REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
FEMINISMO NEGRO ACADÊMICO:
EXPERIÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS
Wellington Pereira
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seja, ser intelectual negra é estar conectada às ações políticas e sociais coletivas e estar constantemente
na luta contra o sexismo e o racismo. A autora enfatiza que devemos pensar o trabalho intelectual a partir
da produção intelectual, destacando a matriz patriarcal e capitalista, bem como a supremacia branca.
Nesse sentido, a luta das mulheres negras vai além da perspectiva de Gramsci (1981), que propõe pensar
teoria e prática exercendo a reflexividade. As mulheres negras precisam romper os limites impostos pelo
sexismo e pelo racismo, bem como superar as invisibilidades intra-gênero, esforçando-se para contrariar a
naturalização da inferioridade, ao mesmo tempo em que se dedicam a ser intelectuais voltadas para o bem
comum, representando um trabalho intelectual engajado com a comunidade negra.
Mulheres negras buscam elaborar uma produção ancorada no Feminismo Negro e nas epistemologias
feministas negras, que possibilitam o diálogo com a comunidade externa à universidade, de modo a contribuir
para o desenvolvimento social. “O bom ensino deve ocorrer não como um armazenamento de informações,
mas como formação de referenciais e desenvolvimento da capacidade de avaliação, o que vai ser fundamental
para a produção científica e tecnológica” (Werneck, 2006, p. 173). Nesse sentido, educação e pesquisa são
espaços de produção de trabalho, que, de certa forma, se constituem em mercado de empregabilidade para
os/as sujeitos/as pesquisadores/as que vivenciam a produção do conhecimento.
Vera Wernerk (2006) trata da compreensão da formulação das perspectivas científicas:
Pode ter um conhecimento por experiência como, por exemplo, o modo de dirigir um automóvel sem que tenha a compreensão
do processo mecânico que sua ação desencadeia. Pode ainda aceitar, por um comportamento de fé, um ensinamento que lhe é
transmitido sem nenhuma consciência de seu conteúdo, como é o caso das superstições. Aquele que toma uma cápsula de remé-
dio, acreditando curar a sua doença com tal procedimento, não tem, na maioria das vezes, nenhum conhecimento da relação da
substância contida na pílula com o seu mal-estar. Não se pode, nesses casos, falar em conhecimento propriamente dito ou, pelo
menos, em conhecimento científico. Pode-se entender como sabedoria a adequada hierarquização dos valores para a promoção
da dignidade humana, o domínio do conhecimento científico e tecnológico de seu tempo, ou a vivência do respeito e da justiça
que permitem um melhor desempenho social. (Werneck, 2006, p. 177)
Os trabalhos intelectual e científico advêm de uma construção do conhecimento que envolve técnica e
domínio da reflexão teórica. Aqui, cabe um debate que não se restringe ao que é ciência, à construção do
conhecimento ou à objetividade, mas que também problematiza o conceito de trabalho, no que diz respeito à
função das pesquisas que as professoras negras da UFBA realizam cotidianamente no exercício da profissão.
Dessa forma, compreendemos a construção de si e a consciência de si, considerando o exercício e a vivência
negra da intelectualidade, a partir dos insights das participantes da pesquisa. De acordo com a interlocutora
Carolina Maria de Jesus:
[...] Se eu faço um Feminismo Negro acadêmico são duas dimensões vinculadas. Para mim, as maiores referências vinculadas,
acho que antes de pensar a academia e pensar uma militância, tem muito mais a ver com as mulheres que me cercam. Sou filha
de uma mãe pedagoga, de uma avó professora. Pensar o lugar da formação, como um lugar emancipador de emancipação, para
mim vem antes de pensar o feminismo, e antes de pensar a academia, em estando na academia. E pensando no feminismo, eu
acho que identifico essas questões, dimensões que me afetam a pensar formação nessas referências anteriores que já carregava.
Pensando na minha trajetória, esse lugar do que eu identifico como um modo feminista, uma prática, enfim, de constituição
de prover a vida, né? Tipo, é muito deste lugar que estou hoje, olhando para isso dessa forma, mas, tipo minha avó jamais se
reconheceria nessa chave, inclusive tem uma construção em torno das questões de gênero extremamente complicadas, assim,
é por parte da minha avó. Então, eu acho que, ao mesmo tempo, tem uma prática de prover uma emancipação para as filhas e
mulheres da família, entendendo que a formação é a única forma de assegurar a uma vida, que ela não colocaria na chave da
independência, mas talvez colocasse na chave, e autonomia para lidar com as contingências da vida. (Carolina Maria de Jesus
[nome fictício], entrevista pessoal, 2025)
A docente demonstra a importância da militância a partir de um compromisso com a formação engajada,
numa concepção de emancipação pautada na experiência — algo que, para ela, se encontra na relação familiar,
especialmente com a mãe pedagoga e a avó professora. Esse percurso aponta para uma perspectiva de
emancipação feminista, colocando a educação como elemento central. Ao chegar à academia, o feminismo se
apresenta como emancipatório, oferecendo uma forma diferenciada de conhecimento dentro desse espaço.
Em sua fala, a construção de sentido está ancorada na relação com essas duas mulheres negras de sua família,
que a influenciam na ação e na prática engajadas, estabelecendo uma conexão com o feminismo negro,
ainda que não explicitamente nomeada como tal, visto que, na agenda do Feminismo Negro, emancipação e
educação estão intrinsecamente relacionadas. As informações trazidas pela interlocutora permitem, ainda,
refletir sobre a perspectiva feminista a partir de um olhar geracional e político:
Pensando nas perspectivas feministas, pensando geracionalmente, eu acho que, assim, a geração da minha mãe já é uma geração
que constrói uma leitura sobre gênero, que não apenas informada por uma chave feminista exatamente, mas uma aproximação
com os movimentos, Movimento Negro. Minha mãe já vai para a academia. Então, talvez e, sobretudo, pensando essa dimensão
potencial de emancipação da formação, talvez eu diria, sim, é... mas pensando a academia como lugar da emancipação, tipo,