DO DETERMINISMO BIOLÓGICO À AUTONOMIA:  
REFLEXÕES SOBRE RAÇA EM BOAS,  
FIRMIN, DU BOIS E HURSTON  
From biological determinism to autonomy: reflections on race in Boas,  
Firmin, Du Bois, and Hurston  
Del determinismo biológico a la autonomía: reflexiones sobre raza en Boas,  
Firmin, Du Bois y Hurston  
1
LAURA FERRARI CAMBRAIA  
ORCID: 0009-0000-2597-8054  
RESUMO  
O trabalho explora as contribuições de Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B. Du Bois e Zora Neale Hurston  
para o debate racial no final do século XIX e início do século XX. Boas e Firmin criticaram o determinismo  
biológico e o racismo científico, rejeitando a ideia de hierarquias raciais fixas e baseando as diferenças  
humanas em fatores sociais, culturais e ambientais, em vez de em características biológicas inatas ou  
medições fenotípicas. Du Bois e Hurston focaram na vivência da Negritude nos Estados Unidos, mas com  
abordagens distintas. Du Bois articulou a “dupla consciência” e o “Véu” para descrever o impacto psicológico  
da exclusão racial, enquanto Hurston rejeitou a visão trágica, enfatizando a autonomia, a resiliência e a  
força pessoal diante da opressão. Apesar das diferenças de abordagem (ciência/história versus experiência  
subjetiva), todos compartilhavam o objetivo de desmantelar as bases do racismo e afirmar a humanidade  
dos Negros.  
Palavras-chave: Raça; Racismo; Antropologia; Negritude.  
ABSTRACT  
The work explores the contributions of Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B. Du Bois, and Zora Neale Hurston  
to the racial debate at the end of the 19th and beginning of the 20th century. Boas and Firmin criticized  
biological determinism and scientific racism, rejecting the idea of fixed racial hierarchies and basing human  
differences on social, cultural, and environmental factors, instead of on innate biological characteristics or  
phenotypic measurements. Du Bois and Hurston focused on the experience of Negritude in the United States,  
but with distinct approaches. Du Bois articulated the “double consciousness” and the “Veil” to describe the  
psychological impact of racial exclusion, while Hurston rejected the tragic view, emphasizing autonomy,  
resilience, and personal strength in the face of oppression. Despite the differences in approach (science/  
history versus subjective experience), they all shared the goal of dismantling the foundations of racism and  
affirming the humanity of Black people.  
Keywords: Race; Racism; Anthropology; Blackness.  
RESUMEN  
El trabajo explora las contribuciones de Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B. Du Bois y Zora Neale Hurston  
al debate racial a finales del siglo XIX y principios del siglo XX. Boas y Firmin criticaron el determinismo  
1 Mestranda em Antropologia Social pela Universidade de Brasília. Pós-graduada em Comunicação Digital, Branding e Storytellig pela Pontifícia Uni-  
versidade Católica do Paraná. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
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biológico y el racismo científico, rechazando la idea de jerarquías raciales fijas y basando las diferencias  
humanas en factores sociales, culturales y ambientales, en lugar de en características biológicas innatas o  
mediciones fenotípicas. Du Bois y Hurston se enfocaron en la vivencia de la Negritud en los Estados Unidos,  
pero con enfoques distintos. Du Bois articuló la “doble conciencia” y el “Velo” para describir el impacto  
psicológico de la exclusión racial, mientras que Hurston rechazó la visión trágica, enfatizando la autonomía,  
la resiliencia y la fuerza personal frente a la opresión. A pesar de las diferencias de enfoque (ciencia/historia  
versus experiencia subjetiva), todos compartían el objetivo de desmantelar las bases del racismo y afirmar la  
humanidad de los Negros.  
Keywords: Raza; Racismo; Antropología; Negritud.  
1.  
INTRODUÇÃO  
No final do século XIX e início do século XX, o debate sobre raça e racismo foi profundamente influenciado  
por diferentes abordagens que buscavam compreender as dinâmicas da desigualdade racial e combater as  
justificativas pseudocientíficas que sustentavam a hierarquização entre grupos humanos. Pensadores como  
Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B. Du Bois e Zora Neale Hurston contribuíram para essa discussão com  
reflexões que questionavam tanto o determinismo biológico quanto as implicações sociais e psicológicas da  
discriminação racial.  
Franz Boas, pioneiro da antropologia cultural, desempenhou um papel essencial na crítica ao racismo  
científico, desafiando a ideia de que as diferenças entre raças eram inerentes e imutáveis. Seu trabalho sobre  
a influência do ambiente social e geográfico no desenvolvimento humano desmontou teorias baseadas  
em medições fenotípicas e testes de inteligência que buscavam comprovar a inferioridade dos Negros.  
De maneira semelhante, Anténor Firmin, em sua crítica à naturalização da escravização, expôs como  
argumentos filosóficos e jurídicos foram usados para justificar a desumanização e a exploração de africanos  
e seus descendentes.  
Ao lado das críticas ao determinismo biológico, W.E.B. Du Bois e Zora Neale Hurston exploraram as  
complexidades da experiência negra nos Estados Unidos. Du Bois desenvolveu o conceito de “dupla  
consciência”, uma reflexão sobre o impacto psicológico da exclusão racial, em que o indivíduo Negro se vê  
forçado a enxergar a si mesmo pelos olhos de uma sociedade que o marginaliza. Hurston, por outro lado,  
rejeitou a narrativa de vitimização e alienação, adotando uma postura de força e autonomia, afirmando que  
sua Negritude não deveria ser definida pela opressão, mas pela resiliência e pela independência.  
Este trabalho analisa as contribuições de Boas, Firmin, Du Bois e Hurston, explorando suas visões sobre  
raça, identidade e resistência ao racismo, destacando as convergências e divergências em suas abordagens.  
A justificativa para este recorte encontra-se na atualidade e na potência analítica de suas contribuições.  
Considerados em conjunto, esses aportes permitem apreender diferentes estratégias intelectuais de  
contestação à inferiorização racial e evidenciam como tais perspectivas permanecem fundamentais para  
a compreensão das múltiplas formas pelas quais se articulam, na contemporaneidade, a racialização, a  
resistência e a elaboração de identidades coletivas.  
2.  
FRANZ BOAS E O CONCEITO DE RAÇA  
A visita de Franz Boas a Atlanta em 1906, a convite de W.E.B. Du Bois, representa um marco crucial na história  
da antropologia e dos estudos raciais nos Estados Unidos. A convergência de duas figuras tão influentes e  
comprometidas com a justiça social proporcionou um momento de grande fecundidade intelectual e política.  
A partir desse encontro, podemos compreender melhor as complexidades das relações raciais na virada do  
século XX, bem como o papel da antropologia na desconstrução de mitos e estereótipos sobre as diferentes  
populações humanas.  
Assim, a visita de Boas proporcionou um novo incentivo aos intelectuais e ativistas Negros da época no  
combate ao determinismo biológico e ao racismo científico. Em um de seus discursos, Boas discutiu sobre  
o “físico negro” e assumiu uma postura contundente contra a ideia de “inferioridade biológica dos negros”.  
Sua tese principal era que não existia nenhuma prova definitiva da teoria vigente, com características  
simiescas sendo divididas quase igualmente entre as raças humanas. Boas sugeriu que a maioria das  
diferenças de comportamento entre negros e brancos poderia ser explicada pelo ambiente sociocultural e  
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não por diferenças na hereditariedade biológica. Ou seja, as medições de crânios de brancos e negros e seus  
resultados não seriam critérios suficientes para a comprovação de inferioridade (Willis; Zumwalt, 2008).  
No entanto, o pensamento de Boas, embora revolucionário para a época e crucial para desmantelar as bases  
científicas do racismo, não estava isento de tensões internas, o que estudiosos posteriores identificaram como  
um “paradoxo boasiano” (Williams Jr., 1996, p. 1, 4). Apesar de sua crítica radical ao determinismo biológico  
e ao uso de medições físicas para justificar hierarquias raciais, Boas ainda considerava a possibilidade de  
pequenas diferenças médias entre os grupos raciais, refletindo a influência das premissas da antropologia  
física de seu tempo (Williams Jr., 1996). Ele chegou a admitir a plausibilidade de certas diferenças na forma  
e tamanho do cérebro entre negros e brancos, e que, na média, o cérebro negro poderia ser considerado  
“menos extremamente humano do que o do branco” (Williams Jr., 1996, p. 35).  
Embora não advogasse pela inferioridade racial generalizada ou pela discriminação institucional, ele  
especulou sobre a possibilidade de “menos habilidade média” ou aptidões hereditárias em “direções  
ligeiramente diferentes” entre os grupos (Williams Jr., 1996, p. 17). Contudo, para Boas, essas potenciais  
diferenças médias não diminuíam a importância fundamental da vasta variação individual dentro de cada  
grupo racial (Boas, 2004; Williams Jr., 1996). Era essa variabilidade interna, e não as médias ou supostas  
tendências hereditárias, que impedia qualquer justificação científica para a discriminação generalizada  
ou para julgar indivíduos com base em supostas características raciais coletivas (Boas, 2004; Williams Jr.,  
1996).  
Outro ponto que merece destaque na visita de Boas à Universidade de Atlanta é a consistência dos discursos  
proferidos em 1906 e o debate que o autor propõe em Raça e Progresso de 1931. Para Boas, não existem  
características homogêneas que definam a inferioridade de uma raça em relação a outra, já que existem  
variações dentro do mesmo grupo: pessoas do mesmo grupo étnico que são consideradas inferiores vivendo  
no campo, comparadas a pessoas do mesmo grupo étnico que são consideradas superiores e migraram para  
a cidade, e vice-versa (Boas, 2004).  
Em resumo, as reações fisiológicas do corpo estão estreitamente ajustadas às condições de vida. Por isso, muitos indivíduos  
de estruturas orgânicas diferentes, quando expostos às mesmas condições ambientais, assumem um mesmo grau de reações  
similares. No geral, é muito mais fácil encontrar diferenças claras entre raças em relação à forma do corpo do que em relação  
a seu funcionamento. Não se pode pretender que o corpo funcione, em todas as raças, de modo idêntico, mas aquela espécie  
de sobreposição que observamos em relação à forma é ainda mais pronunciada que em relação à função. (Boas, 2004, p. 75)  
No que se refere às características raciais, Boas sugere que elas não são totalmente estáveis e que estão  
mais sujeitas a modificações influenciadas pelo ambiente social e geográfico do que por fatores étnicos. Da  
mesma maneira, ele desconsidera os resultados dos chamados testes de inteligência, por acreditar que o  
ambiente cultural dos indivíduos é o fator mais importante para determinar o resultado desses testes, não o  
conjunto de características fenotípicas. Para Boas, não se pode julgar “todos por um”. Isso significa dizer que  
não se poderia aceitar a ideia de que os mesmos fenômenos se desenvolveriam da mesma maneira a partir  
da mesma causa em todo lugar.  
Os indivíduos, embora compartilhem costumes, crenças, ritos e certas características fenotípicas, não são  
homogêneos: há uma multiplicidade de caminhos para que esses fenômenos possam se desenvolver (Liss,  
1998). Como reformadores sociais e intelectuais de destaque, Du Bois e Boas compartilhavam a missão de  
desmantelar os estereótipos e equívocos fundamentais associados ao conceito de raça. Ambos acreditavam  
no poder da verdade científica para abrir caminho para um mundo melhor (Willis; Zumwalt, 2008).  
3.  
A INFERIORIDADE DOS ESCRAVIZADOS  
A contextualização histórica que Anténor Firmin traz a respeito da conceitualização e da implementação  
da inferioridade para tornar a escravização possível contribui significativamente para o debate sobre os  
argumentos que sustentam, além do determinismo biológico que Franz Boas tanto critica, a crença na  
inferiorização do Negro.  
Talvez se perceba um espírito feito de egoísmo e orgulho, que sempre levou povos civilizados a acreditarem que são de natureza  
superior às nações que os cercam; mas pode-se dizer que nunca houve a menor relação entre esse sentimento, que é consequên-  
cia de um patriotismo estreito, mas altamente respeitável, e a ideia positiva de uma hierarquia sistematicamente estabelecida  
entre as raças humanas. (Firmin, 2022, p. 35-36)  
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Firmin aponta que, se a desigualdade entre as raças humanas fosse real, o proprietário de escravizados não  
poderia considerá-los como seus iguais sem sofrer repulsa pela própria consciência. Uma solução apontada  
pelos romanos para essa repulsa foi posteriormente encontrada e difundida: para eles, era preciso analisar a  
questão da escravização do ponto de vista filosófico e jurídico, para evitar cair em armadilhas de “consciência  
pesada”. Dessa maneira, era necessário regularizar a prática. “E assim, a fim de legitimar a escravidão, que  
é uma derrogação evidente dos direitos dos povos, eles não imaginaram outro modo senão fazer do escravo  
um ser inferior aos outros membros da humanidade” (Firmin, 2022, p. 37).  
Quando os romanos utilizam a legislação para naturalizar a inferioridade de uma categoria dentro do corpo  
social, eles permitem, instigam e propagam a ideia de que a personalidade dos escravizados é incompleta  
e inferior. Isso significa que concedem novos motivos para deixar a argumentação de inferioridade mais  
robusta, uma vez que reduzem o sujeito a ponto de ser visto realmente apenas como uma mercadoria  
qualquer, um objeto. “É especialmente o viés moral e intelectual que se supunha anulado no escravo, pois é  
sobretudo de lá que vem a personalidade humana” (Firmin, 2022, p. 38).  
Mas qual é o efeito prático dessa teoria na visão que se tem sobre a população Negra estadunidense no século  
XIX e início do século XX?  
4.  
DESDOBRES DA INFERIORIZAÇÃO  
Em “The Study of the Negro Problems” de 1899, W.E.B. Du Bois classifica o que seria um problema social  
para, então, categorizar o que seriam os problemas dos Negros. Segundo o autor, um problema social é  
sempre uma relação entre condições e ações. À medida que essas condições e ações variam e mudam de  
grupo para grupo, de um tempo para outro e de lugar para lugar, os problemas sociais também mudam, se  
desenvolvem e crescem. O problema Negro representa um complexo de problemas sociais, alguns novos,  
alguns antigos, alguns simples e outros complexos. Esses problemas têm seu único vínculo de unidade no  
fato de se agruparem em torno daqueles africanos trazidos para a América por dois séculos de comércio de  
escravos.  
Os problemas específicos enfrentados pelos Negros podem ser divididos em duas partes distintas, mas  
correlacionadas. Primeiro, há a parte em que os Negros não compartilham plenamente a vida nacional  
porque, como massa, eles não alcançaram um grau suficientemente alto de cultura. Segundo, há a parte em  
que eles não compartilham plenamente a vida nacional porque sempre existiu na América uma convicção –  
variando em intensidade, mas sempre generalizada – de que as pessoas de sangue Negro não deveriam ser  
admitidas na vida grupal da nação, independentemente de sua condição (Du Bois, 1898).  
A justificativa romana sobre o processo de inferiorização reaparece quando se considera, dentro dos estudos  
de Du Bois, que o Negro é, de longe, o mais ignorante (quase metade dos Negros da época eram analfabetos  
e apenas uma pequena parcela tinha educação superior). A grande deficiência do Negro, porém, reside no  
seu limitado conhecimento da arte da vida social organizada. O desenvolvimento social desta população  
foi abruptamente interrompido pelo tráfico negreiro, e essa interrupção impediu a plena integração na  
sociedade e a adaptação à vida em grupo, essencial para a civilização.  
Já em sua obra As Almas do Povo Negro, Du Bois explora as consequências dessas exclusões e destaca a  
necessidade de reconhecer a humanidade dos Negros, especialmente após o período de escravização. O  
autor desenvolve o conceito de “dupla consciência” e traz a ideia de “Véu” para descrever como estereótipos e  
preconceitos impedem o reconhecimento pleno dos Negros como seres humanos, contribuindo para que eles  
próprios se sintam reduzidos à condição de “coisa”, em vez de sujeitos completos. O Véu, metáfora central  
de sua análise, refere-se tanto à invisibilidade social imposta aos Negros quanto à distorção da realidade, que  
impede tanto Negros quanto brancos de se verem mutuamente como realmente são.  
A dupla consciência que o autor descreve reflete a contradição entre ser Negro e ser cidadão americano, em  
que a cidadania plena é garantida aos brancos, enquanto aos Negros é negada a liberdade completa. Essa  
consciência dual força o Negro a enxergar a si mesmo pelos olhos de uma sociedade que o despreza, o que  
resulta em um conflito interno contínuo:  
Depois dos egípcios e indianos, dos gregos, dos romanos, dos teutos e dos mongóis, o negro é uma espécie de sétimo filho, nasci-  
do com véu e dotado de clarividência neste mundo americano – um mundo que não lhe deixa tomar uma verdadeira consciência  
de si mesmo e que lhe permite ver a si mesmo apenas através da revelação do outro mundo. É uma sensação peculiar, essa  
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consciência dual, essa experiência de sempre enxergar a si mesmo pelos olhos dos outros, de medir a própria alma pela régua  
de um mundo que se diverte ao encará-lo com desprezo e pena. (Du Bois, 2021, p. 22-23)  
A metáfora de “Véu” e o conceito de “dupla consciência” permitem compreender como os estereótipos  
se formam, se consolidam e operam no cotidiano, posicionando a maioria dos Negros como inferiores e  
incapazes de romper com a barreira simbólica da opressão. Para o autor, essa condição limita a existência  
dos Negros à sombra desse Véu, dificultando a percepção de si mesmos como sujeitos plenos e inibindo o  
questionamento de sua própria realidade. Essa opressão, descrita como uma dominação severa, estabelece  
estereótipos que retratam alguns Negros como passíveis de redenção, enquanto a maioria é vista como  
inerentemente inferior, desprovida de autonomia para superar o Véu. A intensidade dessa subjugação  
é tão profunda que sufoca o pensamento crítico, dificultando qualquer possibilidade de emancipação ou  
libertação.  
A teoria da dupla consciência elaborada por Du Bois constitui um dos principais temas abordados pelo autor, a partir do qual,  
discute a construção e a plasticidade das identidades negras. O sujeito negro de Du Bois vive uma certa dualidade, encontra-se  
dividido entre as afirmações de particularidade racial e o apelo aos universais modernos que transcendem a raça. [...] a dupla  
consciência emerge das experiências de deslocamento e reterritorialização das populações negras, que acabam redefinindo o  
sentimento de pertença. (Santos, 2002, p. 276)  
Na mesma obra, Du Bois apresenta sua defesa da “panaceia da Educação”: ele argumenta que, a partir da  
educação, formamos indivíduos que saberão utilizar sua força de trabalho de forma positiva, provando  
que não há a necessidade de escravização para apresentar um trabalho cooperativo e de qualidade. Sua  
argumentação preocupa-se em apontar as qualidades dos Negros, ao afirmar que, por meio da Educação, é  
possível transformar essa camada da população de forma que ela colabore para o crescimento econômico,  
especialmente do Sul dos Estados Unidos.  
[...] essa formação nos permitirá estimular as noções preconcebidas que fortalecem a sociedade e descartar aquelas que, por  
serem pura barbárie, nos tornam surdos aos gritos das almas aprisionadas sob o Véu e à fúria cada vez maior dos homens agri-  
lhoados. (Du Bois, 2021, p. 121)  
A Educação, então, mostra-se como a melhor forma de solucionar a decadência nacional e encontrar os  
direitos de cada um no mundo do trabalho. Isso significa dizer que, ao utilizar a força de trabalho dos Negros  
sem escravizá-los, haveria a chance de libertar a sociedade das noções de barbárie e libertar as almas  
aprisionadas sob o Véu. Além disso, Du Bois propunha a possibilidade de uma coexistência pacífica entre  
brancos e Negros, enfatizando a necessidade de esforço e mente aberta por parte dos primeiros, juntamente  
com um forte incentivo à Educação para a população Negra como meio de ascensão do grupo social como  
um todo.  
5.  
ZORA HURSTON: APROXIMAÇÕES E AFASTAMENTOS DE DU BOIS  
Zora Neale Hurston e Du Bois oferecem perspectivas distintas sobre a experiência de ser negro nos Estados  
Unidos. Ambos relatam momentos de suas infâncias em que tomaram consciência de sua identidade racial e  
da exclusão social que essa identidade acarretava:  
Mas, mudanças chegaram na família quando eu tinha treze anos e fui mandada para escola em Jacksonville. Eu fui embora de  
Eatonville, a cidade dos oleandros, sendo uma Zora. Quando desembarquei em Jacksonville, não era mais a mesma. Parecia que  
eu tinha sofrido uma mudança marítima. Eu não era mais a Zora do Condado de Orange, eu era, agora, uma pequena garota de  
cor. Descobri isso de algumas maneiras. No meu coração e também no espelho, me tornei negra-garantida para não sair nem  
correr. (Hurston, 2019, p. 47)  
Eu era pequenino, vivendo nas colinas da Nova Inglaterra, onde as águas escuras do Housatonic fazem seu percurso sinuoso  
entre as montanhas da serra de Hoosac e Taghkanic para chegar ao mar. Em uma pequena escola de madeira, algum motivo  
levou os meninos e as meninas a comprar belíssimos cartões de visita - a dez centavos de dólar o pacote - e os trocar entre si. A  
troca estava divertida, até que uma garota, alta e recém-chegada, recusou meu cartão - e de forma categórica, com um olhar. Foi  
quando me veio a percepção quase imediata de que eu era diferente dos demais; ou semelhante, talvez, em termos de coração e  
de força vital e de aspirações, mas apartado do mundo deles por um enorme véu. (Du Bois, 2021, p. 21)  
No entanto, suas respostas a essa tomada de consciência divergem de maneira significativa. Hurston, em  
“Como eu me sinto uma pessoa de cor”, aborda sua Negritude com uma perspectiva de orgulho e resiliência,  
enquanto Du Bois explora o conceito, já mencionado anteriormente, de “dupla consciência”, refletindo sobre  
o peso psicológico do racismo e a alienação que ele provoca. Essa diferença de abordagem revela as tensões  
internas e as diferentes maneiras de lidar com a questão racial.  
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Hurston recorda o momento em que, ao deixar Eatonville, uma comunidade predominantemente negra,  
para estudar em Jacksonville, percebeu que sua identidade estava sendo definida pela cor de sua pele. Nesse  
momento, a autora reconhece que o mundo externo a enxergava de forma diferente do que ela se via, e a partir  
daí, sua cor passaria a ser um marcador social inescapável. Esse reconhecimento traz consigo uma mudança  
identitária significativa, uma vez que ela passa a ser consciente da racialização que outros impunham sobre  
ela. Da mesma forma, Du Bois descreve uma experiência na infância que o fez perceber sua Negritude e a  
separação que isso criava entre ele e seus colegas.  
Ambos os relatos destacam a percepção da exclusão racial na juventude, um momento marcante de ruptura  
em suas consciências. Enquanto Hurston percebe que, fora de sua comunidade, ela é definida por sua cor e  
não por sua individualidade, Du Bois sugere que há uma barreira invisível (o Véu) que o impede de ser visto  
como igual por seus colegas brancos. Os autores, portanto, compartilham a experiência de perceberem que  
o racismo estrutural molda suas identidades desde cedo.  
Mas, enquanto Du Bois vê essa divisão como uma fonte de alienação e sofrimento psicológico, Hurston  
rejeita categoricamente essa visão. Ela afirma:  
Mas eu não sou tragicamente uma pessoa de cor. Não há uma grande tristeza represada em minha alma ou à espreita por detrás  
dos meus olhos. Eu não me importo nem um pouco. Não pertenço à sofrida escola da vizinhança negra. (Hurston, 2019, p. 47)  
Ao dizer “eu não sou tragicamente uma pessoa de cor”, Hurston recusa a ideia de que sua identidade  
racial deva ser definida pelo sofrimento. Ela rejeita a visão de uma Negritude associada à dor e à opressão,  
criticando aqueles que veem sua condição racial como um fardo dado e impossível de se combater. Hurston  
continua sublinhando sua visão de que o mundo é daqueles que demonstram determinação: “nessa  
escaramuça confusa que é minha vida, tenho visto que o mundo é dos fortes, independentemente de uma  
pigmentaçãozinha maior ou menor. Não, eu não lamento ao mundo – estou muito ocupada afiando minha  
faca de ostras” (Hurston, 2019, p. 48). Novamente, confirma-se que a autora adota uma postura tenaz e  
resiliente, principalmente quando ela utiliza a metáfora de “afiando minha faca de ostras”, que reforça essa  
ideia, sugerindo que está se preparando ativamente para enfrentar o mundo e aproveitar as oportunidades  
que surgem, assim como alguém afia uma faca para abrir ostras e encontrar pérolas.  
Por outro lado, Du Bois descreve o impacto psicológico da dupla consciência a partir de uma visão mais  
introspectiva e crítica. O autor explica a divisão entre como o indivíduo Negro se vê e como é visto pela  
sociedade branca: “É uma sensação peculiar, essa dupla consciência, esse sentimento de sempre olhar a si  
mesmo através dos olhos dos outros, de medir a própria alma com a fita métrica de um mundo que olha com  
desprezo” (Du Bois, 2021, p. 3). Para Du Bois, a dupla consciência é um fardo, uma fonte de conflito interno,  
na medida em que o indivíduo Negro é forçado a equilibrar sua própria identidade com as expectativas e  
imposições da sociedade racista.  
Compreende-se, então, que a diferença fundamental entre os dois autores é a maneira como lidam com  
a consciência racial. Enquanto Du Bois enfatiza a alienação que resulta da imposição de uma “dupla  
consciência”, uma identidade dividida entre o olhar do outro e o próprio, Hurston, por outro lado, rejeita a  
ideia de ser definida por esse olhar externo. Para a autora, ser Negra não é um destino trágico ou um estado  
de alienação, mas uma condição a partir da qual ela constrói sua própria agência e força.  
Assim, embora tanto Du Bois quanto Hurston reconheçam o impacto do racismo em suas vidas e na  
construção de suas identidades, suas abordagens são marcadamente distintas. Du Bois enfatiza o sofrimento  
psicológico provocado pela “dupla consciência”, caracterizada pela divisão entre a autopercepção e o olhar  
racista da sociedade. Hurston, por outro lado, desafia essa visão ao adotar uma postura de autonomia,  
recusando-se a ser definida pela opressão racial. Para Du Bois, o “Véu” que separa Negros e brancos é um  
símbolo de barreira e alienação; já, para Hurston, a força pessoal e a independência são os instrumentos para  
transcender as limitações impostas pela sociedade racializada.  
Em última análise, a perspectiva de Du Bois sobre o Véu e a dupla consciência é mais introspectiva, focada  
no conflito interno e na dor causada pela exclusão racial. Hurston, em contraste, oferece uma resposta que  
valoriza a independência e a superação, reafirmando sua identidade sem se submeter ao peso do olhar  
externo. Enquanto Du Bois aborda a condição Negra a partir da experiência de sofrimento e divisão, Hurston  
propõe uma visão de liberdade e autossuficiência, destacando a capacidade de agir e prosperar mesmo  
diante das adversidades.  
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6.  
CONCLUSÃO  
As contribuições de Franz Boas, Anténor Firmin, W.E.B. Du Bois e Zora Neale Hurston para o debate racial  
destacam-se pela diversidade de abordagens que adotam diante de um problema comum: a luta contra o  
racismo. Boas e Firmin, por meio de suas críticas ao determinismo biológico, abriram espaço para uma nova  
compreensão das diferenças humanas, baseadas em fatores sociais e culturais, e não em características  
biológicas inatas. Ao rejeitar as teorias que sustentavam a inferioridade racial, eles forneceram as bases  
para a desconstrução dos estereótipos que justificavam a exploração e a marginalização de populações  
racializadas.  
Boas, ao demonstrar que as diferenças entre os grupos humanos eram fundamentalmente moldadas pelas  
condições ambientais, sociais e históricas, refutou a validade das medições fenotípicas e das médias raciais  
para justificar hierarquias ou a inferioridade de indivíduos, mesmo que seu próprio pensamento refletisse  
certas ambiguidades de seu tempo (Boas, 2004; Williams Jr., 1996). Firmin, por sua vez, ao analisar a história  
da escravização, mostra como a desumanização dos Negros foi um processo intencional, sustentado por  
estruturas jurídicas e filosóficas que visavam justificar a escravidão.  
Du Bois e Hurston, ao se concentrarem na vivência da Negritude, oferecem perspectivas complementares  
e, ao mesmo tempo, contrastantes. Enquanto Du Bois enfatiza o impacto psicológico da exclusão racial,  
articulando a “dupla consciência” como uma forma de alienação resultante do racismo, Hurston rejeita essa  
abordagem introspectiva, afirmando sua identidade com orgulho e resiliência. Para Du Bois, a experiência de  
ser Negro nos Estados Unidos é marcada pela tensão entre ser cidadão e ser excluído da plena participação  
na sociedade. O conceito de “Véu”, que Du Bois desenvolve, reflete essa barreira invisível que impede que os  
Negros sejam vistos como iguais e que limita suas oportunidades de ascensão social. Hurston, ao contrário,  
não se vê limitada por esse véu. Para ela, a Negritude não é uma condição trágica ou alienante, mas uma base  
na qual ela constrói sua força e autonomia.  
Em última análise, o que aproxima esses intelectuais é o desejo comum de desmantelar as bases do  
racismo e afirmar a humanidade dos Negros. No entanto, suas abordagens distintas refletem diferentes  
estratégias de resistência e afirmação. Enquanto Boas e Firmin trabalham no campo da ciência e da história  
para desconstruir as narrativas de inferioridade, Du Bois e Hurston focam nas experiências subjetivas da  
Negritude, oferecendo perspectivas que vão desde a alienação até a autonomia. Essas contribuições são  
fundamentais para entender a complexidade da questão racial e continuam a influenciar o pensamento  
contemporâneo sobre identidade, raça e poder.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
DO DETERMINISMO BIOLÓGICO À AUTONOMIA:  
REFLEXÕES SOBRE RAÇA EM BOAS, FIRMIN, DU BOIS E HURSTON  
Laura Ferrari Cambraia  
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REFERÊNCIAS  
BOAS, Franz. Raça e progresso. In: CASTRO, Celso (org.). Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2004  
[1931]. p. 67–86.  
DU BOIS, W. E. B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021 [1903].  
DU BOIS, W. E. B. As almas do povo negro. Tradução de Alexandre Boide. Ilustrações de Luciano Feijão.  
Prefácio de Silvio Luiz de Almeida. São Paulo: Veneta, 2008.  
DU BOIS, W. E. B. The Study of the Negro Problems. The Annals of the American Academy of Political and  
Social Science, Philadelphia, v. 11, p. 1–23, jan. 1898.  
FIRMIN, Anténor. Hierarquização fictícia das raças humanas. In: CASTRO, Celso (org.). Além do cânone:  
para ampliar e diversificar as ciências sociais. Rio de Janeiro: FGV, 2022.  
HURSTON, Zora Neale. Como eu me sinto uma pessoa de cor [1935; 1943]. Ayé: Revista de Antropologia,  
Acarape, v. 1, n. 1, “FIRE!!! Textos escolhidos de Zora Neale Hurston”, p. 79–86; 91–100, 2019.  
LISS, Julia E. Diasporic Identities: The Science and Politics of Race in the Work of Franz Boas and W. E. B. Du  
Bois, 1894–1919. Cultural Anthropology, Arlington, v. 13, n. 2, p. 127–166, mai, 1998.  
SANTOS, Eufrázia Cristina Menezes. [Resenha de:] Revista de Antropologia, São Paulo, v. 45, n. 1, p. 273–278,  
SANTOS, Hasani. O problema da linha de cor e a diferença cultural: raça, etnicidade e diáspora no século  
XXI. Composição: Revista de Ciências Sociais da UFMS, v. 2, n. 25, p. 03–12, 2021.  
WILLIAMS JR., Vernon J. Rethinking race: Franz Boas and his contemporaries. Lexington: The University  
Press of Kentucky, 1996.  
ZUMWALT, Rosemary L.; WILLIS, William S. Franz Boas and W. E. B. Du Bois at Atlanta University, 1906.  
Transactions of the American Philosophical Society, Philadelphia, v. 98, n. 2, p. i–iii, v, vii–viii, 1–83, 2008.  
Data de submissão: 05/06/2025  
Data de aceite: 07/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025