APRESENTAÇÃO
DOSSIÊ “UMA SAÚDE ANTROPOLOGICAMENTE
COLETIVA: MONOGRAFIAS, DISSERTAÇÕES E TESES
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS DA SAÚDE”
LAURA COUTINHO
1
ORCID: 0009-0003-2063-3454
ANA PAULA JACOB
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ORCID: 0000-0001-9988-7753
CAROLINE FRANKLIN
3
ORCID: 0009-0004-4880-0194
A ideia de “Uma Saúde Antropologicamente Coletiva” possibilita uma reflexão sobre novas perspectivas em
relação aos processos e discussões no campo da saúde. Essa proposta busca quebrar a noção de um domínio
único, frequentemente associado a uma área do saber — a medicina, por exemplo. Compreender processos
de adoecimento, cuidado, limites da pesquisa e do saber biomédico são formas de ampliar a discussão e
torná-la mais diversa. Ao mesmo tempo em que oferece uma abordagem antropológica, dada a formação
de grande parte das autoras e pesquisadoras envolvidas no Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva –
CASCA, sugere uma construção epistemológica intrinsecamente coletiva, tanto por não se restringir a uma
única maneira de refletir quanto por ter, em seu cerne, uma comunidade científica engajada que produz, em
conjunto, o conhecimento.
Essa aproximação, desenvolvida em encontros de um grupo de pesquisa interdisciplinar, permite com-
preender os entrelaçamentos que a dimensão da saúde pode abranger, explorando a interseção de temas e as
abordagens diferentes. Temos uma variedade de entradas analíticas, que podem ser divididas em três eixos
temáticos principais: o primeiro envolve reflexões sobre saúde em contextos de emergência sanitária, mobi-
lizando aportes da Antropologia da Ciência e da Tecnologia para analisar a produção de saberes e a atuação
científica em situações críticas; o segundo se volta para as tensões no acesso a direitos e às práticas de cuida-
do, explorando tanto os desafios institucionais no campo da saúde reprodutiva quanto as formas populares e
contra-hegemônicas de cuidado que resistem à lógica biomédica dominante; e o terceiro discute a formação
profissional e os conflitos raciais no campo da saúde, a partir de uma perspectiva antropológica. Propor uma
outra perspectiva, menos comum, antropologicamente coletiva, permite reunir investigações sobre temas
diversos relacionados à saúde brasileira. Desta maneira, as autoras e autores promovem diálogos possíveis
e refletem sobre a escuta de diferentes atores e suas implicações nas relações sociais no contexto brasileiro.
O Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva (CASCA) é um laboratório de pesquisa vinculado ao Instituto
de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (ICS/UnB), coordenado por Soraya Fleischer, do Departa-
mento de Antropologia (DAN/UnB), e Rosamaria Carneiro, do Departamento de Saúde Coletiva (DSC/FS/
UnB), também vinculada ao Departamento de Estudos Latino-Americanos (Universidade de Brasília, 2022).
Inclui também estudantes orientados e supervisionados por elas, além de pesquisadores e professores visi-
tantes. Foi nesse coletivo que nós desenvolvemos pesquisas, tendo muitos trabalhos de conclusão de curso,
dissertações e teses sido defendidos entre 2022 e 2025. Sob esse pretexto, ao final de 2023, Soraya Fleischer
nos incentivou a fazer uma coletânea com resultados dos trabalhos dos integrantes do CASCA que já haviam
sido defendidos. O objetivo era fazer um apanhado de artigos advindos de monografias, dissertações e teses
1 Bacharela em Antropologia e Ciências Sociais pela Universidade de Brasília e atualmente graduanda em Estética e Cosmética pelo Centro Univer-
sitário do Planalto Central Apparecido dos Santos. Pesquisadora da CASCA desde 2022. E-mail: ltqcoutinho@gmail.com
2 Professora substituta do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutoranda no programa de pós-graduação em
Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (2024) tendo investigado a
perspectiva de cientistas sobre o “kit-covid” durante a pandemia. É membro da CASCA desde 2021. E-mail: anap.jacob@gmail.com
3 Antropóloga e cientista social pela Universidade de Brasília. Fez parte do CASCA entre 2022 e 2024, como pesquisadora do projeto “Uma Antropo-
logia do Vírus Zika: Resultados, retornos e epistemologias”. Atualmente é graduanda em Ciência Política na UnB e pesquisadora do grupo de estudos
e pesquisas Psicodinâmica do Trabalho Feminino (Psitrafem - IP/UnB). E-mail: carolpinh@gmail.com
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Laura Coutinho, Ana Paula Jacob e Caroline Franklin
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defendidas e aprovadas, oferecendo um panorama dos saberes emergentes e recentes no campo da Antro-
pologia e Saúde Coletiva na UnB.
O dossiê não contou com uma chamada pública, mas um conjunto de 13 pesquisadores e pesquisadoras
que tinham defendido seus trabalhos recentemente foram convidados a transformá-los em artigo científi-
co. Poderiam, por exemplo, resumir o trabalho em um texto menor ou escolher um capítulo e adaptá-lo ao
formato de artigo. Destes, 8 aceitaram o nosso convite e, ao final, recebemos 6 artigos.
Para definir uma ordem dos artigos deste dossiê, optamos por uma organização que valoriza a pluralidade
acadêmica que compõe o CASCA. O nosso objetivo é reconhecer o percurso formativo como parte consti-
tutiva da produção de conhecimento. Sendo assim, acompanhamos a complexidade crescente dos recortes
e abordagens ao longo das etapas da formação acadêmica. Para tanto, adotamos como critério principal a
titulação, iniciando com um texto derivado de uma monografia de graduação e finalizando com um artigo
elaborado durante um doutorado.
A peça que inaugura este dossiê, de Isadora Valle, é intitulada “Resposta em nível científico’: a escrita nas
ciências sociais e nas ciências biomédicas a partir da epidemia de vírus Zika em Recife/PE”. O texto propõe
uma reflexão sobre as formas de produção e circulação do conhecimento em contextos de emergência san-
itária, comparando os modos de produção de conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais e na Biomedici-
na durante o contexto da epidemia de Zika Vírus em Recife. Ela ressalta como ciência, linguagem e políticas
públicas se entrelaçam na produção de subjetividades e intervenções no campo da saúde. Atualmente, Valle
cursa o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB (PPGA/UFPB).
Ainda no contexto da epidemia do Zika Vírus, Mariana Petruceli se propõe a investigar a noção de ciên-
cia responsável e responsabilidades científicas no segundo artigo: “Ciência e responsabilidade: um estudo
antropológico sobre a pesquisa em saúde em Recife/PE”. Para isso, a autora aborda a manifestação destas
no eixo biopsicossocial, eixo de investigação neuroclínica e eixo de redes integradas de atenção e políticas
de saúde. O estudo reflete a importância de produzir uma ciência responsável para além da neutralidade
científica e em colaboração com o sujeito de pesquisa. Petruceli cursa o mestrado no Programa de Pós-Grad-
uação em Antropologia da UnB (PPGAS/UnB).
Já o artigo “Do centro à margem: meninas vítimas de violência sexual e o aborto legal no Brasil”, de autoria
de Daiana Silva e coautoria de Rosamaria Carneiro, perpassa a temática dos direitos reprodutivos e elabora
como esses direitos, embora garantidos por lei, não funcionam na prática. Denunciando uma quase epidem-
ia de violência sexual no Brasil, as autoras refletem sobre como as gravidezes indesejadas, frutos de violên-
cia, estão no centro da proteção estatal, enquanto a autonomia e a vida das jovens gestantes são jogadas à
margem de seus direitos. Silva está no doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados
sobre as Américas da UnB (PPGECSA/UnB).
George Caetano assina seu artigo também em coautoria com Carneiro. Intitulado “Santo de casa também
faz milagre: andarilhagens etnográficas junto a uma terapeuta popular”, o texto acompanha as práticas ter-
apêuticas de uma mãe de santo no Distrito Federal, em um momento atravessado por restrições impostas
pela Covid-19 e pela ascensão de discursos hegemônicos que reivindicam para si a verdade e a autoridade
sobre o cuidado. O autor argumenta que afeto, escuta e saberes tradicionais se entrelaçam em práticas de
saúde contra-hegemônicas que desafiam a soberania biomédica e repensam os modos de produzir cuidado.
É médico e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UnB (PPGSC/UnB).
No artigo “Contexto pra lá, contexto pra cá: contribuições antropológicas para a formação de psicólog-
os-psicoterapeutas”, João Paulo Siqueira reflete sobre o mito da democracia racial no Brasil e o consequente
silenciamento das marcas raciais na formação em Psicologia. Para isso, o autor decide investigar um doc-
umento potencialmente revelador: o Projeto Pedagógico do Curso de Psicologia de uma universidade do
Centro-Oeste, evidenciando a herança branca da psicologia brasileira e os modos pelos quais o debate racial
é frequentemente evitado, silenciado ou deslocado por diversos atores institucionais. Siqueira é psicólogo e
mestre em Antropologia Social pelo PPGAS/UnB.
Por fim, na última peça, Thais Valim nos apresenta um panorama sobre a construção de saberes científicos
durante a epidemia de Zika em Pernambuco no artigo “‘O maestro é a pediatria’: Notas iniciais sobre exper-
tises, associações e agregados científicos durante a epidemia de Zika Vírus em Recife/PE”. A autora segue o
rastro das associações construídas ao longo dessa emergência, destacando como o estudo com bebês exigia
saber clínico especializado, de modo que a Pediatria assumiu um papel no centro da pesquisa, como maestro
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Laura Coutinho, Ana Paula Jacob e Caroline Franklin
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da orquestra científica. Valim recentemente defendeu seu doutorado no PPGAS/UnB e atualmente trabalha
como analista de mobilização comunitária da Casa Bom Samaritano.
A perspectiva proposta neste dossiê permite refletir sobre o fazer científico e as práticas de saúde no Brasil.
Ao colocar em relevo a escuta de múltiplos atores e perceber como significados e intencionalidades con-
stituem relações diversas, este dossiê convida a uma imersão nas dinâmicas sociais, éticas e políticas que
constituem diferentes experiências de sujeitos pelo país. Os trabalhos aqui reunidos oferecem um panorama
multifacetado dessas dinâmicas: desde a natureza socialmente construída da ciência e as responsabilidades
éticas em emergências sanitárias, como a epidemia de Zika Vírus em Recife/PE, passando pelas tensões e
silenciamentos no acesso a direitos reprodutivos e nas práticas de cuidado biomédicas e populares, até as
intersecções entre a formação profissional em Psicologia e a ausência de debates raciais. Cada um deles
revela as diversas camadas que constituem o campo da Antropologia e da Saúde Coletiva, aprofundando a
compreensão sobre as interações entre vida social, saberes especializados e narrativas de doença. Convida-
mos, assim, leitores e leitoras a percorrerem essas investigações e refletirem sobre diferentes perspectivas.
Boa leitura!
REFERÊNCIAS
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Departamento de Estudos Latino-Americanos. Laboratórios: Coletivo de
Antropologia e Saúde Coletiva (CASCA). 2022. Disponível em: https://ela.unb.br/pesquisa/laboratorios.
Acesso em: 10 jun. 2025.