APRESENTAÇÃO  
ANTIRRACISMO E PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA  
INTELECTUAL NO PENSAMENTO SOCIAL NEGRO  
1
JACQUELINE MORAES TEIXEIRA  
ORCID: 0000-0001-9884-353X  
2
LAYLA PEDREIRA DE CARVALHO  
ORCID: 0000-0002-7966-0268  
3
STEFAN KLEIN  
ORCID: 0000-0001-7684-0565  
4
MATHEUS FELIPE GOMES DIAS  
ORCID: 0000-0001-5953-0856  
É com grande alegria que a revista Pós publica o dossiê Pensamento Social Negro: (des)centralidades, (in)visi-  
bilidades e reconhecimento, que foi proposto, conjuntamente, pelas professoras Jacqueline Moraes Teixeira  
e Layla Pedreira de Carvalho e pelo professor Stefan Klein, todas – à ocasião – parte do corpo docente do De-  
partamento de Sociologia da Universidade de Brasília (SOL/UnB), em colaboração com a equipe editorial da  
revista, mais especificamente na figura de seu editor-chefe, Matheus Felipe Gomes Dias, doutorando no Pro-  
grama de Pós-Graduação em Sociologia da UnB. A iniciativa nasce, em parte, no esteio do projeto realizado  
no âmbito do Programa de Educação Tutorial (PET) vinculado ao departamento referido acima, intitulado  
Pensando invisibilidade e resistências nas trajetórias de intelectuais negras e negros nas Ciências Sociais, sob  
a tutoria de Jacqueline e Stefan. Alimenta-se, ainda, da atuação fundamental de Layla junto ao Ministério da  
Igualdade Racial (MIR), primeiramente integrando a Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas e, a partir  
de dezembro de 2023, tornando-se Diretora de Políticas de Ações Afirmativas desta mesma Secretaria.  
Nesse sentido, a proposição, organização e, agora, a publicação deste dossiê podem ser lidas na chave de  
constituírem parte das práticas de combate ao racismo no espaço acadêmico. No entanto, como se mostra  
frequentemente, as contradições que permeiam o referido espaço exigem a distinção entre esses esforços  
e, ao mesmo tempo, a persistência de práticas de racismo acadêmico (Almeida, 2021) que ainda marcam e  
contaminam a universidade no Brasil. Elas se expressam, por exemplo, em falas no dia a dia, em decisões  
acerca da abertura de concursos públicos docentes ou das nomeações (ou não-nomeações) de candidatas/  
os, do lugar do debate étnico-racial em planos de ensino, etc. Reflete, em certa medida, o fato de que esforços  
institucionais exigem continuidade e engajamento individuais, uma vez que a tendência, no cotidiano acadê-  
mico, é a norma da branquitude e do sexismo prevalecerem nas mais variadas instâncias e contextos.  
1 Professora Doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP. Foi professora adjunta no Departamento de  
Sociologia da UnB (SOL/UnB). Doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) onde também obteve o título de mestre. Possui  
graduação em Ciências Sociais (USP/2008) e graduação em Teologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie/2012). É pesquisadora do Cebrap (Cen-  
tro Brasileiro de Análise e Planejamento) e pesquisadora colaboradora do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e coordenadora do CRESPO (Cultura,  
2 Professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, atualmente Diretora de Políticas de Ações Afirmativas no Ministério  
da Igualdade Racial. É integrante da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política, da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, da Colectiva Protesta e  
do Comitê Gênero e Sexualidades da ANPOCS. Coordena o GT Relações raciais e desafios no Brasil: desigualdades, identidades e políticas públicas  
da Anpocs. Possui graduação (2005) em Ciência Política pela UnB. É mestre em Sociologia (2008) pela UnB. É doutora em Ciência Política (2017) pela  
3 Professor do Departamento de Sociologia (SOL) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasília (UnB).  
Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista Produtividade do CNPq. Seus principais temas e interesses de atuação intelec-  
tual e pesquisa são as teorias sociais, em especial em perspectivas contra-hegemônicas, bem como as dinâmicas de produção e circulação de conhe-  
cimento e suas assimetrias. É um dos organizadores do Routledge Handbook of Academic Knowledge Circulation (Routledge, 2023). Lattes: http://  
lattes.cnpq.br/9418967460521170. Email: sfk@UnB.br.  
4 Bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestre em Sociologia pela  
Universidade de Brasília (UnB) e Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasí-  
br/2764297852027018. Email: matheusdias543@gmail.com  
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Conforme indicado pelo primoroso trabalho de Sueli Carneiro (2023), a efetividade do dispositivo de ra-  
cialidade, e o modo como o epistemicídio – explicitamente tematizado em mais de um dos textos do dossiê  
– marca, em especial, porém não exclusivamente, a cultura e a sociedade no Brasil, estão subjacentes às preo-  
cupações das organizadoras e autorias. Nesse sentido, a oportunidade de conferir o espaço a essa amplitude  
de intelectuais negras e à miríade de temas que vieram sendo pesquisados permite constatar, novamente,  
as mudanças pelas quais o espaço acadêmico no Brasil vem passando. A presença e, sobretudo, a crítica do  
conjunto de trabalhos aqui publicados – bem como, evidentemente, de todos aqueles outros trabalhos de  
pesquisa que se dedicam a questões semelhantes – também expressa as formas de resistências às quais Lélia  
Gonzalez (2020 [1979]) se referia quando pensava acerca dos modos de luta, tão plurais quanto necessários,  
das populações negras escravizadas.  
Para chegarmos a esse momento contamos com uma chamada aberta de submissão, que recebeu uma ele-  
vada quantidade e variedade de peças, desde artigos, passando por resenhas, entrevistas, ensaios – textuais  
e imagéticos – até duas conferências. Isso tanto alegrou as proponentes quanto, também, tornou o nosso  
trabalho mais difícil, na medida em que acabou sendo necessário se atentar mais estritamente aos textos  
que dialogavam de maneira próxima com a proposta do dossiê. Por isso, algumas das submissões recebidas  
foram encaminhadas ao fluxo regular da revista, na medida em que certamente atendiam ao que se esperava  
em termos do escopo e do alcance da Pós, porém extrapolavam o recorte que propusemos para o dossiê.  
O dossiê abre com o artigo “Intelectualidades negras: pós-graduação e processos coletivos de resistências”,  
de Suzana Cavalheiro de Jesus, professora da Universidade Federal do Pampa e Andresa Cristina Xavier de  
Souza, mestranda em Ensino pela Universidade Federal do Pampa, e Luciano Pereira dos Santos, professor  
da Universidade Federal do Pampa. Ela se apoia sobre uma pesquisa, por meio de grupo focal, realizada jun-  
to ao Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGE) no campus Bagé da Universidade Federal do Pampa  
(UNIPAMPA). A proposta de pensar as intelectualidades negras se deu com base nos processos de apaga-  
mento da presença, da atuação ativa na construção e, depois das formas de resistências de populações negras  
em Bagé. Tomando por referência, entre outras, as reflexões de Sueli Carneiro acerca das formas de episte-  
micídio e o (possível) papel da educação em seu enfrentamento, o artigo aponta uma concepção ampliada  
de intelectualidade, que extrapola a qualificação estritamente acadêmica. Considerando as experiências de  
violência nos espaços acadêmicos enfrentados por essas mulheres, os diálogos ao longo dos grupos focais  
também aumentam a importância redobrada de ocuparem esses espaços na universidade, questionando,  
muitas vezes apenas por estarem presentes, a branquitude arraigada enquanto retrato da superioridade.  
Trazer para o cerne autorias e produções negras constitui, portanto, uma prática intelectual de resistência  
vital, e que também precisa ser articulada com as cotas epistêmicas, conforme enunciado ao final do artigo.  
O segundo artigo do dossiê é “A interseccionalidade desde o Brasil: teias de resistência entre o pensamento  
de feministas negras brasileiras”, de Marília Passos Apoliano Gomes, professora da Universidade Federal do  
Piauí e Jhêniffer Lopes da Silva, Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí. A pesquisa  
que resultou neste texto buscou abranger os diálogos entre as produções de Lélia Gonzalez, tomada como a  
primeira referência desse conjunto de reflexões, e as obras de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akoti-  
rene, Juliana Borges e Letícia Nascimento. A proposta busca compor um panorama das análises brasileiras  
sobre desigualdades interseccionais, tendo sido guiada pela pergunta: como essas autoras tratam as dinâ-  
micas de opressão interseccional relacionadas à raça, classe, gênero, identidade de gênero e sexualidade no  
Brasil? O texto contribui de maneira indelével ao conferir maior relevo às formas de opressão relacionadas à  
sexualidade, e em especial às formas de transfobia e afronecrotransfobia. Destaca-se, igualmente, o cuidado  
analítico na articulação (interseccional) das diferentes questões postas. Ela encerra sugerindo a importância  
de pensar uma “democracia social de base amefricana”.  
Por sua vez, o artigo “Silenciamento e resistência: Lélia Gonzalez e o apagamento epistemológico de inte-  
lectuais negras no pensamento social brasileiro”, de Izabele Caroline do Nascimento Canario, mestranda  
em sociologia na Universidade Federal da Bahia, busca problematizar o lugar relegado de Lélia Gonzalez no  
pensamento social brasileiro. Tomando por base a crítica de Sueli Carneiro baseada no conceito de episte-  
micídio e o debate proposto por Syed Alatas em torno dos discursos alternativos, a autora elabora pesquisa  
que mapeia três eixos centrais em sua produção, a saber: (i) a crítica à democracia racial como mito fun-  
dacional do Brasil; (ii) a formulação da amefricanidade como projeto político, cultural e identitário; e (ii) a  
reivindicação da mulher negra como sujeito epistêmico e agente de transformação social. Dialogando com  
a bibliografia secundária, instigantemente provoca as leitoras a notarem as dinâmicas de silenciamento e os  
potenciais de resistência.  
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Em “A divisão racial do trabalho e do espaço na obra de Lélia Gonzalez”, Sofia Maria do Carmo Nicolau  
(mestra em Sociologia pela Universidade de São Paulo) e Natalino Neves da Silva (professor da Universidade  
Federal de Minas Gerais) realizam um breve percurso pela obra da autora no intuito de situar suas reflexões  
envolvendo os dois conceitos indicados no título. É um texto que, também no diálogo com outras referências  
– como W. E. B. Du Bois, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura – aponta não simplesmente o uso de ambos os  
conceitos, mas avança nos modos de sua articulação, e no lugar que ocupam para se pensar as formas de  
manifestação e expressão do racismo como constitutivo da sociedade brasileira. Desse modo, desvendam  
o alcance da concepção do lugar de negro que está presente na obra da autora, o que implica o potencial de  
questioná-lo e subvertê-lo.  
O artigo “Feminismo negro acadêmico: experiências de professoras negras”, de Wellington Pereira Santos,  
doutor em Estudos interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da  
Bahia, está apoiado sobre uma etnografia com professoras realizada na Universidade Federal da Bahia. O  
autor perpassa aspectos das trajetórias bem como da atuação dessas docentes e, com isso, traz os elementos  
da presença do racismo, ao mesmo tempo em que confere lugar relevante às iniciativas de enfrentamento  
dessa forma de preconceito e discriminação. Aponta, com isso, de que modo as mudanças no cenário da edu-  
cação superior no Brasil se fazem sentir em termos de lidar com a permanência das práticas de branquitude,  
mostrando as alternativas concretas e desmontá-la.  
No artigo “Redes afro diaspóricas: Abdias Nascimento e o (auto)exílio”, Tailane Santana Nunes, mestra em  
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e Édvin Marlei Pereira, da As-  
sociação de Pesquisadores/as das Questões Étnicas, Culturais e Educacionais do Território Velho Chico  
(Coletivo Marilene Matos), recorrem a cuidadosa pesquisa documental-bibliográfica no intuito de situar as  
contribuições de Abdias Nascimento. Em particular, destacam a relação ambígua dele com o exílio nos Es-  
tados Unidos da América, lançando mão de seu entendimento de que já fora exilado no Brasil, seu país de  
nascimento, em decorrência das perseguições e repressões sofridas. Identificam o lugar ocupado pela inter-  
locução com a négritude e o panafricanismo na organização das ideias de Nascimento. Desse modo, o texto  
permite compreender o alcance e as múltiplas dimensões do ativismo, tanto nas artes quanto na militância e  
na produção estritamente acadêmica, de uma figura ímpar como foi o caso dele.  
Em “Juventude, memória e aquilombamento: todo mundo contra o epistemicídio” Bruno Vieira dos Santos,  
que atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado junto à Universidade Federal do Ceará, parte do assassi-  
nato do poeta, slammer e rapper Japa Rua, ocorrido em Recife no início de 2022, para apresentar sua refle-  
xão sobre o epistemicídio e as possibilidades do aquilombamento. Apoiado em especial sobre a perspectiva  
de Sueli Carneiro, remete ao que denomina o “embarreiramento da subjetividade” a fim de pensar as mani-  
festações do racismo. Tomando por referência a produção cultural das juventudes negras, e o lugar da rua  
enquanto seu espaço privilegiado, aponta as contribuições que a memória e a arte oferecem enquanto ex-  
pressões do aquilombamento. Pensa, assim, que a preservação da memória é, também, o trabalho de manter  
viva aquela pessoa, resistindo ao esquecimento e, por conseguinte, ao epistemicídio.  
O dossiê também traz um ensaio intitulado “Carta à minha mãe preta: um ensaio sobre o encontro de epis-  
temes e a condição do negro”. Nele Thiago Macedo de Carvalho, doutorando em sociologia pelo PPGSOL/  
UnB, aborda, de maneira didática e afetuosa, o esforço de compartilhar, com a sua mãe, não apenas ser a  
primeira pessoa de sua família a alcançar a educação superior, como explicita o papel das ações afirmativas  
nesse processo. Realiza exercícios de aproximar a reflexão extra-acadêmica de críticas formuladas nos tex-  
tos, apontando que a capacidade de questionar e de ler (e desvelar!) o mundo está longe de ser algo restrito à  
produção acadêmica, tendo como pano de fundo a figura da mãe preta conforme presente, por exemplo, em  
Lélia Gonzalez. O ensaio recupera elementos de ancestralidade no diálogo com autorias negras que (ainda)  
se encontram marginalizadas. Trata, assim, de questões do cotidiano, de estranhamentos que permeiam a  
necessidade de tatear esse espaço e suas regras (algumas escritas, outras não ditas). A carta encerra trazendo  
a importância de construção da identidade negra que, de diferentes maneiras, foi desqualificada no processo  
de branqueamento que marca a nossa história colonizada. O texto combina, portanto, informalidade e rigor  
ao trabalhar questões complexas que decorrem dos ventos de mudança que sopram sobre o espaço acadê-  
mico no Brasil.  
Recebemos, também, duas conferências proferidas em eventos acadêmicos. Ana Clara Sousa Damásio, dou-  
tora em Antropologia pela Universidade de Brasĺia, teve o privilégio de abrir o primeiro seminário discente  
do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, programa associado entre a Universidade Federal  
do Ceará (UFC) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Refle-  
tindo sobre a sua trajetória e a prática da antropologia, o texto permite compreender diversos elementos que  
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circundam as ambiguidades das transformações atuais do espaço acadêmico no Brasil e as possibilidades  
que, assim, se abrem a novas formas de ver e pensar a(s) ciência(s). Desse ponto de vista, no diálogo com o  
seu percurso, a autora destaca, também, o lugar ocupado pela divulgação científica.  
Por sua vez, “Trajetórias negras, percursos, avanços e retrocessos na academia” foi a conferência proferida  
por Luane Bento dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense, por ocasião da abertura do  
III Seminário do Coletivo Negro do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio  
de Janeiro (IESP/UERJ), em setembro de 2024. Também tomando por referência a sua trajetória enquanto  
intelectual e professora negra, situa-a criticamente no contexto das políticas afirmativas e da produção in-  
telectual no âmbito da sociologia da educação. Ao mesclar o relato crítico-etnográfico com imagens desse  
percurso, ela confere proximidade e vivacidade às relevantes contribuições que acumulou ao longo desse  
período e de sua inserção docente.  
Também compõem esse conjunto de textos e reflexões três entrevistas. As entrevistas realizadas pelas es-  
tudantes do PET-SOL e publicadas neste número permitem compreender a trajetória e a formação inte-  
lectual/profissional de pessoas racializadas no espaço acadêmico. Esse exercício é importante, sobretudo,  
porque, embora as trajetórias dessas intelectuais sejam particulares, há elementos comuns que perpassam a  
negritude como experiência coletiva.  
Na entrevista “A educação como espaço de luta e esperança: entrevista com o professor Gersem Baniwa so-  
bre cosmologias e interculturalidade no campo educacional”, realizada por Maria Luiza Bernardes, Mylena  
Karine Malheiros e Ricardo Silveira, é possível compreender, sobretudo, a relação entre antropologia e edu-  
cação na formação de uma prática pedagógica baseada na diversidade e na interculturalidade. A partir da  
entrevista com Gersem Baniwa, pode-se observar que a construção de uma educação plural e diversa passa  
por questionar as bases do que se entende por conhecimento. A conversa nos estimula, assim, a outro olhar  
sobre os meandros de enfrentamento das desigualdades étnico-raciais.  
Em seguida, a entrevista “Por uma política externa inclusiva: diálogo com Fabrício Prado sobre igualdade  
racial”, produzida por Ana Terra Santana, Augusto Cesar Filgueiras, Hiann Riell da Silva e Laura Salvador  
Souto, permite compreender os desafios e as possibilidades que pessoas negras, indígenas e quilombolas  
enfrentam no âmbito da diplomacia. Dessa maneira, Fabrício Prado, homem negro, expõe como, durante  
muito tempo, a diplomacia brasileira foi exercida majoritariamente por homens brancos – o que possibili-  
tou a construção de práticas que, de um lado, deslegitimam as posições defendidas pelo Brasil no contexto  
das relações internacionais e, de outro, impedem uma representação internacional baseada na diversidade  
racial e de gênero do país.  
Por fim, em “Tecendo narrativas negras: cinema, memória e criação com Mariana Jaspe”, Lucas da Mota e  
Clarice Maués estabelecem um diálogo aberto e instigante com a diretora e roteirista soteropolitana Mariana  
Jaspe, buscando compreender sua formação, atuação e experiências na produção de um cinema negro. Isso  
implica desvelar o lugar da produção de imagens e narrativas sobre e de pessoas negras, conforme retratadas  
nos filmes. A entrevista volta o olhar a como a construção de uma perspectiva negra no cinema é também  
um exercício político, que desconstrói e reconstrói o olhar sobre o negro — antes como coadjuvante, agora  
como agente-protagonista.  
Trazemos, ainda, a resenha “A crítica marxista negra ao capitalismo racial”, de João Pedro Inácio Peleja,  
doutorando em sociologia do PPGSOL/UnB, que aborda as contribuições da obra Marxismo negro: a criação  
da tradição radical negra, de Cedric Robinson, publicada em tradução brasileira no ano de 2023.  
Finalmente, não poderíamos deixar de mencionar a arte que ilustra o dossiê. Desenvolvida por Jediael Lucas  
(ou Jedi), grafiteiro do Distrito Federal e mestrando em sociologia do PPGSOL/UnB, é também resultado e  
reflexo das políticas afirmativas em curso e que, felizmente, receberam ampliação neste ano de 2025 com a  
nova legislação da reserva de vagas para o ingresso de docentes nas instituições federais públicas de educa-  
ção superior.  
A oportunidade de tematizar o conjunto de questões percorridas pelos textos do dossiê – entre artigos, en-  
saio, conferências, entrevistas e uma resenha, bem como a produção visual que também o acompanha – traz  
um alento em meio às dificuldades encontradas para efetivar parte das transformações necessárias. Ao se  
pensar a produção acadêmica e as lógicas pelas quais a legitimação de autorias e de textos ocorre, o viés  
racializado é premente, e torna-se necessário, conforme refletido anteriormente (Carvalho; Klein, 2023),  
encontrar maneiras de formular críticas contundentes sem, no entanto, renunciar ao amplo conjunto de  
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ideias, muitas vezes conflitantes, que viabilizou os atuais diálogos. Esforços de síntese que tomem este cami-  
nho, como presentes na categoria de amefricanidade (Gonzalez, 2020 [1988]), expressam os potenciais do  
pensamento social negra na problematização de questões candentes do nosso cotidiano, seja ele acadêmico-  
-científico ou referente ao cotidiano extramuros.  
Entendemos, sem dúvida, que o acúmulo de críticas, de reflexões e de elaborações em torno e a partir do  
pensamento social negro, tomado de modo ampliado, refletem mudanças no espaço acadêmico no Brasil.  
O lugar ocupado pelo debate de interseccionalidade, fosse em sua compreensão avant la lettre, conforme se  
expressa nas teorizações de Lélia Gonzalez, seja na concepção mais recente de Patricia Hill Collins (2022),  
também atravessa o dossiê. Isso vale para o modo por meio do qual, nos textos, as abordagens são avança-  
das; na presença explícita do conceito em diversos momentos e, igualmente, no próprio conjunto diversos de  
autorias que assinam esses textos. Encontramos, assim, pessoas em diferentes momentos de sua trajetória,  
de graduandas/os até docentes de universidades públicas; uma participação significativa também de mu-  
lheres, bem como uma ampla maioria de pessoas negras sendo responsáveis pelos trabalhos de pesquisa e  
escrita. Esperamos, assim, acompanhar os efeitos que as mudanças iniciadas há décadas e ainda em curso  
deverão ter ao longo dos próximos anos, na medida em que permanecem refletindo movimentos iniciais de  
um processo que deverá se mostrar complexo e instigante.  
REFERÊNCIAS  
ALMEIDA, Mariléa de. Racismo acadêmico e seus afetos. História: Questões & Debates. 69 (2), pp. 96–109,  
2021. <https://doi.org/10.5380/his.v69i2.80267>.  
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser.  
Rio de Janeiro: Zahar, 2023.  
CARVALHO, Layla Pedreira; KLEIN, Stefan. Contribuições para o ensino de teoria e história da sociologia:  
reflexões sobre o presente e propostas desde o Brasil. Revista Brasileira de Sociologia. 11(27), pp. 103-132,  
2023.  
COLLINS, Patricia Hill. Bem mais que ideias: interseccionalidade como teoria social crítica. São Paulo,  
Boitempo, 2022.  
GONZALEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica. In: Rios,  
Flavia; Lima, Márcia (Orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar. 2020 [1979], pp.  
49-64.  
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Rios, Flavia; Lima, Márcia (Orgs.). Por  
um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar. 2020 [1988], pp. 127-138.