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REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
envolvendo os dois conceitos indicados no título. É um texto que, também no diálogo com outras referências
– como W. E. B. Du Bois, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura – aponta não simplesmente o uso de ambos os
conceitos, mas avança nos modos de sua articulação, e no lugar que ocupam para se pensar as formas de
manifestação e expressão do racismo como constitutivo da sociedade brasileira. Desse modo, desvendam
o alcance da concepção do lugar de negro que está presente na obra da autora, o que implica o potencial de
questioná-lo e subvertê-lo.
O artigo “Feminismo negro acadêmico: experiências de professoras negras”, de Wellington Pereira Santos,
doutor em Estudos interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da
Bahia, está apoiado sobre uma etnografia com professoras realizada na Universidade Federal da Bahia. O
autor perpassa aspectos das trajetórias bem como da atuação dessas docentes e, com isso, traz os elementos
da presença do racismo, ao mesmo tempo em que confere lugar relevante às iniciativas de enfrentamento
dessa forma de preconceito e discriminação. Aponta, com isso, de que modo as mudanças no cenário da edu-
cação superior no Brasil se fazem sentir em termos de lidar com a permanência das práticas de branquitude,
mostrando as alternativas concretas e desmontá-la.
No artigo “Redes afro diaspóricas: Abdias Nascimento e o (auto)exílio”, Tailane Santana Nunes, mestra em
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e Édvin Marlei Pereira, da As-
sociação de Pesquisadores/as das Questões Étnicas, Culturais e Educacionais do Território Velho Chico
(Coletivo Marilene Matos), recorrem a cuidadosa pesquisa documental-bibliográfica no intuito de situar as
contribuições de Abdias Nascimento. Em particular, destacam a relação ambígua dele com o exílio nos Es-
tados Unidos da América, lançando mão de seu entendimento de que já fora exilado no Brasil, seu país de
nascimento, em decorrência das perseguições e repressões sofridas. Identificam o lugar ocupado pela inter-
locução com a négritude e o panafricanismo na organização das ideias de Nascimento. Desse modo, o texto
permite compreender o alcance e as múltiplas dimensões do ativismo, tanto nas artes quanto na militância e
na produção estritamente acadêmica, de uma figura ímpar como foi o caso dele.
Em “Juventude, memória e aquilombamento: todo mundo contra o epistemicídio” Bruno Vieira dos Santos,
que atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado junto à Universidade Federal do Ceará, parte do assassi-
nato do poeta, slammer e rapper Japa Rua, ocorrido em Recife no início de 2022, para apresentar sua reflex-
ão sobre o epistemicídio e as possibilidades do aquilombamento. Apoiado em especial sobre a perspectiva
de Sueli Carneiro, remete ao que denomina o “embarreiramento da subjetividade” a fim de pensar as man-
ifestações do racismo. Tomando por referência a produção cultural das juventudes negras, e o lugar da rua
enquanto seu espaço privilegiado, aponta as contribuições que a memória e a arte oferecem enquanto ex-
pressões do aquilombamento. Pensa, assim, que a preservação da memória é, também, o trabalho de manter
viva aquela pessoa, resistindo ao esquecimento e, por conseguinte, ao epistemicídio.
O dossiê também traz um ensaio intitulado “Carta à minha mãe preta: um ensaio sobre o encontro de epis-
temes e a condição do negro”. Nele Thiago Macedo de Carvalho, doutorando em sociologia pelo PPGSOL/
UnB, aborda, de maneira didática e afetuosa, o esforço de compartilhar, com a sua mãe, não apenas ser a
primeira pessoa de sua família a alcançar a educação superior, como explicita o papel das ações afirmativas
nesse processo. Realiza exercícios de aproximar a reflexão extra-acadêmica de críticas formuladas nos tex-
tos, apontando que a capacidade de questionar e de ler (e desvelar!) o mundo está longe de ser algo restrito à
produção acadêmica, tendo como pano de fundo a figura da mãe preta conforme presente, por exemplo, em
Lélia Gonzalez. O ensaio recupera elementos de ancestralidade no diálogo com autorias negras que (ainda)
se encontram marginalizadas. Trata, assim, de questões do cotidiano, de estranhamentos que permeiam a
necessidade de tatear esse espaço e suas regras (algumas escritas, outras não ditas). A carta encerra trazendo
a importância de construção da identidade negra que, de diferentes maneiras, foi desqualificada no processo
de branqueamento que marca a nossa história colonizada. O texto combina, portanto, informalidade e rigor
ao trabalhar questões complexas que decorrem dos ventos de mudança que sopram sobre o espaço acadêm-
ico no Brasil.
Recebemos, também, duas conferências proferidas em eventos acadêmicos. Ana Clara Sousa Damásio, dou-
tora em Antropologia pela Universidade de Brasĺia, teve o privilégio de abrir o primeiro seminário discente
do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, programa associado entre a Universidade Federal
do Ceará (UFC) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Re-
fletindo sobre a sua trajetória e a prática da antropologia, o texto permite compreender diversos elementos
que circundam as ambiguidades das transformações atuais do espaço acadêmico no Brasil e as possibili-
dades que, assim, se abrem a novas formas de ver e pensar a(s) ciência(s). Desse ponto de vista, no diálogo
com o seu percurso, a autora destaca, também, o lugar ocupado pela divulgação científica.