REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
A DIVERSIDADE CULTURAL NO SISTEMA DAS ARTES: CONFERÊNCIA
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PROFERIDA NO EVENTO ARTE DOS MESTRES 2024
Artur André Lins
No Brasil, essa atração pela cultura material popular ocorreu ao longo da primeira metade do século XX.
Podemos citar alguns indivíduos e instituições que foram importantes nesse sentido. Através de instituições
como os Institutos Históricos e Geográficos de capitais como Recife e Salvador (Viana, 2024), bem como da
Coleção Regional do Museu Nacional do Rio de Janeiro (Dias, 2023), variados artefatos que compunham
a vida de setores das camadas populares foram coletados. Também relevante, a Missão de Pesquisas
Folclóricas, encabeçada por Mário de Andrade em 1938, se coloca como um marco nesse processo. Dava-
se a modelagem de um olhar colecionista voltado à cultura material popular. Com isso, um olhar atento se
dirigia a utensílios domésticos (potes, panelas, colheres, cestarias, rendas e bordados), itens do vestuário
(chapéus de palha, gibão de couro, indumentária religiosa), imaginária sincrética (católica e afro-brasileira),
instrumentos musicais, brinquedos, ex-votos e ferramentas de trabalho, isto é, a objetos que, desempenhando
uma função em seus contextos de origem, evocavam uma tradição comunitária enraizada no cotidiano. Nesse
primeiro momento, a cultura material popular despertava interesse especialmente pelo valor etnográfico,
enquanto expressão dos modos de vida das camadas populares da sociedade.
É a partir de meados da década de 1940 que se intensificou o reconhecimento do valor estético da produção
plástica popular (Lima; Waldeck, 2016). Desde então, além do valor etnográfico, passou-se a reconhecer
também o valor estético da cultura material popular. Podemos destacar alguns marcos nesse sentido. No
terreno da escultura, destaca-se a exposição pioneira sobre a Cerâmica Popular Pernambucana, em 1947,
ocorrida no Rio de Janeiro, com a curadoria de Augusto Rodrigues, responsável por lançar o nome de Mestre
Vitalino no circuito das artes. Em 1949, ocorre no MASP a exposição Arte Popular Pernambucana.
Paralelamente, o debate da época foi marcado pela contribuição do crítico Mário Pedrosa sobre o conceito de
arte virgem, que, junto com Léon Degand, organizou a exposição 9 artistas do Engenho de Dentro, no Museu
de Arte Moderna de São Paulo, com internos do Centro Psiquiátrico Pedro II, pacientes da médica Nise da
Silveira. No terreno da pintura, nesse mesmo momento da década de 1940, passou-se a dar maior atenção a
artistas de extração popular como Cardosinho, José Antônio da Silva e Heitor dos Prazeres. Os dois últimos,
já em 1951, participaram da I Bienal de São Paulo. É também nesse período que o debate sobre art brut, na
França, por Jean Dubuffet, começava a se consolidar e ganhar contornos institucionais (Thévoz, 1980).
A partir desses momentos marcantes, inicia-se, em sintonia com o que ocorria no exterior, um movimento de
“descoberta” de artistas populares, sobretudo escultores e pintores. Essa “descoberta” resulta, já na década
de 1950, no surgimento de uma nova modalidade de colecionismo privado: o colecionismo de arte popular e
artesanato (Viana, 2024). Praticado por setores da elite e da classe média urbana, esse colecionismo fomentou
não apenas as feiras do interior, mas também impulsionou um novo comércio, com o aparecimento das
primeiras lojas e galerias de arte popular e artesanato nas décadas de 1950, situadas em capitais como São
Paulo, Salvador e Recife.
Nesse mesmo período, multiplicaram-se as exposições dedicadas à produção plástica popular brasileira.
Já nas décadas de 1960 e 1970, houve um amadurecimento do processo: o comércio se ampliou, novos
artistas e tradições foram descobertos e houve um acúmulo de pesquisa e reflexão sobre o campo. Somou-
se a isso uma maior institucionalização das artes populares nos museus de folclore e nos museus de arte
(Frota, 2005). Consolidavam-se, nesse momento da década de 1970, os contornos de um circuito artístico
específico: o circuito das artes populares no Brasil (Mascelani, 2006; Lins, 2023).
Lembro ainda que, na década de 1970, emergiu com mais intensidade, no plano internacional, o debate sobre
a chamada Outsider Art, tradução do termo francês Art Brut. Nos Estados Unidos, ocorreu a consolidação
do circuito denominado Contemporary American Folk Art, posteriormente incorporado à categoria American
Self-Taught Art (Ardery, 1997; Fine, 2004). Observa-se que os processos nacionais não são isolados:
desenvolvem-se em concomitância, de modo que o que ocorria no Brasil dialogava com o que também
acontecia em outras partes do mundo, especialmente na Europa, América do Norte e América Latina. Há,
nesse campo das artes marginais, um intercâmbio transnacional de ideias, pessoas e objetos. É importante
ter isso em mente para não isolar o processo brasileiro.
Figura 5 – Obras de Mestre Espedito Seleiro (Nova Olinda/CE)