REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
AS FLORES DO JARDIM DE ALICE WALKER: OS DIÁLOGOS ENTRE GÊNERO,
VIOLÊNCIA E PERTENCIMENTO EM SUA PRODUÇÃO LITERÁRIA
Gabriela da Costa Silva
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Para a autora, a paciência e a espiritualidade não as tornavam santas, mas sim artistas. Ela se questiona:
“o que significava para uma mulher negra ser uma artista no tempo de nossas avós? Na época de nossas
bisavós? É uma pergunta cuja resposta é cruel o bastante para nos gelar o sangue” (Walker, 2021, p. 211). Sua
inquietação está ligada à permanência dessa criatividade em meio às mazelas da escravidão, da segregação
racial e dos impedimentos que dificultavam às mulheres negras aprender a ler e escrever. Para ela, o
exemplo mais claro de artista que cria em meio a esse cenário era sua própria mãe. A centelha criativa que
sua mãe alimentava esteve sempre diante de seus olhos, expressa pelas flores e pelo enorme jardim que ela
cultivou em meio à pobreza. Foram girassóis, petúnias, rosas, dálias, sinos dourados e tantas outras flores
que marcaram a infância de Walker.
Ela observa que sua mãe dedicava-se ao jardim, o espaço em que dava vida às coisas. Dividia seu tempo entre
os afazeres da casa, o trabalho no campo e o cuidado com os filhos, mas, como Walker evidencia, era em seu
jardim que ela se mostrava mais sorridente e feliz. É nesse equilíbrio entre vida e dor que sua mãe se tornou
uma artista aos seus olhos. Ela diz: “[...] minha mãe enfeitava com flores qualquer casa miserável em que
fôssemos obrigados a morar. Por causa de sua criatividade com as flores, até minhas memórias da pobreza
são vistas através de uma tela florida.” (Walker, 2021, p. 217-218).
Assim como tantas outras mulheres negras, ela expressava a complexidade de quem construía alternativas
e estratégias para driblar o racismo cotidianamente, enquanto oferecia aos filhos um mundo melhor. A
concepção de arte e criatividade trabalhada ao longo do ensaio se desloca do ideal academicista branco
e eurocêntrico, para centrar-se nas experiências diaspóricas e femininas (Moreira & Mendes, 2024).
Compreende, portanto, como mulheres negras anônimas têm transformado a vida de suas famílias e
colocado sua essência no mundo de inúmeras formas: pela poesia, pelo bordado, pela contação de histórias e
pelo ato de plantar flores. Assim, ao refletir criticamente sobre seu próprio processo de escrita, Alice Walker
parece se reconhecer nesse mesmo contexto. Sobre isso, comenta: “guiada por minha herança de amor pela
beleza e de respeito pela força — em busca do jardim de minha mãe, encontrei o meu” (Walker, 2021, p. 219).
A discussão da beleza como gesto ou método aparece também nos recentes trabalhos de Christina Sharpe.
Em seu livro “Notas ordinárias”, ela compartilha uma experiência semelhante à de Alice Walker com a
presença de flores e arranjos em uma casa simples. Das memórias do cuidado de sua mãe, Sharpe reconhece
o potencial organizador e metodológico que a manutenção da beleza — nos ambientes internos ou na
aparência física — tem para a comunidade negra na ruptura de violências e estigmas vinculados à pobreza
(Sharpe, 2024). Sua discussão remete a Alice Walker justamente por reforçar o cuidado e os pequenos
gestos que orientavam essa busca pelo belo, pois o belo representaria conforto, segurança e, sobretudo,
novas possibilidades de futuro. Por fim, Sharpe compartilha,
a beleza é um método: ler no peitoril da janela
botar a política pra correr
uma lista em um pedaço de papel esquecido num livro
o arranjo dos alfinetes no tecido
a capacidade de fazer lenha com o jornal
Essa atenção à estética Negra me formou: me moveu do peitoril da janela para o mundo.
(Sharpe, 2024, p. 126-127)
Essas estratégias são recorrentemente adotadas por mulheres negras e se solidificam através das gerações,
construindo um importante arcabouço de rupturas possíveis com o racismo, seja no âmbito mais subjetivo,
seja no âmbito material da existência negra. Essa perspectiva se alinha às reivindicações por humanidade,
por cidadania e por novas condições de vida para as mulheres negras e suas famílias. Diante deste contexto,
Walker reconhece, nas mulheres negras comuns, o caráter artístico e criativo, de modo que essas estratégias
e tantas outras expressões sutis de resiliência são uma garantia da vida digna. Para aqueles que enquadram a
história das mulheres em uma grande caixa, ela narra, através de sua mãe, um olhar complexo e coletivo no
qual as mulheres negras imprimiram suas origens no mundo. Ela segue
E assim, nossas mães e avós, quase sempre de forma anônima, têm transmitido à centelha criativa, a semente da flor que elas
mesmas nunca tiveram esperança de ver: ou uma carta lacrada que elas não conseguiram ler muito bem. (Walker, 2021, p. 217)
Logo, são essas mulheres, com suas vivências e marcas plurais, agentes de mudança social. Muitas vezes
esquecidas pelas páginas da história, são as responsáveis pela sobrevivência de suas comunidades. Para elas,
a arte, a criação e a beleza estão ligadas ao gesto sutil de ressignificar sua própria realidade. Essa discussão
nos permite refletir sobre a estreita relação entre a obra de Walker, sua trajetória pessoal e os aspectos
culturais que atravessam a realidade da comunidade negra nos Estados Unidos, de modo que não podem