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Laura Coutinho, Ana Paula Jacob e Caroline Franklin
APRESENTAÇÃO
defendidas e aprovadas, oferecendo um panorama dos saberes emergentes e recentes no campo da Antro-
pologia e Saúde Coletiva na UnB.
O dossiê não contou com uma chamada pública, mas um conjunto de 13 pesquisadores e pesquisadoras
que tinham defendido seus trabalhos recentemente foram convidados a transformá-los em artigo científi-
co. Poderiam, por exemplo, resumir o trabalho em um texto menor ou escolher um capítulo e adaptá-lo ao
formato de artigo. Destes, 8 aceitaram o nosso convite e, ao final, recebemos 6 artigos.
Para definir uma ordem dos artigos deste dossiê, optamos por uma organização que valoriza a pluralidade
acadêmica que compõe o CASCA. O nosso objetivo é reconhecer o percurso formativo como parte consti-
tutiva da produção de conhecimento. Sendo assim, acompanhamos a complexidade crescente dos recortes
e abordagens ao longo das etapas da formação acadêmica. Para tanto, adotamos como critério principal a
titulação, iniciando com um texto derivado de uma monografia de graduação e finalizando com um artigo
elaborado durante um doutorado.
A peça que inaugura este dossiê, de Isadora Valle, é intitulada “Resposta em nível científico’: a escrita nas
ciências sociais e nas ciências biomédicas a partir da epidemia de vírus Zika em Recife/PE”. O texto propõe
uma reflexão sobre as formas de produção e circulação do conhecimento em contextos de emergência san-
itária, comparando os modos de produção de conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais e na Biomedici-
na durante o contexto da epidemia de Zika Vírus em Recife. Ela ressalta como ciência, linguagem e políticas
públicas se entrelaçam na produção de subjetividades e intervenções no campo da saúde. Atualmente, Valle
cursa o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB (PPGA/UFPB).
Ainda no contexto da epidemia do Zika Vírus, Mariana Petruceli se propõe a investigar a noção de ciên-
cia responsável e responsabilidades científicas no segundo artigo: “Ciência e responsabilidade: um estudo
antropológico sobre a pesquisa em saúde em Recife/PE”. Para isso, a autora aborda a manifestação destas
no eixo biopsicossocial, eixo de investigação neuroclínica e eixo de redes integradas de atenção e políticas
de saúde. O estudo reflete a importância de produzir uma ciência responsável para além da neutralidade
científica e em colaboração com o sujeito de pesquisa. Petruceli cursa o mestrado no Programa de Pós-Grad-
uação em Antropologia da UnB (PPGAS/UnB).
Já o artigo “Do centro à margem: meninas vítimas de violência sexual e o aborto legal no Brasil”, de autoria
de Daiana Silva e coautoria de Rosamaria Carneiro, perpassa a temática dos direitos reprodutivos e elabora
como esses direitos, embora garantidos por lei, não funcionam na prática. Denunciando uma quase epidem-
ia de violência sexual no Brasil, as autoras refletem sobre como as gravidezes indesejadas, frutos de violên-
cia, estão no centro da proteção estatal, enquanto a autonomia e a vida das jovens gestantes são jogadas à
margem de seus direitos. Silva está no doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados
sobre as Américas da UnB (PPGECSA/UnB).
George Caetano assina seu artigo também em coautoria com Carneiro. Intitulado “Santo de casa também
faz milagre: andarilhagens etnográficas junto a uma terapeuta popular”, o texto acompanha as práticas ter-
apêuticas de uma mãe de santo no Distrito Federal, em um momento atravessado por restrições impostas
pela Covid-19 e pela ascensão de discursos hegemônicos que reivindicam para si a verdade e a autoridade
sobre o cuidado. O autor argumenta que afeto, escuta e saberes tradicionais se entrelaçam em práticas de
saúde contra-hegemônicas que desafiam a soberania biomédica e repensam os modos de produzir cuidado.
É médico e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UnB (PPGSC/UnB).
No artigo “Contexto pra lá, contexto pra cá: contribuições antropológicas para a formação de psicólog-
os-psicoterapeutas”, João Paulo Siqueira reflete sobre o mito da democracia racial no Brasil e o consequente
silenciamento das marcas raciais na formação em Psicologia. Para isso, o autor decide investigar um doc-
umento potencialmente revelador: o Projeto Pedagógico do Curso de Psicologia de uma universidade do
Centro-Oeste, evidenciando a herança branca da psicologia brasileira e os modos pelos quais o debate racial
é frequentemente evitado, silenciado ou deslocado por diversos atores institucionais. Siqueira é psicólogo e
mestre em Antropologia Social pelo PPGAS/UnB.
Por fim, na última peça, Thais Valim nos apresenta um panorama sobre a construção de saberes científicos
durante a epidemia de Zika em Pernambuco no artigo “‘O maestro é a pediatria’: Notas iniciais sobre exper-
tises, associações e agregados científicos durante a epidemia de Zika Vírus em Recife/PE”. A autora segue o
rastro das associações construídas ao longo dessa emergência, destacando como o estudo com bebês exigia
saber clínico especializado, de modo que a Pediatria assumiu um papel no centro da pesquisa, como maestro