REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
POR UMA POLÍTICA EXTERNA INCLUSIVA:
DIÁLOGO COM FABRÍCIO PRADO SOBRE IGUALDADE RACIAL
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E (Augusto): Um grande exemplo foi o que o senhor nos deu agora. Você mostrou várias fotos5.
E (Jacqueline): Impossível se reconhecer!
E (Augusto): Exato! Como mulheres, nenhuma conseguiu se reconhecer ali, e, como pessoas negras, se
reconheceu uma depois de quantos anos?
F.P.: Eu estava preparando um discurso e surgiu essa dúvida: “Ah, já teve? Não teve? [Ministro de Relações
Exteriores negro]”. Fiquei sabendo há pouco tempo que já tivemos um chanceler negro por meio da pesquisa
de uma colega nossa, a Rafaela Seixas6. Pelos retratos pintados e fotos da galeria de ex-ministros [que fica
no Gabinete do MRE], são difíceis de identificar. Lembrei das fotos do Machado de Assis nos livros de ensino
médio. Ele parecia uma pessoa branca, né? Eu não o via como uma pessoa negra, nunca imaginei na época.
Engraçado, porque ao ler os livros você percebe que há um olhar diferente ali, mas, olhando a foto, eu pensava:
“pessoa branca, né?”. Enfim, há sub-representação, como também é o caso das mulheres. Muito claramente,
é uma falha! Não é só no Brasil. É uma carreira que, no resto do mundo, é muito masculina, branca, de elite.
E (Hiann): Eu gostaria de continuar perguntando sobre a sua trajetória, com relação ao período depois que
o senhor entrou no Itamaraty, depois que o senhor conseguiu alcançar o cargo de terceiro secretário. Quais
foram as principais dificuldades que o senhor enfrentou e percebeu que ocorreram porque o senhor era
negro? E que, caso fosse uma pessoa branca, não teria que passar por aquilo ou teria passado de maneira
mais fácil?
F.P.: Foi muito interessante porque, quando eu entrei na faculdade, não havia cotas nem programa de ações
afirmativas. Eu não tive oportunidade de me deparar com essa questão, mas, na época, eu já tinha alguma
consciência. Quando fui prestar concurso no Rio Branco, já existia um programa de ações afirmativas do
Itamaraty.Foiumprocessosubjetivoepsicológicomuitoimportanteparamim,nosentidodereconhecimento.
Não foi simples, porque, apesar de ter vindo de uma família com ascendência mais popular, não saber de onde
vem sua família é muito sintomático. Geralmente, as pessoas citam cinco gerações de antecedência; eu não
faço a menor ideia. Nunca quis fazer os testes genéticos, porque tenho uma certa resistência à ideia de definir
a identidade a partir de um teste. Mas, querendo ou não, estudei em uma escola particular e tive um grau de
apoio que eu sabia ser um privilégio considerável no contexto brasileiro. Assim, ao me candidatar para o
programa de ações afirmativas, duas coisas pesaram muito para mim: do ponto de vista racial, eu não tinha
dúvida de que compartilhava, ainda que em menor grau do que pessoas que não estão no espectro pardo,
a identificação como pessoa negra. Não tinha dúvida de que eu me alinhava ao programa, ao seu objetivo e
ao público que buscava atender. Ao mesmo tempo, eu tinha um mínimo de estrutura e sabia claramente que
não queria ter prioridade em relação aos outros. Eu participei, fui classificado, mas não recebi a bolsa. Até
hoje não sei exatamente, nem procurei saber, qual foi o critério.
E (Jacqueline): E já funcionava como uma banca de heteroidentificação naquele período?
F.P.: Acho que sim, mas não tinha esse nome. Não tenho certeza. Eles levavam vários elementos em
consideração, mas, no fundo, acho que era.
E (Augusto): Tem uma data aproximada desse período em que o senhor fez a entrevista?
F.P.: Foi em 2008 ou 2009, porque eu passei no concurso em 2009. Quando eu entrei no Itamaraty, meu
primeiro chefe era um diplomata negro também, o Embaixador Silvio Albuquerque7, que tem um livro
referência sobre o combate ao racismo na política externa brasileira, o que ajudou muito nessa adaptação
à instituição. O MRE é uma instituição muito específica, não é muito explícita em quase nada, e eu tinha a
sensação de estar fora do padrão em várias dimensões: classe, raça, posicionamentos políticos e ideológicos.
5 O exemplo dado refere-se à antessala onde ocorreu a entrevista, cujas paredes exibiam retratos de diversos ex-ministros das Relações Exteriores.
Os integrantes do PET observaram que todos os retratados eram homens brancos.
6 Rafaela Seixas Fontes é diplomata de carreira, subchefe da Divisão de Saúde Global e mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com
dissertação sobre a política externa sueca sob uma perspectiva negra e abolicionista. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA) e foi bolsista do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco. Serviu na Embaixada do Brasil no Cairo, onde liderou o projeto que levou
o grupo Olodum ao Egito. Idealizou e coordenou a Mentoria Mônica de Menezes Campos (2021 a 2024), responsável pela aprovação de 15 diplomatas
negros, entre eles 8 mulheres negras. Atuou na Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia, onde desenvolveu o projeto sobre a feminização
do HIV, “Sem pudor e com poder”. É coautora do livro DiplomatAs (2023), com o texto “Mônica de Menezes Campos (1957–1985)”. Também possui
formação em teatro, com experiência no Teatro do Oprimido. Informações fornecidas pela própria Rafaela Seixas Fontes, em comunicação pessoal à
autora em maio de 2025.
7 Silvio José Albuquerque e Silva nasceu em 1961, em Niterói (RJ), e concluiu o Curso de Preparação à Carreira de Diplomata em 1987. É formado
em Ciências Jurídicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e possui mestrado em Política Internacional pela Universidade
Livre de Bruxelas, na Bélgica (CRE aprova novo embaixador no Quênia; indicação vai a Plenário).