TECENDO NARRATIVAS NEGRAS: CINEMA,  
MEMÓRIA E CRIAÇÃO COM MARIANA JASPE  
Weaving black narratives: cinema,memory,and creation with Mariana Jaspe  
Tejiendo narrativas negras: cine, memoria y creación con Mariana Jaspe  
1
CLARICE CARVALHO MAUÉS  
ORCID: 0009-0002-0365-1872  
2
LUCAS SANTOS DA MOTA  
ORCID: 0009-0007-6888-5975  
RESUMO  
A entrevista apresenta a trajetória e a visão criativa de Mariana Jaspe, diretora e roteirista soteropolitana,  
que se define como uma “operária do audiovisual”. Mariana discute suas referências, de Bruno Ribeiro e  
Yasmin Thayná ao cinema de David Lean, e reflete sobre a relevância de narrativas criadas por pessoas  
negras, tanto em razão da subjetividade envolvida quanto dos efeitos no mercado e na formação de novas  
profissionais. Comentando seu processo criativo, Mariana enfatiza a observação do mundo como base para  
a construção de personagens complexos, tanto na ficção quanto no documentário. Para ela, boas histórias  
dependem de camadas, subtextos e conflitos, e o audiovisual é uma ferramenta de construção de imaginários  
e de memória coletiva. Mariana também comenta sua atuação como professora, entendendo o ensino como  
parte da formação de novas gerações no audiovisual. Por fim, a entrevistada aponta afinidades entre cinema  
e ciências sociais, destacando o olhar atento ao mundo como ponto comum entre ambos.  
Palavras-chave: Audiovisual negro; Narrativa; Representatividade; Memória.  
ABSTRACT  
The interview presents the trajectory and creative vision of Mariana Jaspe, a filmmaker and screenwriter  
from Salvador, who defines herself as an “audiovisual worker.” Mariana discusses her references, ranging  
from Bruno Ribeiro and Yasmin Thayná to the cinema of David Lean, and reflects on the relevance of  
narratives created by Black people, both because of the subjectivity involved and their effects on the market  
and on the training of new professionals. When commenting on her creative process, Mariana emphasizes  
observing the world as the basis for building complex characters, both in fiction and in documentary. For  
her, good stories depend on layers, subtexts, and conflicts, and audiovisual works are tools for constructing  
imaginaries and collective memory. Mariana also addresses her work as a teacher, understanding education  
as part of the training of new generations in the audiovisual field. Finally, the interviewee points to affinities  
between cinema and the social sciences, highlighting a careful observation of the world as a shared point  
between both fields.  
Keywords: Black audiovisual media; Narrative; Representation; Memory.  
1 Graduanda em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB). Integrou o Programa de Educação Tutorial em Sociologia (PET-SOL) da UnB entre  
2023 e 2025, apoiando as atividades de extensão e comunicação. E-mail: claricemauesdoc@gmail.com  
2 Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e bacharel em Ciências Sociais pela UnB, com habil-  
itação em Sociologia. Atualmente pesquisa a relação entre rap e produção de conhecimento social. Possui interesse de pesquisa nas áreas de Teoria  
Social, epistemologia, hip-hop, raça e juventude. E-mail: motaslucas3@gmail.com  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TECENDO NARRATIVAS NEGRAS: CINEMA, MEMÓRIA  
E CRIAÇÃO COM MARIANA JASPE  
Clarice Carvalho Maués e Lucas Santos da Mota  
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RESUMEN  
La entrevista presenta la trayectoria y la visión creativa de Mariana Jaspe, directora y guionista de Salvador,  
quien se define como una “operaria del audiovisual”. Mariana analiza sus referentes, que van desde Bruno  
Ribeiro y Yasmin Thayná hasta el cine de David Lean, y reflexiona sobre la relevancia de las narrativas  
creadas por personas negras, tanto por la subjetividad implicada como por sus efectos en el mercado y en  
la formación de nuevas profesionales. Al comentar su proceso creativo, Mariana enfatiza la observación del  
mundo como base para la construcción de personajes complejos, tanto en la ficción como en el documental.  
Para ella, las buenas historias dependen de capas, subtextos y conflictos, y el audiovisual constituye una  
herramienta para la construcción de imaginarios y de memoria colectiva. Mariana también aborda su  
desempeño como profesora, entendiendo la enseñanza como parte de la formación de nuevas generaciones  
en el ámbito audiovisual. Por último, la entrevistada señala afinidades entre el cine y las ciencias sociales,  
destacando la mirada atenta al mundo como un punto común entre ambos.  
Palabras clave: Audiovisual negro; Narrativa; Representatividad; Memoria.  
INTRODUÇÃO  
Em novembro de 2023, a programação do “Saberes Negros em Sankofa” — evento acadêmico que integra  
pesquisa e extensão, organizado por discentes e tutores integrantes do PET-SOL — convidou Mariana Jaspe  
para a exibição e o debate de sua obra. Este texto é resultado de uma entrevista realizada por discentes  
integrantes do PET-SOL/UnB, em um diálogo voltado à compreensão da perspectiva de Mariana sobre a  
construção do cinema brasileiro, seu processo criativo e suas referências. A entrevista foi realizada no dia 29  
de novembro de 2023.  
Mariana Jaspe é uma mulher negra, soteropolitana, diretora e roteirista na TV Globo. Uma “operária do  
audiovisual”, como ela se denomina. Além de seu trabalho criativo em curtas como Carne e Deixa, Mariana  
também compartilha seus saberes em oficinas, cursos e workshops, especialmente na área de roteiro. Para  
ela, o audiovisual não é apenas uma ferramenta política de construção de memória coletiva, mas também  
uma forma de registrar o presente e construir novos imaginários.  
ENTREVISTA COM MARIANA JASPE  
Lucas: Obrigado, Mari, pela presença, por estar aqui com a gente e contribuir um pouco com nossa coletânea.  
Para iniciar, consideramos importante conhecer quem é Mariana Jaspe, onde estão suas raízes e como suas  
vivências a levaram ao audiovisual.  
Mariana: Quem eu sou? Nem eu sei. Acho que, para começar, o que me trouxe até aqui foi um pouco do meu  
trabalho como operária do audiovisual. Acredito muito no trabalho e nas minúcias que o envolvem, em me  
preparar, em estudar para o que faço. Quando vou desenvolver um projeto, acabo me tornando uma espécie  
de especialista naquele tema. Quando fiz uma série sobre evangélicos, mergulhei nesse universo: estudei  
muito, estudei o tempo todo. Daqui a pouco, troco de projeto, passo a abordar outro assunto e me torno  
especialista em um novo tema. Eu me dedico muito a saber, para poder fazer com propriedade. Acho que,  
antes de tudo, é preciso ter domínio sobre aquilo de que se está falando, para não cometer erros, e se cercar  
de pessoas que também saibam.  
Acho que, no audiovisual, eu sou isso. Sou uma operária; não acredito muito em hype, fama ou prêmios.  
Todo dia tenho que acordar e trabalhar, sabe? Acho que aprendi muito isso em casa. Sou filha de mãe solo.  
Conheci meu pai aos 15 anos; ele não se interessou por mim, e eu também não me interessei por ele. Sempre  
vi minha mãe trabalhar muito, porque lá em casa havia algo sempre muito forte: a educação. Ela sempre  
foi um norteador. Minha mãe dizia: “O que você tem que ninguém tira de você é o conhecimento”. Sempre  
estudei nas melhores escolas, em escolas particulares caríssimas, porque minha mãe estava ali trabalhando,  
suando. Eu só a via à noite, porque ela saía cedo para trabalhar.  
Morávamos longe do centro, em um lugar que começou como bairro de veraneio, mas a cidade foi crescendo.  
Ela saía muito cedo para trabalhar, e eu fui, por muito tempo, criada por babá e por essas outras pessoas.  
Minha mãe sempre trabalhou muito, e acho que isso marcou profundamente em mim a importância do  
estudo e do trabalho. Minha grande referência nesse sentido, até hoje, é minha mãe. Ela mora fora, está  
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aposentada aqui no Brasil, mas trabalha lá. Acho que quem eu sou no trabalho é isso; foi isso que me trouxe  
até aqui. E há também um desejo muito grande de que minha mãe sinta orgulho de mim. Então fico sempre  
perguntando: “Mãe, você gostou?”. Meio que fecha um ciclo, não é? Você se torna uma pessoa dessa maneira  
para o trabalho, e esse trabalho, de alguma forma, retorna. Acho que retorna nesse lugar de minha mãe  
sentir orgulho do que eu faço.  
Clarice: Quando você começou no audiovisual, em quem você se inspirou? No que se inspirou? E, hoje,  
quem são seus diretores ou diretoras e roteiristas favoritos? Pessoas cujo trabalho você observa e nas quais  
consegue se reconhecer e também se inspirar.  
Mariana: Eu sempre gostei muito de televisão. Cresci na década de 1990, não sei se tinha muitas referências  
de pessoas negras na TV. Glória Maria3 estava ali na televisão, mas era no jornalismo, e eu sempre fui mais  
voltada para o entretenimento. Quando colocou TV a cabo lá em casa, eu vi um programa da Oprah, cada  
programa era um acontecimento estranhíssimo, no melhor dos sentidos. E aí falei: caramba, uma mulher  
negra nesse lugar, fazendo essas coisas, com essa pegada. Mas eu nunca persegui estar na frente das  
câmeras. Eu persegui mais um desejo de fazer televisão, sabe? Eu não sabia nem o que era, mas eu queria  
dirigir novela. Já que não tinha pessoas ali para me inspirar nesse lugar de backstage, eu me inspirava em um  
desejo de fazer aquilo. Me inspira a qualidade do que a pessoa faz, um pouco atrelada talvez à trajetória da  
pessoa. E, nesse momento, eu estou muito apegada a uma referência de afeto. A Yasmin Thayná4 para mim é  
uma grande referência, ela faz Kbela5, que é um dos melhores curtas-metragens brasileiros. Ela fez Fartura6,  
um documentário belíssimo. A Yasmin Thayná me inspira muito.  
É muito interessante o cinema do Bruno Ribeiro7 como diretor e como roteirista. Ele escreve e dirige os  
próprios curtas. Os irmãos Carvalho8 me interessam muito… Ah, tem outras pessoas, o Zózimo, né? É uma  
figura super importante para o cinema. A própria Zezé9, a Ruth de Souza10. Eu acho que tem essas figuras  
que são inspiradoras e de gerações completamente diferentes. Tem também alguns diretores que são  
importantes para a minha trajetória, para a filmografia, para o que eu acredito no cinema. John Carpenter é  
uma figura muito importante, que me influencia no cinema de gênero que tento fazer. E o David Lean, que é  
meu mestre no melodrama, no melodrama inglês. “Desencanto” é um dos meus filmes preferidos. São dois  
homens brancos, mas são referências de cinema que são muito relevantes para a construção que eu tento  
fazer das coisas que eu faço.  
Lucas: Você trouxe várias referências negras. Como você entende essa potencialidade? Que potencialidade  
traz um cinema escrito e dirigido por pessoas negras?  
Mariana: Acho que, quando pensamos no cinema de maneira geral, especialmente nos grandes mercados,  
é possível observar que, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, trata-se de um cinema historicamente  
gerido e pensado por homens brancos. Ainda que existam narrativas protagonizadas por personagens  
diversos, esse cenário se manteve por muito tempo. Depois surge o fenômeno Marvel, e a lógica do cinema  
de bilheteria muda um pouco. No entanto, por muitos anos, as maiores bilheterias do cinema de Hollywood  
foram, em primeiro lugar, E o Vento Levou, em segundo, Titanic, e, em terceiro, Avatar. O que essas três  
histórias têm em comum? São protagonizadas por mulheres. São narrativas centradas em mulheres que  
alcançam as maiores bilheterias, e isso revela um movimento, um desejo do público de conhecer essas  
histórias. No entanto, eram histórias geridas, escritas e dirigidas por homens. Os homens estavam sempre  
no controle.  
O cinema brasileiro também é majoritariamente branco, masculino e elitizado, e essas mesmas pessoas  
passaram muitos anos contando praticamente todas as histórias, tanto no cinema quanto na televisão. Você  
tem Janete Clair, que é a maior de todas, entre autoras e autores, tem Ivani Ribeiro11, tem Glória Perez12, que  
são as mais relevantes em volume e em sucesso. E você pode elencar uns dez homens. Você olha e vê três  
mulheres e uma dezena, se não mais, de homens. Então, permanece sempre nesse lugar: obras produzidas,  
3 Jornalista e apresentadora, uma das mulheres negras pioneiras na televisão brasileira, conhecida por suas reportagens no programa Globo Repórter.  
4 Cineasta, roteirista e diretora brasileira. Fundadora do Afroflix, plataforma on-line que disponibiliza produções audiovisuais com ao menos uma área  
de atuação técnica ou artística assinada por uma pessoa negra.  
5 O filme recebeu o prêmio de Melhor Curta-metragem da Diáspora Africana da Academia Africana de Cinema (AMAA Awards 2017).  
6 Curta-metragem que discute a discriminação racial e de gênero a partir do cabelo de mulheres negras.  
7 Bruno Ribeiro Bruno é escritor, tradutor e roteirista brasileiro. Ganhador de vários prêmios literários, escreve principalmente nos gêneros terror e  
fantasia.  
8 Dupla de cineastas brasileiros negros conhecidos por abordar questões raciais e periféricas em suas obras audiovisuais.  
9 Atriz, cantora e ativista brasileira, reconhecida como uma das figuras mais importantes da representação negra no cinema e na televisão.  
10 Primeira atriz negra a se apresentar no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e uma das grandes pioneiras do cinema brasileiro.  
11 Autora de telenovelas brasileiras, atuante principalmente nas décadas de 1960 a 1980 e responsável por diversos sucessos na TV Tupi e na Globo.  
12 Autora de novelas da TV Globo e conhecida por abordar temas sociais e culturais contemporâneos em suas tramas.  
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escritas e pensadas por esses homens, falando de todos os temas. Chegou um momento, no entanto, em  
que esse jogo começou, ainda que minimamente, a mudar. Passamos a adquirir o direito de escrever, pelo  
menos, sobre as nossas próprias histórias, mas esse é um processo. Ainda nos colocam em certas caixinhas,  
como se só pudéssemos escrever sobre determinados temas, algo de que já estou cansada. Essas caixinhas  
me irritam, e venho tentando rasgá-las por dentro.  
No audiovisual, é possível escrever sobre qualquer coisa. Não estou dizendo que as músicas de Chico Buarque  
que falam sobre mulheres não sejam boas. Elas são. Você pode estudar, observar e também fazer isso. Mas  
é diferente quando você permite que outros olhares contem essas histórias. Há uma diferença de mercado  
e também na própria construção da narrativa. É diferente quando eu filmo uma mulher negra trançando o  
cabelo de outra mulher negra. O que eu busco naquela cena? E o que um homem buscaria? Existe um lugar  
de subjetividade que a gente traz e que enriquece absolutamente qualquer narrativa.  
Há ainda outro aspecto sobre o qual se fala pouco. A partir de 2018, por exemplo, a Rede Globo começou  
a fazer um movimento de contratação de roteiristas negras e negros. Começamos de forma muito inicial,  
muitas vezes como assistentes. Hoje, há muitas pessoas negras na Globo; houve um movimento de mercado  
de maneira geral. Existem pessoas negras em salas de roteiro, escrevendo, chefiando essas salas e dirigindo.  
Ainda são poucas, mas existem. Quem estava na base passou a ascender profissionalmente no audiovisual e  
também socialmente. Existe hoje uma pequena classe média negra do audiovisual. Acabei de comprar meu  
apartamento no Rio de Janeiro, com vista para o Cristo e para o Pão de Açúcar, fruto do meu trabalho. Isso  
também é importante de ser dito. Se antes eu não tinha referências de pessoas negras escrevendo e dirigindo  
na televisão, agora uma nova geração tem.  
Para mim, outro ponto fundamental é a construção de imaginários. Também precisamos começar a falar  
de mercado e de dinheiro. Eu estava até conversando com a Jacque13 sobre isso hoje, porque, quando a  
gente chega nesse espaço, quando eu viro chefe de sala, não posso reproduzir os comportamentos que eu  
julgava. Quando vou montar minha equipe, sempre incluo alguém com menos experiência; geralmente,  
são pessoas negras com menos tempo de mercado, justamente porque tiveram menos oportunidades. E  
escrever não é talento nem dom, é técnica e prática. Todo dia você vai lá e escreve; é como dirigir. No começo,  
você dirige mal, depois, com a prática, dirige bem sem nem perceber. É a mesma coisa: todos os dias você  
está ali escrevendo sua ceninha. Mas isso exige tempo. Portanto, não posso exigir que as pessoas estejam  
extremamente preparadas se elas não tiveram tempo nem oportunidades para se preparar.  
Quando cheguei a esses lugares, entre muitas aspas, de “poder”, de “tomada de decisões”, de “formação de  
equipe”, no meu caso, penso: vamos trazer uma pessoa que veio do mesmo projeto que eu fiz e também  
alguém que ainda não está cem por cento preparada para ser roteirista, mas que possa se formar nesse  
processo. Isso me dá mais trabalho; eu trabalho em dobro. Mas tudo bem, porque vamos formando essas  
pessoas e, daqui a pouco, elas estarão prontas. Entendo que, às vezes, a pergunta vem muito desse lugar da  
narrativa, mas é importante falar sobre essas outras dimensões também. Precisamos falar de mercado, de  
trabalho, de dinheiro e de como essa pequena mudança, ainda muito tímida, de “espera aí, vamos deixar que  
mulheres falem sobre mulheres um pouco, vamos deixar que pessoas pretas falem sobre pessoas pretas  
um pouco?”, gera emprego, gera renda e faz o circuito girar. Acho que a importância, neste momento, está  
justamente aí.  
Clarice: A próxima pergunta é mais voltada para a materialização das ideias e da narrativa, considerando  
também a produção de um cinema negro e a forma como o público se conecta com essas histórias. Como  
você trabalha o processo criativo de construção de personagens, tanto nos filmes de ficção quanto nos  
documentários?  
Mariana: A gente constrói personagens em documentário o tempo inteiro; é também sobre isso. Mas fico  
muito nessa dúvida: você é preta e faz cinema, por exemplo, mas não pode escrever sobre outra coisa? Se eu  
fizer um filme sobre uma personagem branca, deixo de ser preta? Meu cinema deixa de ser negro só porque  
não tem uma pessoa preta na tela? Mas eu estou lá, a minha subjetividade está lá. Tenho pensado muito nisso.  
Acho, porém, que a primeira coisa, independentemente de ser ficção ou documentário, é que boas histórias  
têm bons personagens. Esse é o ponto. E nós construímos bons personagens quando olhamos para o mundo  
e enxergamos o outro, as pessoas. Eu gosto de gente. Aqui não deu tempo, mas, quando vou a um lugar,  
pergunto logo: onde é o inferninho? Onde é o puteiro? Porque você vai para lá, fica bebendo, observando  
13 Antropóloga. Foi professora do Departamento de Sociologia da UnB durante a realização da entrevista e atualmente é professora da Faculdade  
de Saúde Pública da USP.  
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aquelas pessoas e conversando com elas. Adoro fazer isso. Observar como aquela prostituta olha para aquele  
cara, como aquele cara circula por aquele lugar.  
Quando eu era adolescente, tinha doze anos e dava reforço escolar para um menino mais novo do que eu, ele  
tinha nove, e ganhava trinta reais por mês. Em 1998, isso era um dinheirinho bom: dava para ir ao cinema e  
comer fast-food duas vezes por mês. Nessa época, eu ia ao cinema com minha prima e, no final, comprava  
uma casquinha no McDonald’s, sentava em um banco do shopping e ficava olhando a vida das outras pessoas.  
Não chamo isso de fofoca; chamo de pesquisa.  
Clarice: Fazendo observação participante [risos]  
Mariana: Eu estava fazendo observação participante desde muito pequena. Eu ia ao Salão do Reino, das  
Testemunhas de Jeová, com minha avó, e ficava de olho em absolutamente todas as pessoas. Isso me  
interessa porque é assim que a gente constrói bons personagens. Se eu fico dentro da minha casa, achando  
que sei fazer tudo, não vai sair nada. Você até entrega três coisas, mas começa a se repetir.  
Não acho que eu invente um personagem do nada. Vou pegando um pedaço disso, um pedaço daquilo, e  
juntando. Mas chega uma hora em que a sua biblioteca não pode ser só essa; é preciso acrescentar novos  
livros, sabe? Para construir boas histórias, a gente precisa de bons personagens, e, para tê-los, é necessária  
uma perspectiva mais ampla do mundo. Fico muito assustada quando vejo alguns perfis que têm muita selfie  
e apenas isso. A fotografia nasce do gesto de colocar o olho no visor e olhar para o mundo. E agora a gente  
fica virando o visor só para a gente… Estamos deixando de olhar para o mundo.  
Precisamos olhar para o mundo e recortar os fragmentos a partir disso. Para construir boas histórias e  
bons personagens, tanto a ficção quanto o documentário exigem isso. E, quando falo deles, não me refiro  
necessariamente apenas a pessoas, porque uma cidade pode ser um personagem. Brasília é um exemplo  
disso, o seu bairro é um personagem, o ônibus que você pega, o trajeto que nele faz. O que bons personagens  
têm? Eles têm bons conflitos, ambivalências e ambiguidades. Ninguém é só bom, ninguém é só mau, seja na  
ficção, seja no documentário. E eu já falei demais, acabei me perdendo da pergunta.  
Clarice: Não, está ótimo. A pergunta tinha uma parte complementar, que era assim: a título de comparação,  
como você enxerga a diferença de criar uma personagem ficcional e trabalhar com documentários, por  
exemplo, o da Marielle ou da Flor de Lis?  
Mariana: Acho que a diferença básica é que, quando você cria uma personagem, é você quem impõe os  
limites, no sentido de perímetro mesmo: até onde você vai. Você inventou uma história e pode ir até onde  
quiser. Já quando faz um projeto sobre alguém real, lida com a vida de uma pessoa que existe, e os limites  
são estabelecidos por outras variáveis. A principal delas, acredito, é a ética. No documentário, é preciso fazer  
escolhas a partir do que existe, e essas escolhas precisam ser pautadas por um critério ético. Por que escolhi  
isso e não aquilo? Você até pode reorganizar eventos reais para que a história funcione melhor, mas sempre  
orientada por esse sentido ético. Porque, no fim das contas, o que importa é a história e as pessoas que ficam  
pelo caminho.  
Sobre o engajamento do público, há um filme que é referência em muitos aspectos: Corra, de Jordan Peele.  
Por que Corra teve uma bilheteria tão expressiva no mundo inteiro? Não dá para achar que apenas pessoas  
negras foram assistir ao filme. Todo mundo foi. Por quê? O que ele tem, afinal? Trata-se de uma história  
de aventura muito universal: um homem vai conhecer os pais da namorada, chega lá e percebe que é uma  
grande roubada. Pronto, o filme é isso. A partir daí, surgem as camadas adicionais, e são elas que permitem  
novas formas de comunicação.  
O protagonista é um homem negro, mas, no início, Corra parece uma narrativa com a qual qualquer pessoa  
pode se identificar. Até meu companheiro, que é branco, se identificou, porque ele também já foi conhecer  
minha mãe e, possivelmente, foi uma roubada. Claro, existem níveis de roubada. Mas acredito que o grande  
sucesso do filme venha do fato de ser uma história absolutamente universal, enriquecida por múltiplas  
camadas, que acabam tocando as pessoas de maneiras muito individuais.  
Ao longo do filme, outras camadas vão sendo acrescentadas, em um exercício claramente cinematográfico.  
Corra é muito potente porque funciona como uma aula de roteiro. É um roteiro clássico: todos os elementos  
estão ali, mas há um aprofundamento de determinadas questões, que dialogam com pessoas negras no  
mundo inteiro por meio de detalhes e sutilezas. Se você coloca um homem branco no lugar do protagonista  
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negro, forma um casal branco, por exemplo, ainda assim o cinema permitiria essa história. Poderia existir  
até um leilão. No entanto, as questões sociais seriam outras.  
É isso que Corra consegue fazer: criar uma história popular, que se conecta com muitas pessoas e, ao mesmo  
tempo, com aquelas com quem se deseja dialogar no plano da subjetividade. O filme trabalha muito bem esse  
equilíbrio porque conta com figuras muito bem construídas. Há o protagonista, a namorada, o pai e a mãe,  
que têm menos tempo de cena, mas são essenciais. Há os empregados da casa, com presenças menores, e até  
aquele homem que aparece no começo sendo sequestrado e retorna na cena do leilão, com o uso do flash.  
Ele tem pouco tempo de tela, mas um peso enorme na narrativa. De alguma forma, todos apresentam uma  
curva dramática.  
Acho que a diferença entre ficção e documentário passa exatamente por isso: qual recorte da vida de uma  
pessoa você escolhe? Que fragmento da vida real permite que ela funcione dentro do filme, a ponto de deixar  
de ser apenas alguém e se tornar uma construção narrativa? Todo mundo aqui é uma boa pessoa, mas nem  
todo mundo rende uma boa figura para uma história. Há gente ótima, com quem você adora conversar, mas  
que funcionaria muito mal nesse lugar.  
Clarice: Depende de quem for fazer seu roteiro.  
Mariana: É, tem isso também. Mas o lance do documentário é transformar pessoa em personagem.  
Personagem tem curva dramática, começa de um jeito, termina de outro. Toda boa personagem começa  
a história de um jeito e termina a história de outro, né? Corra: um menino, novo, apaixonado, inocente; ele  
termina um assassino. Por sobrevivência, mas ele termina um assassino. E personagens bons têm uma curva  
tão complexa que você não define muito bem. Mudou mais o que? Não se sabe. Têm essas complexidades  
também, você vai complexificando os personagens.  
Lucas: É isso que é tão forte nos filmes dele: como transformar essa história e decidir o que colocar dentro  
da tela para trabalhar a questão racial. Acho isso muito interessante.  
Mariana: Eu não gosto de fazer uma auto-referência, mas a gente assistiu ontem. Em Deixa, o cara chega  
do trabalho e estão falando do servidor. Eles não estão falando do servidor; estão falando de um problema  
deles. Na primeira camada, tratam de um elemento do trabalho dele. Quando ela pergunta se ele está  
fazendo macarrão ou arroz, não é disso que está falando; o que ela está dizendo é: “cara, você sabe o que está  
fazendo?”; “você quer ficar comigo, mas é uma roubada. Você sabe o que está fazendo?”.  
Esse também é o lance quando a gente pensa em roteiro. Quando a gente pensa em mensagem, o que é?  
Emissor e receptor. Você tem a mensagem, que é texto. Você tem um texto, um contexto e um subtexto. Isso  
constrói o sentido. Acho que o grande problema hoje em dia é a questão da formação, porque o mercado  
audiovisual cresceu e tem muita gente que diz que é roteirista, mas não estuda. E, quando a gente não estuda,  
tende a ficar muito no texto. Só dizer “eu te amo”: não tem subtexto, não tem nada, é apenas “eu te amo”. Mas  
é muito mais interessante quando a gente percebe o amor. Quando você se muda do lugar onde morava e  
transfere sua faculdade para ficar com sua namorada, você não precisa dizer que a ama; isso já está dito.  
Não é necessário ficar dizendo “eu te amo”. Todo dia que você acorda com ela, ela sabe que você a ama. Toda  
vez que você diz “cara, eu odeio Brasília”, isso é um “eu te amo”, porque eu odeio Brasília, mas eu estou aqui.  
Isso é subtexto. Isso é uma boa história. Quanto menos camadas os filmes e as produções têm, mais chato  
fica e menos as pessoas se identificam, porque tudo é muito direto.  
Por que você vai ao culto, e o culto é tão interessante? Não sei se vocês são evangélicos ou se já foram a um  
culto, mas ali existe a palavra. O pastor pega um trecho da Bíblia e trabalha em cima dele. Por que isso é tão  
foda? Porque ele parte de uma frase e passa quarenta minutos falando sobre aquilo, e cada pessoa é tocada  
de uma maneira. Cada um tem seu próprio contexto de vida. Ele oferece o texto, mas cada pessoa traz um  
contexto, e é isso que vai criando novos subtextos. Por isso as pessoas se apaixonam pela igreja: ela parece  
estar falando diretamente com cada uma o tempo todo. Toda mensagem ali é individual e intransferível,  
embora o pastor esteja falando para quarenta pessoas.  
É engraçado que, nessa série que a gente estava filmando, todo mundo tinha alguma experiência no culto e  
dizia: “o pastor estava falando comigo”. Isso é foda, porque é exatamente o que um bom filme faz, né? Todo  
culto funciona como um bom filme, porque tem subtexto e todo mundo se engaja.  
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Clarice: É de mover também as pessoas pela emoção, fazer as pessoas sentirem alguma coisa diferente  
mudando dentro delas. Acho que o filme também faz isso com a gente. A gente muda e se transforma quando  
assiste a um bom filme.  
Mariana: E bons filmes têm subtexto, não apenas texto. Só o texto, por si só, não quer dizer muita coisa.  
Pensando em como isso costuma acontecer na novela, por exemplo: a pessoa está lavando o prato e apenas  
ouvindo. O personagem diz “ah, vou tomar uma água”, e você já sabe que ele vai tomar uma água; não precisa  
nem olhar para a TV. Isso acontece para permitir a comunicação com quem está fazendo outras coisas,  
funciona meio como uma companhia. Mas, quando o audiovisual deixa de ser apenas companhia e passa a  
ser algo que te mobiliza, o impacto é muito mais forte. E acho que são justamente essas características que  
produzem esse efeito.  
Lucas: Pastoras e pastores, ótimos diretores e roteiristas.  
Mariana: Ótimos, ótimos, ótimos.  
Clarice: Sobre Carne, ele foi o primeiro curta-metragem brasileiro de terror escrito por uma mulher negra.  
Como foi o processo criativo do roteiro? Como se deu a construção dessas personagens e o tratamento da  
temática racial, trabalhando-a de forma menos explícita, como um subtexto?  
Mariana Jaspe: Essa coisa de ser “o primeiro”… eu fico um pouco incomodada. Inclusive, tenho que tirar  
isso da minha bibliografia. Quando lancei o filme, as pessoas foram pesquisar e viram que não havia outro,  
mas dizer que um filme de 2018 é o primeiro… acho isso um tanto deprimente. Quantos anos de cinema  
brasileiro para que o primeiro filme, de qualquer gênero, dirigido por uma pessoa negra só chegue em 2018?  
Mas, sim, parece que é isso. Supostamente, é.  
Sobre o processo, de modo geral, eu não sei explicar muito bem. Surge uma ideia e eu vou maturando. Eu  
estava fazendo a minha especialização em direção de cinema, tinha um trabalho de conclusão de curso, e  
veio a imagem de uma piscina. Pensei: “Quero filmar numa piscina”. O filme nasce desse desejo. Eu ainda não  
sabia o que iria filmar; poderia ter sido qualquer outra coisa. As imagens foram surgindo… Uma piscina, acho  
que um casal, um deles vai sair e, quando esse casal sair, alguma coisa vai chegar. Fiquei um tempo com isso  
na cabeça e comecei a escrever. Aí eu assisti ao Corra. De que ano é Corra?  
Clarice: 2017.  
Mariana Jaspe: É porque, entre começar a pensar e começar a escrever, demorou um pouco. Fiquei  
processando muito na cabeça antes de colocar no papel. Me inspirei em Corra porque pensei: “quero falar de  
questões raciais, mas não quero tocar nesse assunto diretamente; quero falar sobre isso sem, textualmente,  
falar sobre isso”. Por exemplo, eu sou uma pessoa negra de classe média de Salvador. Em Salvador, se você é  
de classe média, pode passar a vida inteira sem ter nenhum tipo de relação com pessoas negras.  
Ao longo da minha vida toda, tive dois colegas de escola negros. Um era da minha turma, e o outro era um  
menino mais velho, de outra turma. E eu não tinha amigos negros. Fora a minha família, não me relacionava  
com pessoas negras, com exceção do Paulo. Porque os outros eram da minha turma, mas não eram meus  
amigos. Meu companheiro, com quem estou há 18 anos, também é branco. Então você pensa muito a partir  
da sua própria vida, das suas vivências, das suas referências.  
Quando Carne começou a se formar na minha cabeça, a personagem era branca e o rapaz era negro. Depois  
pensei: “não, ela vai ser negra”. Mas, nesse momento, ela morria, e aí eu falei: “não, não vou matar, destroçar,  
uma mulher negra. Peraí”. Mas alguém precisava morrer, então quem morre é ele. Foi um processo muito  
rudimentar de construção dos pequenos elementos da história.  
Depois que a narrativa nasceu, eu dei uma limpada. Hoje, quando assisto, limparia ainda mais: tiraria mais  
diálogos e deixaria mais silêncios e subtextos. Tem coisas que são muito ditas e não precisavam ser. Acho  
que já amadureci um pouco e, por isso, digo que Carne é menos filme e mais um exercício. Há um exercício  
de linguagem ali, muito inspirado no John Carpenter. Existe essa ideia da trilha sonora como personagem,  
algo que eu queria muito que estivesse presente. Então fui trazendo os elementos que desejava e aplicando  
ao roteiro. Foi um processo bastante ligado à construção de gênero.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TECENDO NARRATIVAS NEGRAS: CINEMA, MEMÓRIA  
E CRIAÇÃO COM MARIANA JASPE  
Clarice Carvalho Maués e Lucas Santos da Mota  
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Lucas: Você comentou que queria muito ser professora e tudo mais. Mas você chegou a ser, não? Você deu  
algumas aulas, de roteiro e de direção, certo?  
Mariana Jaspe: Eu já dei aula na Faculdade Estácio de Sá, no curso de Marketing Digital. Dei uma matéria  
sobre Transmídia na ESPM, e hoje em dia dou bastante aula de roteiro, workshop e oficina de roteiro.  
Lucas: Era nisso que eu queria chegar. Acredito que não sejam duas Marianas, né? Como você enxerga que  
seu trabalho, enquanto diretora e roteirista, influencia você em sala de aula? E como você, em sala de aula,  
influencia a sua visão dentro da construção dos seus roteiros, da sua direção de filmes?  
Mariana Jaspe: Eu dei uma aula nesse sábado, em Salvador. Eu tinha que ir lá falar da minha vida profissional  
para, de certa forma, inspirar as pessoas. Aí pensei: o que é que vou fazer? Porque, senão, isso ia ficar muito  
chato. Então, fiz uma coisa meio Quem Quer Ser um Milionário, em que as experiências da vida vão trazendo  
elementos que respondem questões lá na frente. O roteiro é construção de narrativas, está sempre tudo  
relacionado.  
Chegou um momento em que adquiri um certo nível de conhecimento e já consigo transmitir alguma coisa  
para as pessoas, nessa ideia de que a gente precisa formar outras pessoas. Tem muita gente com muito  
desejo, mas que não consegue organizar as próprias ideias, por exemplo. Por isso, gosto muito de dar aula  
de roteiro, inclusive uma aula que criei a partir de Corra: elementos básicos da narrativa de ficção a partir do  
filme, porque ele é muito preciso na narrativa clássica.  
O roteiro também me ajuda quando vou dar aula, porque vou construindo o pensamento para tentar tornar  
a exposição mais interessante. E ir para a sala de aula influencia diretamente o meu trabalho, porque é  
muito bom parar para pensar sobre o que você está fazendo. Eu estou conversando com vocês agora e fico  
avaliando o que estou dizendo. Amanhã, se for falar algo parecido, já vou elaborar melhor. Estar na sala de  
aula também é ouvir as pessoas. Às vezes, você tem uma ideia muito fechada sobre alguma coisa, e os alunos  
fazem você repensar um conceito. É tudo muito misturado, tudo muito junto, e eu gosto muito dessa troca;  
acho muito rica.  
Clarice: Tem mais uma última pergunta. A gente queria saber como você pensa que a construção de  
narrativas em documentários pode contribuir para as ciências voltadas ao entendimento da sociedade,  
como, no nosso caso, a sociologia e a antropologia.  
Mariana Jaspe: Acho que vocês têm um faro muito importante para o mundo, um olhar bastante específico.  
Estava falando com você agora: para fazer audiovisual, é preciso jogar esse olhar para o próprio audiovisual.  
Pensar a construção das imagens, um olhar sobre o tempo, sobre nós, para construir filmes também.  
Agora, fazendo um trabalho sobre evangélicos, fui há umas três semanas gravar em um culto e fiquei  
pensando: “cara, eu vou comprar uma câmera e ficar filmando cultos”. Porque tive essa dificuldade, voltando  
um pouco no tempo, de encontrar material de arquivo bom, com um olhar interessante. O que aparece são  
imagens de arquivo do jornalismo do SBT ou da Globo, mas é sempre um olhar muito de fora para dentro, o  
que acaba trazendo um tom bastante caricato.  
Hoje, percebo que há muita produção das próprias igrejas. Elas produzem muito para as redes sociais,  
transmitem diversos cultos. Esse tipo de imagem, daqui a trinta anos, vai marcar muito o que era esse tempo:  
como essas igrejas produziam suas imagens e construíam o imaginário. Eu adoro observar essas igrejas a  
partirdasimagens, massintofaltadefilmarisso, deregistraressemomentosemumolharmeramentecurioso.  
Acho que demorei um pouco para entender, mas hoje já consigo perceber como seria esse enquadramento. E  
isso é antropologia, é sociologia também.  
Então, essa união é importante para entender o tempo presente, mas também para deixar um registro, quase  
como escrever na pedra, para daqui a alguns anos, para que possamos nos compreender como sociedade.  
Do jeito que a gente é hoje, tudo é imagem: TikTok, vídeo, não sei o quê… É uma forma muito interessante de  
pensar, de se comunicar e também de se entender.  
Lucas: É uma questão de memória também.  
Mariana: Uma questão de memória!  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TECENDO NARRATIVAS NEGRAS: CINEMA, MEMÓRIA  
E CRIAÇÃO COM MARIANA JASPE  
Clarice Carvalho Maués e Lucas Santos da Mota  
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REFERÊNCIAS  
BULBUL, Zózimo. Abolição. Brasil: Zózimo Bulbul Produções, 1988. Documentário.  
CARPENTER, John. Halloween – a noite do terror. Estados Unidos: Compass International Pictures, 1978.  
Filme.  
CLAIR, Janete. Roque Santeiro. Direção: Gonzaga Blota et al. Brasil: TV Globo, 1985. Telenovela.  
JASPE, Mariana. Carne. Salvador: [s.n.], 2018. Curta-metragem.  
JASPE, Mariana. Deixa. Salvador: [s.n.], 2023. Curta-metragem.  
Marielle – o documentário. Direção: Caio Cavechini. Brasil: Globoplay, 2020. Documentário.  
PEELE, Jordan. Get out. Estados Unidos: Blumhouse Productions; Universal Pictures, 2017. Filme.  
watch?v=LGNIn5v-3cE. Acesso em: 12 maio 2025.  
WINFREY, Oprah. The Oprah Winfrey Show. Chicago: Harpo Productions, 1986–2011. Programa de televisão.  
Data de submissão: 05/06/2025  
Data de aceite: 07/11/2025  
Data de publicação: 15/12/2025