REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
TECENDO NARRATIVAS NEGRAS: CINEMA, MEMÓRIA
E CRIAÇÃO COM MARIANA JASPE
Clarice Carvalho Maués e Lucas Santos da Mota
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aposentada aqui no Brasil, mas trabalha lá. Acho que quem eu sou no trabalho é isso; foi isso que me trouxe
até aqui. E há também um desejo muito grande de que minha mãe sinta orgulho de mim. Então fico sempre
perguntando: “Mãe, você gostou?”. Meio que fecha um ciclo, não é? Você se torna uma pessoa dessa maneira
para o trabalho, e esse trabalho, de alguma forma, retorna. Acho que retorna nesse lugar de minha mãe
sentir orgulho do que eu faço.
Clarice: Quando você começou no audiovisual, em quem você se inspirou? No que se inspirou? E, hoje,
quem são seus diretores ou diretoras e roteiristas favoritos? Pessoas cujo trabalho você observa e nas quais
consegue se reconhecer e também se inspirar.
Mariana: Eu sempre gostei muito de televisão. Cresci na década de 1990, não sei se tinha muitas referências
de pessoas negras na TV. Glória Maria3 estava ali na televisão, mas era no jornalismo, e eu sempre fui mais
voltada para o entretenimento. Quando colocou TV a cabo lá em casa, eu vi um programa da Oprah, cada
programa era um acontecimento estranhíssimo, no melhor dos sentidos. E aí falei: caramba, uma mulher
negra nesse lugar, fazendo essas coisas, com essa pegada. Mas eu nunca persegui estar na frente das
câmeras. Eu persegui mais um desejo de fazer televisão, sabe? Eu não sabia nem o que era, mas eu queria
dirigir novela. Já que não tinha pessoas ali para me inspirar nesse lugar de backstage, eu me inspirava em um
desejo de fazer aquilo. Me inspira a qualidade do que a pessoa faz, um pouco atrelada talvez à trajetória da
pessoa. E, nesse momento, eu estou muito apegada a uma referência de afeto. A Yasmin Thayná4 para mim é
uma grande referência, ela faz Kbela5, que é um dos melhores curtas-metragens brasileiros. Ela fez Fartura6,
um documentário belíssimo. A Yasmin Thayná me inspira muito.
É muito interessante o cinema do Bruno Ribeiro7 como diretor e como roteirista. Ele escreve e dirige os
próprios curtas. Os irmãos Carvalho8 me interessam muito… Ah, tem outras pessoas, o Zózimo, né? É uma
figura super importante para o cinema. A própria Zezé9, a Ruth de Souza10. Eu acho que tem essas figuras
que são inspiradoras e de gerações completamente diferentes. Tem também alguns diretores que são
importantes para a minha trajetória, para a filmografia, para o que eu acredito no cinema. John Carpenter é
uma figura muito importante, que me influencia no cinema de gênero que tento fazer. E o David Lean, que é
meu mestre no melodrama, no melodrama inglês. “Desencanto” é um dos meus filmes preferidos. São dois
homens brancos, mas são referências de cinema que são muito relevantes para a construção que eu tento
fazer das coisas que eu faço.
Lucas: Você trouxe várias referências negras. Como você entende essa potencialidade? Que potencialidade
traz um cinema escrito e dirigido por pessoas negras?
Mariana: Acho que, quando pensamos no cinema de maneira geral, especialmente nos grandes mercados,
é possível observar que, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, trata-se de um cinema historicamente
gerido e pensado por homens brancos. Ainda que existam narrativas protagonizadas por personagens
diversos, esse cenário se manteve por muito tempo. Depois surge o fenômeno Marvel, e a lógica do cinema
de bilheteria muda um pouco. No entanto, por muitos anos, as maiores bilheterias do cinema de Hollywood
foram, em primeiro lugar, E o Vento Levou, em segundo, Titanic, e, em terceiro, Avatar. O que essas três
histórias têm em comum? São protagonizadas por mulheres. São narrativas centradas em mulheres que
alcançam as maiores bilheterias, e isso revela um movimento, um desejo do público de conhecer essas
histórias. No entanto, eram histórias geridas, escritas e dirigidas por homens. Os homens estavam sempre
no controle.
O cinema brasileiro também é majoritariamente branco, masculino e elitizado, e essas mesmas pessoas
passaram muitos anos contando praticamente todas as histórias, tanto no cinema quanto na televisão. Você
tem Janete Clair, que é a maior de todas, entre autoras e autores, tem Ivani Ribeiro11, tem Glória Perez12, que
são as mais relevantes em volume e em sucesso. E você pode elencar uns dez homens. Você olha e vê três
mulheres e uma dezena, se não mais, de homens. Então, permanece sempre nesse lugar: obras produzidas,
3 Jornalista e apresentadora, uma das mulheres negras pioneiras na televisão brasileira, conhecida por suas reportagens no programa Globo Repórter.
4 Cineasta, roteirista e diretora brasileira. Fundadora do Afroflix, plataforma on-line que disponibiliza produções audiovisuais com ao menos uma área
de atuação técnica ou artística assinada por uma pessoa negra.
5 O filme recebeu o prêmio de Melhor Curta-metragem da Diáspora Africana da Academia Africana de Cinema (AMAA Awards 2017).
6 Curta-metragem que discute a discriminação racial e de gênero a partir do cabelo de mulheres negras.
7 Bruno Ribeiro Bruno é escritor, tradutor e roteirista brasileiro. Ganhador de vários prêmios literários, escreve principalmente nos gêneros terror e
fantasia.
8 Dupla de cineastas brasileiros negros conhecidos por abordar questões raciais e periféricas em suas obras audiovisuais.
9 Atriz, cantora e ativista brasileira, reconhecida como uma das figuras mais importantes da representação negra no cinema e na televisão.
10 Primeira atriz negra a se apresentar no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e uma das grandes pioneiras do cinema brasileiro.
11 Autora de telenovelas brasileiras, atuante principalmente nas décadas de 1960 a 1980 e responsável por diversos sucessos na TV Tupi e na Globo.
12 Autora de novelas da TV Globo e conhecida por abordar temas sociais e culturais contemporâneos em suas tramas.