DESRACIALIZAÇÃO E SEUS PARADOXOS:
ENFRENTANDO O RACISMO
NO NORTE E SUL GLOBAL
ZAKHAROV, Nikholay; TATE, Shirley Anne; LAW, Ian; BERNARDINO-COSTA, Joaze. Futures of Anti-Ra-
cism: Paradoxes of deracialisation in Brazil, South Africa, Sweden, and the United Kingdom. Cham, Switzer-
land: Palgrave Macmillan, 2023.
THAYLA DA SILVA DE OLIVEIRA
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ORCID: 0000-0001-8177-8583
Compreender os processos globais de racialização e analisar o escopo de projetos de desracialização imple-
mentados para o enfrentamento do racismo no Norte e no Sul global são os objetivos centrais do livro Futu-
res of Anti-Racism: Paradoxes of Deracialization in Brazil, South Africa, Sweden, and the UK. Fruto do trabalho
de uma rede internacional de pesquisadores que se debruçam sobre a temática racial (Alves; Cardoso; Bor-
ges, 2021), a obra parte da análise de quatro configurações distintas de modernidade – África do Sul, Brasil,
Reino Unido e Suécia – para examinar as práticas de racialização em nível estatal.
Dividido em seis partes, incluindo os capítulos introdutório e conclusivo, Futures of Anti-Racism nos convida
a refletir sobre a incorporação de categorias raciais nas estruturas sociais e sobre os papéis desempenhados
pelo Estado e pela sociedade civil em seu enfrentamento. Os autores argumentam que, após o racismo ser
reconhecido pelos Estados-nação como um problema histórico e global, iniciativas voltadas à sua superação
passaram a ser formuladas em instâncias supranacionais. No entanto, essas iniciativas foram gradativamen-
te incorporadas ao campo dos direitos humanos e se tornaram responsabilidade de órgãos nacionais, cujos
projetos de lei tendem a reduzir o racismo a uma injustiça, falhando em confrontá-lo em sua dimensão es-
trutural.
O capítulo “South Africa and the Struggle for Racial Equality: Debating Deracialization, Non-racialism, De-
colonization, and Africanization” elucida que, embora seja uma nação majoritariamente negra e tenha en-
frentado o colonialismo e o apartheid, a África do Sul possui uma dinâmica racial marcada pela supremacia
branca e por um “racismo anti-negro”, que desumaniza a população negra política, social e economicamente.
A Constituição e a legislação vigente têm suas bases no não racialismo. Fruto do ativismo anticolonial da
primeira metade do século XX, o não racialismo era compreendido, inicialmente, enquanto uma negação da
raça e da racialização como forma de combate à dominação da população negra sul-africana.
Atualmente, porém, ele é mobilizado como fundamento para projetos políticos prejudiciais à população ne-
gra e favoráveis ao neocolonialismo. Assim, a negação da raça tornou-se um obstáculo ao antirracismo, ao
impedir que a legislação atue sobre as dinâmicas de racialização que estruturam a vida social. Nesse sentido,
os pesquisadores acreditam que a desracialização só seria possível por meio da descolonização da identida-
de sul-africana, aliada ao antirracismo e a uma profunda transformação de ordem política, cultural e socio-
econômica.
Em “The Dynamics of Racialization and Anti-racism in Contemporary Brazil”, a sociedade brasileira é apre-
sentada e analisada em quatro momentos históricos distintos. Primeiro, entre os séculos XIX e XX, a raça
era utilizada como ferramenta de hierarquização, que garantia privilégios à branquitude e desumanizava os
grupos racializados por meio de um “racialismo racista”. Dos anos 1930 à década de 1980, o país foi atra-
vessado por um “antirracialismo racista”, prática de negação das raças nos níveis biológico e social, com o
objetivo de desenvolver a ideia de democracia racial. Durante esse período, o Brasil foi construído como uma
1 Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), mestranda em Sociologia e Antropologia pelo Programa
de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ) e integrante do Núcleo de Pesquisa De-
senvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA), vinculado à UFRJ. E-mail: olv.thayla@gmail.com
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Thayla da Silva de Oliveira
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nação miscigenada e paradisíaca. Como resultado, o racismo passou a ser tratado como prática individual,
desvinculada de sua dimensão estrutural.
Entre 1988 e 2016, o “racialismo antirracista” imperou. Ele reconhecia a raça como construção social e ele-
mento estruturante das relações sociais, servindo de base para a formulação e implementação de políticas
públicas voltadas à redução da desigualdade racial no país, especialmente durante os governos do Partido
dos Trabalhadores. O período atual, por sua vez, é marcado por uma ambiguidade entre o “racialismo racis-
ta” e um “antirracismo racista”, pois “ao mesmo tempo em que o Estado parece ressuscitar o mito da demo-
cracia racial (antirracismo racista), autoridades públicas fazem declarações que incitam comportamentos
racistas (racialismo racista)” (Zakharov et al., 2023, p. 119).
O capítulo “The Retreat from Deracialization in the UK” discute a racialização britânica contemporânea,
especificamente entre 2015 e 2020, período marcado pela ascensão de um conservadorismo. Segundo os
autores, a diversidade étnica do Reino Unido faz com que diferentes grupos racializados sejam submetidos
a formas específicas de racialização, o que leva à necessidade de enfrentamento de diversas formas de racis-
mo, como o antinegrismo, o antimuçulmanismo e o antissemitismo.
No campo das políticas públicas, o racismo é tratado como uma questão de direitos humanos e, apesar dos
avanços em áreas como educação, saúde, emprego e moradia, a desigualdade racial persiste de maneira
significativa. A pandemia de Covid-19 agravou ainda mais esse cenário, atingindo com maior intensidade as
populações racializadas e revelando que o país possui um projeto antirracista frágil e ineficiente.
Em “Challenging Racism in Sweden”, os autores analisam o contexto sueco, onde a raça não é reconhecida
como categoria social, mas sim biológica. A população é categorizada entre suecos, de um lado, e imigrantes,
de outro. Contudo, não existe consenso jurídico a respeito do termo “imigrante”, e o tempo de residência
no país é um fator determinante para essa classificação, o que restringe o termo aos imigrantes de primeira
geração.
Apesar disso, a Suécia é reconhecida internacionalmente como um país antirracista e exemplo de justiça
social. Na legislação, o termo “raça” é substituído por “etnia”, o que poderia, à primeira vista, ser interpretado
como prática desracializante. No entanto, os autores argumentam que a desracialização da sociedade sueca
exigiria o questionamento dos processos que definem quem pode ser reconhecido como sujeito político e
detentor de cidadania plena no país.
A obra demonstra, assim, que, nas quatro expressões de modernidade apresentadas, a desracialização só se
tornaria possível por meio do reconhecimento do racismo enquanto problema estrutural e institucionaliza-
do. Os autores evidenciam que, enquanto no Norte global a racialização é frequentemente disfarçada pelas
estruturas estatais, no Sul global – onde o colonialismo europeu constituiu uma base formativa comum – a
desracialização deve estar vinculada à luta decolonial.
Futures of Anti-Racism: Paradoxes of Deracialization in Brazil, South Africa, Sweden, and the UK é, portanto,
uma contribuição inédita e relevante para a compreensão teórica de dinâmicas de racialização que funda-
mentam a vida social em diferentes contextos. Considerando que o conceito de desracialização “remonta
à ideia de desfazer os vínculos desumanizadores que deram origem às populações negras, às populações
indígenas, e a todas as populações minorizadas” (Alves; Cardoso; Borges, 2021, p. 145), o livro oferece subsí-
dios valiosos à luta antirracista contemporânea, com potencial para orientar tanto políticas públicas quanto
ações promovidas pela sociedade civil.
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REFERÊNCIAS
ALVES, Maria Railma; CARDOSO, Antônio Dimas; BORGES, Doriam. Entrevista com Joaze Bernardino-
-Costa (UnB). Argumentos – Revista do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes, [S. l.], v. 18, n. 1, 2021.
Disponível em: https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/argumentos/article/view/3836. Acesso
em: 30 abr. 2025.
ZAKHAROV, Nikholay; TATE, Shirley Anne; LAW, Ian; BERNARDINO-COSTA, Joaze. Futures of Anti-Ra-
cism: Paradoxes of deracialisation in Brazil, South Africa, Sweden, and the United Kingdom. Cham, Switzer-
land: Palgrave Macmillan, 2023.