ENCRUZILHANDO SABERES E PRÁTICAS
PEDAGÓGICAS: UM DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE
TERREIROS E UNIVERSIDADES
MOURA, Beatriz Martins. Pedagogia do Ebó: Horizontes possíveis para a universidade a partir de mulheres de
axé. Curitiba: Editora Apris, 2023.
IVIS FABIANO CHAGAS LIMA
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ORCID: 0009-0009-4067-1689
O livro analisado nesta resenha tem origem na tese de doutorado em Antropologia Social de Beatriz Moura
na Universidade de Brasília (UnB), que recebeu, em 2022, Menção Honrosa no Prêmio Lélia Gonzalez de
melhor tese em Antropologia na 33ª Reunião Brasileira de Antropologia. Com algumas modificações e aper-
feiçoamentos da versão defendida, o texto da autora retoma o foco de demonstrar “o modo como a educação
se constitui um projeto coletivo das comunidades tradicionais de terreiro” (Moura, 2023, p. 13), conside-
rando o diálogo com o projeto Encontro de Saberes na institucionalização e difusão de saberes tradicionais
associados à ancestralidade negra no contexto acadêmico.
Com efeito, esse livro efetiva seu propósito de quebrar os muros ideológicos e territoriais entre universidade
e comunidades tradicionais, em especial as de terreiro. Nesse sentido, esse texto é um projeto político e epis-
têmico, mas também de divulgação, e se destina a todos os públicos engajados e interessados na construção
de um campo de saberes multicêntrico que extrapole os muros acadêmico-científicos. A obra se divide em
um conjunto de capítulos agrupados em três partes e conta com um estilo etnográfico que interconecta his-
tórias de vida e de territórios, valendo-se de uma multiplicidade de abordagens metodológicas que se encon-
tram em uma observação participante multissituada.
Posicionando o contexto da etnografia, o projeto Encontro de Saberes é uma iniciativa do Instituto Nacional
de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), sob a coordenação do profes-
sor titular do Departamento de Antropologia da UnB e orientador de Beatriz Moura, José Jorge de Carvalho.
No projeto, os chamados mestres e mestras de povos e comunidades locais e tradicionais são convidados a
ministrar módulos e disciplinas em seus campos de saber, sem mediação de terceiros, com vistas a promo-
ver um diálogo interepistêmico (Carvalho; Vianna, 2020). O projeto foi criado em 2010 com a finalidade de
promover epistemes historicamente renegadas no âmbito acadêmico, estando presente em diversas univer-
sidades dentro e fora do Brasil.
Nesse âmbito, um dos primeiros elementos destacados pela antropóloga é a relação de simetria entre ela e
suas interlocutoras que, assim como a autora, são mulheres negras de axé, cujas trajetórias se articulam em
diferentes escalas, do seu círculo de parentesco aos terreiros e à Universidade de Brasília. Com efeito, Mãe
Dora de Oyá, Iyá do Terreiro Ilê Axé T’Ojú Labá, e Makota Kidoiale, do Terreiro/Quilombo Manzo Ngunzo
Kayango, são as duas principais interlocutoras da pesquisa. São também lideranças religiosas, mestras dos
conhecimentos tradicionais e docentes no âmbito do projeto Encontro de Saberes.
De início, são destacados alguns elementos do contexto do Candomblé e da língua iorubá, onde a autora
realizou sua pesquisa. A palavra “axé” deriva do termo àṣẹ, e costuma-se chamar de “pessoas de axé” aquelas
que vivenciam religiões de matriz africana. Já o termo Iyá, que significa “mãe”, designa a principal liderança
feminina do terreiro, também chamada de Iyalorixá ou Mãe de Santo. Situando espacialmente o trabalho de
campo da autora, o Terreiro Ilê Axé T’Ojú Labá localiza-se no Jardim ABC, município de Cidade Ocidental
1 Mestrando em Antropologia Social na Universidade de Brasília (UnB). Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi
bolsista no Programa de Educação Tutorial em Ciências Sociais da UFC e atualmente pesquisa no âmbito da antropologia das instituições econômicas
e de governança. E-mail: ivislimaeu@gmail.com | ivis.lima@aluno.unb.br
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(GO), na divisa com o Distrito Federal. Já o Terreiro/Quilombo Manzo Ngunzo Kayango situa-se em Belo
Horizonte (MG).
Assim, o livro é escrito cruzando trabalho de campo nos terreiros supracitados e histórias de vida, traçando a
trajetória dessas mulheres de axé do terreiro à universidade, pela via do Encontro de Saberes, com destaque
para as noções êmicas de encruzilhada e território, que emergiram no itinerário etnográfico da antropóloga.
Por outro lado, o livro revela a transposição dos saberes forjados pelas interlocutoras para a experiência
da autora, convocando os leitores a um movimento de vislumbrar a pluralidade de estratégias pedagógicas
possíveis na sala de aula, resultantes da presença dessas pessoas e do que a autora chama de conhecimentos
insubmissos, em referência à escritora e intelectual Conceição Evaristo.
No primeiro capítulo, Moura narra sua chegada ao primeiro campo de pesquisa: o terreiro Ilê Axé T’Ojú
Labá. Como destaca a autora, Mãe Dora de Oyá havia participado do módulo “Vestimentas e Terreiro”, vin-
culado à disciplina “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais” da Universidade de Brasília (UnB). O capítulo
inicia encruzilhando a migração de Mãe Dora, do oeste baiano, com a formação de Brasília, evidenciando as
segregações raciais e territoriais em dinâmicas de marginalização que empurram os terreiros para as bordas
do espaço urbano e do conhecimento institucionalizado na academia.
A partir dessa aproximação, o capítulo é costurado ao argumento central da tese por meio da trajetória de
vida de Mãe Dora, iniciando com seu desenvolvimento espiritual junto à entidade Maria Padilha, uma re-
lação fundamental para a construção de sua autoconfiança e empoderamento como Iyalorixá. A narrativa
também percorre experiências do terreiro em projetos no Jardim ABC, que reforçam o lugar dos saberes
ancestrais e da oralidade como vias não cartesianas de acesso ao conhecimento. Essas práticas atravessam
diferentes campos, como a música, a contação de histórias, os sistemas agroflorestais e o manejo da costura,
esta tanto como atividade ritual quanto como estratégia de autonomia financeira para mulheres.
O segundo capítulo enfoca a trajetória de Makota Kidoiale, líder e fundadora do Quilombo/Terreiro Manzo
Ngunzo Kayango. Ao descrever sua inserção no campo, começa elaborando sobre como os quilombos e ter-
reiros são marcos de resistência coletiva, assim como pontos de difusão de práticas e saberes. Por um lado,
as histórias de resistência a investidas racistas e intolerantes religiosas do estado mineiro contra o terreiro-
-quilombo são contrapostas pelo que Kidoiale chama de oralidade política, uma estratégia de vocalização
dos problemas e estabelecimento de alianças externas para escuta e suporte ao Manzo.
Nesse processo, são tecidas práticas culturais-pedagógicas de aprendizado e territorialização organizadas
em sambas de roda e capoeira, assim como no projeto “Afrobetização”, todos com larga influência dos en-
sinamentos do Pai Benedito, o “Preto Velho” da mãe de Makota Kidoiale. Entre os ensinamentos, esteve o
de derrubar muros, ao tecer conexões e fluxos entre o terreiro e a universidade. É nesse âmbito que Makota
Kidoiale é levada à Universidade Federal de Minas Gerais como docente no projeto Encontro de Saberes.
No capítulo seguinte, a antropóloga elabora sobre a noção de encruzilhada como lugar de encontros, de
potência, de trocas e de escolhas. Aqui, Esù — Orixá relacionado à comunicação e ao movimento, senhor
dos mercados e das encruzilhadas — é constantemente referido no entrecruzamento entre a antropóloga e
suas interlocutoras. Com base no que foi descrito nos capítulos anteriores, é demonstrado como o projeto
educacional dos terreiros antecede a entrada das mestras nas universidades, mas se amplia nelas. Assim, a
sala de aula aparece como lugar de encruzilhar conhecimentos forjados no cotidiano do terreiro e no terreno
universitário, e de derrubar muros entre saberes ancestrais e acadêmicos.
Esses três capítulos compõem a parte I do livro, intitulada “Tecendo histórias de mulheres negras de axé:
entre os terreiros e as universidades”, na qual o principal argumento desenvolvido é o de que os espaços de
ensinamento e aprendizado dos terreiros são cotidianamente elaborados no interior das comunidades e em
processos de luta. São saberes que unem oralidade, parentalidade, ancestralidade e resistência, operaciona-
lizando-se em procedimentos que deslocam a racionalidade cientificista europeia para os saberes tradicio-
nais posicionados e engajados em raízes ancestrais. Ao fim, a antropóloga relata o efeito transformador que
vivencia ao acompanhar as aulas das mestras e seus deslocamentos educativos, que transformam a sala de
aula em território, lugar de existência e reconhecimento.
A parte II do livro intitula-se “Conhecimentos insubmissos” e é composta de capítulos mais curtos. O quar-
to capítulo, que inicia essa parte, elabora sobre como a educação é um modo de conexão entre pessoas e
um meio de transformação. A autora recupera falas de sua mãe e as conecta com as histórias de Mãe Dora
e Makota Kidoiale para destacar a associação entre educação e insubmissão dessas mulheres perante um
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conjunto de fatores que cotidianamente as oprime. O capítulo seguinte é fomentado pelas formulações da
pensadora Jurema Werneck e firma a ideia de que os passos trilhados por mulheres negras afro-diaspóricas
transportaram práticas, tecnologias e saberes que antecedem até mesmo a criação das universidades no
Brasil.
Também no âmbito político, mulheres negras, em especial as de terreiro, protagonizaram articulações antes
de um movimento institucionalizado de mulheres negras. Para a autora, os passos que vêm de longe arti-
culam saber e política na medida em que, historicamente, os terreiros elaboram conhecimentos e tomam a
educação como um projeto, tanto de ação externa quanto de reprodução comunitária, religiosa e territorial.
Muitas vezes, tais engajamentos político-epistêmicos têm nas mulheres de axé seu principal sustentáculo.
O sexto capítulo trata sobre o ebó, descrito como uma tecnologia ritual de equilíbrio de energias, acionada
pelas lideranças religiosas do terreiro de forma individualizada para as necessidades de cada pessoa, e des-
tina-se ao cuidado do outro. Com base nos relatos das interlocutoras, é mostrado como o ebó desempenha
um papel de acolhimento e ajuda a construir, nos terreiros, uma territorialidade pautada no cuidado. Assim
também é na sala de aula, entendida pelas interlocutoras como um território. Enquanto mestras de saberes
tradicionais, Mãe Dora e Makota Kidoiale demonstram, pragmaticamente, nas universidades, as dimensões
afetivas do conhecer e do ensinar, oferecendo alternativas para o modelo de conhecimento cartesiano que
retira as dimensões de pessoalidade do conhecimento.
O capítulo seguinte correlaciona o corpo insubmisso de mulheres negras ao caráter insubmisso de sua pro-
dução epistemológica. A autora mostra como a proposta do livro inverte a lógica de certa antropologia que
historicamente apropria os saberes de mulheres negras e de comunidades de terreiro, bem como nega suas
subjetividades e produções intelectuais próprias e não mediadas por terceiros. Em seguida, o oitavo capítulo
abre a última parte do livro, chamada “começo-meio-começo”, que enfoca o movimento de circularidade e
do retorno, contando com dois posfácios — um de Mãe Dora de Oyá e outro de Makota Kidoiale —, dando
destaque a essas outras mãos que também compuseram o corpo da pesquisa.
Nesse capítulo, Beatriz Moura reafirma a posição fundamental que a educação possui para as comunidades
de terreiro, tanto em seu território tradicional quanto como forma de territorialização da ancestralidade nas
salas de aula. O movimento das mulheres de axé do terreiro para as universidades convida a reconfigurações
e a movimentações em diversos campos da vida em geral e da academia em específico. Em seguida, Mãe
Dora destaca, em seu posfácio, a importância do saber de preto na construção do conhecimento e na trans-
formação social. Por fim, Makota Kidoiale ressalta que a entrada do terreiro na universidade é um acerto
de contas que devolve valores e reconhecimento a um povo que teve tais elementos negados. Para ambas
as mestras, essa derrubada de muros é um caminho sem volta na construção de pontes entre os distintos
conhecimentos.
Ao fim dessa costura etnográfica, a antropóloga levantou os processos de forja de saberes que nascem no
cotidiano das comunidades e dos terreiros e seu caráter inerentemente político-pedagógico. Ao encruzilhar
terreiros e universidades, as interlocutoras são mostradas como agentes de transformação social e epistê-
mica. Ao longo dos capítulos, um conjunto de saberes calcados no cuidado, no afeto, na resistência e na
ancestralidade é transportado entre os territórios, invertendo uma lógica histórica de racismo e intolerância
religiosa. Suas histórias de vida, dessa forma, não se restringem a seus corpos, mas produzem novos hori-
zontes e futuros para a educação como um todo, sendo símbolos de uma luta histórica.
As interlocutoras, nesse sentido, foram também alicerces teóricos dessa escrita, povoada de mulheres negras
intelectuais como Patrícia Hill Collins, Lélia Gonzalez, Carla Ramos, Conceição Evaristo e Jurema Werneck.
Assim, a simetria epistemológica também se deu na feitura da pesquisa e na tecitura de relações sujeito-su-
jeito, uma insubmissão metodológica que marca todo o trabalho. Como a própria autora destaca, o projeto
desse livro não se encerra nele, mas sugere um movimento circular de forja de novos rumos. Desse modo,
esse movimento convida a iniciar muitos outros.
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REFERÊNCIAS
CARVALHO, José Jorge de; VIANNA, Letícia Costa Rodrigues. O Encontro de Saberes nas universidades:
uma síntese dos dez primeiros anos. Revista Mundaú, n. 9, p. 23–49, 2020.
MOURA, Beatriz Martins. Pedagogia do ebó: horizontes possíveis para a universidade a partir de mulheres de
axé. Curitiba: Appris Editora, 2023.