação e da ação, desenvolve um feminismo negro acadêmico,  
que se constrói por meio de uma articulação triangular entre militância, emancipação e formação, baseada  
nas práticas desenvolvidas por gerações anteriores de mulheres negras — neste caso, ligadas à mãe da  
entrevistada, à sua avó, ao Movimento Negro e ao Movimento de Mulheres Negras. Esses encontros com  
mulheres negras aparecem com frequência nas falas das entrevistadas. A interlocutora Jerusa também  
destaca o encontro com mulheres negras de forma emancipadora:  
Ter como orientadora uma mulher negra foi uma escolha política, assim como desenvolver um projeto de pesquisa de doutora-  
do voltado para o estudo de sujeitas negras afro-diaspóricas na literatura de autoria negra feminina latino-americana. Acredito  
que essas atitudes terminam por contribuir para a autoestima e autoconfiança de estudantes e docentes negros e negras e,  
particularmente, de estudantes e docentes negras nos espaços acadêmicos, onde nossos saberes, nossa competência e/ou nosso  
trabalho são constantemente questionados, devido às opressões do racismo e do sexismo, além das de classe. Uma ex-aluna  
minha, afrodescendente, conseguiu uma bolsa para estudar em uma universidade no Chile e de lá me enviou um e-mail para  
agradecer pelo fato de tê-la feito acreditar em seu potencial. Isso foi muuuuito gratificante. (Jerusa [nome fictício], entrevista  
pessoal, 2025)  
O relato dessa entrevistada destaca a importância de ter uma professora negra como orientadora. O que  
ocorreu em sua experiência acabou sendo replicado na relação com sua orientanda, evidenciando o papel  
preponderante da participação em projetos de pesquisa, o que contribui para o fortalecimento da autoestima  
e da autoconfiança. Na sua fala, a professora enfatiza que essa relação é fundamental, pois ajuda a reduzir  
desigualdades, opressões, racismo e sexismo presentes na academia.  
Podemos perceber que essa percepção se aproxima do que a professora Carolina Maria de Jesus chama  
de emancipação e formação, constituída como uma transição de ideias ligada à construção de sujeitos e à  
percepção de si, bem como à relação estabelecida com pares negros, formando uma conexão de suporte —  
assim como as professoras negras receberam em suas trajetórias. Essa percepção também se manifesta na  
fala de outra entrevistada, que ressalta sua contribuição na formação dos estudantes:  
Acredito que sim, pois é por meio da minha força, do poder conquistado advindo do meu percurso acadêmico, posso apoiar,  
incentivar, ajudar outras mulheres negras a se capacitarem, seja em nível de Graduação e Pós-Graduação, para também atuar  
no enfrentamento do racismo (Laura [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
Segundo a entrevistada Paula Moreno, professora do Instituto de Letras, a relação com os movimentos  
sociais auxilia as professoras negras a não se esquecerem de suas origens e a manterem o senso coletivo.  
Em suas palavras: “É fundamental. O ambiente universitário é muito tóxico, muito individualista, os egos das  
pessoas são bem inflados. Participar de grupos sociais, de movimentos sociais, te devolve à sua realidade e te  
lembra quem você é e por que está naquele espaço”, e acrescenta que:  
Eu participava da Pastoral da Criança. Eu era católica, preparava multimistura para as crianças, para combater a sub-nutrição  
no bairro periférico, lá em São Paulo. Depois no ensino médio eu também participei, e no ensino superior eu dei um pouco de  
aula, que era o EDUCAFRO, voltado para o público negro na Pós-Graduação, participei no Doutorado. Mais para o final, come-  
cei a participar de um grupo de uma grande amiga, que também fez Ciências Sociais. Ela oferece curso de danças africanas e  
afro-brasileira, a fim de ajudar, é para ajudar as mulheres negras na recuperação de sua autoestima. Comecei a fazer parte desse  
grupo, não como líder, mas só como participante, e aí os ensaios acontece nos cursinhos populares, lá em São Paulo. Eu fiquei  
um período. (Paula Moreno [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A interlocutora reforça a importância de sua experiência na Pastoral da Criança da Igreja Católica, nos  
cursinhos populares negros e em sua participação em um projeto de dança afro-brasileira. Todas essas  
vivências contribuíram para suas ações na universidade pública e lhe permitem manter suas raízes, sem  
esquecer sua condição racial, como ela mesma explica. A entrevistada complementa falando da relação com  
sua irmã, que também é uma referência para ela, o que se aproxima da trajetória da interlocutora Carolina  
Maria de Jesus, que se espelha em sua avó e mãe.  
É importante observar que as relações afetivas e as trajetórias de pares negros e familiares são destacadas  
pelas entrevistadas como elementos que as impulsionam. As conexões estabelecidas com as mulheres de  
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suas famílias e com os diferentes movimentos sociais contribuem para a formação de uma consciência  
racial, a qual subsidia a construção de um feminismo negro acadêmico, conforme se evidencia na fala da  
docente Paula Moreno:  
Minha irmã [risos]... eu aprendi muito com ela. Estuda Ciências Sociais, e eu estudo Letras. Eu reviso os textos dela. Então, ela  
estudou no Mestrado o Machado de Assis, estudou os temas sociais, né? A violência na obra dele, a escravidão, a ciência, é...  
enfim... li o trabalho dela achei superlegal. E no Doutorado ela pesquisou a obra de Maria Carolina de Jesus [autora], que eu  
também nunca tinha lido. E assim, a primeira intelectual negra que me influencia é a minha irmã. (Paula Moreno, entrevista  
pessoal, 2025)  
DeacordocomainterlocutoraJerusa,paraamdasrelaçõesfamiliares,asdemaisredesqueseestabeleceram  
ao longo de sua trajetória foram fundamentais para a construção do que estou chamando de feminismo  
negro acadêmico. Esse feminismo perpassa a leitura, a produção do conhecimento, as políticas de citação, a  
socialização do conhecimento produzido, além da relação com os pares e com os/as estudantes.  
O feminismo negro acadêmico advém de uma prática pedagógica feminista negra, pautada em ações que  
conectam pares negros a partir de suas trajetórias. Essas trajetórias são influenciadas por saberes diversos,  
que trazem perspectivas e ferramentas diferentes para observar e refletir sobre os fenômenos sociais. Tais  
ferramentas estão ligadas a práticas insubmissas, ao engajamento social, à leitura de textos de autores negros  
e à relação com a música negra, por exemplo, estando conectadas a uma pedagogia feminista negra presente  
no currículo, na ação dos projetos de pesquisa e extensão, na relação com os/as estudantes negros/as e na  
construção epistemológica.  
7.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A capacidade de agência das professoras negras, bem como a articulação e a construção de alianças, as  
coloca em uma posição de subversão da lógica estrutural acadêmica em determinados contextos. Isso se  
dá a partir da insubmissão/insubordinação, que influencia a reconstrução do imaginário social a partir da  
perspectiva do Feminismo Negro e de sua prática pedagógica.  
Portanto, podemos compreender que existe uma prática pedagógica feminista negra insurgente, que  
possibilita o agenciamento das professoras negras na construção do saber e de novas epistemologias, bem  
como na transformação gradual do currículo nos diferentes campos do conhecimento. Nesse sentido,  
as contribuições para o Feminismo Negro residem justamente no nascedouro de um feminismo negro  
acadêmico, que advém de uma prática vivenciada antes da entrada na academia, nas experiências com ou  
no Movimento de Mulheres Negras ou mesmo nas relações afetivas com mulheres negras de suas famílias.  
Nossa contribuição, portanto, é atentar para esses diálogos, práticas e experiências que surgem de outros  
espaços, mas que contribuem fortemente para a constituição do feminismo negro acadêmico. Dessa forma,  
a prática pedagógica feminista negra leva as professoras negras a uma (re)dimensão da condição de trabalho  
e do trabalho intelectual. O trabalho acadêmico se relaciona não apenas com a construção do conhecimento,  
mas também com o engajamento político e social para a transformação do espaço universitário brasileiro.  
Isso se manifesta na dimensão cosmológica das professoras negras, na forma como suas biografias foram  
construídas.  
Ou seja, o trabalho intelectual reverbera em uma produção acadêmica engajada e com consciência racial,  
incluindo autoras e autores negros/as, projetos de pesquisa ligados às questões raciais, disciplinas e  
debates qualificados sobre as desigualdades de gênero e raça, pautados pelo pensamento de pesquisadoras  
e pesquisadores negros/as. Considerando que a produção intelectual também envolve a condição e a  
hierarquização racial, não basta apenas contestar o privilégio masculino branco na ciência, sendo necessário  
também refletir sobre a estrutura racista da sociedade brasileira, que permeia a produção científica.  
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REFERÊNCIAS  
AZEREDO, Sandra. Teorizando sobre gênero e relações raciais. Revista Estudos Feministas, ano 2, n. 8, p.  
203-216, out. 1994. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/16103/14647.  
Acesso em: 20 jan. 2025.  
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Data de submissão: 05/05/2025  
Data de Aceite: 25/09/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
REDES AFRODIASPÓRICAS:  
1
ABDIAS NASCIMENTO E O (AUTO)EXÍLIO  
Afro-diasporic networks: Abdias Nascimento and the politics of (self-)exile  
Redes afrodiaspóricas: Abdias Nascimento y la política del (auto)exilio  
2
TAILANE SANTANA NUNES  
ORCID: 0000-0001-5971-1884  
3
ÉDVIN MARLEI PEREIRA  
ORCID: 0009-0003-3683-316X  
RESUMO  
Abdias Nascimento foi uma liderança importante do movimento negro no Brasil. Iniciou sua trajetória  
cultural e política com a criação do Teatro Experimental do Negro (1944), a participação no Movimento  
Negro Unificado (1978) e o exercício dos cargos de deputado federal e senador. Durante a ditadura militar,  
entre 1964 e 1969, enfrentou repressão em razão de sua ligação com os movimentos sociais de libertação  
africana e de suas atividades antirracistas no teatro negro. Em 1968, aceitou um convite para um intercâmbio  
nos Estados Unidos, onde permaneceu em exílio por treze anos. O objetivo deste artigo de revisão teórica  
é remontar a trajetória de Abdias Nascimento durante seu autoexílio, destacando as experiências e as  
redes criadas junto a movimentos norte-americanos e africanos. Por meio de uma análise metodológica  
qualitativa, com ênfase na pesquisa documental, analisaram-se os relatos biográficos acerca da vida e da  
obra do ativista, bem como suas produções intelectuais, buscando apresentar os caminhos que Nascimento  
traçou nos movimentos internacionais dos quais fez parte. A pesquisa revelou que Nascimento se tornou  
uma referência importante em movimentos de arte e cultura nos Estados Unidos, participando, entre outros,  
do Black Arts Movement. Além disso, foram identificadas e analisadas produções de Abdias apresentadas  
em encontros pan-africanistas, o que permitiu compreender as interlocuções entre o ativista e as lutas de  
libertação africana. A análise dos relatos biográficos e das produções intelectuais de Nascimento evidenciou  
a importância de sua voz na luta contra a opressão racial e na promoção da cultura negra, bem como seu  
papel fundamental na articulação de uma consciência negra latino-americana e na denúncia do racismo  
estrutural brasileiro.  
Palavras-chave: Abdias Nascimento; Autoexílio; Pan-africanismo.  
ABSTRACT  
Abdias Nascimento was an important leader of the Black movement in Brazil. He began his cultural and  
political trajectory with the creation of the Black Experimental Theater (1944), his participation in the  
Unified Black Movement (1978), and his later roles as a federal deputy and senator. During the military  
dictatorship, between 1964 and 1969, he faced repression due to his involvement with African liberation  
movements and his anti-racist activities in Black theater. In 1968, he accepted an invitation for an academic  
exchange in the United States, where he remained in exile for thirteen years. The objective of this theoretical  
1 Este artigo é resultado da dissertação de mestrado intitulada “A atuação parlamentar de Abdias Nascimento: luta antirracista e o processo de redemo-  
cratização política no Brasil (1983–1987)”, defendida por Tailane Santana Nunes no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade  
Federal do Recôncavo da Bahia (2022), e finalista do Concurso Anpocs de Teses e Dissertações (2023).  
2 Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Professora de Sociologia do Estado da Bahia. Pesquisa a vida e a  
obra de Abdias Nascimento, o Movimento Negro e o ativismo institucional. E-mail: tailanenunes@outlook.com  
3 Licenciado em Educação Física. Professor, músico e produtor cultural. Ativista negro, integra o coletivo quilombola Marilene Matos e pesquisa iden-  
tidade, territórios e samba de roda. E-mail: edvinmarlei@gmail.com  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
REDES AFRODIASPÓRICAS:  
ABDIAS NASCIMENTO E O (AUTO)EXÍLIO  
Tailane Santana Nunes e Édvin Marlei Pereira  
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review article is to retrace Abdias Nascimento’s trajectory during his self-exile, highlighting the experiences  
and networks he built with North American and African movements. Through a qualitative methodological  
approach, with emphasis on documentary research, biographical accounts of the activist’s life and work,  
as well as his intellectual productions, were analyzed to present the paths Nascimento followed within the  
international movements he engaged in. The research revealed that Nascimento became an important  
reference in art and cultural movements in the United States, participating in initiatives such as the Black  
Arts Movement. Furthermore, several of his works presented at Pan-Africanist meetings were analyzed,  
allowing us to understand the connections between the activist and the African liberation struggles. The  
analysis of his biographical accounts and intellectual productions highlighted the importance of his voice in  
the fight against racial oppression and in the promotion of Black culture, as well as his fundamental role in  
articulating a Latin American Black consciousness and denouncing Brazilian structural racism.  
Keywords: Abdias Nascimento; Self-exile; Pan-Africanism.  
RESUMEN  
Abdias Nascimento fue un líder importante del movimiento negro en Brasil. Inició su trayectoria cultural  
y política con la creación del Teatro Experimental del Negro (1944), su participación en el Movimiento  
Negro Unificado (1978) y su posterior desempeño como diputado federal y senador. Durante la dictadura  
militar, entre 1964 y 1969, enfrentó represión debido a su vinculación con los movimientos de liberación  
africanos y sus actividades antirracistas en el teatro negro. En 1968 aceptó una invitación para un  
intercambio académico en Estados Unidos, donde permaneció exiliado durante trece años. El objetivo de  
este artículo de revisión teórica es reconstruir la trayectoria de Abdias Nascimento durante su autoexilio,  
destacando las experiencias y redes creadas junto a los movimientos norteamericanos y africanos. A  
través de un enfoque metodológico cualitativo, con énfasis en la investigación documental, se analizaron  
los relatos biográficos sobre la vida y la obra del activista, así como sus producciones intelectuales, con el  
fin de presentar los caminos que Nascimento trazó dentro de los movimientos internacionales de los que  
formó parte. La investigación reveló que Nascimento se convirtió en una referencia importante en los  
movimientos de arte y cultura en Estados Unidos, participando en iniciativas como el Black Arts Movement.  
Además, se analizaron varias de sus producciones presentadas en encuentros panafricanistas, lo que  
permitió comprender las interlocuciones entre el activista y las luchas de liberación africanas. El análisis de  
los relatos biográficos y las producciones intelectuales de Nascimento evidenció la importancia de su voz en  
la lucha contra la opresión racial y en la promoción de la cultura negra, así como su papel fundamental en  
la articulación de una conciencia negra latinoamericana y en la denuncia del racismo estructural brasileño.  
Keywords: Abdias Nascimento; Autoexilio; Panafricanismo.  
1.  
INTRODUÇÃO  
Engajado nas lutas por igualdade em nível mundial, Abdias Nascimento respirou e dedicou sua vida às  
causas públicas, às lutas dos oprimidos e, sobretudo, à luta negra. Considerado uma das grandes lideranças  
do movimento negro no Brasil, o legado de Nascimento na luta antirracista é extenso, visto que o ativista  
imprimiu seu pensamento crítico tanto no terreno cultural quanto no político. Desde a fundação do Teatro  
Experimental do Negro (1944) e do Movimento Negro Unificado (1978) até sua produção intelectual negra  
brasileira, com obras importantes como Negro Revoltado (1968) e O genocídio do negro brasileiro: processo  
de um racismo mascarado (1978), Abdias Nascimento protagonizou diversos tipos de ação e mobilização que  
confluíam no combate ao racismo e na defesa dos direitos civis e humanos do povo negro (Almada, 2009;  
Nascimento, E., 2020).  
Enquanto integrante de importantes organizações negras ao longo da história, o ativista utilizava sua voz  
para denunciar o mito da democracia racial. Fundou o jornal Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro  
(1948-1950), importante veículo de comunicação da imprensa negra paulista que documentava as ações do  
teatro negro e trazia à reflexão os problemas sociais da comunidade afro-brasileira da época (Nunes, T.; Jr.,  
W. P., 2020).  
Além disso, no período de redemocratização política no Brasil, desempenhando um papel representativo,  
Abdias Nascimento tornou-se o primeiro parlamentar afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta  
antirracista como deputado federal (1983-1987) pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), nas primeiras  
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eleições do processo de reabertura política. Liderando a secretaria do movimento negro do PDT, Abdias  
conduziu sua campanha eleitoral voltada para a questão racial. Sob o lema “O povo negro no poder!”, o  
intelectual problematizava, de forma didática, em suas campanhas, a ausência de negros nos altos escalões  
do poder civil e afirmava que o objetivo central de sua plataforma política era combater o racismo e lutar  
pelos direitos da população negra (Custódio, 2012; Nascimento, E., 2014).  
Como consequência de sua atuação comprometida com a luta antirracista, durante o período da ditadura  
militar (1964-1969), Abdias Nascimento sofreu repressões diretas do regime, assim como outros  
ativistas. Acusados de estabelecer conexões entre o movimento negro e grupos de esquerda, Nascimento  
e os integrantes do Teatro Experimental do Negro foram alvos de investigação e perseguição política.  
Dessa forma, no final dos anos 1960, o TEN começou a diminuir suas atividades e a se dissolver. Com o  
endurecimento do regime militar, nomes importantes, como o de Guerreiro Ramos, tiveram de deixar o país,  
o que enfraqueceu a organização.  
Nesse ínterim, em 1968, Nascimento recebeu um convite de intercâmbio da Fundação Fairfield para visitar  
instituições culturais negras nos Estados Unidos. A princípio, a viagem duraria dois meses; porém, quando  
estava em Nova York, o governo militar promulgou o Ato Institucional nº 5, inaugurando os chamados “anos  
de chumbo” no Brasil. Nesse contexto, Abdias decidiu permanecer nos Estados Unidos, dando início a um  
exílio de 13 anos que representaria uma nova etapa de seu ativismo — inicialmente como artista, em conjunto  
com os movimentos norte-americanos, e posteriormente como pan-africanista, junto aos movimentos de  
libertação dos países africanos (Custódio, 2012; Cavalcanti, 1976).  
Neste artigo, buscamos apresentar os caminhos que Abdias Nascimento traçou nesses movimentos  
internacionais, destacando as vivências, redes e contribuições criadas pelo autor junto às comunidades  
negras estadunidense e africana. Em nossa revisão bibliográfica, identificamos que a posição assumida por  
Nascimento junto a esses movimentos é a de referência sobre cultura negra na América Latina, somando  
sua experiência e intelectualidade a movimentos como o Black Arts Movement e a Négritude francófona.  
Por meio da análise metodológica qualitativa, com ênfase na pesquisa documental, analisamos relatos  
biográficos acerca da vida e obra do ativista, bem como suas produções intelectuais durante esse período,  
destacando as influências do pensamento pan-africanista em suas obras. Além disso, são apresentados os  
textos e pronunciamentos de Nascimento em encontros internacionais, nos quais frequentemente expunha  
o caráter violento do racismo brasileiro e problematizava o apoio camuflado da ditadura militar ao regime  
do apartheid na África do Sul.  
2.  
DESENVOLVIMENTO  
A saída de Abdias Nascimento do Brasil, no ano de 1968, ocorreu de forma oportuna em um momento  
crítico da história brasileira. Segundo consta em alguns relatos (ALMADA, 2009; CUSTÓDIO, 2012), o  
endurecimento do regime militar o teria obrigado a deixar o país. Inquéritos Policiais Militares incluíam  
Nascimento como suspeito de estabelecer ligações entre o movimento negro e a esquerda comunista. De  
acordo com Custódio (2012), a hipótese de que Nascimento mantinha vínculos com a esquerda surgiu a  
partir de sua colaboração na libertação de Lima Azevedo, angolano vinculado ao Movimento Popular  
de Libertação de Angola (MPLA), que foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira. O MPLA foi  
fundado em 1956 e constituía-se como um dos principais grupos de contestação ao colonialismo português  
implantado pelo regime de Salazar em Angola. Seu principal líder foi o poeta Agostinho Neto, que se tornou  
presidente do país em 1975, ano em que Angola conquistou a independência.  
Durante sua existência, o MPLA assumiu fortes posições nacionalistas e mantinha certo diálogo com  
o Partido Comunista Angolano (PCA), o que lhe conferia um aspecto de grupo subversivo para o regime  
militar brasileiro. Segundo Elisa Larkin (2014), Abdias Nascimento era um dos representantes oficiais do  
MPLA no Brasil e teria contribuído para a libertação de Lima Azevedo ao apresentar seu caso ao embaixador  
do Senegal, Henri Senghor, que, por vias diplomáticas, conseguiu negociar a libertação daquele. Essa  
relação pode ter favorecido a inclusão de Nascimento nos inquéritos policiais da ditadura e a adoção de uma  
vigilância maior sobre suas posições políticas. Dessa forma, quando recebeu o convite de intercâmbio da  
Fairfield Foundation, o ativista não hesitou em aceitá-lo, vendo-o como uma “sorte grande” do destino. Na  
segunda quinzena de outubro de 1968, Abdias Nascimento embarcou para os Estados Unidos, iniciando o  
que viria a ser um autoexílio de 13 anos de duração (1968–1979).  
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Fundada em 1952, a Fairfield Foundation (FF) era uma organização sem fins lucrativos que mantinha vínculos  
com a milionária família Fleischmann, conhecida por sua grande influência na indústria de bebidas dos  
Estados Unidos. A bolsa que Abdias Nascimento viria a receber estava inserida em um âmbito de expansão  
cultural estadunidense, constituindo parte do programa Travel and Study da fundação. Instituído pela FF em  
1963, esse programa tinha como objetivo “atrair personalidades, intelectuais e artistas de diversas partes do  
mundo para desenvolverem projetos pessoais nos Estados Unidos e visitarem instituições culturais do país”  
(CUSTÓDIO, 2012, p. 64).  
No ano em que Abdias desembarcou nos Estados Unidos, o contexto social era marcado pela insurgência  
de movimentos sociais negros que buscavam combater a intensa segregação racial no país. Ao longo das  
décadas de 1950 e 1960, ainda sob a sombra da Guerra Fria, diversos grupos e coletivos políticos passaram  
a se organizar em prol da luta por direitos civis e em oposição ao sistema racial opressivo que atingia grupos  
minoritários, principalmente negros e latinos. Embora não seja possível reconstituir todos os processos  
históricos e de luta dessas mobilizações sociais, partiremos dos principais movimentos e discursos negros  
que, ao que tudo indica, influenciaram diretamente a recepção de Abdias Nascimento no país e a oferta  
de oportunidades singulares nas artes e na academia estadunidense, das quais o ativista viria a usufruir  
posteriormente.  
Um dos movimentos decisivos para a trajetória de Abdias Nascimento no autoexílio foi o Black Arts Movement.  
Surgido em meados da década de 1960, esse movimento se destacou por empreender uma luta contra o  
racismo americano por meio das artes, da literatura e do teatro. Defendendo a construção e a difusão de  
uma estética negra que contestasse as representações eurocêntricas vigentes no universo artístico, o Black  
Arts Movement impulsionou o reconhecimento e a visibilidade de diversos artistas negros, propondo uma  
produção artística atrelada ao discurso político negro. Inicialmente localizado na cidade de Nova York, o  
movimento se estendeu para Detroit, San Francisco e Chicago, atuando com veemência no sentido de  
estabelecer e consolidar novas vozes negras no universo excludente das artes.  
Tanto o Harlem Renaissance quanto o Black Arts Movement tinham como objetivo principal integrar a luta  
contra as desigualdades raciais por meio das artes. Entretanto, a abordagem política adotada pelo Black  
Arts Movement o diferenciava de seu antecessor. Considerando que o movimento surgiu em meio à luta por  
direitos civis, as atividades desenvolvidas por seus militantes compunham uma agenda conjunta contra o  
racismo estrutural. Segundo Nganga (2020), o Black Arts Movement atuou em parceria com o Black Power  
Movement, sendo considerado até mesmo o “braço cultural” dessa organização. Iniciado também na década  
de 1960, o Black Power Movement é amplamente reconhecido por seu legado na luta pela libertação negra.  
Inspirando-se no pan-africanismo e no nacionalismo negro, a organização se opunha aos ideais de protesto  
não violento contra a segregação racial, tal como defendido pelo líder Martin Luther King Jr. Segundo seus  
militantes, somente os protestos pacíficos não seriam suficientes para sanar as desigualdades sociais e a  
perpetuação histórica do racismo sistêmico na sociedade americana. Guiado pelos discursos de lideranças  
como Malcolm X e Marcus Garvey, o Black Power Movement defendia os princípios de orgulho racial,  
autonomia e autodeterminação da população afro-americana, propondo que os esforços da luta antirracista  
deveriam se concentrar na criação de uma estrutura de poder econômico, social e político negra, em vez de  
buscar a integração dos negros em uma sociedade dominada por brancos.  
O Black Arts Movement é completamente oposto a qualquer conceito do artista que o afaste de sua comunidade. Este movimen-  
to é a irmã estética e espiritual do conceito Black Power. Como tal, ele imagina uma arte que fala diretamente às necessidades  
e aspirações da América Negra. Para realizar esta tarefa, o Black Arts Movement propõe uma reordenação radical da estética  
cultural ocidental. Ambos os conceitos de arte negra e poder negro se relacionam amplamente com o desejo do afro-americano  
de auto-determinação e nacionalidade. Ambos os conceitos são nacionalistas. Um deles se preocupa com a relação entre arte e  
política; o outro com a arte da política. (Nganga, 2020, p. 104)  
Paralelamente, o Teatro Experimental do Negro, liderado por Abdias, propunha-se a ressignificar a forma  
como os negros brasileiros eram representados nas artes e na cultura nacional. Segundo relata Elisa Larkin  
(2014), ao entrar em contato com os ativistas do Black Arts Movement, Nascimento compartilhava suas  
experiências como ator político e explicava que os aspectos singulares do racismo brasileiro exigiam que a  
abordagem desse tema não fosse feita de forma academicista ou elitista:  
Abdias Nascimento visitou Baraka na Spirit House, casa que abrigava o grupo teatral Spirit House Players. Passou um dia  
convivendo com Baraka e sua proposta de construir uma comunidade artística e política autônoma. Eles tiveram uma con-  
versa animada sobre o inferno de Dante, tema caro à Santa Hermandad Orquídea, a que Amiri Baraka dedicou um livro. Mas  
a atenção dos dois se concentrava em estratégias políticas da luta negra. Baraka, que trabalhava em aliança com “latinos” por-  
to-riquenhos, agora se deparava com um negro “latino” brasileiro, militante político do movimento negro que lhe trazia novas  
referências. (Larkin, 2014, p. 205)  
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Sendo assim, ao que tudo indica, a posição que Nascimento assume junto a esses movimentos é de referência  
sobre a cultura negra na América Latina. Como bem ressalta Larkin (2014), os norte-americanos sabiam  
pouco sobre a realidade dos negros brasileiros. Sua visão geográfica restrita indicava que a presença negra  
na América Latina compreendia somente os países de Cuba e Porto Rico, raramente se referindo à herança  
africana na América do Sul. Dessa forma, “Nascimento encarnava uma espécie de avis rara, despertando o  
interesse daqueles que queriam aprender sobre novas dimensões da experiência humana” (Nascimento, E.,  
2014, p. 207).  
Durante o intercâmbio, Nascimento teve a oportunidade de conhecer diversas lideranças afro-americanas,  
grupos de teatro negro e organizações culturais, com os quais manteve relações durante sua estadia em terras  
estadunidenses. Reconhecido pelo trabalho desenvolvido no Teatro Experimental do Negro, Abdias visitou  
os principais focos da mobilização artística negra, como a Spirit House — grupo de teatro negro comunitário  
fundado por Amiri Baraka — e o Negro Theatre Ensemble, companhia e oficina de teatro voltada a obras  
com temas baseados na experiência negra, fundada em 1967 pelo dramaturgo Douglas Turner. Frequentou  
o centro de dança e cultura da famosa coreógrafa negra Katherine Dunham, com quem havia colaborado  
anteriormente. Além disso, Nascimento também conheceu Bobby Seale, presidente do Partido dos Panteras  
Negras em Oakland.  
Ao término da bolsa, em janeiro de 1969, Abdias permaneceu nos Estados Unidos. Embora não haja  
fontes que indiquem exatamente quando, nem a razão pela qual o intelectual tomou essa decisão, um fato  
histórico pode tê-lo influenciado: durante esse mesmo período, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) havia sido  
implantado no Brasil pela ditadura militar sob o governo do general Costa e Silva. O cenário social, que já  
era de repressão, encontrava-se então em um pico de censura e cerceamento dos direitos civis e políticos da  
população brasileira. Certamente, não seria prudente para Abdias Nascimento, um ativista político, retornar  
ao país naquele momento de perseguição institucionalizada. Ao mesmo tempo, ao falar sobre sua situação  
de exilado nos EUA, Abdias revela que sentiu uma valorização do seu trabalho naquele país, razão pela qual  
estendeu sua permanência.  
Já disse e repito, sempre fui um exilado em meu próprio país, não tenho uma “terra natal”. Ou melhor, tenho: África. A sociedade  
brasileira recusou minhas raízes africanas, quis cortá-las, arrancá-las à força, fazer de mim um desenraizado. Tive de lançar  
minhas raízes de cima para baixo, pelo esforço consciente, lançando-as no ar como certas plantas fazem. Não foi a vinda para os  
Estados Unidos que criou meu exílio. Pelo contrário: aqui pude me expressar muito melhor, continuando o que já fazia, noutro  
contexto. Uma grande diferença é que, aqui nos EUA, o valor do meu trabalho foi reconhecido, é coisa que não posso negar.  
(Cavalcanti; Ramos, 1976, p. 48)  
Entretanto, ao optar por permanecer em um país estrangeiro sem financiamento, Nascimento também  
enfrentou desafios financeiros e de moradia. Nesse período, a pintura contribuiu para que o autor se  
restabelecesse financeiramente e significou, ao mesmo tempo, a construção de pontes de comunicação em  
terras estrangeiras. Sem falar fluentemente inglês, Abdias encontrou nas artes uma forma de expressar seus  
discursos e posições ideológicas, conforme relata no livro Memórias do Exílio:  
Uma coisa sensacional aconteceu comigo nos E.U.A. Bloqueado pelo inglês, desenvolvi uma nova forma de comunicação. Ao  
invés de aprender a falar bem uma outra língua, descobri que possuía uma outra forma de linguagem dentro de mim mesmo:  
descobri que podia pintar; e pintando eu seria capaz de mostrar o que palavreado nenhum diria. (Cavalcanti; Ramos, 1976, p. 49)  
Ainda em 1969, Nascimento conseguiu montar suas primeiras exposições na Harlem Art Gallery e na Crypt  
Gallery (Columbia University). Atendendo a um convite da Escola de Drama da Universidade de Yale, em  
New Haven, o autor ministrou oficinas como Visiting Lecturer, relatando aos estudantes suas experiências  
com o Teatro Experimental do Negro e expondo suas pinturas na galeria da Faculdade de Arte e Arquitetura  
de Yale. Focada na temática do resgate da cultura negra, a maioria dos quadros produzidos por Nascimento  
fazia referência a orixás e entidades das religiões de matriz africana, mais especificamente o candomblé.  
Símbolo de resistência ancestral, o candomblé constitui o pilar da produção artística de Abdias Nascimento  
e é representado por meio dos orixás e entidades traçados pelo autor, com o objetivo de resgatar o legado de  
resistência, expressar as raízes culturais e evidenciar a força do povo negro brasileiro, conforme ele mesmo  
explica em depoimento:  
Em minha pintura procuro distinguir entre os símbolos e mitos que só existem como tradição, e aqueles que preenchem neces-  
sidades do nosso tempo podendo abrir uma perspectiva de futuro. Não advogo que simplesmente lembremos o nosso passado.  
Meus orixás não estão imobilizados no tempo e no espaço. São forças do presente. Emergem na vida diária e em assuntos se-  
culares. Os orixás recebem nomes de pessoas vivas, assumem a defesa dos heróis e mártires que ainda hoje são oferecidos pela  
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raça negra como sacrifício na busca da liberdade. Mencionar Ogun é evocar uma idéia-força que se opõe à submissão dos povos  
africanos e negros em qualquer parte do mundo. (Cavalcanti; Ramos, 1976, p. 49-50)  
Em 1970, Nascimento foi convidado a atuar como professor visitante na Wesleyan University, onde  
abordava o teatro negro como instrumento de luta e de afirmação dos valores da cultura afro-brasileira.  
Nessa instituição, o autor foi responsável por organizar o seminário A Humanidade em Revolta, que teve  
duração de um ano e contou com a participação de nomes importantes da época, como o escritor Norman O.  
Brown e o compositor John Cage. O evento tinha como objetivo refletir, de maneira interdisciplinar, sobre  
as questões emergentes do contexto social turbulento vivido pelos Estados Unidos naquele período. Após  
sua passagem pela Wesleyan, Abdias foi contratado como professor adjunto pela Universidade do Estado de  
Nova York, em Buffalo. Segundo Elisa Larkin (2014), o convite para integrar o corpo docente da universidade  
teria surgido das relações que Abdias mantinha com ativistas porto-riquenhos. Responsáveis pela instalação  
do Centro de Estudos Porto-Riquenhos da instituição, o escritor Alfredo Matilla e o cineasta Francisco  
Pabón conheciam o trabalho de Nascimento e o convidaram para fundar a cadeira de Culturas Negras das  
Américas. É importante destacar, porém, que fatores externos também contribuíram para a inserção de  
Abdias Nascimento na academia norte-americana. De acordo com Custódio (2012), havia grande interesse,  
por parte de algumas universidades, em aprofundar os estudos acerca das relações raciais na América Latina  
— um campo de pesquisa até então considerado “marginal”. Essas buscas por novas abordagens acadêmicas  
também teriam influenciado sua admissão:  
O convite a Nascimento se inscreveria no interesse daquela Universidade por ter um artista afro-latino americano em seu qua-  
dro de docentes. Vale ainda ressaltar que nesse momento pouco se conhecia sobre o Brasil, pincipalmente sobre a cultura negra  
brasileira, a qual estava submersa no discurso oficial do país em torno da democracia racial. Dessa maneira, a presença de Nas-  
cimento enquanto artista, com suas pinturas orientadas para a representação dos elementos africanos, tinha um interessante  
valor simbólico, (Custódio, 2012, p. 69)  
Abdias permaneceu na Universidade de Nova York de 1971 a 1981, sendo promovido a professor titular com  
estabilidade. Para o intelectual, a experiência de lecionar nas universidades norte-americanas teve grande  
importância, visto que ele não teve a mesma oportunidade em seu país de origem. Tratava-se de um momento  
de reconhecimento de sua trajetória política, pois, segundo ele, “viajava muito dando conferências, recebia  
muito convite e fazia também exposições. Sempre denunciando essa falta da democracia racial” (Almada,  
2009,p.44).AbdiasaindaassumiriaascadeirasdeCulturaAfricananoNovoMundoeExperiênciaAfricana  
nas Américas do Sul e Central” na mesma universidade. Como Nascimento não falava inglês fluentemente,  
recorria sempre a tradutores em suas aulas, sendo, em sua maioria, estudantes e pesquisadores interessados  
nos estudos sobre a América Latina, falantes de português ou espanhol.  
2.1  
ABDIAS NASCIMENTOS NOS ENCONTROS PAN-AFRICANISTAS  
A partir de 1973, o ativismo de Abdias Nascimento ganhou proporções intercontinentais. Segundo Túlio  
Custódio (2012), o intelectual buscou ampliar sua participação em congressos e seminários fora do  
território norte-americano entre os anos de 1973 e 1981, período que marcaria o auge de suas experiências  
no exílio. Nesse intervalo, o autor publicou importantes livros, como O genocídio do negro brasileiro (1978),  
participou de grandes eventos pan-africanistas e tornou-se professor na Universidade Nigeriana de Ilê Ifé. O  
pan-africanismo desempenhou um papel central na reformulação do pensamento de Nascimento acerca da  
cultura e da identidade negra.  
O pan-africanismo ganhou destaque como movimento social na luta pela descolonização e libertação dos  
países africanos a partir da década de 1970. Segundo Carlos Moore (2002), após a Revolução do Haiti, em  
1804, o pan-africanismo tornou-se um movimento mundial, intensificando-se nas Américas a partir das  
reivindicações pós-abolicionistas e da oposição à tutela colonial e imperial na África, no Caribe e no Pacífico.  
Baseado na ideia de solidariedade racial entre os povos africanos e afrodescendentes, o pan-africanismo  
pode ser dividido em três principais correntes, que se transformaram ao longo do tempo.  
A primeira teve início no final do século XIX e foi construída a partir da aspiração de dar continuidade ao  
protagonismo negro trazido pela Revolução do Haiti. Nesse momento, a preocupação era libertar os países  
africanos do colonialismo e construir estratégias de integração da população negra à sociedade. Essa  
corrente, composta por nomes como Edward Blyden, Sylvester Williams e W. E. B. Du Bois, foi responsável  
por organizar a “Conferência dos Povos de Cor”, em 1900, na Inglaterra. Embora tenha ocorrido fora  
do continente africano, o evento é considerado um dos primeiros responsáveis por articular laços de  
solidariedade negra intercontinental — característica ímpar do pan-africanismo.  
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A segunda corrente é representada pela figura de Marcus Garvey, um dos principais expoentes do movimento  
em nível mundial. O garveísmo destacou-se por abordar o pan-africanismo a partir do nacionalismo negro.  
Segundo Paim (2014, p. 96), “Garvey representa um divisor de águas por dois motivos. Nele encerra-se a  
fase pioneira da edificação pan-africana (1940), ao mesmo tempo em que inaugura a fase de concretização e  
difusão do pensamento a partir de seu projeto”.  
Tida como uma vertente “messiânica” ou religiosa, a proposta pan-africanista de Garvey também mantinha  
relações com o movimento/religião rastafári, que teve no cantor de reggae Bob Marley um dos principais  
divulgadores de suas ideias. Rejeitando as concepções integracionistas, o garveísmo defendia a autonomia  
dos povos africanos por meio do desenvolvimento econômico, político e cultural do continente. Segundo  
essa corrente, era preciso estabelecer forças políticas e econômicas conjuntas na diáspora das Américas, do  
Caribe e do Pacífico, que fossem independentes dos blocos econômicos europeus e estadunidenses. Dessa  
forma, visava-se à criação de um Estado negro autônomo que agregasse os povos da África e da diáspora sob  
um mesmo propósito: a edificação de uma comunidade negra próspera. O pensamento garveísta influenciou  
grandes nomes do movimento negro estadunidense, como Malcolm X, e foi a base do movimento Black  
Power e do Partido dos Panteras Negras.  
Por fim, a terceira e última corrente é comumente associada à vertente cultural do pan-africanismo: a  
Négritude francófona. O movimento da Négritude surgiu em meados da década de 1920, com origem  
primordialmente nos países de colonização francesa. Responsável por destacar a contribuição das culturas  
negras para a história da civilização ocidental, esse movimento teve como principais porta-vozes intelectuais  
como Aimé Césaire, Léon Damas e Léopold Senghor, que utilizaram a literatura como ferramenta de luta  
contra a assimilação colonial da cultura europeia. De acordo com Petrônio Domingues (2009, p. 197), em  
rejeição ao processo de alienação, “os protagonistas da ideologia da negritude passaram a resgatar e a  
enaltecer os valores e símbolos culturais de matriz africana”.  
Promoveroorgulhodasraízesculturaisafricanasnacomunidadenegramundialeraumdosobjetivoscentrais  
da Négritude. Segundo Munanga (1988), para os ativistas desse movimento, a negritude se caracterizava  
pelo ato de assumir-se como negro, consciente de sua identidade, história e cultura. Aimé Césaire, um dos  
idealizadores do movimento, definiu a negritude em três características principais: identidade, fidelidade e  
solidariedade. O primeiro aspecto referia-se ao orgulho de sua identidade negra; o segundo expressava-se na  
relação de vínculo com a herança ancestral africana; e o último definia-se pelo sentimento de solidariedade  
com a diáspora africana.  
Conforme indica Carlos Moore (2002), entre as três vertentes do pan-africanismo, Abdias Nascimento,  
enquanto homem das letras e artista, teria se identificado de maneira natural e espontânea com o pan-  
africanismo político-cultural da Négritude, com o qual vinha mantendo contato desde a década de 1950  
no Brasil. Tal relação se intensificou ao longo dos congressos e seminários pan-africanistas que o autor  
frequentou durante o exílio, visto que seu contato com esses ativistas tornava-se cada vez mais direto. A  
primeira participação de Abdias nos encontros pan-africanos ocorreu durante a conferência preparatória do  
6º Congresso Pan-Africano, que seria realizado em Dar es Salaam, na Tanzânia, em 1974. O ativista teria sido  
convidado pelo célebre C. L. R. James, um dos maiores representantes da diáspora africana no Congresso,  
que “conhecia o trabalho de Abdias Nascimento e externou sua intenção de dedicar um dia inteiro do 6º  
Congresso para discutir a situação brasileira” (Nascimento, E., 2014, p. 221).  
Em 1974, Abdias recebeu o convite oficial do governo da Tanzânia para participar do 6º Congresso  
Pan-Africano em Dar es Salaam. Segundo Larkin (2014), no mesmo dia em que recebeu o telegrama de  
confirmação de participação, Nascimento soube que o coordenador da região do Caribe e da América do Sul,  
bem como a delegação da Guiana Inglesa, haviam sido excluídos do Congresso. Em solidariedade a eles, C. L.  
R. James desistiu de comparecer ao evento. Abdias quase tomou a mesma decisão, mas resolveu participar  
em forma de protesto. Durante o Congresso, o ativista brasileiro foi o único representante da América do  
Sul. Apresentando o paper intitulado “Revolução Cultural e o Futuro do Pan-Africanismo”4, Nascimento  
defendeu a adoção de uma cultura progressista pan-africana mundial que considerasse as contribuições das  
diásporas na luta pela libertação: “tornar contemporâneas as culturas africanas e negras na dinâmica de  
uma cultura pan-africana mundial, progressista e anticapitalista, me parece ser o objetivo primário, a tarefa  
básica que a história espera de nós” (Nascimento, 1980, p. 45).  
Além disso, o autor chamou a atenção para o caráter excludente do Congresso no que se referia às línguas  
4 A maioria dos papers e relatos sobre a experiência de Nascimento nestes eventos internacionais pode ser encontrada na obra O Quilombismo:  
Documentos de uma militância pan-africanista, publicada pelo autor em 1980.  
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oficiais adotadas. De acordo com Abdias, “exigem dos africanos que falam português – o grande contingente  
que inclui Brasil, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau – o uso obrigatório do inglês ou do francês, exigência  
que significa para nós uma dupla colonização em termos de linguagem” (Nascimento, 1980, p. 29). Segundo  
Almada (2009) e Custódio (2012), a participação do intelectual nesse evento teria sido prejudicada, visto que  
não havia tradutores do português. Sua intervenção só foi possível porque uma mulher francesa, integrante  
do corpo oficial de tradutores, se dispôs a auxiliá-lo. Dessa forma, Nascimento conclui afirmando que esse  
elitismo linguístico desestimulava a participação de negros brasileiros nas lutas internacionais e favorecia a  
presença de representantes oficiais do governo, os quais apresentavam uma versão distorcida da história e  
da identidade afro-brasileira.  
A busca de Abdias pela construção de caminhos autônomos de atuação política apresentou-se novamente no  
Seminário Alternativas para o Mundo Africano, realizado em Dacar, no Senegal, em fevereiro de 1976. Esse  
foi um momento especialmente simbólico para o autor, que estava conhecendo o país após ter sido excluído  
da delegação brasileira do 1º Festival Mundial de Artes Negras pela ditadura militar, dez anos antes. Nesse  
encontro, Abdias deu sua contribuição ao evento internacional defendendo um pan-africanismo focado “nas  
referências culturais africanas como ferramentas para pensar o futuro e na autonomia política e econômica,  
não alinhada aos eixos hegemônicos” (Nascimento, E., 2014, p. 224). Na mesma ocasião, o intelectual  
também conheceu os pensadores africanos Wole Soyinka e Cheikh Anta Diop, autores que se tornaram suas  
principais referências no que se refere à reflexão sobre as dimensões históricas e epistemológicas da herança  
africana no Brasil e no mundo ocidental.  
O trabalho de Cheikh Anta Diop é considerado, pela literatura africana, um dos principais legados científicos  
da reflexão pan-africanista. Em seu livro A origem africana da civilização: mito ou realidade (1974), Diop  
realiza um profundo resgate da história antiga do continente africano e demonstra a influência cultural que  
os povos africanos exerceram sobre a civilização egípcia, revelando que o antigo Egito possuía raízes negras.  
De acordo com Túlio Custódio (2012), a obra de Cheikh Anta Diop tornou-se um dos principais referenciais  
teóricos de Abdias Nascimento durante e após o exílio. Essas influências podem ser observadas diretamente  
no texto escrito para o Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negra e Africana – FESTAC 77: Racial  
Democracy in Brazil: Myth or Reality, que mais tarde seria editado e publicado no Brasil como O genocídio do  
negro brasileiro (1978). Nessa obra, Nascimento faz uma releitura da história do negro no Brasil, destacando  
o processo de embranquecimento e o apagamento histórico das contribuições africanas para a cultura e a  
sociedade brasileira.  
Além disso, décadas depois, Nascimento também promoveu um movimento de resgate da herança africana  
por meio da produção da Revista Thoth: Escriba dos Deuses (1997–1999). Principal veículo de comunicação  
do gabinete de Abdias durante seu mandato como senador, a revista também tinha a função de divulgar  
informações e debates sobre temas de interesse da população afrodescendente. Frequentemente, as seções  
da revista eram dedicadas à difusão de referências sobre o legado africano no Brasil e no mundo, com o  
intuito de recuperar “uma tradição africana escamoteada à população brasileira enquanto verdadeira matriz  
de nossa civilização”.  
Em 1976, Abdias Nascimento recebeu convite para passar um ano como professor visitante no Departamento  
de Línguas e Literaturas da Universidade de Ifé, na Nigéria, dirigido pelo professor e babalaô Wande  
Abimbola. Durante o tempo em que esteve no país, Abdias aproveitou para realizar um itinerário de visitas  
a locais sagrados da religião iorubá. Admirador dos orixás do candomblé, o autor passou pelas cidades  
de Oshogbo, capital do estado de Oxum, e Oyó, território onde se situava o reino de Xangô. Além disso,  
Nascimento buscou conhecer outros países do continente, como Angola, Guiné-Bissau e Gana. Sobre suas  
experiências e os aprendizados adquiridos na universidade africana, Abdias relata:  
Estou sumamente honrado e feliz de representar, como um afro-brasileiro, o Projeto das Culturas Africanas na Diáspora, da  
Universidade de Ifé, na Nigéria. Instalada nas vizinhanças do próprio local onde Obatalá, o enviado de Odudua, baixou sobre as  
águas de Olokum para fundar a terra e criar os seres humanos, Ilê-Ifé é a cidade que significa para o mundo negro-africano não  
somente o berço da nossa resistência, como também um dos lugares onde os padrões da criação artística afro-negra atingiram  
os níveis mais altos em técnicas e significação simbólica. Foi como se eu estivesse praticando a volta ritual às minhas origens o  
tempo em que permaneci no seu Departamento de Línguas e Literaturas Africanas; durante aquele ano pude ser uma testemu-  
nha participante do que aquela bela instituição de ensino superior está realizando para atender às exigências da reconstrução  
da África, após séculos de destruição colonial. (Nascimento, 1980, p. 157)  
No ano de 1977, enquanto atuava como professor visitante em Ilê Ifé, Abdias teve a oportunidade de participar  
do II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas (FESTAC 77). O evento tinha como propósito  
reunir intelectuais, professores, pesquisadores, artistas e estudiosos do mundo africano para refletir e  
dialogar sobre o futuro dos povos de origem africana. A convite da UNESCO, o ativista preparou um texto  
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sobre as influências da cultura africana no Brasil, que seria apresentado em um colóquio promovido pela  
instituição durante o encontro. Entretanto, conforme relata em Sitiado em Lagos (1981), movimentações  
políticas externas ao Festival resultaram na retirada da UNESCO e das Nações Unidas da organização do  
evento, que passou a ser conduzido por delegações oficiais dos países participantes — tal como ocorrera no  
primeiro FESTAC.  
A participação de Nascimento tornou-se, nesse contexto, incerta, uma vez que o ativista mantinha uma  
relação conflituosa com a ditadura militar brasileira. Em 1975, em razão de sua participação no VI Congresso  
Pan-Africano, no qual denunciou o mito da democracia racial, Abdias teve seu passaporte apreendido nos  
Estados Unidos. Viajando apenas com um salvo-conduto concedido pelo governo norte-americano, o autor  
passou a ser monitorado pelo regime brasileiro, encontrando-se sob vigilância desde outubro de 1976,  
quando chegou à Nigéria para assumir o cargo de professor visitante (Custódio, 2012). O próprio Abdias  
relata um episódio em que percebeu uma aproximação suspeita durante o FESTAC 77:  
Trocávamos cumprimentos e abraços quando, de repente, alguém me chamou a atenção para um vulto, uma pessoa talvez, que,  
evitando ser vista, tentava me fotografar. Escondia-se atrás de outras pessoas, e ao ver-se apanhado em flagrante por mim e  
meus amigos, todos nós voltados surpresos em sua direção, o improvisado fotógrafo rapidamente guardou sua máquina e seu  
vulto desapareceu entre a multidão das delegações. Com o auxílio dos companheiros, pude identificar o inusitado “retratista”:  
tratava-se, nada mais nada menos, do que Dr. George Alakija, representante permanente do governo ditatorial brasileiro junto  
ao FESTAC. (Nascimento, 2002, p. 263-264)  
Piu Zirimu, um dos organizadores do evento, tentou assegurar a participação de Abdias Nascimento mesmo  
diante da tensão provocada pela delegação oficial brasileira. Entretanto, o texto submetido por Nascimento  
— que trazia duras críticas ao mito da democracia racial — foi vetado pelo corpo diplomático brasileiro,  
que exercia influência considerável na Nigéria. Segundo Túlio Custódio (2012), durante a década de 1970  
o governo brasileiro mantinha estreitas relações comerciais com o país africano, que vivia um período de  
crescimento econômico impulsionado pelo petróleo. Interessado em consolidar sua presença no mercado  
pós-colonial africano, o regime ditatorial brasileiro não poderia correr o risco de manchar a imagem do  
país como uma suposta “democracia racial”. Assim, “o corpo diplomático teria feito o possível para coibir a  
participação de Nascimento no colóquio, delegando inclusive à comitiva de intelectuais que o ‘respondesse’  
à altura em qualquer comentário ou denúncia” (Custódio, 2012, p. 96).  
Dessa forma, Abdias foi impedido de apresentar propostas e de votar durante o FESTAC 77, podendo apenas  
se manifestar na condição de observador no Colóquio Internacional — espaço que utilizou como plataforma  
para denunciar a perseguição política que sofria. No decorrer das atividades, conseguiu distribuir cópias  
do texto vetado, que circulou amplamente entre os participantes. A denúncia alcançou a mídia nigeriana,  
que noticiou o episódio, contribuindo para ampliar o apoio ao ativista. Com o respaldo da delegação norte-  
americana e de intelectuais africanos, como Wole Soyinka, Nascimento obteve, enfim, um espaço para  
apresentar o conteúdo do texto Racial Democracy, posteriormente publicado com o título O Genocídio do  
Negro Brasileiro (1978).  
Sem dúvida, esse episódio representou uma vitória simbólica para Abdias Nascimento. Denúncias  
relacionadas à repressão, à censura e à questão racial eram fortemente indesejadas pelo regime militar  
e acompanhadas de perto pelo corpo diplomático, como se observa na correspondência oficial da época.  
No entanto, à medida que as declarações de Nascimento ganhavam projeção internacional, a imagem do  
Brasil como “democracia racial” se fragilizava. Conforme relata Custódio (2012), com o enfraquecimento da  
repressão, o país vivia o início do processo de abertura política, o que impediu que o ativista sofresse novas  
perseguições ou represálias. Esse contexto contribuiu para consolidar a imagem de Abdias como uma das  
principais lideranças do protesto negro em escala internacional.  
Logo após o FESTAC 77, o ativista recebeu um convite do escritor e antropólogo colombiano Manuel Zapata  
Olivella para participar do 1º Congresso de Cultura Negra das Américas, realizado em Cali, na Colômbia,  
em agosto de 1977. Nesse evento, Abdias apresentou um estudo que denunciava a política externa brasileira  
diante do processo de descolonização dos territórios africanos então sob domínio português — hoje,  
Moçambique, Angola e Guiné-Bissau.  
Notextointitulado Etniaafro-brasileiraePolíticaInternacional, Nascimentoafirmaquehaviamovimentações  
para a formação de uma aliança entre África do Sul, Brasil e Argentina, denominada Tratado do Atlântico Sul,  
cujo objetivo seria utilizar os portos de Angola e Moçambique para a defesa das rotas marítimas do petróleo:  
“o objetivo básico na projetada Aliança ou Tratado seria integrar a África do Sul ao perímetro de defesa  
ocidental, e os aliados locais, neste caso, seriam o Brasil, a Argentina e o Chile” (Nascimento, 1980, p. 202). A  
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denúncia apresentada por Nascimento foi acolhida pelo Congresso, que emitiu uma declaração dirigida aos  
países envolvidos, à OEA, à OUA e às Nações Unidas, repudiando qualquer tipo de aliança que colaborasse  
com os regimes racistas da África Austral.  
3
CONCLUSÃO  
Abdias Nascimento deixou um legado importante, fortalecendo o ativismo negro na América Latina, nos  
Estados Unidos e na África e contribuindo significativamente para a luta mundial contra o racismo. Neste  
artigo, foi possível acompanhar a versatilidade de Nascimento dentro dos movimentos negros, perpassando  
da sua arte afrocentrada até seu nacionalismo negro. Após todas essas experiências e trocas, Nascimento  
retorna ao Brasil em 1979, propondo um modelo de pan-africanismo centrado nas experiências quilombolas.  
Caracterizado como ruptura afrocêntrica, o Quilombismo é proposto como uma possibilidade político-social  
de combate ao racismo e de elaboração de uma sociedade inspirada na experiência histórica dos quilombos  
brasileiros e nas culturas de matriz africana. A elaboração desse conceito reflete a interlocução que  
Nascimento estabelece entre sua produção teórica e artística, seu trânsito pelo mundo negro internacional e  
as experiências e construções teóricas adquiridas no Brasil com o Teatro Experimental do Negro.  
Por meio desta pesquisa, conseguimos captar a síntese que o autor realiza das diversas influências e fontes  
contidas em sua trajetória: a valorização da história e da cultura negra aprendida no Teatro Experimental do  
Negro e pela Negritude; a perspectiva afrocêntrica da ciência, inspirada em Cheikh Anta Diop (1974); e o anti-  
imperialismo dos pan-africanistas. Dessa forma, podemos concluir que Nascimento utilizou seu autoexílio  
como instrumento de luta e resistência frente às violências do Estado brasileiro, somando-se aos movimentos  
da diáspora e retornando ainda mais combativo ao publicar O Quilombismo: Documentos de uma Militância  
Pan-Africanista (1980) e ao assumir cargos políticos como deputado federal (1983) e senador (1997), nos  
quais representou os interesses da população negra frente à estrutura racista da política brasileira.  
Neste campo, é importante ressaltar o papel transformador que a atuação parlamentar de Nascimento  
teve em um dos momentos históricos do Brasil: o período de redemocratização política. Em seus discursos  
e projetos de lei, o autor buscava citar as reivindicações e ações desenvolvidas por organizações negras,  
antigas e contemporâneas a ele, tornando-se um divulgador e defensor desses movimentos em uma casa  
legislativa nitidamente branca, tanto em termos numéricos quanto ideológicos (Nascimento, E., 2021).  
Dentre esses projetos, destaca-se o PL 1.332/1983, apresentado pelo ativista em seu primeiro ano de mandato,  
que versava sobre a adoção de políticas de ação compensatória no Brasil — princípio do que conhecemos  
hoje como política de ações afirmativas, sancionada no país em 2012. O projeto de lei de Abdias Nascimento  
foi inovador não apenas por exigir reserva de vagas para pessoas negras em instituições públicas e privadas,  
mas também por abordar a inclusão de conteúdos sobre a história do negro no Brasil nos currículos escolares  
e por indicar a necessidade de formação antirracista para agentes policiais (Nunes, 2022).  
Infelizmente, o PL 1.332/83 teve tramitação semelhante aos demais projetos apresentados por Abdias  
Nascimento. Após sua apresentação no plenário, foi encaminhado e obteve aprovação de três comissões  
diferentes: Constituição e Justiça, Finanças e Trabalho e Legislação Social. Retornou ao plenário em 20 de  
março de 1986, registrado como “Pronto para a ordem do dia”, ou seja, pronto para votação. Entretanto,  
a votação foi adiada diversas vezes por falta de quórum, e o projeto nunca foi apreciado pela Câmara dos  
Deputados, sendo arquivado em 5 de abril de 1989. Embora não tenha sido concretizada naquele período, a  
iniciativa de Nascimento abriu caminhos para a discussão e implementação das ações afirmativas no Brasil  
(Nunes, 2022).  
Ao explorar a tramitação dos PLs de Abdias, constata-se o caráter conservador e elitista dos espaços de poder  
político no Brasil. Recentemente, assistimos ao retrocesso promovido pelo governo Bolsonaro (2018–2022)  
no que tange ao descrédito das desigualdades raciais do país e ao ataque às conquistas civis já estabelecidas  
pelo movimento negro, como a política de cotas e as ações afirmativas nas universidades públicas, que  
transformaram a vida de milhões de afro-brasileiros. Portanto, a atuação de Abdias Nascimento revela-  
se representativa tanto para a comunidade negra daquele período histórico quanto para os dias atuais. É  
imprescindível reconhecer a determinação e a resiliência de Abdias Nascimento em sua missão no Congresso  
Nacional, que, mesmo enfrentando resistência de seus colegas, permaneceu firme na defesa dos direitos da  
população afro-brasileira, inspirando as gerações futuras.  
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org.br/site/article/view/955. Acesso em: 6 out. 2025.  
NUNES, Tailane Santana. A atuação parlamentar de Abdias Nascimento: luta antirracista e o processo de  
redemocratização política no Brasil (1983–1987). 2022. 240 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais,  
Cultura, Desigualdade e Desenvolvimento) – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Artes,  
Humanidades e Letras, Cachoeira, 2022.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
REDES AFRODIASPÓRICAS:  
ABDIAS NASCIMENTO E O (AUTO)EXÍLIO  
Tailane Santana Nunes e Édvin Marlei Pereira  
89  
PAIM, Márcio. Pan-africanismo: tendências políticas, Nkrumah e a crítica do livro Na Casa de Meu Pai.  
Sankofa: Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, ano VII, n. XIII, jul. 2014. Disponível  
em: https://revistas.usp.br/sankofa/article/view/88952. Acesso em: 12 maio 2025.  
Data de submissão: 05/06/2025  
Data de aprovação: 09/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
JUVENTUDE, MEMÓRIA E AQUILOMBAMENTO:  
TODO MUNDO CONTRA O EPISTEMICÍDIO  
Youth, memory and aquilombamento: everyone against epistemicide  
Juventud, memoria y aquilombamento: todos contra el epistemicidio  
1
BRUNO VIEIRA DOS SANTOS  
ORCID: 0000-0003-1572-1938  
RESUMO  
Partindo de um debate que vá além da notória incidência da mortalidade juvenil negra no Brasil, este  
artigo apresenta uma discussão sobre as insurgentes formas de resistência e reexistência empreendidas  
pelas juventudes negras. Em janeiro de 2022, um evento provocou uma forte comoção na cena da poesia  
marginal e das batalhas de MC’s da região metropolitana do Recife. A partir da memória de um jovem poeta  
assassinadonocentrodacidade, empreende-seumacartografiaqueevidenciaanecessidadedevisibilizarmos  
estratégias que se valham do direito à memória e ao aquilombamento para enfrentar o epistemicídio. O que  
a vida de sujeitos culturais periféricos nos informa em relação ao exercício do direito à cidade, à fruição da  
urbe e ao acesso à cultura? Como um poeta que hoje se encontra falecido permanece vivo na memória da  
cidade? Como essa memória afeta as pessoas que com ele tinham proximidade? E, por fim, como tudo isso  
se costura em um debate sobre epistemicídio, ativismo político-cultural e direito à memória? Neste texto,  
o termo memória é considerado um elemento psicossocial que, ao lado de uma perspectiva aquilombada,  
contribui para o enfrentamento dos apagamentos promovidos pela colonialidade. Estabelecer uma prática  
de reviver memórias é atuar pela resistência da própria existência.  
Palavras-chave: juventude negra, aquilombamento, memória, epistemicídio.  
ABSTRACT  
Starting from a debate that goes beyond the well-known incidence of Black youth mortality in Brazil, this  
article presents a discussion of the insurgent forms of resistance and reexistence undertaken by Black youth.  
In January 2022, an event provoked a strong commotion within the marginal poetry scene and the MC battle  
circles of the metropolitan region of Recife. Drawing on the memory of a young poet who was murdered in  
the city center, this article maps the need to make visible strategies that rely on the right to memory and on  
quilombismo to confront epistemicide. What does the life of peripheral cultural subjects reveal about the  
exercise of the right to the city, the enjoyment of urban space, and access to culture? How does a poet who  
is now deceased remain alive in the city’s memory? How does this memory affect those who were close to  
him? And finally, how does all this come together in a debate on epistemicide, political-cultural activism,  
and the right to memory? In this text, the term memory is understood as a psychosocial element that,  
alongside a quilombismo-inspired perspective, contributes to resisting the erasures promoted by coloniality.  
Establishing a practice of reviving memories is, therefore, an act of affirming the resistance of existence itself.  
Keywords: Black youth, quilombismo, memory, epistemicide.  
1 Doutor em Psicologia (UFPE), mestre em Psicologia Social (UFMG) e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UFMG). Atualmente é bolsista  
de pós-doutorado júnior do CNPq, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Integra o Grupo de  
Pesquisas e Intervenções sobre Violências e Produção de Subjetividades – VIESES, e é pesquisador associado à Associação Brasileira de Pesquisa-  
dores/as Negros/as (ABPN).* Lattes: http://lattes.cnpq.br/7575402672251533. Email: brunovieira.comunica@gmail.com.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
JUVENTUDE, MEMÓRIA E AQUILOMBAMENTO:  
TODO MUNDO CONTRA O EPISTEMICÍDIO  
Bruno Vieira dos Santos  
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RESUMEN  
Partiendo de un debate que va más allá de la notoria incidencia de la mortalidad juvenil negra en Brasil, este  
artículo presenta una discusión sobre las formas insurgentes de resistencia y reexistencia emprendidas por  
las juventudes negras. En enero de 2022, un acontecimiento provocó una fuerte conmoción en la escena de  
la poesía marginal y en las batallas de MCs de la región metropolitana de Recife. A partir de la memoria de  
un joven poeta asesinado en el centro de la ciudad, se traza una cartografía que evidencia la necesidad de  
visibilizar estrategias basadas en el derecho a la memoria y en el quilombismo para enfrentar el epistemicidio.  
¿Qué nos revela la vida de los sujetos culturales periféricos sobre el ejercicio del derecho a la ciudad, el  
disfrute del espacio urbano y el acceso a la cultura? ¿Cómo un poeta que hoy está fallecido permanece vivo  
en la memoria de la ciudad? ¿Cómo afecta esa memoria a las personas que tenían proximidad con él? Y, por  
último, ¿cómo se entrelaza todo esto en un debate sobre epistemicidio, activismo político-cultural y derecho  
a la memoria? En este texto, el término memoria se considera un elemento psicosocial que, junto con una  
perspectiva quilombista, contribuye al enfrentamiento de los borramientos promovidos por la colonialidad.  
Establecer una práctica de revivir memorias es actuar en defensa de la resistencia misma de la existencia.  
Keywords: juventud negra, quilombismo, memoria, epistemicidio.  
1.  
INTRODUÇÃO  
Este artigo parte da proposta de compreender a necessidade de debatermos, para além da notória incidência  
da mortalidade juvenil negra no Brasil, as insurgentes formas de resistência e reexistência. Em janeiro de  
2022, o poeta Japa Rua foi assassinado na Rua Mamede Simões, no bairro de Santo Amaro, centro do Recife.  
Esse evento provocou uma comoção forte na cena da poesia marginal e das batalhas de MC’s da região  
metropolitana. Reportagens abordando o acontecido foram realizadas – tanto aquelas mais factuais e duras  
quanto outras mais humanizadoras e contextualizadas.  
Até Japa morrer, eu não sabia quem ele era, qual era sua relevância e sua importância para a cidade. Ali,  
entra em cena a necessidade de se entender o enfrentamento ao epistemicídio estabelecendo pontos de  
contato entre a vivência de Japa Rua na Grande Recife com grupos e coletivos que fazem parte da cena  
pública regional. O que significou a circulação de Japa pela região? O que isso informa para nós em relação  
ao exercício do direito à cidade, à fruição da urbe e ao acesso à cultura? Como um poeta que foi brutalmente  
assassinado permanece vivo na memória da cidade? Como essa memória afeta as pessoas que dele tinham  
proximidade? E, por fim, como isso tudo se costura num debate sobre epistemicídio, ativismo político-  
cultural e direito à memória?  
O termo memória me acompanha aqui como um elemento psicossocial que, ao lado de uma perspectiva  
aquilombada, contribui para o enfrentamento dos apagamentos promovidos pela colonialidade. Esses  
apagamentos alimentam esquecimentos e estabelece uma prática de reviver memórias e atuar para a  
resistência da própria existência. Agradeço à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado  
de Pernambuco (FACEPE) pela bolsa concedida, que me permitiu executar essa pesquisa no âmbito do  
doutorado; e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa, que  
permite com que eu siga a exploração dessa temática no âmbito do pós-doutorado.  
2.  
EPISTEMICÍDIO, UM GERADOR DE DEFUNTOS  
A perspectiva que este texto adota sobre epistemicídio coaduna com a noção de esquecimento, apagamento  
e indigência cultural, tendo Sueli Carneiro (2005) como a principal referência. A autora apresenta  
uma articulação entre a filosofia foucaultiana dos dispositivos – no intuito de entender os processos de  
subordinação ou anulação do corpo negro na nossa sociedade – com o Contrato Racial, termo elaborado pelo  
filósofo afro-estadunidense Charles Mills, segundo o qual há um pacto que estabelece em todo o mundo a  
supremacia branca e a colonialidade do poder como pilar das nossas relações sociais e o padrão imposto pela  
Europa sobre aqueles que não eram europeus. Trata-se de uma crítica ao contrato social dos contratualistas  
tradicionais (como Rousseau e Hobbes), que afirmam sobre a necessidade de haver um acordo entre  
sociedade civil e governo para que este possa cuidar dos interesses daquela, regulando a questão do bem  
comum e da soberania política coletiva.  
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O que fica invisível a esse conceito tradicional é a questão de que o pacto é estabelecido entre iguais, gerando  
uma exterioridade a quem dele não faz usufruto. Esses iguais são os brancos europeus, que se colocam como  
possuidores da chave do poder de subjugar aqueles que são não europeus como seus subalternos. Por um  
lado, o dispositivo atua numa polaridade entre “norma” e “antinorma”, em que a antinorma determina o que  
é a norma e o dispositivo tem sempre uma função concreta, articulando-se por meio de diversos elementos  
com o objetivo de atender a uma demanda de “organização” da sociedade (Foucault, 1979). Por outro lado,  
o dispositivo de racialidade funciona como “uma dualidade entre positivo e negativo, tendo na cor da pele o  
fator de identificação do normal, e a brancura será sua representação” (Carneiro, 2005, p.42), construindo  
diferenças, hierarquizando essas diferenças e organizando essa hierarquia por meio do poder (Kilomba,  
2019). A raça é o demarcador de uma “verdade” ou de “aceitação” sobre o sujeito.  
O epistemicídio é o descarte, causado pelo racismo, “do nosso legado histórico, da nossa dignidade, da nossa  
história e da nossa contribuição para o avanço da humanidade nos níveis filosófico, científico, artístico e  
religioso”. (Gonzalez, 1988, p.77). Há a impossibilidade do acesso aos referentes epistêmicos que constituem  
o negro como sujeito numa coletividade, ocorrendo o fenômeno que eu nomeio como embarreiramento da  
subjetividade 2. No caso do epistemicídio da população negra, há a dificultação, interdição ou impossibilidade  
de o sujeito constituir sua ontologia em referenciais que não sejam hegemônicos (brancos). Seu campo  
simbólico torna-se hegemônico (branco), e o caminho “natural” acaba sendo o negro lutar para cumprir uma  
ideação distorcida (embranquecida) de si (Souza, 1983). Ao não contemplar tal ideação, cria-se uma espécie  
de limbo existencial neurótico que, se já alienava o negro em alcançar esse campo simbólico embranquecido,  
agora o alija de se compreender nos próprios valores ancestrais de sua comunidade. Ficando sem suas  
referências ontológicas, ele, em última instância, deixa de existir como sujeito, sendo relegado à posição de  
amnésia.  
O epistemicídio relega corpos à posição de esquecimento e de apagamento, tornando-nos defuntos. A palavra  
“defunto” vem do latim “de functio”, que significa “aquele que deixou de cumprir sua missão no mundo”,  
ou “aquele que não exerce mais a sua função”. Não trago a palavra “função” no sentido funcionalista, mas  
no entendimento orgânico do que é a ação humana no mundo. Posso desencarnar e manter viva a minha  
tarefa, o meu objetivo de vida, por meio da memória que insiro na sociedade, seja por quais processos for.  
Assim, o epistemicídio é um gerador de defuntos, um processo que estrutura o genocídio no que se refere às  
subjetividades individuais e coletivas.  
3.  
AQUILOMBAMENTO NAS TRILHAS DA MEMÓRIA  
Que estratégias podemos elencar para que não percamos a nossa “função”? Como não se tornar apagado  
e esquecido pela hegemonia? Em que sentido a Psicologia contribui para a construção da memória de  
uma coletividade e, por consequência, de que maneira se espera que essa memória coletiva dê um sentido  
crítico à Psicologia? (García Acuña, 2010). A resposta a essas perguntas pode ser iniciada com a percepção  
de que onde há poder há resistência – e isso não seria diferente em relação à memória. Para que não  
sejamos esquecidos, é necessário que estejam as outras pessoas sempre lembrando de nós. Essa referência  
continuada se funda em um fio que nos atravessa e nos direciona, fazendo com que observemos o passado  
para direcionar nossos passos futuros: a ancestralidade. Não se trata “de uma mera saudade do passado,  
mas de uma referência de como os nossos antepassados nos deixaram movimentos para continuar a saga da  
existência” (São Bernardo, 2018, p.231).  
A produção de resistência por parte das juventudes negras não se dá de maneira vazia, porque elas produzem  
ativismo político-cultural que visa enfrentar o epistemicídio e construir outras narrativas de si enquanto  
coletividade. É um processo que se dá por maneiras diversas e não definidas a priori, mas que tem um  
propósito: subverter narrativas de forma a enfrentar o poder colocado (Marcial, 2013). Deriva desse termo  
outro igualmente relevante, a reexistência, um jogo de palavras cujo sentido tem a ver com a resistência e  
como ela se articula com a existência dos sujeitos subalternizados, tão negada pelos vilipendiosos processos  
coloniais. Poderíamos entendê-la como “uma ação estratégica intimamente ligada à retomada das narrativas  
sequestradas pelos representantes da colonialidade e a imposição por parte deles de sua lógica” (Santos;  
Santos, 2022, p.7). São ações fundamentais para que se garanta a vida das pessoas e comunidades subjugadas  
(Evaristo, 2021). E, estando ciente de mecanismos sofisticados, as juventudes negras vêm criando estratégias  
de enfrentamento aos apagamentos constantes de sua representação. Uma das vias para a resistência  
2 Trata-se da interdição psicossocial que interfere na condição do sujeito de apreender referenciais concernentes à construção da identidade subjetiva  
relacionada a sua comunidade de origem. Revela-se na impossibilidade ou na incapacidade de acessar tais referências por causa de apagamentos,  
estereotipias e/ou hierarquização de saberes com o consequente desmerecimento dos valores relacionados a seu grupo originário.  
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e a reexistência é, portanto, a produção cultural e artística, que contribui para que haja possibilidades de  
elaborar outras narrativas para sua própria história e para sua realidade atual mais próxima.  
Na disputa por uma representação mais favorável a si mesma, a juventude encontra na produção cultural (música, literatura,  
cinema, entre outras expressões), possibilidades de elaboração de outras narrativas para sua própria história e realidade atual.  
São estes os atos de reexistência a que me refiro. São inúmeras as expressões culturais que têm por enredo ou trama o retrato de  
outros aspectos da história e da realidade destes personagens da vida real. (Ortegal, 2019, p.126)  
É pertinente notar que as manifestações político-culturais não se dão em um espaço qualquer, mas na rua.  
Esta se constitui como lócus de memória porque é nela que se desvela a circulação de processos de existência  
artística negra e periférica. Não se trata de romantizar e tampouco vilanizar a rua, mas entendê-la também  
como um “sujeito” ativo na produção de subjetividades sobre a memória de uma juventude articulada em  
ações político-culturais incidentes na urbe. Para quem é oriundo de diásporas, não é qualquer coisa você  
constituir lugares e espaços. A própria noção do termo “diáspora” leva em consideração o fato de que se trata  
de coletividades em dispersão, e encontrar um território onde se possa ficar é uma forma de se encontrar  
enquanto sujeito de uma coletividade.  
Em se tratando da diáspora negra no Brasil, percebemos que esse lugar, que não é apenas físico, mas também  
ontológico, não é algo fixo: Milton Santos (1997, p.19) analisa-o como “um campo de forças, como o lugar  
do exercício, de dialéticas e contradições entre o vertical e o horizontal”, onde o que é mais interessante é  
o processo. O espaço e o território são dimensões centrais na vida das/os jovens. Tendo foco o contexto  
urbano, a rua se torna esse espaço-lugar que toma primazia no exercício criativo das juventudes negras,  
envolvendo quatro funções (Campos, 2020):  
Sociabilidade: A rua é o ponto de encontro. É nesse lugar em que se estabelecem vínculos e  
contatos, onde há a possibilidade de se socializar para além de espaços de consumo (shoppings)  
ou de controle (escola);  
Construção identitária: A rua constrói identidades e identificações. Subjetividades são  
promovidas nos espaços urbanos a partir de múltiplas vertentes e possibilidades. Aqui é o  
espaço onde o “eu” constrói-se no coletivo, na presença de um “nós” comunitário – e isso vai  
além do estabelecimento de “subculturas”, termo problemático, porque pressupõe haver  
culturas “superiores” (Aguillera Ruiz, 2016);  
Participação e cidadania: A rua é reivindicação. É espaço para se forjar um direito à cidade,  
no qual a urbe é pensada e sentida por quem a vive, não por quem a planeja de maneira fria e  
distante;  
Experimentação e criatividade: A rua é provocadora. É um território que permite a invenção  
de novas formas e práticas de fazer arte e cultura, sendo inclusive matéria-prima para “o  
desenvolvimento de exercícios de índole criativa” (Campos, 2020, p.592).  
Esta última função, a experimentação e a criatividade, talvez compreenda os elementos mais vitais na vida  
da juventude negra e nos seus empreendimentos de resistência e reexistência. Se outrora a rua era vista  
como o lugar da vadiagem e vagabundagem, ainda que essa noção persista, ela segue acompanhada da  
discussão sobre a rua como lugar de potências, afetos e enfrentamentos. A criatividade do ativismo político-  
cultural das juventudes negras abraça a rua não como locus amoenus3, como lugar tranquilo e comum, mas  
como enfrentamento aos apagamentos cotidianos que tais grupos sofrem. É aparecendo na rua, no cenário  
público, que a visibilidade acontece e, sendo vistos enquanto grupos sociais, são lembrados. Aquele ditado  
“quem não é visto não é lembrado” dialoga com essa perspectiva, porque a memória de/sobre um grupo  
social é o que determina se esse grupo permanece existindo na arena pública ou se vai ser apagado e, por  
conseguinte, vítima de epistemicídio. É na rua onde as juventudes negras produzem memória. “Rua”, aqui, é  
um verbete plurissemântico porque não se vincula apenas à espacialidade física, mas a um lugar ontológico.  
Ela se torna, dentro desse debate, em um instrumento de coesão e manutenção das identidades dos grupos.  
E é na rua onde encontramos a figura de Japa.  
4.  
OLHAR  
PARA  
RECIFE  
NÃO  
TEM  
COMO  
NÃO  
VER  
JAPA  
Japa Rua: poeta, slammer, rapper. Um frequentador de batalhas e saraus. Um agitador cultural. Uma figura  
3 Termo literário que se refere geralmente a um local idealizado de segurança, tranquilidade ou conforto.  
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conhecida do circuito do hip hop em Recife. Um jovem preto de 25 anos, de cabelos cacheados, olhos puxa-  
dos (por isso o apelido). Assassinado por questões banais numa noite de janeiro de 2022. Buscando informa-  
ções para compreender mais sobre o ocorrido e sobre Japa, encontrei algumas reportagens cujas manchetes  
resumiam-se a contar o assassinato, sem aprofundar na sua biografia. A TV Globo dedicou um vídeo de qua-  
se três minutos no NE 2, noticiário local noturno (tempo consideravelmente relevante para uma reportagem  
televisiva).  
O Diário de Pernambuco — o jornal mais longevo do Brasil e da América Latina, prestes a completar 200  
anos em 2025 — conseguiu ser o mais infame ao resumir o acontecimento em três parágrafos de apenas três  
linhas cada, acompanhados de uma manchete genérica. Fiquei estarrecido diante de tamanha indiferença do  
Diário em relação ao fato. Somente isso daria um artigo ou uma dissertação com embasamento semiótico.  
De maneira menos abjeta, o Jornal do Commercio conseguiu contextualizar melhor o acontecimento do que  
seu rival, mas não sem certa ironia sobre o fato de Mamede Simões ser “point da intelectualidade recifense”.  
O LeiaJá e a Folha de Pernambuco foram sucintos como o Diário, mas não tão reles.  
VEÍCULO  
MANCHETE  
LINK  
TV Globo  
Artista morre após ser esfaquea-  
do na Rua Mamede Simões, no  
Centro do Recife  
https://g1.globo.com/pe/pernambuco/  
noticia/2022/01/08/artista-morre-apos-  
ser-esfaqueado-na-rua-mamede-simoes-  
no-centro-do-recife.ghtml  
Diário de Pernambuco  
Jornal do Commercio  
Homem é esfaqueado na Rua  
Mamede Simões  
https://www.diariodepernambuco.com.br/  
noticia/vidaurbana/2022/01/homem-e-es-  
faqueado-na-rua-mamede-simoes.html  
Artista morre esfaqueado na Rua https://jc.ne10.uol.com.br/per-  
Mamede Simões, point da boemia nambuco/2022/01/14931317-artis-  
recifense  
ta-morre-esfaqueado-na-rua-mamede-si-  
moes-point-da-boemia-recifense.html  
LeiaJá  
Polícia investiga assassinato de  
jovem na Mamede Simões  
https://www1.leiaja.com/noti-  
cias/2022/01/08/policia-investiga-assassi-  
nato-de-jovem-na-mamede-simoes  
Folha PE  
Artista é assassinado a facadas na https://www.folhape.com.br/noticias/arti-  
rua Mamede Simões, no Recife;  
suspeito segue foragido  
sta-e-assassinado-a-facadas-na-rua-mame-  
de-simoes-no-recife/211748/  
Agora Nordeste  
Artista morre após ser esfaquea-  
do no Centro do Recife  
https://www.agoranordeste.com.  
br/noticia/01/08/2022/artis-  
ta-morre-apos-ser-esfaqueado-no-cen-  
tro-do-recife.html  
Brasil de Fato  
Em memória de Japa: amigos  
e família homenageiam artista  
morto no Recife  
https://www.brasildefato.com.  
br/2022/01/14/em-memoria-de-japa-ami-  
gos-e-familia-homenageiam-artista-mor-  
to-no-recife  
Esquerda Diário  
Juventude negra | Recife perde  
Japa, um artista da cena hip-hop  
e da cultura negra de Pernambu-  
co  
https://www.esquerdadiario.com.br/Reci-  
fe-perde-Japa-um-artista-da-cena-hip-hop-  
e-da-cultura-negra-de-Pernambuco  
Marco Zero Conteúdo  
Marco Zero Conteúdo  
Se o amor não morre o poeta  
também não pode morrer  
https://marcozero.org/se-o-amor-nao-  
morre-o-poeta-tambem-nao-pode-morrer/  
Ainda há tempo no Beco do Poeta https://marcozero.org/ainda-ha-tempo-  
Japa Rua no-beco-do-poeta-japa-rua/  
Tabela 1: manchetes e links de notícias sobre a morte de Japa. Fonte: pesquisa do autor.  
Imagem 1: Fotografia de Japa Rua. Fonte: Instagram @japarua – perfil público.  
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No que tange a veículos noticiosos, se eu quisesse mesmo saber não apenas sobre o assassinato, mas sobre  
Japa, precisaria acessar mídias não convencionais ou independentes. O site Esquerda Diário, que faz parte  
do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), lamentou a morte de Japa e disse que o assassinato  
foi uma fatalidade que aconteceu com um jovem negro reconhecido por ser parte da cena artística de Recife.  
Japa era um jovem que carregava várias aspirações e sonhos, que se expressavam nessa disposição de construir a cena do hip  
hop e levar adiante a cultura negra nordestina, assim como na sua denúncia ao racismo e toda forma de injustiça social nos  
poemas e grafites. Era um amigo e querido, que deixa as marcas na cena de um jovem que nunca se resignou frente à opressão  
da luta e cultura negra. (Esquerda Diário, 2022, online)  
A Marco Zero Conteúdo, agência de jornalismo independente do Recife, publicou duas reportagens-crônicas  
sobre o poeta. Em um dos textos, fica evidente a “falta” que Japa iria fazer na vida cultural da cidade, relatando  
“uma lacuna não apenas para o movimento hip hop, mas também para toda a cultura do Recife, que perdeu  
um poeta ávido e ‘cheio de luz’, como relatam os amigos e artistas que conviveram com ele” (Carneiro, 2022,  
online).  
A partida precoce de Japa deixará uma lacuna não apenas para o movimento hip hop, mas também para toda a cultura do Recife,  
que perdeu um poeta ávido e “cheio de luz”, como relatam os amigos e artistas que conviveram com ele. “As pessoas precisam  
ver a dimensão da cultura, do hip hop e da poesia de Pernambuco e saber o quanto Japa estava presente nesses movimentos”,  
afirmou Tuca Duarte, integrante do coletivo de arte Point Bomb. (Carneiro, 2022, online)  
Recife perdera para a violência urbana um personagem de suas ruas e da sua cultura periférica, um sujeito  
que era um catalisador e um agregador, que tinha a poesia como veículo para transformar a realidade,  
o entorno. Japa foi notícia nos meios de comunicação, é certo, mas há uma narrativa sobre o artista que  
não pode ser estabelecida apenas por tais meios. De certa forma, todas as reportagens que noticiaram o  
poeta removeram-no de certo anonimato, mas isso se deve apenas por mencionar seu nome de registro e  
seu apelido. Ao ler as notícias sobre o assassinato de Japa, sinto a frieza do Hard News4 contaminando a  
descrição dos fatos: tendo em vista se tratar de “mais um” corpo estendido no chão, a mídia hegemônica  
não se preocupa em compreender o acontecimento – não apenas esse em si, mas o fenômeno ampliado do  
genocídio da juventude negra.  
Japa faleceu em 2022, mas sua lembrança permanece viva nos testemunhos, nas paredes, nos poemas  
criados in memoriam e, também, na produção de novos espaços que reverenciem a poesia como estratégia de  
vida. Ainda no ano de 2022, o artista foi homenageado no “Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz”,  
ao lado de outro grande nome, Miró da Muribeca. A programação do evento contou, dentre outras atrações,  
com batalhas de rima, no estilo da Batalha da Escadaria e do Duelo de MC’s (Prefeitura do Recife, 2022).  
Diante um evento de perda, o luto se converte em ação que repercute no âmbito público, não sendo uma  
ação individualizante ou singular. É uma investida de se deslocar da narrativa focada na morte e evidenciar  
o legado de Japa enquanto ente encantado e, por conseguinte, vivo.  
5
A VERDADEIRA MORTE SE CHAMA ESQUECIMENTO  
Não somente nas perspectivas afrodiaspóricas, mas também nas ameríndias, o falecimento do corpo não  
significa o fim da vida, mas o restauro da matéria para a constituição de novas vidas (Simas, 2020, pp.43-  
46). Aquele corpo ancestral que retorna à lama possui uma memória que, coletivamente, será cultuada e  
eternizada. Aquela saudação de pedir licença a quem veio antes de nós faz todo o sentido se pensarmos que  
essas pessoas ainda existem de maneira espiritual e etérea. Aqui, o desencarne não é oposto à vida, mas é  
visto como espiritualidade.  
Numa perspectiva de ancestralidade, “só há morte quando há esquecimento” (Simas; Rufino, 2018, p.11,  
grifos meus). Há pessoas que, mesmo falecidas, permeiam nosso imaginário e seguem sendo lembradas  
– daí, elas são encantadas. O desencanto vem com a morte, com o falecimento da memória e a gênese de  
um apagamento dessas reminiscências. É nesse ponto que o epistemicídio se estrutura e se ramifica como  
um elemento que contribui para o nosso genocídio: sacrifica nossa memória em detrimento de outra,  
supostamente “melhor” e hierarquicamente “superior”.  
O contraponto do esquecimento é a manutenção da memória daquelas pessoas que hoje são reverenciadas  
como ancestrais. Lembrar-me de alguém significa um duplo movimento de vida: eu estou vivo (porque  
lembro) e a outra pessoa também segue viva (porque me lembro dela). A verdadeira razão de existência da  
memória é permitir que nos mantenhamos vivos, enquanto corpos encarnados e desencarnados, dotados  
4 Hard News é o jornalismo cotidiano, dinâmico e que necessita constante atualização. É um estilo que não permite o aprofundamento e a discussão  
sobre um fato. É o fato pelo fato.  
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de razão, emoção e espírito. É pela memória que nos alimentamos das nossas ontologias, das perspectivas  
de vida, do nosso jeito de ser e de viver. Não se trata de um mero processo cognitivo individual, mas de uma  
expressão tão interessante do que é o ser humano que eu mesmo me perco nas parcas tentativas de conceituá-  
la ou defini-la. É por isso que falar de epistemicídio é falar de esquecimento: ao sofrer o apagamento das  
minhas referências, ancoro-me em outras que diferem de quem – ontologicamente – sou. Talvez por isso  
lembrar de onde viemos seja tão perigoso para o status quo.  
Memória é um termo cuja dimensão não é meramente mecanicista e/ou biológica, mas se trata de  
uma atividade que compreende a mnemônica em articulação com a ordenação e releitura de vestígios  
mnemônicos (Le Goff, 1990). E tal ordenação não se dá puramente no âmbito cognitivo: a capacidade de  
nós nos lembrarmos (ou esquecermos) de algo é vinculada à atividade cerebral articulada com a atividade  
social, cultural, ambiental – ou seja, relacional. Dessa forma, em se tratando de populações subalternizadas  
e tidas como marginalizadas, podemos perceber que a supressão de memórias entra como parte integrante  
do processo de epistemicídio: evidencia-se aqui mais flagrantemente o processo de indigência cultural  
(Carneiro, 2005), onde a memória das populações subalternizadas não pertence a elas, mas foram impostas  
pela coerção colonial. E no que tange às resistências de tais populações à força colonialista, evidencio o  
quilombo como um território que se converte de físico para metafísico.  
O significado do quilombo como resistência aflora de maneira mais veemente no final do século XIX,  
inaugurando o século XX como caracterização ideológica de um sonho de liberdade — de libertação da  
consciência nacional. É nesse momento histórico que se funda o quilombo como ontologia, referência e  
tecnologia social que nos consigna enquanto sujeitos afrodiaspóricos e que nos incita a reverenciar nossa  
ancestralidade. O sentido do que é quilombo hoje transcende a compreensão restrita ao escravagismo e ao  
período imperial, configurando-se como uma expressão concreta de continuidade histórica (Nascimento,  
2006). Da abolição até os anos 1970, a pessoa negra foi, na maioria das vezes, silenciada, existindo  
majoritariamente nos estudos sobre o escravismo — a despeito da constituição da Frente Negra Brasileira e  
do Teatro Experimental do Negro, respectivamente em 1931 e 1944.  
Nos anos 1970, a ideologia do quilombo ressurge como um ponto de apoio para a (re)construção de uma  
referência sobre o que é ser negro e o que é expressar a negritude, especialmente no campo artístico-cultural  
(Nascimento, 2006; Alcântara, 2017). Nesse período, o quilombo retorna como um “código que reage ao  
colonialismo cultural”, que “reafirma a herança africana e busca um modelo brasileiro capaz de reforçar a  
identidade étnica” (Nascimento, 2006, p. 124). Ele aponta para a busca por uma consciência de ajuntamento  
em torno da luta pela libertação das correntes que ainda prendem os corpos negros a uma servidão eterna,  
pois “não podemos ter consciência do que somos e, ao mesmo tempo, permanecermos em cativeiro” (Biko,  
1990, p. 66).  
O quilombo, assim, é libertação, e libertar-se pode ser compreendido como descolonizar-se, remover os  
grilhões do colonialismo que insistem em nos ancorar numa situação de negação de nós mesmos/as enquanto  
sujeitos/as. A descolonização é um processo ativo: não basta negar o colonialismo, é preciso enfrentá-lo  
como um campo de batalha, agindo de maneira contracolonial (Santos, 2019), por meio de insurgências,  
combates, enfrentamentos e resistências — visíveis ou invisíveis. Essas ações recriam a autoimagem de si e  
do outro de forma não depreciativa nem vilipendiada, rompendo o mito do “escravo amnésico” (Pessanha;  
Paz; Saraiva, 2019), o mito do negro sem história.  
Assim, proponho que o subsídio ontológico desse ativismo juvenil negro se ancora na noção de  
aquilombamento, oriunda da experiência de ocupação do quilombo. Tecnologia que atravessa gerações,  
aquilombar-se é um processo baseado no acolhimento, no fortalecimento e na organização das coletividades  
negras — com formas, mecanismos e ferramentas que se transformam com o tempo, mas cujo significado (a  
resistência à opressão) permanece. Considerando que, na história brasileira, nunca houve um momento em  
que a população negra não precisasse articular estratégias de sobrevivência e resistência, o aquilombamento  
atravessa o tempo e se converte de território instituído em tecnologia social em constante adaptação.  
Aquilombamento, em qualquer tempo, diz respeito à criação de zonas de segurança, de acolhimento, de fortalecimento. Espaço  
onde é possível experimentar a paz de ser e estar em comunidade, compartilhar vivências, obter suporte, costurar alianças, ala-  
vancar projetos, reconhecer e curar feridas, tecer estratégias, planejar levantes, trocar informações, instruir-se uns aos outros.  
Local onde é possível o recuo e é desejado o avanço. O ato de se aquilombar compreende a necessidade de traçar caminhos  
desviantes e desafia a organização social neoliberal que ordena a separação dos corpos e a individualização das coletividades,  
formando e renovando continuamente uma inteligência coletiva. (Souto, 2021, p.157)  
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Essa inteligência coletiva se nutre de valores que são constantemente rememorados, relembrados e  
retomados. Num quilombo, você não esquece de si e não esquece quem é o outro. A todo momento, é  
chamado a recordar sua origem. O quilombo é uma fonte viva e atualizável de memória – e esse aspecto  
dinâmico é uma chave para compreender que memória é essa que pretendemos cultivar. Como é possível  
sobreviver em um espaço-tempo no qual não há referências de quem veio antes de nós? Talvez aí resida  
o diálogo entre a memória e o quilombo, pois aquilombar-se também significa não esquecer. Ao adentrar  
um espaço como um quilombo, o que ali se apresenta não são apenas lembranças gerais de um tempo que  
“passou”, mas marcas de uma temporalidade que segue vigente. O quilombo me faz lembrar de onde venho,  
tornando-se uma bússola necessária para guiar os próximos passos.  
Quando do seu falecimento, pessoas próximas e artistas que conheciam Japa criaram um espaço de  
memória dedicado ao poeta. Situado no Centro do Recife, o Beco do Biu – muito frequentado por  
ele em vida – foi convertido nesse lócus de memória: um espaço que dialoga com a noção de “não-  
esquecimento”, de promover a constante rememoração do poeta e fazer justiça em relação ao seu nome.  
É por meio de processos coletivos que a memória se apresenta como enfrentamento aos esquecimentos e,  
consequentemente, ao epistemicídio. Cultuar a memória de um ente falecido permite que, a partir desse  
culto, ele possa renascer como ancestral.  
6.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Abordar a questão da juventude negra é andar num fio de navalha: trata-se de dimensionar o fenômeno da  
mortalidade – física e simbólica – dessa população, mas também de visibilizar as ações de enfrentamento e  
resistência a esse fenômeno. Desejou-se aqui falar para além das análises sobre violência, buscando abordar  
um escopo que considere a vulnerabilidade não como a única representação dos/as jovens negros/as, a fim  
de contribuir para uma elaboração teórico-conceitual que, mesmo incompleta, apresente “a complexidade  
deste sujeito social, sem a vinculação a uma condição juvenil de vítimas, suspeitos, vulneráveis e subalternos”,  
compreendendo a juventude negra “de forma integral, como agentes transformadores e potenciais para a  
sociedade brasileira e para a América Latina” (Pereira; Gonçalves, 2016, p. 02).  
A juventude negra, assim, exerce seu ativismo pelas vias aquilombadas, e o quilombo é a tecnologia social  
que, por excelência, depende do coletivo. Aquilombar-se é verbo e é plural – uma ação que contribui para o  
não esquecimento de si e do outro.  
Japa chama a atenção para o fato de que somos testemunhas de dois eventos complementares: o genocídio/  
epistemicídio e a consequente resistência/reexistência. Se há tentativas constantes de apagar e anular nossos  
referenciais, na mesma medida existem enfrentamentos que visam promover o espetáculo da vida diante do  
vaticínio da morte. Fica evidente que tanto Japa quanto as pessoas que dão continuidade à sua memória estão,  
constantemente, fazendo isso. Não podemos deixar de evidenciar que todas essas estratégias de resistência  
e reexistência são armas na luta contra o epistemicídio. Todas as iniciativas pautadas na memória e no  
quilombo como valores a serem referendados cumprem o papel de evitar que nossos princípios caiam no  
limbo do esquecimento. Como disse Patricia Hill Collins, seria ingênuo pressupor que, ao compreenderem  
sua própria condição de sujeitos jovens negros, não haveria capacidade de resistir às opressões (Guimarães,  
2021).  
Háumaproduçãodeconhecimentoporpartedajuventudenegraquenãoéreconhecidacomotal.Produzimos  
saberes quando rimamos em uma batalha de MCs, quando declamamos poesia autoral em um slam ou em  
um sarau, quando dançamos, cantamos e festejamos por meio do coco, do bregafunk e de outros estilos  
artísticos. É necessário observar como sujeitos como Japa Rua são capazes de escrever uma narrativa sobre  
uma cidade que insiste em anular corpos como os nossos. Ele produzia conhecimento por meio da poesia,  
em diálogo com a cidade e com a experiência de ser um jovem negro periférico. Sua memória, semeada  
hoje, há de frutificar para alimentar e inspirar gerações vindouras — uma herança que não se encerra no  
indivíduo, mas reverbera na coletividade.  
Por fim, o quilombo, entendido não apenas como um território físico, mas como uma tecnologia social e  
um conceito em constante atualização, serve como um fundamento ontológico e epistêmico para o ativismo  
das juventudes negras. Esse símbolo de resistência histórica se traduz em práticas contemporâneas de  
fortalecimento comunitário e de reivindicação de memórias e identidades negadas pelo discurso dominante.  
A memória, longe de ser um fenômeno meramente cognitivo e individual, é compreendida aqui como um  
elemento vivo e coletivo, fundamental para a sobrevivência e a afirmação dos grupos subalternizados. Ao  
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articular quilombo e memória, vislumbra-se que o enfrentamento ao epistemicídio não se limita ao campo  
acadêmico: manifesta-se nas ruas, nas artes e nas culturas, onde a juventude negra recria e ressignifica sua  
existência na trama urbana e social do Brasil contemporâneo.  
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SOUTO, Stéfane. É tempo de aquilombar: da tecnologia ancestral à produção cultural contemporânea.  
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SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.  
Data de submissão: 18/04/2025  
Data de aceite: 14/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025  
ENSAIO  
CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE O  
1
ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO  
Letter to my black mother: an essay on the encounter of  
epistemes and the condition of the black  
Carta a mi madre negra: un ensayo sobre el encuentro de  
epistemes y la condición del negro  
2
THIAGO MACEDO DE CARVALHO  
ORCID: 0000-0002-3842-3717  
RESUMO  
Escrito em forma de carta, o presente ensaio propõe uma reflexão crítica sobre as tensões entre os saberes  
acadêmicos e aqueles historicamente deslegitimados, mobilizada a partir dos estranhamentos vivenciados  
por estudantes negros ao ingressarem na universidade. A mãe preta aqui evocada não se refere à figura  
debatida por Gilberto Freyre e Lélia Gonzalez no contexto da formação da sociedade brasileira; contudo,  
sua agência e seu saber, reconhecidos por Gonzalez, perpassam todo o ensaio. Por adotar a forma epistolar,  
a narrativa assume um tom dialógico, afetivo e pessoal, sem se limitar a um relato particularizado: a mãe —  
destinatária da carta — não é especificamente a do autor, mas uma imagem discursiva construída a partir  
de experiências compartilhadas. Fundamentada em referenciais teóricos e vivências reais, a carta converte-  
se em recurso metodológico para explorar o encontro entre diferentes epistemes. Inspirado nas obras de  
Frantz Fanon, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, o texto discute os processos de subjetivação e as relações de  
dominação implicadas na experiência universitária, questionando a pretensa neutralidade desse campo e os  
mecanismos que operam na hierarquização dos conhecimentos, ao passo que a mãe preta, longe de ser uma  
destinatária passiva, assume o papel de interlocutora crítica, cujas percepções e ensinamentos revelam as  
limitações do ethos acadêmico.  
Palavras-chave: Carta; Ações Afirmativas; Saberes; Epistemicídio; Colonialidade.  
ABSTRACT  
Written in the form of a letter, this essay offers a critical reflection on the tensions between academic  
knowledge and those historically delegitimized, stemming from the sense of estrangement experienced  
by Black students upon entering the university. The Black mother evoked here does not refer to the figure  
discussed by Gilberto Freyre and Lélia Gonzalez in the context of Brazilian society’s formation; however, her  
agency and knowledge, recognized by Gonzalez, permeate the entire essay. By adopting the epistolary form,  
the narrative assumes a dialogic, affective, and personal tone, without being confined to a particularized  
account: the mother —the letter’s addressee— is not specifically the author’s, but a discursive image built  
from shared experiences. Grounded in theoretical references and real experiences, the letter becomes a  
methodological resource to explore the encounter between different epistemes. Inspired by the works of  
Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, and Sueli Carneiro, the text discusses the processes of subjectivation and the  
1 Registro meu agradecimento especial a Neville Santos pela leitura atenta da versão preliminar e pelos comentários que contribuíram para o aprimo-  
ramento deste ensaio.  
2 Doutorando e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (PPGSOL/UnB), licenciado em Ciências Sociais pelo Instituto Federal de Edu-  
cação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Atualmente é professor de Sociologia no cursinho popular Movimento Educação Livre. Membro do Núcleo  
de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) do IFG/Anápolis. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Desigualdades e crítica no Brasil con-  
temporâneo (Describa) da UnB.  
Lattes: https://lattes.cnpq.br/9614186253350786 E-mail: thiago_mcarvalho@hotmail.com  
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CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE  
O ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO  
Thiago Macedo de Carvalho  
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relations of domination involved in the university experience, questioning the supposed neutrality of this  
field and the mechanisms that sustain the hierarchy of knowledge, while the Black mother, far from being  
a passive recipient, takes on the role of a critical interlocutor whose perceptions and teachings reveal the  
limitations of the academic ethos.  
Keywords: Letter; Affirmative Action; Knowledge; Epistemicide; Coloniality.  
RESUMEN  
Escrito en forma de carta, el presente ensayo propone una reflexión crítica sobre las tensiones entre los  
saberes académicos y aquellos históricamente deslegitimados, movilizada a partir de los extrañamientos  
vividos por estudiantes negros al ingresar en la universidad. La madre negra evocada aquí no se refiere  
a la figura debatida por Gilberto Freyre y Lélia Gonzalez en el contexto de la formación de la sociedad  
brasileña; sin embargo, su agencia y su saber, reconocidos por Gonzalez, atraviesan todo el ensayo. Al  
adoptar la forma epistolar, la narrativa asume un tono dialógico, afectivo y personal, sin limitarse a  
un relato particularizado: la madre —destinataria de la carta— no es específicamente la del autor, sino  
una imagen discursiva construida a partir de experiencias compartidas. Fundamentada en referencias  
teóricas y vivencias reales, la carta se convierte en un recurso metodológico para explorar el encuentro  
entre diferentes epistemes. Inspirado en las obras de Frantz Fanon, Lélia Gonzalez y Sueli Carneiro, el  
texto discute los procesos de subjetivación y las relaciones de dominación implicadas en la experiencia  
universitaria, cuestionando la supuesta neutralidad de este campo y los mecanismos que operan en la  
jerarquización de los conocimientos, mientras la madre negra, lejos de ser una destinataria pasiva, asume  
el papel de interlocutora crítica, cuyas percepciones y enseñanzas revelan las limitaciones del ethos  
académico.  
Palabras clave: Carta; Acciones Afirmativas; Saberes; Epistemicidio; Colonialidad.  
UMA REAPROXIMAÇÃO AFETIVA E EPISTÊMICA  
Oi, mãe,  
Separei um tempo para lhe escrever esta carta, contrariando a pressa e a urgência dos tempos atuais. Estava  
rememorando uma conversa que tivemos no início da minha graduação, na qual eu estava feliz e apreensivo  
por ingressar na universidade. A senhora estava orgulhosa, pois eu seria a primeira pessoa da família a cursar  
o Ensino Superior. Resultado das Ações Afirmativas3, especialmente a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012),  
combinadas à oportunidade de ter concluído os Ensinos Fundamental e Médio – algo que devo à senhora,  
que sempre me apoiou dizendo: “Você vai virar alguém na vida”. Essa frase era um misto de incentivo, bronca  
e carinho, além de revelar nossa condição.  
O curso escolhido, Ciências Sociais – te contei sobre as primeiras aulas e ouvi de volta: “Acho que você vai ser  
bom nisso; desde criança já era do contra”. Imaginei, na época, que a senhora não havia entendido minhas  
explicações, principalmente sobre a Sociologia. Tempos depois, me deparei com o seguinte trecho de um  
importante sociólogo: “A teoria crítica é crítica contra si mesma e contra os seus próprios defensores sociais”  
(Marcuse, 1997, p. 157). Então, percebi que a senhora havia compreendido melhor do que eu naquele início  
de carreira.  
Estou feliz por fugir da correria da vida para te escrever. E dizem, mãe, que essa pressa toda – a qual  
dificulta o nosso reencontro – está vinculada à maneira como compreendemos e nos relacionamos com  
o mundo. Carregamos um sentimento de urgência e depositamos nos itens de desejo, nas metas e no  
futuro um valor muito elevado, se comparado ao que é dado às relações e ao tempo presente, deixando  
aquelas conversas que acompanham um cafezinho e um bolo de fubá para depois. As autorias que estudo  
nomearam de neoliberalismo esse momento do capitalismo. Ele impõe um novo modo de pensar e agir  
às pessoas (Dardot; Laval, 2016; Brown, 2019), condicionando suas vidas a uma precarização (Standing,  
2014; Antunes, 2018) mais radical. A senhora, sempre muito sagaz, diria que a vida do nosso povo já era  
dura mesmo antes desse tal neoliberalismo – e tem toda razão.  
3 Bernardino-Costa; Borges, 2021; Daflon; Feres Júnior; Campos, 2013; Feres Júnior; Daflon, 2014; Oliven; Bello, 2017.  
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CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE  
O ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO  
Thiago Macedo de Carvalho  
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DAS MÁSCARAS À REALIDADE  
Pensando nisso, quero te apresentar um pensador chamado Frantz Fanon (1925-1961). Mas, mãe, não se  
engane pelo nome: dessa vez, não é um autor francês, inglês ou alemão, e sim um intelectual nascido na  
Martinica. Isso mesmo, o país mencionado na marchinha4 que a senhora cantarolava enquanto varria a casa  
ou regava as plantas. Hoje percebo como essa canção era problemática, mas esta carta não é sobre ela. Assim  
que vi a fotografia de Fanon no interior do livro Pele Negra Máscaras Brancas (2020 [1952]), rememorei o tio  
naquele instante. Mãe, ele é a cara do tio! Vou mandar um exemplar junto à carta, para a senhora conferir e  
responder depois se concorda.  
Fanon escreve a partir do olhar de alguém que foi atravessado pelo colonialismo, igualzinho a gente aqui  
no Brasil, mãe, e, diante das condições materiais e subjetivas a que o negro é submetido, ele toma posição,  
escancarando essa zona de negação e desumanização. Mesmo sem ninguém pedir, ele o faz, sobretudo pelo  
devir de ser um intelectual negro, escrevendo como aquele que se rebela e indica o caminho para o quilombo:  
Por que escrever essa obra? Ninguém me pediu que o fizesse. Muito menos aqueles a quem ela se dirige. E então? Então respon-  
do calmamente que existem imbecis demais neste mundo. E, tendo dito isso, compete a mim demonstrá-lo. Rumo a um novo  
humanismo... A compreensão entre os homens... Nossos irmãos de cor (Fanon, 2020, p. 21).  
Pela primeira vez, uma leitura acadêmica me fez sentir mais próximo da senhora. Como se o livro do Fanon  
fosse produzido especialmente para nós, organizando o que sentimos, pensamos e vivemos. É um acadêmico  
que compreende e carrega as mesmas marcas econômicas, simbólicas, sociais e psicológicas que a gente,  
mãe. Ele reflete sobre vários pontos, mas quero destacar a relação da mulher negra com o homem branco do  
capítulo 2, em um contexto de subserviência: “ela não demanda nada, não exige nada, a não ser um pouco de  
brancura em sua vida” (Fanon, 2020, p. 58). Enxerguei nessa dinâmica, a relação que nossa família tem com  
o sobrenome de origem portuguesa. Embora alguns parentes o defendam com muito empenho, ninguém  
de fato conheceu esse único homem que batizou a família, sem considerar outro agravante: o sobrenome é  
apenas do lado paterno.  
O discurso que nos chegou foi: o (pseudo) bisavó voltou para Portugal às pressas, sem poder levar a bisa  
com ele. Sabe, mãe, nunca engoli essa história. Como não conheci a bisa, soube, por intermédio da vó e de  
algumas tias, que esse tal português não foi pai, não foi marido, não foi arrimo e não contribuiu em nada com  
a nossa gente. Mas o que importava na época, era ter um sobrenome, como se fosse uma espécie de carimbo,  
de selo, uma validação de que somos humanos e brasileiros. E o sobrenome da bisa, será que alguém sabe?  
Qual é a história dela? De qual país da África ela foi arrancada?  
Aproveito a reflexão para perguntar: e do seu lado da família, mãe? Me conte o que sabe, para que desses  
fragmentos possamos remontar parte da história. Sei, pela oralidade, que a bisa e o biso eram descendentes  
de negros com indígenas e que ela trabalhava de cozinheira e de empregada doméstica, enquanto ele era  
pescador. Como não há registro de seus sobrenomes para encontrar um lastro documental de suas origens –  
carregavam apenas homenagens aos santos católicos, seja no primeiro, seja no segundo nome, seguido pelo  
famoso “da Silva”. Qualquer informação pode ser de grande valia.  
Fanon notou, portanto, que a racialização foi capaz de produzir um tipo de hierarquização dos corpos no  
interior das relações, não apenas no sentido econômico, mas também no sentido simbólico e subjetivo.  
Especialmente nesses contextos em que a violência colonial se apresenta de modo mais explícito, como no  
caso da bisa. O homem negro também não escapa essa armadilha5, contudo ela incide sobre a mulher negra  
de um modo distinto, pois o colonialismo aciona tanto o racismo quanto o patriarcado. Mais adiante, mãe,  
vou te falar sobre uma autora brasileira que parte desse lugar, o da mulher negra, expondo o racismo e o  
sexismo. Por ora, vou deixar um último trecho para te instigar a ler o intelectual que tanto se parece com o  
tio:  
De modo algum deve a minha cor ser experimentada como uma tara. A partir do momento em que o negro aceita a clivagem im-  
posta pelo europeu, ele não tem mais trégua, e, ‘em vista disso, não é compreensível que tente ascender até o branco? Ascender  
na gama das cores às quais o branco atribui uma espécie de hierarquia?’Veremos que outra solução é possível. Ela implica uma  
reestruturação do mundo. (Fanon, 2020, p. 84)  
Às vezes fico pensando em quanta ingenuidade tive nos primeiros semestres da faculdade: li toda sorte de  
pensadores europeus e acreditei que a cisão entre o senso comum e o conhecimento científico demarcaria e  
separaria os saberes que herdei da senhora e aqueles que eu estava adquirindo como legítimos e superiores.  
4 Refiro-me à marchinha “Chiquita Bacana” de Braguinha e Alberto Ribeiro, datada de 1949.  
5 Vide o capítulo 3 de Pele Negra Máscaras Brancas (2020 [1952]).