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Ivis Fabiano Chagas Lima
ENCRUZILHANDO SABERES E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS:
UM DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE TERREIROS E UNIVERSIDADES
(GO), na divisa com o Distrito Federal. Já o Terreiro/Quilombo Manzo Ngunzo Kayango situa-se em Belo
Horizonte (MG).
Assim, o livro é escrito cruzando trabalho de campo nos terreiros supracitados e histórias de vida, traçando a
trajetória dessas mulheres de axé do terreiro à universidade, pela via do Encontro de Saberes, com destaque
para as noções êmicas de encruzilhada e território, que emergiram no itinerário etnográfico da antropóloga.
Por outro lado, o livro revela a transposição dos saberes forjados pelas interlocutoras para a experiência
da autora, convocando os leitores a um movimento de vislumbrar a pluralidade de estratégias pedagógicas
possíveis na sala de aula, resultantes da presença dessas pessoas e do que a autora chama de conhecimentos
insubmissos, em referência à escritora e intelectual Conceição Evaristo.
No primeiro capítulo, Moura narra sua chegada ao primeiro campo de pesquisa: o terreiro Ilê Axé T’Ojú
Labá. Como destaca a autora, Mãe Dora de Oyá havia participado do módulo “Vestimentas e Terreiro”, vin-
culado à disciplina “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais” da Universidade de Brasília (UnB). O capítulo
inicia encruzilhando a migração de Mãe Dora, do oeste baiano, com a formação de Brasília, evidenciando as
segregações raciais e territoriais em dinâmicas de marginalização que empurram os terreiros para as bordas
do espaço urbano e do conhecimento institucionalizado na academia.
A partir dessa aproximação, o capítulo é costurado ao argumento central da tese por meio da trajetória de
vida de Mãe Dora, iniciando com seu desenvolvimento espiritual junto à entidade Maria Padilha, uma re-
lação fundamental para a construção de sua autoconfiança e empoderamento como Iyalorixá. A narrativa
também percorre experiências do terreiro em projetos no Jardim ABC, que reforçam o lugar dos saberes
ancestrais e da oralidade como vias não cartesianas de acesso ao conhecimento. Essas práticas atravessam
diferentes campos, como a música, a contação de histórias, os sistemas agroflorestais e o manejo da costura,
esta tanto como atividade ritual quanto como estratégia de autonomia financeira para mulheres.
O segundo capítulo enfoca a trajetória de Makota Kidoiale, líder e fundadora do Quilombo/Terreiro Manzo
Ngunzo Kayango. Ao descrever sua inserção no campo, começa elaborando sobre como os quilombos e ter-
reiros são marcos de resistência coletiva, assim como pontos de difusão de práticas e saberes. Por um lado,
as histórias de resistência a investidas racistas e intolerantes religiosas do estado mineiro contra o terreiro-
-quilombo são contrapostas pelo que Kidoiale chama de oralidade política, uma estratégia de vocalização
dos problemas e estabelecimento de alianças externas para escuta e suporte ao Manzo.
Nesse processo, são tecidas práticas culturais-pedagógicas de aprendizado e territorialização organizadas
em sambas de roda e capoeira, assim como no projeto “Afrobetização”, todos com larga influência dos en-
sinamentos do Pai Benedito, o “Preto Velho” da mãe de Makota Kidoiale. Entre os ensinamentos, esteve o
de derrubar muros, ao tecer conexões e fluxos entre o terreiro e a universidade. É nesse âmbito que Makota
Kidoiale é levada à Universidade Federal de Minas Gerais como docente no projeto Encontro de Saberes.
No capítulo seguinte, a antropóloga elabora sobre a noção de encruzilhada como lugar de encontros, de
potência, de trocas e de escolhas. Aqui, Esù — Orixá relacionado à comunicação e ao movimento, senhor
dos mercados e das encruzilhadas — é constantemente referido no entrecruzamento entre a antropóloga e
suas interlocutoras. Com base no que foi descrito nos capítulos anteriores, é demonstrado como o projeto
educacional dos terreiros antecede a entrada das mestras nas universidades, mas se amplia nelas. Assim, a
sala de aula aparece como lugar de encruzilhar conhecimentos forjados no cotidiano do terreiro e no terreno
universitário, e de derrubar muros entre saberes ancestrais e acadêmicos.
Esses três capítulos compõem a parte I do livro, intitulada “Tecendo histórias de mulheres negras de axé:
entre os terreiros e as universidades”, na qual o principal argumento desenvolvido é o de que os espaços de
ensinamento e aprendizado dos terreiros são cotidianamente elaborados no interior das comunidades e em
processos de luta. São saberes que unem oralidade, parentalidade, ancestralidade e resistência, operaciona-
lizando-se em procedimentos que deslocam a racionalidade cientificista europeia para os saberes tradicio-
nais posicionados e engajados em raízes ancestrais. Ao fim, a antropóloga relata o efeito transformador que
vivencia ao acompanhar as aulas das mestras e seus deslocamentos educativos, que transformam a sala de
aula em território, lugar de existência e reconhecimento.
A parte II do livro intitula-se “Conhecimentos insubmissos” e é composta de capítulos mais curtos. O quar-
to capítulo, que inicia essa parte, elabora sobre como a educação é um modo de conexão entre pessoas e
um meio de transformação. A autora recupera falas de sua mãe e as conecta com as histórias de Mãe Dora
e Makota Kidoiale para destacar a associação entre educação e insubmissão dessas mulheres perante um