REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
A INTERSECCIONALIDADE DESDE O BRASIL: TEIAS DE RESISTÊNCIA ENTRE
O PENSAMENTO DE FEMINISTAS NEGRAS BRASILEIRAS
Marília Passos Apoliano Gomes e Jhêniffer Lopes da Silva
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Gonzalez traz ainda o conceito lacaniano de infans (aqueles que não têm voz) para se referir a pessoas que
são objeto de discurso, mas não têm a oportunidade de se expressar. Isso não ocorre por falta de desejo, mas
porque são silenciadas por aqueles que se consideram autorizados a falar em seu nome. O silenciamento gera
uma infantilização e uma negação da plena humanidade. Como Lélia destacava, a população negra no Brasil
sempre foi representada a partir de uma ótica branca, patriarcal e capitalista. Devido à desumanização e à
exploração de diversas formas, seu pensamento, sua cultura e sua voz foram desconsiderados por séculos,
estando sujeitos a uma ideologia de pacificação sustentada pelo mito da democracia racial, de modo que é
essencial tomar as rédeas de sua própria narrativa.
Lembramos que o legado colonial, que continua a atuar como uma colonialidade que afeta o ser, o saber
e o poder (Quijano, 2005), tem colocado as pessoas negras na posição de “Outro”, aquele que é descrito a
partir de um suposto “eu” universal, caracterizado como branco, cristão e cisheteropatriarcal. A proposta
da Amefricanidade sugere que as análises levem em conta as opressões de maneira interligada e sejam
fundamentadas nos feminismos negros, criando suas narrativas únicas. Nesse contexto, Gonzalez estabelece
um diálogo com Simone de Beauvoir (1960), filósofa francesa que argumenta que as mulheres foram vistas
como o “Outro” em relação aos homens, compreendidas enquanto o que falta aos homens, definidas como
um “Outro absoluto ou universal”. Gonzalez refuta essa ideia, afirmando que não há uma “mulher universal”,
pois as experiências das mulheres negras diferem significativamente das vivências das mulheres brancas.
Dessa forma, a abordagem interseccional fundamenta-se no feminismo diaspórico, representando sujeitos
em coletividade que, ao longo da história, foram vistas como os “Outros dos Outros”, negadas de humanidade
e voz: infans, de acordo com a análise de Gonzalez. As mulheres que compõem esse grupo não o fazem por
uma essência inata, mas por relações sociais estabelecidas ao longo do tempo, enfrentando uma “dupla
ausência” de poder (Kilomba, 2019): ao não serem brancas nem homens, elas se opõem tanto à branquitude
quanto à masculinidade, criando um terceiro espaço onde é ainda mais desafiador estabelecer reciprocidade
e empatia, ao que recordamos a solidão da mulher negra e a fala de Sojourner Truth (“E eu não sou uma
mulher?”, Truth apud hooks, 2019). Elas são objeto de discursos, mas raramente têm a oportunidade de se
pronunciar, o que torna essencial a realização de pesquisas que partam de suas perspectivas, experiências
e vivências. Essas experiências não são universais, mas profundamente enraizadas nas identidades e nos
contextos socialmente construídos, que, muitas vezes, são erroneamente considerados como “neutros” ou
“naturais”.
Nesse sentido, o conceito de infans em Gonzalez, que denuncia a negação da voz e da humanidade, dialoga
diretamentecomodispositivoderacialidadeformuladoporSueliCarneiro(2005),noqualonegroéconstruído
como “não ser” diante de um “eu” branco universal. As autoras revelam como o processo de desumanização
opera também no campo do conhecimento, produzindo o epistemicídio: a eliminação simbólica e material
dos saberes negros e indígenas, que sustenta a colonialidade do poder e do saber. Ao articularem corpo, voz
e conhecimento como dimensões inseparáveis, Gonzalez e Carneiro afirmam a urgência de uma política do
enegrecimento do saber, que recupere as memórias e epistemes silenciadas pela modernidade colonial.
3.3 Lugar de fala para existir: a potência da fala enquanto resistência ao epistemicídio
Nesta reflexão sobre interseccionalidade, é importante incluir Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e
pesquisadora. Ela tem desempenhado um papel fundamental na edição e circulação de estudos relacionados
ao antirracismo, principalmente por meio da curadoria da coleção Feminismos Plurais, que busca expandir
os debates para além do âmbito acadêmico. Na obra “O que é lugar de fala?”, Ribeiro não se anuncia autora
do conceito e resgata de maneira cuidadosa aspectos históricos e políticos, argumentando que essa noção
deve ser abordada a partir da perspectiva feminista:
Não poder acessar certos espaços acarreta em não se ter produções e epistemologias desses grupos nesses espaços; não poder
estar de forma justa nas universidades, meios de comunicação, política institucional, por exemplo, impossibilita que as vozes
dos indivíduos desses grupos sejam catalogadas, ouvidas, inclusive, até de quem tem mais acesso a internet. O falar não se res-
tringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. [...] Quando falamos do direito à existência digna, à voz estamos falando de
locus social, de como esse lugar imposto dificulta a possibilidade de transcendência. (Ribeiro, 2017, p. 66)
Impedir alguém de se expressar ou agir como se estivesse ouvindo essa pessoa, sem de fato ouvir, é, na
prática, privá-la do direito a uma vida digna. Nesse contexto, o termo “lugar” se refere a uma posição social
determinada pelas hierarquias e pelas diferenças marcadas que existem na sociedade. A fala vai muito além
de simplesmente formar frases, conforme destaca Ribeiro, pois expressar-se é uma forma de existir, resistir
e reexistir. Em um país onde a população negra e jovem enfrenta genocídio, Ribeiro enfatiza que ter voz é