REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REDES AFRODIASPÓRICAS:
ABDIAS NASCIMENTO E O (AUTO)EXÍLIO
Tailane Santana Nunes e Édvin Marlei Pereira
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sobre as influências da cultura africana no Brasil, que seria apresentado em um colóquio promovido pela
instituição durante o encontro. Entretanto, conforme relata em Sitiado em Lagos (1981), movimentações
políticas externas ao Festival resultaram na retirada da UNESCO e das Nações Unidas da organização do
evento, que passou a ser conduzido por delegações oficiais dos países participantes — tal como ocorrera no
primeiro FESTAC.
A participação de Nascimento tornou-se, nesse contexto, incerta, uma vez que o ativista mantinha uma
relação conflituosa com a ditadura militar brasileira. Em 1975, em razão de sua participação no VI Congresso
Pan-Africano, no qual denunciou o mito da democracia racial, Abdias teve seu passaporte apreendido nos
Estados Unidos. Viajando apenas com um salvo-conduto concedido pelo governo norte-americano, o autor
passou a ser monitorado pelo regime brasileiro, encontrando-se sob vigilância desde outubro de 1976,
quando chegou à Nigéria para assumir o cargo de professor visitante (Custódio, 2012). O próprio Abdias
relata um episódio em que percebeu uma aproximação suspeita durante o FESTAC 77:
Trocávamos cumprimentos e abraços quando, de repente, alguém me chamou a atenção para um vulto, uma pessoa talvez, que,
evitando ser vista, tentava me fotografar. Escondia-se atrás de outras pessoas, e ao ver-se apanhado em flagrante por mim e
meus amigos, todos nós voltados surpresos em sua direção, o improvisado fotógrafo rapidamente guardou sua máquina e seu
vulto desapareceu entre a multidão das delegações. Com o auxílio dos companheiros, pude identificar o inusitado “retratista”:
tratava-se, nada mais nada menos, do que Dr. George Alakija, representante permanente do governo ditatorial brasileiro junto
ao FESTAC. (Nascimento, 2002, p. 263-264)
Piu Zirimu, um dos organizadores do evento, tentou assegurar a participação de Abdias Nascimento mesmo
diante da tensão provocada pela delegação oficial brasileira. Entretanto, o texto submetido por Nascimento
— que trazia duras críticas ao mito da democracia racial — foi vetado pelo corpo diplomático brasileiro,
que exercia influência considerável na Nigéria. Segundo Túlio Custódio (2012), durante a década de 1970
o governo brasileiro mantinha estreitas relações comerciais com o país africano, que vivia um período de
crescimento econômico impulsionado pelo petróleo. Interessado em consolidar sua presença no mercado
pós-colonial africano, o regime ditatorial brasileiro não poderia correr o risco de manchar a imagem do
país como uma suposta “democracia racial”. Assim, “o corpo diplomático teria feito o possível para coibir a
participação de Nascimento no colóquio, delegando inclusive à comitiva de intelectuais que o ‘respondesse’
à altura em qualquer comentário ou denúncia” (Custódio, 2012, p. 96).
Dessa forma, Abdias foi impedido de apresentar propostas e de votar durante o FESTAC 77, podendo apenas
se manifestar na condição de observador no Colóquio Internacional — espaço que utilizou como plataforma
para denunciar a perseguição política que sofria. No decorrer das atividades, conseguiu distribuir cópias
do texto vetado, que circulou amplamente entre os participantes. A denúncia alcançou a mídia nigeriana,
que noticiou o episódio, contribuindo para ampliar o apoio ao ativista. Com o respaldo da delegação norte-
americana e de intelectuais africanos, como Wole Soyinka, Nascimento obteve, enfim, um espaço para
apresentar o conteúdo do texto Racial Democracy, posteriormente publicado com o título O Genocídio do
Negro Brasileiro (1978).
Sem dúvida, esse episódio representou uma vitória simbólica para Abdias Nascimento. Denúncias
relacionadas à repressão, à censura e à questão racial eram fortemente indesejadas pelo regime militar
e acompanhadas de perto pelo corpo diplomático, como se observa na correspondência oficial da época.
No entanto, à medida que as declarações de Nascimento ganhavam projeção internacional, a imagem do
Brasil como “democracia racial” se fragilizava. Conforme relata Custódio (2012), com o enfraquecimento da
repressão, o país vivia o início do processo de abertura política, o que impediu que o ativista sofresse novas
perseguições ou represálias. Esse contexto contribuiu para consolidar a imagem de Abdias como uma das
principais lideranças do protesto negro em escala internacional.
Logo após o FESTAC 77, o ativista recebeu um convite do escritor e antropólogo colombiano Manuel Zapata
Olivella para participar do 1º Congresso de Cultura Negra das Américas, realizado em Cali, na Colômbia,
em agosto de 1977. Nesse evento, Abdias apresentou um estudo que denunciava a política externa brasileira
diante do processo de descolonização dos territórios africanos então sob domínio português — hoje,
Moçambique, Angola e Guiné-Bissau.
Notextointitulado Etniaafro-brasileiraePolíticaInternacional, Nascimentoafirmaquehaviamovimentações
para a formação de uma aliança entre África do Sul, Brasil e Argentina, denominada Tratado do Atlântico Sul,
cujo objetivo seria utilizar os portos de Angola e Moçambique para a defesa das rotas marítimas do petróleo:
“o objetivo básico na projetada Aliança ou Tratado seria integrar a África do Sul ao perímetro de defesa
ocidental, e os aliados locais, neste caso, seriam o Brasil, a Argentina e o Chile” (Nascimento, 1980, p. 202). A