REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
DO DETERMINISMO BIOLÓGICO À AUTONOMIA:
REFLEXÕES SOBRE RAÇA EM BOAS, FIRMIN, DU BOIS E HURSTON
Laura Ferrari Cambraia
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consciência dual, essa experiência de sempre enxergar a si mesmo pelos olhos dos outros, de medir a própria alma pela régua
de um mundo que se diverte ao encará-lo com desprezo e pena. (Du Bois, 2021, p. 22-23)
A metáfora de “Véu” e o conceito de “dupla consciência” permitem compreender como os estereótipos
se formam, se consolidam e operam no cotidiano, posicionando a maioria dos Negros como inferiores e
incapazes de romper com a barreira simbólica da opressão. Para o autor, essa condição limita a existência
dos Negros à sombra desse Véu, dificultando a percepção de si mesmos como sujeitos plenos e inibindo o
questionamento de sua própria realidade. Essa opressão, descrita como uma dominação severa, estabelece
estereótipos que retratam alguns Negros como passíveis de redenção, enquanto a maioria é vista como
inerentemente inferior, desprovida de autonomia para superar o Véu. A intensidade dessa subjugação
é tão profunda que sufoca o pensamento crítico, dificultando qualquer possibilidade de emancipação ou
libertação.
A teoria da dupla consciência elaborada por Du Bois constitui um dos principais temas abordados pelo autor, a partir do qual,
discute a construção e a plasticidade das identidades negras. O sujeito negro de Du Bois vive uma certa dualidade, encontra-se
dividido entre as afirmações de particularidade racial e o apelo aos universais modernos que transcendem a raça. [...] a dupla
consciência emerge das experiências de deslocamento e reterritorialização das populações negras, que acabam redefinindo o
sentimento de pertença. (Santos, 2002, p. 276)
Na mesma obra, Du Bois apresenta sua defesa da “panaceia da Educação”: ele argumenta que, a partir da
educação, formamos indivíduos que saberão utilizar sua força de trabalho de forma positiva, provando
que não há a necessidade de escravização para apresentar um trabalho cooperativo e de qualidade. Sua
argumentação preocupa-se em apontar as qualidades dos Negros, ao afirmar que, por meio da Educação, é
possível transformar essa camada da população de forma que ela colabore para o crescimento econômico,
especialmente do Sul dos Estados Unidos.
[...] essa formação nos permitirá estimular as noções preconcebidas que fortalecem a sociedade e descartar aquelas que, por
serem pura barbárie, nos tornam surdos aos gritos das almas aprisionadas sob o Véu e à fúria cada vez maior dos homens agri-
lhoados. (Du Bois, 2021, p. 121)
A Educação, então, mostra-se como a melhor forma de solucionar a decadência nacional e encontrar os
direitos de cada um no mundo do trabalho. Isso significa dizer que, ao utilizar a força de trabalho dos Negros
sem escravizá-los, haveria a chance de libertar a sociedade das noções de barbárie e libertar as almas
aprisionadas sob o Véu. Além disso, Du Bois propunha a possibilidade de uma coexistência pacífica entre
brancos e Negros, enfatizando a necessidade de esforço e mente aberta por parte dos primeiros, juntamente
com um forte incentivo à Educação para a população Negra como meio de ascensão do grupo social como
um todo.
5.
ZORA HURSTON: APROXIMAÇÕES E AFASTAMENTOS DE DU BOIS
Zora Neale Hurston e Du Bois oferecem perspectivas distintas sobre a experiência de ser negro nos Estados
Unidos. Ambos relatam momentos de suas infâncias em que tomaram consciência de sua identidade racial e
da exclusão social que essa identidade acarretava:
Mas, mudanças chegaram na família quando eu tinha treze anos e fui mandada para escola em Jacksonville. Eu fui embora de
Eatonville, a cidade dos oleandros, sendo uma Zora. Quando desembarquei em Jacksonville, não era mais a mesma. Parecia que
eu tinha sofrido uma mudança marítima. Eu não era mais a Zora do Condado de Orange, eu era, agora, uma pequena garota de
cor. Descobri isso de algumas maneiras. No meu coração e também no espelho, me tornei negra-garantida para não sair nem
correr. (Hurston, 2019, p. 47)
Eu era pequenino, vivendo nas colinas da Nova Inglaterra, onde as águas escuras do Housatonic fazem seu percurso sinuoso
entre as montanhas da serra de Hoosac e Taghkanic para chegar ao mar. Em uma pequena escola de madeira, algum motivo
levou os meninos e as meninas a comprar belíssimos cartões de visita - a dez centavos de dólar o pacote - e os trocar entre si. A
troca estava divertida, até que uma garota, alta e recém-chegada, recusou meu cartão - e de forma categórica, com um olhar. Foi
quando me veio a percepção quase imediata de que eu era diferente dos demais; ou semelhante, talvez, em termos de coração e
de força vital e de aspirações, mas apartado do mundo deles por um enorme véu. (Du Bois, 2021, p. 21)
No entanto, suas respostas a essa tomada de consciência divergem de maneira significativa. Hurston, em
“Como eu me sinto uma pessoa de cor”, aborda sua Negritude com uma perspectiva de orgulho e resiliência,
enquanto Du Bois explora o conceito, já mencionado anteriormente, de “dupla consciência”, refletindo sobre
o peso psicológico do racismo e a alienação que ele provoca. Essa diferença de abordagem revela as tensões
internas e as diferentes maneiras de lidar com a questão racial.