FEMINISMO NEGRO ACADÊMICO:  
EXPERIÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS  
Academic black feminism: experience of black teachers  
Feminismo negro académico: experiencia de docentes negros  
1
WELLINGTON PEREIRA  
ORCID: 0000-0002-4109-0896  
RESUMO  
Nopresenteartigo,serãoabordadasalgumasreflexõesemtornodascategoriastrabalhoetrabalhointelectual,  
bem como as formas como esses conceitos incidem sobre a vida de professoras negras na Universidade  
Federal da Bahia, na construção do que se entende como intelectual negra. O acesso às entrevistadas deu-se  
a partir de informantes dessa instituição de ensino. Formalizado o primeiro contato, iniciou-se a vivência  
com as sujeitas, construída a partir de três bases que considero fundamentais: 1) empatia: colocar-se no lugar  
da outra, refletindo sobre a condição da sujeita naquele espaço; 2) escuta: estar atento às histórias contadas  
pela entrevistada, buscando compreender e interpretar sua representação sobre determinado fenômeno;  
e 3) vivência do contexto: de modo que a prática pedagógica feminista negra leva as sujeitas professoras  
negras a uma (re)dimensão de sua condição de trabalho e de trabalho intelectual. O trabalho acadêmico  
estabelece relação não apenas com a construção do conhecimento, mas também com o engajamento político  
e social, visando à transformação do espaço universitário brasileiro.  
Palavras-chave: Feminismo negro; Insurgência; Raça; Pedagogia feminista negra.  
ABSTRACT  
In the present article, some reflections are presented on the categories of work and intellectual work, as well  
as on the ways in which these concepts impact the lives of Black female professors at the Federal University  
of Bahia, in the construction of what is understood as a Black intellectual. Access to the interviewees was  
facilitated through informants from this educational institution. Once the first contact was established, the  
immersion with the participants began, built upon three fundamental pillars: 1) empathy: putting oneself  
in the other’s place, reflecting on the participant’s condition in that space; 2) listening: being attentive to  
the stories told by the interviewee, seeking to understand and interpret her representation of a given  
phenomenon; and 3) contextual experience: in such a way that Black feminist pedagogical practice leads  
Black female professors to a (re)dimensioning of their condition as workers and as intellectuals. Academic  
work is related not only to the construction of knowledge but also to political and social engagement aimed  
at transforming the Brazilian university space.  
Keywords: Black feminism; Insurgency; Race; Black feminist pedagogy.  
1 Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM). Mestre em Ciências So-  
ciais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (2015). Atualmente, pesquisa trajetórias de professoras negras no magistério superior federal.  
É membro pesquisador do Coletivo Angela Davis/UFRB. Cientista social com ênfase em Antropologia, possui experiência em pesquisas sobre raça,  
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RESUMEN  
En el presente artículo se presentan algunas reflexiones sobre las categorías de trabajo y trabajo intelectual,  
así como sobre las formas en que estos conceptos inciden en la vida de las profesoras negras de la Universidad  
Federal de Bahía, en la construcción de lo que se entiende como intelectual negra. El acceso a las entrevistadas  
se realizó a partir de informantes de esta institución educativa. Una vez establecido el primer contacto,  
comenzó la inmersión con las participantes, construida sobre tres pilares fundamentales: 1) empatía: ponerse  
en el lugar de la otra, reflexionando sobre la condición de la participante en ese espacio; 2) escucha: estar  
atento a las historias contadas por la entrevistada, buscando comprender e interpretar su representación  
de un fenómeno determinado; y 3) experiencia contextual: de manera que la práctica pedagógica feminista  
negra conduce a las profesoras negras a una (re)dimensión de su condición como trabajadoras y como  
intelectuales. El trabajo académico se relaciona no solo con la construcción del conocimiento, sino también  
con el compromiso político y social orientado a la transformación del espacio universitario brasileño.  
Palabras clave: Feminismo negro; Insurgencia; Raza; Pedagogía feminista negra.  
1.  
INTRODUÇÃO  
No presente artigo, apresento algumas reflexões em torno das categorias trabalho e trabalho intelectual,  
e as formas como esses conceitos incidem sobre a vida de professoras negras na Universidade Federal da  
Bahia (UFBA) na construção do que se entende como intelectual negra, pois observo que estar nesse lugar  
significa ter uma conexão integral com as ações políticas, sociais e coletivas, além de estar constantemente  
na luta contra o racismo e o sexismo. Para tanto, tenho como base o Feminismo Negro e sua epistemologia  
na construção desse debate e dessa reflexão social2.  
A etnografia desenvolvida na tese de doutorado que dá origem a este artigo contou com a participação de  
dez interlocutoras, todas autodeclaradas negras, sendo que seis delas nasceram na Bahia e quatro em outros  
estados (duas em São Paulo, uma no Rio Grande do Sul e uma no Espírito Santo). As sujeitas da pesquisa  
advêm dos Institutos de Letras (cinco), de Química (uma) e de Física (uma) e das Escolas de Enfermagem  
(uma), Direito (uma) e Arquitetura e Urbanismo (uma). Realizei a pesquisa entre 2018 e 2019, e o contato  
inicial com as entrevistadas ocorreu primeiramente através de indicação e depois da técnica de snowball, e,  
por conta disso, há um maior número de interlocutoras vinculadas ao Instituto de Letras.  
Saliento que todos os nomes das entrevistadas/interlocutoras são fictícios, escolhidos por elas a partir  
de sentimentos de afinidade, afeição e/ou admiração intelectual. Entre as escolhas, algumas optaram por  
nomes de personagens de livros, enquanto outras preferiram nomes de escritoras, intelectuais e ativistas –  
todas mulheres negras. O grande desafio da pesquisa se constituiu em reunir os dados a partir de diferentes  
técnicas de coleta, privilegiando a etnografia como o principal meio para este fim. Mas, afinal, o que é uma  
etnografia? Quais são os passos para realizá-la? É possível conduzir uma etnografia na contemporaneidade?  
A etnografia é construída na relação entre os/as sujeitos/as e os códigos culturais e na forma como se  
constroem os significados que daí emergem. Ela é um método e ao mesmo tempo um mecanismo que  
contribui para a interpretação e a reflexão social. De modo prático, podemos dizer que a etnografia é  
constituída a partir da observação participante, do caderno de campo, das entrevistas, das informações  
dos/as interlocutores/as e das análises. E realizar etnografia na contemporaneidade é um grande desafio,  
sobretudo em razão das relações que precisamos estabelecer com os diferentes grupos sociais.  
Clifford Geertz (2008) destaca a necessidade de realizar uma leitura da cultura, compreendendo-a como  
uma teia de significados e símbolos que orientam a interpretação. Propõe, assim, a elaboração de uma  
descrição densa, que considere o modo como cada pessoa se relaciona com os signos e lhes atribui sentido.  
James Clifford (1998), por sua vez, evidencia elementos centrais da experiência etnográfica que atravessam  
a autoridade do etnógrafo, a partir de sua vivência, bem como sua relação com o caderno de campo e com a  
escrita.  
Malinowski (1982), um dos primeiros a se aventurar na etnografia, enfatiza a importância de uma descrição  
que expresse o “estar lá”, o “sangue e a carne” da experiência – ou seja, a necessidade de o/a antropólogo/a  
2 Este artigo é uma construção realizada a partir da tese de doutorado intitulada “Feminismo negro acadêmico: resistência e práticas insurgentes nas  
trajetórias de professoras universitárias negras”, defendida em 2022 no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre  
Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA), sob a orientação da professora Angela Figueiredo, que contribuiu com as análises do caderno de  
campo sob a ótica do feminismo negro, colaborando para a percepção do feminismo negro acadêmico.  
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estar presente no locus da pesquisa. O autor destaca a relevância de trazer os dados empíricos por meio de  
sua codificação e interpretação, como resultado da observação, das anotações no caderno de campo e do  
contato estabelecido com o/a informante da pesquisa, aquele/a que orienta o/a pesquisador/a no caminho  
até os/as entrevistados/as..  
No sentido do que foi apresentado, destaco a condição do/a antropólogo/a que vivencia diferentes contextos  
e estabelece relações com os/as sujeitos/as e grupos, compartilhando o cotidiano da comunidade – morando,  
comendo e dormindo no local de pesquisa. Nesse processo, o caderno de campo torna-se um instrumento  
fundamental para a coleta e a sistematização dos dados. Estar em campo é, portanto, estar imerso/a no  
contexto da comunidade. Roberto Cardoso de Oliveira (1996) ressalta que é necessário desenvolver um  
olhar treinado para observar, interpretar os signos e representar seus significados, sendo essencial ouvir o/a  
informante ou entrevistado/a para extrair o máximo de informações que subsidiem a escrita etnográfica.  
Atrevo-me a escrever sobre o fazer etnográfico na contemporaneidade, apresentando como experienciei a  
etnografia, o campo, a utilização do caderno de campo, a observação, a descrição e o acesso às informantes  
deste trabalho. O início da vivência com as sujeitas deu-se a partir de uma construção fundamentada em três  
bases que considero essenciais: (1) empatia, como a capacidade de se colocar no lugar da outra, refletindo  
sobre sua condição naquele espaço; (2) escuta, compreendida como uma atenção ativa à narrativa da  
entrevistada, buscando apreender e interpretar sua representação sobre determinado fenômeno – enquanto  
ouvir é um ato mecânico vinculado ao sentido da audição, a escuta exige atenção e reflexão sobre o que é  
dito; e (3) vivência do contexto, entendida como a experiência cotidiana construída no decorrer do processo,  
na qual o pesquisador se pergunta, a cada encontro, sobre a relação estabelecida com a sujeita pesquisada,  
observando a sequência de fatos e dados que serão posteriormente interpretados.  
Nas idas ao campo de pesquisa para encontrar-me com as professoras negras, eu estava sempre munido  
do caderno de campo e utilizava essas três importantes técnicas para a coleta de dados. Ao articular esses  
três pontos, buscava exercitar a observação participante. Outro aspecto significativo era o empenho em  
interpretar os símbolos e códigos sociais registrados no caderno de campo após as observações, buscando  
dialogar com as análises das entrevistas e refletindo sobre as anotações e os achados simbólicos – afinal, é de  
suma importância analisar os dados coletados.  
A etnografia é um exercício cotidiano que requer disciplina, tempo, dedicação e rigor no trato dos dados.  
Isso significa que o/a pesquisador/a precisa estar intensamente envolvido/a com o tema. A etnografia não  
é apenas uma metodologia nem somente um mecanismo de reflexão antropológica; ela é ambas as coisas  
ao mesmo tempo. Pode ser caracterizada como uma simbiose entre teoria, prática científica, metodologia e  
instrumento de coleta de dados.  
Tomo agora a categoria tempo para refletir sobre aspectos relevantes do fazer etnográfico. O tempo aqui é  
compreendido como circular, e não linear – tal como o orixá Tempo/Iroco, que representa a circularidade  
e a ancestralidade, com sua grande árvore de raízes que crescem de forma não linear, desenhando curvas,  
subindo e descendo, trançando-se e conectando-se com o espaço e consigo mesma. Penso nos encontros  
entre as pessoas, que criam laços, se comunicam, desviam de barreiras e estão sempre em busca de vencer  
obstáculos. Refletir sobre a trajetória das professoras negras é, portanto, pensar de forma circular, visto que,  
a partir da memória e da atuação em rede, as identidades e as trajetórias vão se formando.  
Outro fator que compõe o tempo é a cronologia, constituída pela ancestralidade. Se o tempo é uma criação  
humana que articula presente, passado e futuro – dimensões nas quais os fenômenos se manifestam –, ele se  
revela circular, pois conecta os/as sujeitos/as ancestrais aos/às sujeitos/as contemporâneos/as, compondo  
fenômenos sociais históricos que se expressam em nossa sociedade de forma diversa e articulada. Assim, a  
forma circular do tempo se manifesta nas ações das professoras negras, por meio do diálogo entre elas e a  
comunidade externa, bem como entre elas e os/as estudantes negros/as.  
Podemos pensar nesse tempo circular que conecta diferentes tempos e realidades históricas, como na  
tradução de autoras feministas negras norte-americanas que as professoras apresentam aos/às estudantes,  
ao mesmo tempo em que vivenciam o ingresso de estudantes negros/as por meio das políticas públicas  
de ações afirmativas, via cotas raciais. Nesse contexto, emergem temas de pesquisa relacionados às suas  
realidades, assim como demandas — entre elas, a necessidade de bolsas de permanência, de assistência  
estudantil e o desafio de construir um currículo plural. A circularidade, presente nas raízes profundas de  
Tempo, desvia dos obstáculos por baixo da terra, tal como os fenômenos sociais que se desenvolvem nas  
relações cotidianas de nosso contexto social.  
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O tempo circular também se relaciona com a ancestralidade e com as mulheres do Movimento Negro. As  
professoras que lutaram e ainda lutam pelas ações afirmativas e por melhorias na educação também integram  
esse círculo, pois suas trajetórias influenciam outros/as professores/as e estudantes negros/as. Essas mulheres  
são pontos de ligação na luta por uma educação mais justa, atuando como exemplos de intelectuais negras,  
militantes e feministas. É importante ressaltar que as professoras entrevistadas têm suas ações na UFBA  
fundamentadas em práticas feministas negras, especialmente vinculadas ao feminismo negro acadêmico, que  
tem possibilitado a construção de agendas políticas tanto no contexto universitário quanto fora dele.  
2.  
NAVEGANDO COM A PROFESSORA KEHINDE  
A professora Kehinde3 convidou-me para participar do grupo de pesquisa que ela coordena, composto por  
estudantes de graduação, mestrado e doutorado, totalizando 18 integrantes. No dia 5 de maio, às 14h30min,  
iniciava-se mais uma reunião, cujo objetivo era debater o texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira”  
(1984), de Lélia Gonzalez, refletindo sobre como abordar o racismo e o sexismo, bem como a naturalização  
do racismo no Brasil. A discussão era sempre bem conduzida e coordenada pela professora, que levantava  
questões instigantes, buscando extrair o máximo de diálogos e debates.  
O grupo também se propõe a traduzir textos estrangeiros, sobretudo de feministas negras norte-americanas.  
Sobre essa questão, a interlocutora aponta:  
É preponderante traduzirmos pessoas/sujeitos/as negras, pois existe uma exclusão da literatura negra estrangeira nesse país,  
a tradução é muito pouca de intelectuais negras, porém o que se traduz é o que as editoras querem, e principalmente o que está  
no que eles colocam como importante e no auge. Não que traduzir livros de determinada intelectual não seja importante, mas as  
editoras escolhem o que deve ser traduzido, daí é preciso traduzirmos o que eles não traduzem. [...] outra coisa é uma tradutora  
ou tradutor negro traduzindo a obra de intelectuais negros e negras, é uma outra cosmovisão, linguagem, isso faz diferença,  
esse é nosso papel aqui! Além de discutirmos textos e debatermos temas, são discutidos os projetos de pesquisa, a orientação, a  
tradução, esse exercício de possibilitar, a partir da tradução, que outros estudantes que não dominam o inglês tenham acesso a  
esses textos. (Kehinde [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
Podemos perceber que o trabalho intelectual vai além da sala de aula, de ministrar conteúdos das diferentes  
disciplinas, dos projetos de pesquisa e das reuniões de colegiado. Amplas e profundas reflexões são  
desenvolvidas nos grupos de pesquisa, de tal maneira que o trabalho intelectual também se relaciona com  
uma agenda de democratização do conhecimento, possibilitando leituras de textos ainda desconhecidos pelo  
grande público. Traduzir esses textos é oferecer aos/às estudantes que não dominam uma língua estrangeira  
– neste caso, o inglês – a oportunidade de acesso ao conteúdo, o que constitui uma disputa em torno da  
produção do conhecimento.  
Retomando o texto de Lélia Gonzalez, o debate também abordou as questões da consciência e da memória,  
refletindo sobre como a mulher negra e sua imagem foram construídas, pensadas a partir das figuras da  
mãe preta e da ama de leite. Durante a reunião, o debate fluiu intensamente, e um dos estudantes observou:  
“Lélia Gonzalez tem influência no que conhecemos hoje como interseccionalidade”. A professora Kehinde  
respondeu: “Sim, ela, como outras autoras, como Angela Davis, já trabalhavam gênero e classe junto com  
raça e sexualidade. A categoria tem toda uma construção”. Ao final do encontro, houve a partilha de um  
afetuoso lanche: não faltaram empadas doces, pães, sucos e um espaço para diálogos sobre as pesquisas dos/  
as integrantes do grupo, em um momento de grande descontração. Nesse contexto, a professora ouviu as  
demandas, sugeriu leituras e perguntou sobre o andamento das demais disciplinas.  
Ainda no campo da relação entre trabalho e intelectualidade, em 8 de junho de 2018 ocorreu o Oduduwa –  
I Colóquio Internacional: Língua, Literatura e Epistemologia Iorubana. No Auditório de Medicina da UFBA,  
localizado no Terreiro de Jesus, foi realizada uma mesa com a presença das intelectuais negras Conceição  
Evaristo, Wanda Machado, Wándé Abimbía e Wole Soyinka, que teve como tema “Literatura e epistemologia  
iorubana”, com foco na linguagem e na língua iorubá. O evento contou também com a presença do Rei de  
Ifé (Nigéria), Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi Ojaja II, que, naquele período, esteve em contato com  
terreiros de candomblé de Salvador, fortalecendo laços culturais e espirituais.  
A professora Kehinde foi uma das organizadoras do Colóquio, realizado pelo Programa de Pós-Graduação  
em Literatura e Cultura da UFBA, e aproveitou a visita do rei nigeriano para destacar a relevância de se  
discutir as 147 línguas não coloniais, com especial atenção ao iorubá, uma vez que muitas de suas palavras  
influenciam e enriquecem a linguagem cotidiana e o português falado no Brasil. Tal reflexão implica pensar  
3 Seguindo recomendações do conselho de ética da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), foram utilizados nomes fictícios para fazer referência  
às entrevistadas, escolhidos pelas próprias interlocutoras da pesquisa. Dentre as escolhas, as entrevistadas optaram por nomes de personagens de  
livros, de escritoras, de intelectuais e ativistas; outras escolhas se deram por afeto, rememorando mulheres presentes em suas trajetórias.  
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a descolonização do conhecimento por meio da incorporação das línguas e da valorização das tradições dos  
povos colonizados.  
O evento foi transmitido também de forma on-line para aqueles/as que não puderam adentrar o auditório,  
com o objetivo de democratizar a atividade e ampliar seu alcance. Essa foi mais uma ação do grupo de  
pesquisa coordenado pela professora, na qual todos/as os/as estudantes se envolveram: desde a preparação  
e as questões técnicas até a divulgação e a coordenação das mesas. Trata-se de um aprendizado amplo, que  
abrange desde o planejamento e a concepção do evento até sua execução.  
Enquanto pesquisador e homem negro, oriundo de diversos encontros com intelectuais negras, reitero  
que esses momentos sempre se configuram como oportunidades de troca, reciprocidade e aprendizagem  
— experiências que inspiram e fortalecem. A escritora Conceição Evaristo foi a mais procurada pelos/  
as estudantes, o que se deve à sua intensa produção, ao seu engajamento na luta contra o racismo e ao  
pertencimento comum à área de Letras. Ela também inspira jovens estudantes negros/as de outras áreas do  
conhecimento, por sua produção acadêmica, literária e intelectual, mas, sobretudo, pela forma como utiliza  
a escrita como instrumento de combate ao racismo e ao sexismo.  
O evento foi cuidadosamente planejado durante os encontros do grupo de pesquisa, e foi extremamente  
interessante observar a ampla participação dos/as integrantes. Segundo a professora Kehinde, tratou-se  
de uma ação de grande relevância, pois proporcionou aos/às estudantes o contato com um pensamento  
que rompe com os padrões eurocentrados e os incentivou a refletir sobre novas questões etnográficas  
relacionadas ao campo.  
3.  
“SOMOS OS POUCOS PROFESSORES NEGROS DESSA ESCOLA, SOMOS REFERÊNCIA PARA  
OS ESTUDANTES NEGROS”  
No dia 22 de junho de 2018, peguei o ônibus da UFBA que transporta estudantes universitários, o BUZUFBA,  
que faz o roteiro do campus de Ondina ao Vale do Canela, saindo às 07h30min da manhã. O veículo estava  
cheio de estudantes eufóricos/as com a chegada do São João. Desembarquei, passei em frente aos prédios das  
Faculdades de Educação e Administração e subi uma grande escadaria até chegar à Escola de Direito. Fui ao  
encontro da docente Luiza Bairros, para participar da reunião de um dos grupos de pesquisa mais engajados  
na luta racial na UFBA, o Programa Direito e Relações Raciais (PDRR), do qual a referida professora faz  
parte, juntamente com outro professor negro. Luiza considera que “há todo um debate racial que o mesmo  
[o grupo de pesquisa] vem fazendo dentro da Escola de Direito. Somos os poucos professores negros dessa  
Escola, somos referência para os estudantes negros”.  
Naquele dia seria discutido o livro Os condenados da terra, de Frantz Fanon (1968). Ao chegar à sala da  
reunião, já se encontrava presente um número grande de estudantes, majoritária ou até exclusivamente  
composto de mulheres e homens negros/as. A professora ressaltou que o curso tem agora, com o advento  
das cotas raciais nos últimos anos, um perfil mais negro ainda, mas que esses/as estudantes são, em sua  
maioria, oriundos/as da classe C e cursam durante a noite, isso por conta de estarem realizando atividades  
profissionais durante o dia.  
Os encontros do grupo, que acontecem uma vez por mês, contam com um contingente de negros/as bolsistas.  
Aqui cabe registrar a importância dos programas de bolsas de graduação, de iniciação científica e de  
permanência, pois garantem que estudantes negros/as cotistas possam se dedicar aos estudos, contribuindo  
com suas pesquisas para a construção do conhecimento. A sala tinha cerca de 16 estudantes, e o debate  
naquele dia começou com uma provocação para pensar a relação entre a violência colonial e a luta contra a  
opressão na construção da nação.  
As reflexões giraram em torno da constituição do Direito por meio da concepção colonial, levando à reflexão  
sobre as formas como o racismo permeia o campo jurídico. A professora Luiza Bairros e o professor negro  
que compartilha com ela a coordenação do grupo dividiram a fala, através de um trabalho conjunto, o que  
demonstra uma parceria de gênero entre pares negros. Outro ponto a ressaltar é a atuação de ambos para a  
formação de estudantes engajados/as na luta antirracista, em busca de construir uma concepção do Direito  
menos racista e classista.  
Durante o encontro, os/as estudantes demonstraram bastante interesse, levantando questões e reiterando a  
nossa condição de sujeitos/as negros/as na contemporaneidade em relação à colonização, sempre apontando  
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para as construções históricas e sociais. Surgiram questões como a violência que advém desde o período da  
escravidão e de como o corpo negro era extremamente violentado — o que continua nos tempos de hoje,  
através da ação policial, da estrutura social racista e da negação de proteção ao corpo negro. Foi uma manhã  
de intensos debates e, chegando ao meio-dia, o encontro foi se encerrando, com a despedida para o recesso  
junino. Muitos/as estudantes são do interior da Bahia e comentaram que, após quase quatro meses, iriam  
rever os pais, familiares e amigos/as, falando sobre como estavam saindo daquele momento revigorados/as  
e fortalecidos/as para enfrentar cotidianamente o racismo.  
Após a reunião, a professora Luiza se despediu dos/as estudantes e do professor que também coordena o  
grupo, e me convidou para ir à cantina tomar um café antes de irmos embora. Paramos na cantina da Escola  
de Direito e conversamos mais um pouco. A professora me perguntou se eu gostei do encontro e falou da  
importância desses debates, visto que os/as estudantes de Direito têm pouco acesso à literatura que reflete  
sobre as relações raciais. Ela destacou a importância de estar sempre fomentando esse diálogo e afirmou que  
o grupo é mais que um espaço para o debate epistemológico e de construção do conhecimento — é uma ação  
social crítica que visa despertar a consciência racial dos/as estudantes.  
Luiza também pontuou o importantíssimo papel do professor que divide com ela a coordenação do grupo,  
que foi um dos primeiros professores negros a adentrar na Escola de Direito da UFBA. Enquanto fundador  
do grupo PDRR, ele a convidou para participar, além de estar sempre envolvido na luta contra o racismo  
estrutural na universidade. Ele é muito combativo no departamento, está sempre atento e envolvido nas  
bancas de heteroidentificação da UFBA para ingresso de estudantes negros e negras na graduação.  
A entrevistada aponta que, além dele, há outro professor na Escola, cuja identidade ela lê como sendo a de  
um homem negro, mas que não se envolve nas lutas raciais. Luiza cita também uma relação de respeito com  
outro professor, que entende que o racismo em nossa sociedade existe, apoia as ações e debates sobre o  
tema, porém não se reconhece como negro — o que ela vê como contraditório, e mesmo apoiando os eventos  
na Escola de Direito, ele não está presente.  
Entre um cafezinho e outro, a conversa foi fluindo; a professora pediu uma empada para acompanhar, e  
já passava do meio-dia. Então, a docente retomou um tema que havia mencionado na entrevista que me  
concedera meses antes: sua relação com os professores homens no departamento:  
[...] é uma relação de trabalho que é um pouco difícil, tem coisas que vamos pegando aos poucos, como a relação com o machis-  
mo, em um espaço de trabalho, em um local que forma pessoas/estudantes para trabalhar com leis. Em uma reunião estava eu  
no colegiado, e vários temas na pauta, então, fui me posicionar em um desses pontos, um professor branco, quando eu iniciei a  
fala, me interrompe bruscamente: “Ei... é... você é representante estudantil? Qual semestre você é?”. Respirei fundo... é... Wellin-  
gton, na hora retruquei: “Sou professora, o senhor me vê aqui todas as reuniões. Eu não falto uma reunião. Passa por mim nos  
corredores e não me conhece?”. É... acho que não é só machismo, é racismo também. Ele justificou que eu sou muito jovem,  
pediu desculpa, mas sabemos que não é só isso. Tinha que me posicionar, que demarcar meu lugar. Acontece de professores  
homens, e os professores negros também, de eu entrar e não puxarem a cadeira para eu sentar, não que eu queira esse lugar  
de estar sendo hiper tratada, gentileza e respeito vai além do ato de puxar a cadeira, mas eu observo que eles puxam para as  
professoras brancas, isso diz muito de como nos vêm, de como é marcado o gênero a partir da cor, na relação com o sexismo.  
(Luiza Bairros, entrevista pessoal, 2025)  
A interlocutora continua: “Essa é inusitada, mas fala do racismo [rimos], mas é o que acontece”. Com um leve  
sorriso, ela conta que um segurança, ao vê-la chegar à Escola de Direito de carro, de um modelo popular, foi  
ao seu encontro, e disse:  
“Ei! E você, é estudante? Não pode estacionar nesse lugar, é reservado para professores”. Naquele momento eu ri, olhei – e ele é um  
dos nossos, negro, mas o racismo na nossa sociedade o condiciona a pensar que nós negr@s não podemos chegar a ser professores.  
Eu, então, disse: “Sou professora!”. Ele ficou sem graça, me pediu desculpas, eu desculpei rapidamente [risos]. Aí ele emenda as  
desculpas informando que ele vinha de Administração e que estava há dez dias no novo posto, mas que o meu carro era diferente  
dos outros, não era carrão, além de eu ser jovem. Eu disse: “Certo!”. Saí e me encaminhei para o departamento, mas fiquei pensando  
muito nessa condição de como somos vistas, nós mulheres negras, na academia ou em outros postos, que somos poucas. Essas são  
algumas das situações vividas nessa minha vivência universitária, enquanto professora. (Luiza Bairros, entrevista pessoal, 2025)  
4.  
ESPAÇOS SONHADOS POR NÓS: REDE DE APOIO ENTRE PROFESSORAS NEGRAS E  
ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO E PÓS-GRADUAÇÃO  
Nas idas e vindas da observação participante, percorri caminhos e fui compreendendo melhor as professoras  
negras. Trago mais vivências da imersão em campo, buscando refletir na perspectiva da intelectualidade  
e considerando as ações cotidianas das professoras negras docentes da UFBA, desta vez na Escola de  
Enfermagem, com a professora Laura, em uma disciplina do mestrado. A pesquisa foi se desenvolvendo  
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como uma árvore: a cada dia havia a necessidade de perseverança no cuidado, na forma de regar e construir  
o processo da etnografia. Assim, ela se desenvolveu, o tempo passou, e chegamos ao mês de dezembro de  
2019, na observação participante e nas etnografias em sala de aula.  
Trago aqui este exemplo por ter sido a única oportunidade de acompanhar as apresentações de monografia,  
registrando a importância desse momento por considerá-las uma atividade de trabalho intelectual produzido a quatro  
mãos, a partir da orientação da professora Laura. Neste caso, ela orienta trabalhos de conclusão de curso sempre  
envolvendo a perspectiva racial, sendo também muito presente a temática da violência contra crianças negras.  
No dia 11 de dezembro, no período da tarde, saí caminhando do fim de linha do Garcia, onde residia, até a  
Escola de Enfermagem. O clima do bairro já anunciava a chegada do fim do ano. O dia estava bonito, o sol  
brilhando. Percorri as ruas do Garcia, reduto de uma população negra que mantém, no carnaval, a tradicional  
Mudança do Garcia, aproveitando a festividade para reivindicar melhorias sociais no âmbito local e na área  
da saúde, junto às esferas estaduais e federais.  
Coincidência, confluência do universo ou olhar e ouvido atentos do pesquisador: ao passar pela Escola  
Edgard Santos, de nível médio, que fica ao lado da Escola Municipal Hildete Lomanto, dos níveis infantil  
e fundamental, vi jovens comemorando suas aprovações na escola — jovens negros/as sonhando com a  
aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), alimentando a esperança de, por meio do Sistema  
de Seleção Unificada (SISU), garantir uma vaga em uma universidade pública federal ou estadual. Um grupo  
de estudantes comentava sobre suas opções, e duas jovens mencionaram que tentariam a seleção para  
Enfermagem na UFBA. Eu caminhava justamente para a Escola de Enfermagem, a fim de acompanhar três  
apresentações de monografias de estudantes negras, refletindo sobre possibilidades e oportunidades que  
nos dão condições de alcançar os espaços sonhados.  
Seguindo a caminhada, dirigi-me à Escola de Enfermagem, situada nas imediações do Hospital das Clínicas  
e da Reitoria. Cheguei ao prédio de destino e, em seguida, ao auditório, onde aconteceriam três defesas no  
mesmo dia. Os olhos do pesquisador que vos fala brilharam ao ver as famílias negras presentes: pais, mães,  
irmãs, namorados/as e amigos/as que estavam ali para assistir às apresentações. A docente Laura afirmou  
que este “é um momento mais que de avaliação. É de comemoração, de festa”.  
O primeiro trabalho apresentado teve como título “Violência institucional contra crianças: percepções  
da equipe de enfermagem”; seguiu-se outro, “Criança hospitalizada e as percepções de profissionais de  
enfermagem”; e o terceiro, “Crianças e suas mães no cárcere”. Todos eles foram muito elogiados pela banca.  
A professora ressaltou o trabalho coletivo, no qual dividiu a orientação com estudantes de doutorado que,  
segundo ela, acompanham os/as estudantes de graduação — salientando que esse é também um processo de  
aprendizagem para os/as pós-graduandos/as — e enfatizou que, sem eles/as, não conseguiria dar conta de  
todas as demandas: dar aula nas disciplinas, escrever e publicar artigos, participar de eventos, propor grupos  
de trabalho (GTs) em congressos, participar de reuniões de colegiado e ministrar aulas na pós-graduação.  
Portanto, essa parceria com os/as estudantes de mestrado e doutorado é salutar.  
Outro ponto trazido pela professora foi sobre a participação em grupos de pesquisa, quando explicou com  
bom humor:  
Eu aceito no grupo, mas faltou três vezes, pergunto logo qual o caso da falta, de não estar indo. Aqui tem que ter regularidade e  
compromisso e... mas se pego nas reuniões olhando celular no WhatsApp, reclamo logo, namorar via internet aqui não [risos].  
Faço isso porque o racismo não admite que nós, negros, falhemos, ou que dispersemos. E depois, temos que ter compromisso  
para chegarmos nos nossos objetivos. Esse é o resultado de estar nos grupos de pesquisa, nos eventos da graduação e na relação  
com os pós-graduandos. Parabéns para vocês! (Laura, entrevista pessoal, 2025)  
Essa fala aponta a constituição de uma rede de apoio entre professores/as, estudantes de graduação e de  
pós-graduação negros/as, que implica em uma dimensão de acolhimento. Mas, como afirma a professora  
Laura, existe uma cobrança sobre o/a estudante negro/a, para que tenha responsabilidade, engajamento,  
comprometimento e tomada de consciência racial, ou seja, é uma formação integral que valoriza a cidadania  
e, mais que isso, a consciência racial. Essas observações, registradas no caderno de campo, estão conectadas  
com o debate sobre o trabalho intelectual e a prática pedagógica feminista negra.  
5.  
PRODUÇÃO  
ACADÊMICA  
E
TRABALHO:  
FEMINISMO  
NEGRO  
ACADÊMICO  
Existem conexões e pontes que confirmam a existência de ligações e comunicações que envolvem a forma e  
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o fazer acadêmico epistemológico, que tem muito a ver com os/as sujeitos/as, com as identidades de gênero,  
raça, sexualidade e com biografias sociais na construção de si e do/a outro/a. Felipe Fernandes, Míria Dantas  
e Marina Pereira (2016, p. 111) tratam a produção das mulheres na UFBA e questionam o masculino universal,  
afirmando que isso “acaba por dar lugar a uma percepção ou valorização do lugar e participação da mulher  
na vida social profissional”.  
Os autores refletem sobre os privilégios na produção do conhecimento, em especial na Antropologia,  
apontando que a categoria gênero dos/das pesquisadores/as é essencial nesse processo, e questionam:  
“Qual o lugar da mulher pesquisadora?” Giovana Cabral e Valter Bazzo (2005), em uma pesquisa realizada  
no contexto das Ciências Exatas e Tecnológicas, refletem sobre como as mulheres estão fora do campo da  
produção do saber científico nessas áreas de estudo, o que colabora para a compreensão desses espaços  
como locais privilegiados para a produção masculina, exacerbando ainda mais o androcentrismo na ciência,  
conforme podemos observar a seguir:  
Atualmente, no Brasil, a média de professoras e pesquisadoras em áreas como a engenharia e a ciência da computação é de  
aproximadamente 25%. As mulheres estão mais presentes em áreas como letras, linguística, artes e ciências humanas, por  
exemplo. O cenário é balizado por desigualdades e discriminação, diferenças de oportunidades e desprezo às peculiaridades do  
trabalho feminino. (Cabral; Bazzo, 2005, p. 4)  
Osautoresressaltamanecessidadedepensarmosnopercursoqueenvolveaproduçãocientífica, nãosomente  
a partir da relação de gênero, centrada no homem branco europeu, apontando para o privilégio masculino.  
Propomos deslocar o olhar também para a condição racial dos/das sujeitos/as pesquisadores/as, visto que  
o fazer científico e a produção intelectual também se relacionam com a condição e hierarquização racial.  
Não basta apenas contestar o privilégio masculino; é necessário pensar na estrutura racista da sociedade  
brasileira, que permeia também a produção científica.  
Podemos considerar, com isso, as reflexões propostas por Iris Oliveira (2019), ao abordar as subjetividades  
e a construção de si, refletindo sobre as experiências e pensando a condição de negritude no fazer científico.  
Isso coaduna com o pensamento de Angela Figueiredo (2020, p. 4), que propõe o resgate do percurso teórico-  
metodológico do Feminismo Negro: “Do ponto de vista da experiência acadêmica, há um movimento político  
decolonial que pressiona professoras e professores a incorporarem na biografia dos cursos ministrados  
autoras e autores negros e africanos”. Por isso, a autora destaca a produção científica baseada na categoria  
experiência, tão cara ao Feminismo Negro.  
Nossa proposta é pensar a concepção de um feminismo acadêmico na relação entre o Movimento de Mulheres  
Negras, o Movimento Quilombola e os coletivos negros dentro das universidades. A partir das trocas e  
contatos, constrói-se uma relação que produz o que podemos chamar de feminismo negro acadêmico. Nesse  
percurso, a travessia guia os/as sujeitos/as que ingressam na universidade por meio das cotas, permitindo  
apresentar novas perspectivas de pesquisa, novos olhares sobre o fazer científico, propostas inovadoras  
para o currículo e leituras que questionem a estrutura hierárquica da universidade.  
Esse feminismo negro acadêmico se forma a partir da categoria experiência, construído por sujeitas que  
provêm de grupos minoritários e que, ao se encontrarem com outras professoras negras, se reconhecem nelas  
e passam a dialogar, formando redes e alianças. Assim, podemos pensar em uma agenda política proposta  
pelos/as estudantes que ingressam nas universidades, muitos/as já identificados/as como feministas negras,  
muitas oriundas do Movimento de Mulheres Negras. Isso faz com que as professoras negras também se  
reconheçam nesses corpos e pensamentos, a partir das experiências vivenciadas por meio dos diálogos  
com diferentes movimentos sociais, estreitando a relação entre professoras e estudantes acadêmicas e  
fomentando uma produção científica engajada, alinhada a uma perspectiva ativista, já sinalizada pelas  
professoras.  
Segundo Angela Figueiredo (2020, p. 6), “algumas intelectuais e ativistas brasileiras, como Luiza Bairros  
[autora], foram responsáveis pela tradução, no sentido mais amplo do termo, das importantes contribuições  
de feministas afro-americanas”. Patricia Hill Collins, por exemplo, nos foi apresentada por Luiza Bairros  
(1995) no artigo “Nossos feminismos revisitados”, em que a autora articula nossas experiências à perspectiva  
da intelectual afro-americana na análise de um programa culinário de televisão, no qual uma mulher negra  
é subordinada a uma mulher branca.  
O trabalho acadêmico se relaciona não apenas com a construção do conhecimento, mas também com o  
engajamento político e social para a transformação do espaço universitário brasileiro. Essa relação se  
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manifesta na dimensão cosmológica das professoras negras, a partir de suas biografias e da forma como  
foram constituídas. Assim, esse modo de fazer ciência e esse trabalho intelectual reverberam em uma  
produção acadêmica engajada, com consciência racial, incluindo autores/as negros/as, construindo projetos  
de pesquisa e extensão que abordam questões raciais, lecionando disciplinas e promovendo debates.  
É importante destacar, ainda, o diálogo entre o Feminismo Negro brasileiro e o afro-americano. O  
Movimento de Mulheres Negras e suas agendas pressionam a academia brasileira e contribuem para o  
trabalho intelectual, sendo um motor propulsor da produção científica. Nessa encruzilhada de saberes, a  
construção do ser pesquisadora se conecta à sua capacidade de agenciamento diante da estrutura e de seus  
pares, à condição por ela criada e aos caminhos percorridos durante a carreira docente.  
6.  
TRABALHO E CIÊNCIA: DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DO TRABALHO INTELECTUAL  
O conceito de trabalho é uma categoria de análise importante para as Ciências Sociais, tanto no seu próprio  
desenvolvimento quanto para o entendimento dos diferentes grupos sociais, pois trata-se de uma categoria  
que considera a relação entre o/a sujeito/a e o capital. Nesse sentido, refletir sobre o trabalho perpassa  
a análise do trabalho intelectual, dos caminhos da construção do saber, da aprendizagem, da avaliação e  
da produção científica. Conforme aponta Antonio Gramsci (1981), algumas instituições influenciam a  
concepção de mundo do/a sujeito/a e, portanto, a percepção sobre o trabalho também sofre influência em  
conformidade com os contextos.  
Seria interessante estudar concretamente, em um determinado país, a organização cultural que movimenta o mundo ideologi-  
camente e examina o seu funcionamento prático. Um estudo da relação numérica entre o pessoal que está ligado profissional-  
mente ao trabalho cultural ativo e a população de cada país seria igualmente útil, com um cálculo aproximativo das forças livres.  
A escola – em todos os seus níveis – e a Igreja são as duas maiores organizações culturais em todos os países, graças ao número  
de pessoas que as utilizam. Os jornais, as revistas e a atividade editorial, as instituições escolares privadas, tanto as que integram  
a escola de Estado quanto as instituições de cultura do tipo das universidades populares. Outras profissões incorporam em  
sua atividade especializada uma fração cultural não desprezível, como a dos médicos, dos oficiais do exército, da magistratura.  
(Gramsci, 1981, p. 20)  
O autor sinaliza a importância das escolas e universidades na concepção de mundo que cada sociedade  
desenvolve, afirmando que esse processo precisa ocorrer de forma crítica e consciente, de modo que o  
trabalho intelectual esteja relacionado à produção reflexiva e à escolha dos/das diferentes sujeitos/as.  
Gramsci (1981) ressalta que ações teóricas devem ser resultado da prática, enfatizando essa relação. Nesse  
sentido, o/a intelectual deve vivenciar, na prática, o seu discurso. Ele/ela precisa, a partir de suas vivências e  
ações, ser um/a intelectual engajado/a, com compromisso social.  
Já bell hooks (1995) chama a atenção da importância e do impacto do trabalho intelectual negro na construção  
de uma relação com sua comunidade, e, para isso, traz o exemplo da sua própria experiência:  
No meu caso, voltei-me para o trabalho intelectual na busca desesperada de uma posição posicional que me ajudasse a sobrevi-  
ver a uma infância dolorosa. Criada numa comunidade segregada sulista pobre e operária, onde a educação era valorizada so-  
bretudo como um meio de mobilidade de classe, a vida intelectual sempre esteve ligada à carreira do ensino. Tratava-se mais do  
serviço externo como professor ajudando a elevar a raça no qual os professores podiam conquistar aceitação individual dentro  
da comunidade negra do que de uma vida interior intelectual e personalizada. Criada num mundo assim era mais que evidente  
que havia uma diferença socialmente aceita entre qualificação acadêmica e tornar-se um intelectual. Qualquer um podia ensi-  
nar, mas nem todos seriam intelectuais. E embora a função de professor nos rendesse status e respeito. (hooks, 1995, p. 465)  
A autora afirma que encontrou refúgio na vida intelectual e não dissocia intelectualidade da vida política  
e cotidiana. Explicita que, quando se falava em vida intelectual de negros/as no debate acadêmico afro-  
americano, apenas os homens negros eram citados como referência, e mesmo os/as estudantes, quando  
mencionavam alguém, faziam referência a poucas mulheres negras, o que evidencia o sexismo e o machismo  
presentes nessa questão. As reflexões tecidas apontam para um diálogo muito próximo da realidade  
brasileira, visto que a experiência das mulheres negras ficou de fora dos debates realizados no interior da  
academia, e mesmo nas discussões propostas pelos estudos de gênero e feministas, as pesquisadoras brancas  
não consideraram a experiência de mulheres negras. Sandra Azeredo (1994) e Kia Lilly Caldwell (2000) já  
apontavam para essa invisibilidade.  
hooks (1995, p. 466), ao afirmar que “o papel de ser intelectual negra quanto a sua relação com o mundo  
de ideias transcende as produções individuais”, chama atenção para o silenciamento das produções das  
mulheres negras, em razão do modus operandi das estruturas racistas, eurocêntricas e patriarcais. Ou  
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seja, ser intelectual negra é estar conectada às ações políticas e sociais coletivas e estar constantemente  
na luta contra o sexismo e o racismo. A autora enfatiza que devemos pensar o trabalho intelectual a partir  
da produção intelectual, destacando a matriz patriarcal e capitalista, bem como a supremacia branca.  
Nesse sentido, a luta das mulheres negras vai além da perspectiva de Gramsci (1981), que propõe pensar  
teoria e prática exercendo a reflexividade. As mulheres negras precisam romper os limites impostos pelo  
sexismo e pelo racismo, bem como superar as invisibilidades intra-gênero, esforçando-se para contrariar a  
naturalização da inferioridade, ao mesmo tempo em que se dedicam a ser intelectuais voltadas para o bem  
comum, representando um trabalho intelectual engajado com a comunidade negra.  
Mulheres negras buscam elaborar uma produção ancorada no Feminismo Negro e nas epistemologias  
feministas negras, que possibilitam o diálogo com a comunidade externa à universidade, de modo a contribuir  
para o desenvolvimento social. “O bom ensino deve ocorrer não como um armazenamento de informações,  
mas como formação de referenciais e desenvolvimento da capacidade de avaliação, o que vai ser fundamental  
para a produção científica e tecnológica” (Werneck, 2006, p. 173). Nesse sentido, educação e pesquisa são  
espaços de produção de trabalho, que, de certa forma, se constituem em mercado de empregabilidade para  
os/as sujeitos/as pesquisadores/as que vivenciam a produção do conhecimento.  
Vera Wernerk (2006) trata da compreensão da formulação das perspectivas científicas:  
Pode ter um conhecimento por experiência como, por exemplo, o modo de dirigir um automóvel sem que tenha a compreensão  
do processo mecânico que sua ação desencadeia. Pode ainda aceitar, por um comportamento de fé, um ensinamento que lhe é  
transmitido sem nenhuma consciência de seu conteúdo, como é o caso das superstições. Aquele que toma uma cápsula de remé-  
dio, acreditando curar a sua doença com tal procedimento, não tem, na maioria das vezes, nenhum conhecimento da relação da  
substância contida na pílula com o seu mal-estar. Não se pode, nesses casos, falar em conhecimento propriamente dito ou, pelo  
menos, em conhecimento científico. Pode-se entender como sabedoria a adequada hierarquização dos valores para a promoção  
da dignidade humana, o domínio do conhecimento científico e tecnológico de seu tempo, ou a vivência do respeito e da justiça  
que permitem um melhor desempenho social. (Werneck, 2006, p. 177)  
Os trabalhos intelectual e científico advêm de uma construção do conhecimento que envolve técnica e  
domínio da reflexão teórica. Aqui, cabe um debate que não se restringe ao que é ciência, à construção do  
conhecimento ou à objetividade, mas que também problematiza o conceito de trabalho, no que diz respeito à  
função das pesquisas que as professoras negras da UFBA realizam cotidianamente no exercício da profissão.  
Dessa forma, compreendemos a construção de si e a consciência de si, considerando o exercício e a vivência  
negra da intelectualidade, a partir dos insights das participantes da pesquisa. De acordo com a interlocutora  
Carolina Maria de Jesus:  
[...] Se eu faço um Feminismo Negro acadêmico são duas dimensões vinculadas. Para mim, as maiores referências vinculadas,  
acho que antes de pensar a academia e pensar uma militância, tem muito mais a ver com as mulheres que me cercam. Sou filha  
de uma mãe pedagoga, de uma avó professora. Pensar o lugar da formação, como um lugar emancipador de emancipação, para  
mim vem antes de pensar o feminismo, e antes de pensar a academia, em estando na academia. E pensando no feminismo, eu  
acho que identifico essas questões, dimensões que me afetam a pensar formação nessas referências anteriores que já carregava.  
Pensando na minha trajetória, esse lugar do que eu identifico como um modo feminista, uma prática, enfim, de constituição  
de prover a vida, né? Tipo, é muito deste lugar que estou hoje, olhando para isso dessa forma, mas, tipo minha avó jamais se  
reconheceria nessa chave, inclusive tem uma construção em torno das questões de gênero extremamente complicadas, assim,  
é por parte da minha avó. Então, eu acho que, ao mesmo tempo, tem uma prática de prover uma emancipação para as filhas e  
mulheres da família, entendendo que a formação é a única forma de assegurar a uma vida, que ela não colocaria na chave da  
independência, mas talvez colocasse na chave, e autonomia para lidar com as contingências da vida. (Carolina Maria de Jesus  
[nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A docente demonstra a importância da militância a partir de um compromisso com a formação engajada,  
numa concepção de emancipação pautada na experiência — algo que, para ela, se encontra na relação familiar,  
especialmente com a mãe pedagoga e a avó professora. Esse percurso aponta para uma perspectiva de  
emancipação feminista, colocando a educação como elemento central. Ao chegar à academia, o feminismo se  
apresenta como emancipatório, oferecendo uma forma diferenciada de conhecimento dentro desse espaço.  
Em sua fala, a construção de sentido está ancorada na relação com essas duas mulheres negras de sua família,  
que a influenciam na ação e na prática engajadas, estabelecendo uma conexão com o feminismo negro,  
ainda que não explicitamente nomeada como tal, visto que, na agenda do Feminismo Negro, emancipação e  
educação estão intrinsecamente relacionadas. As informações trazidas pela interlocutora permitem, ainda,  
refletir sobre a perspectiva feminista a partir de um olhar geracional e político:  
Pensando nas perspectivas feministas, pensando geracionalmente, eu acho que, assim, a geração da minha mãe já é uma geração  
que constrói uma leitura sobre gênero, que não apenas informada por uma chave feminista exatamente, mas uma aproximação  
com os movimentos, Movimento Negro. Minha mãe já vai para a academia. Então, talvez e, sobretudo, pensando essa dimensão  
potencial de emancipação da formação, talvez eu diria, sim, é... mas pensando a academia como lugar da emancipação, tipo,  
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talvez sim, talvez não, tenho tentado escrever inclusive a educação, a formação, para além da academia, e no sentido também  
de emancipações possíveis. Então, talvez eu não tenha uma resposta fechada. Assim, eu acho... penso a formação, a prática pro-  
fissional. Assim, me vejo mais, hoje, como uma formadora do que prioritariamente uma acadêmica, embora seja, mas eu acho  
que talvez esse lugar da formação é onde eu finco mais a minha crença, de que, digamos assim, num potencial emancipador e  
feminista, dentro desse Feminismo Negro ancorado nas mais velhas do que especificamente na academia, sabe? Com A maiús-  
culo. Mas, é isso, estando na academia tento fazer uma possibilidade de uma prática de formação ancorada numa perspectiva  
emancipatória, formada pelas mulheres que me formaram. (Carolina Maria de Jesus [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A entrevistada explica que, a partir da emancipação e da ação, desenvolve um feminismo negro acadêmico,  
que se constrói por meio de uma articulação triangular entre militância, emancipação e formação, baseada  
nas práticas desenvolvidas por gerações anteriores de mulheres negras — neste caso, ligadas à mãe da  
entrevistada, à sua avó, ao Movimento Negro e ao Movimento de Mulheres Negras. Esses encontros com  
mulheres negras aparecem com frequência nas falas das entrevistadas. A interlocutora Jerusa também  
destaca o encontro com mulheres negras de forma emancipadora:  
Ter como orientadora uma mulher negra foi uma escolha política, assim como desenvolver um projeto de pesquisa de doutora-  
do voltado para o estudo de sujeitas negras afro-diaspóricas na literatura de autoria negra feminina latino-americana. Acredito  
que essas atitudes terminam por contribuir para a autoestima e autoconfiança de estudantes e docentes negros e negras e,  
particularmente, de estudantes e docentes negras nos espaços acadêmicos, onde nossos saberes, nossa competência e/ou nosso  
trabalho são constantemente questionados, devido às opressões do racismo e do sexismo, além das de classe. Uma ex-aluna  
minha, afrodescendente, conseguiu uma bolsa para estudar em uma universidade no Chile e de lá me enviou um e-mail para  
agradecer pelo fato de tê-la feito acreditar em seu potencial. Isso foi muuuuito gratificante. (Jerusa [nome fictício], entrevista  
pessoal, 2025)  
O relato dessa entrevistada destaca a importância de ter uma professora negra como orientadora. O que  
ocorreu em sua experiência acabou sendo replicado na relação com sua orientanda, evidenciando o papel  
preponderante da participação em projetos de pesquisa, o que contribui para o fortalecimento da autoestima  
e da autoconfiança. Na sua fala, a professora enfatiza que essa relação é fundamental, pois ajuda a reduzir  
desigualdades, opressões, racismo e sexismo presentes na academia.  
Podemos perceber que essa percepção se aproxima do que a professora Carolina Maria de Jesus chama  
de emancipação e formação, constituída como uma transição de ideias ligada à construção de sujeitos e à  
percepção de si, bem como à relação estabelecida com pares negros, formando uma conexão de suporte —  
assim como as professoras negras receberam em suas trajetórias. Essa percepção também se manifesta na  
fala de outra entrevistada, que ressalta sua contribuição na formação dos estudantes:  
Acredito que sim, pois é por meio da minha força, do poder conquistado advindo do meu percurso acadêmico, posso apoiar,  
incentivar, ajudar outras mulheres negras a se capacitarem, seja em nível de Graduação e Pós-Graduação, para também atuar  
no enfrentamento do racismo (Laura [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
Segundo a entrevistada Paula Moreno, professora do Instituto de Letras, a relação com os movimentos  
sociais auxilia as professoras negras a não se esquecerem de suas origens e a manterem o senso coletivo.  
Em suas palavras: “É fundamental. O ambiente universitário é muito tóxico, muito individualista, os egos das  
pessoas são bem inflados. Participar de grupos sociais, de movimentos sociais, te devolve à sua realidade e te  
lembra quem você é e por que está naquele espaço”, e acrescenta que:  
Eu participava da Pastoral da Criança. Eu era católica, preparava multimistura para as crianças, para combater a sub-nutrição  
no bairro periférico, lá em São Paulo. Depois no ensino médio eu também participei, e no ensino superior eu dei um pouco de  
aula, que era o EDUCAFRO, voltado para o público negro na Pós-Graduação, participei no Doutorado. Mais para o final, come-  
cei a participar de um grupo de uma grande amiga, que também fez Ciências Sociais. Ela oferece curso de danças africanas e  
afro-brasileira, a fim de ajudar, é para ajudar as mulheres negras na recuperação de sua autoestima. Comecei a fazer parte desse  
grupo, não como líder, mas só como participante, e aí os ensaios acontece nos cursinhos populares, lá em São Paulo. Eu fiquei  
um período. (Paula Moreno [nome fictício], entrevista pessoal, 2025)  
A interlocutora reforça a importância de sua experiência na Pastoral da Criança da Igreja Católica, nos  
cursinhos populares negros e em sua participação em um projeto de dança afro-brasileira. Todas essas  
vivências contribuíram para suas ações na universidade pública e lhe permitem manter suas raízes, sem  
esquecer sua condição racial, como ela mesma explica. A entrevistada complementa falando da relação com  
sua irmã, que também é uma referência para ela, o que se aproxima da trajetória da interlocutora Carolina  
Maria de Jesus, que se espelha em sua avó e mãe.  
É importante observar que as relações afetivas e as trajetórias de pares negros e familiares são destacadas  
pelas entrevistadas como elementos que as impulsionam. As conexões estabelecidas com as mulheres de  
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suas famílias e com os diferentes movimentos sociais contribuem para a formação de uma consciência  
racial, a qual subsidia a construção de um feminismo negro acadêmico, conforme se evidencia na fala da  
docente Paula Moreno:  
Minha irmã [risos]... eu aprendi muito com ela. Estuda Ciências Sociais, e eu estudo Letras. Eu reviso os textos dela. Então, ela  
estudou no Mestrado o Machado de Assis, estudou os temas sociais, né? A violência na obra dele, a escravidão, a ciência, é...  
enfim... li o trabalho dela achei superlegal. E no Doutorado ela pesquisou a obra de Maria Carolina de Jesus [autora], que eu  
também nunca tinha lido. E assim, a primeira intelectual negra que me influencia é a minha irmã. (Paula Moreno, entrevista  
pessoal, 2025)  
DeacordocomainterlocutoraJerusa,paraamdasrelaçõesfamiliares,asdemaisredesqueseestabeleceram  
ao longo de sua trajetória foram fundamentais para a construção do que estou chamando de feminismo  
negro acadêmico. Esse feminismo perpassa a leitura, a produção do conhecimento, as políticas de citação, a  
socialização do conhecimento produzido, além da relação com os pares e com os/as estudantes.  
O feminismo negro acadêmico advém de uma prática pedagógica feminista negra, pautada em ações que  
conectam pares negros a partir de suas trajetórias. Essas trajetórias são influenciadas por saberes diversos,  
que trazem perspectivas e ferramentas diferentes para observar e refletir sobre os fenômenos sociais. Tais  
ferramentas estão ligadas a práticas insubmissas, ao engajamento social, à leitura de textos de autores negros  
e à relação com a música negra, por exemplo, estando conectadas a uma pedagogia feminista negra presente  
no currículo, na ação dos projetos de pesquisa e extensão, na relação com os/as estudantes negros/as e na  
construção epistemológica.  
7.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A capacidade de agência das professoras negras, bem como a articulação e a construção de alianças, as  
coloca em uma posição de subversão da lógica estrutural acadêmica em determinados contextos. Isso se  
dá a partir da insubmissão/insubordinação, que influencia a reconstrução do imaginário social a partir da  
perspectiva do Feminismo Negro e de sua prática pedagógica.  
Portanto, podemos compreender que existe uma prática pedagógica feminista negra insurgente, que  
possibilita o agenciamento das professoras negras na construção do saber e de novas epistemologias, bem  
como na transformação gradual do currículo nos diferentes campos do conhecimento. Nesse sentido,  
as contribuições para o Feminismo Negro residem justamente no nascedouro de um feminismo negro  
acadêmico, que advém de uma prática vivenciada antes da entrada na academia, nas experiências com ou  
no Movimento de Mulheres Negras ou mesmo nas relações afetivas com mulheres negras de suas famílias.  
Nossa contribuição, portanto, é atentar para esses diálogos, práticas e experiências que surgem de outros  
espaços, mas que contribuem fortemente para a constituição do feminismo negro acadêmico. Dessa forma,  
a prática pedagógica feminista negra leva as professoras negras a uma (re)dimensão da condição de trabalho  
e do trabalho intelectual. O trabalho acadêmico se relaciona não apenas com a construção do conhecimento,  
mas também com o engajamento político e social para a transformação do espaço universitário brasileiro.  
Isso se manifesta na dimensão cosmológica das professoras negras, na forma como suas biografias foram  
construídas.  
Ou seja, o trabalho intelectual reverbera em uma produção acadêmica engajada e com consciência racial,  
incluindo autoras e autores negros/as, projetos de pesquisa ligados às questões raciais, disciplinas e  
debates qualificados sobre as desigualdades de gênero e raça, pautados pelo pensamento de pesquisadoras  
e pesquisadores negros/as. Considerando que a produção intelectual também envolve a condição e a  
hierarquização racial, não basta apenas contestar o privilégio masculino branco na ciência, sendo necessário  
também refletir sobre a estrutura racista da sociedade brasileira, que permeia a produção científica.  
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Data de submissão: 05/05/2025  
Data de Aceite: 25/09/2025  
Data de publicação: 15/12/2025