REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
A EDUCAÇÃO COMO ESPAÇO DE LUTA E ESPERANÇA: ENTREVISTA COM O PROFESSOR
GERSEM BANIWA SOBRE COSMOLOGIAS E INTERCULTURALIDADE NO CAMPO EDUCACIONAL
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Maria Luiza dos Santos Bernardes, Mylena Karine Dos Santos Malheiros
e Ricardo Xavier Silveira
Até hoje continuo assim. Sou docente concursado, cumpro todas as minhas obrigações e minha carga
horária, mas não abro mão de militar e de liderar processos de luta por direitos indígenas, notadamente
no campo da educação. Atualmente, lidero a luta pela educação escolar indígena no Brasil. Sou um dos
coordenadores do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, o maior movimento nessa área. E sigo
participando ativamente. Hoje, felizmente, isso já é melhor compreendido. Mas essa questão nasce do
pensamento dualista ocidental: ou você milita ou você estuda. Isso vem junto com uma visão objetivista e de
conhecimento neutro. É claro que a geração anterior ainda acredita nisso. Mas a nova geração já tem outra
percepção, outra visão, outras atitudes.
Para finalizar, uma formação acadêmica sem prática, sem militância, para mim, é uma formação bastante
esvaziada, com pouco sentido. Nunca quis ser apenas um teórico, um intelectual. Meu objetivo sempre foi
ajudar os povos indígenas, inclusive o meu povo, e contribuir com o país. E contribuir é ação política, é
militância, é trabalho. Então, não consigo separar teoria e prática. Continuo pensando e agindo assim.
Embora eu também admire quem consegue se dedicar apenas à parte teórica, mesmo quando a realidade
exige ação e transformação, isso não tem nada a ver comigo. Eu não aguento ser só isso. Enquanto estudo,
trabalho e batalho. Enquanto reflito, pesquiso. Mas também busco soluções concretas para os desafios do
dia a dia, mesmo que com pequenas contribuições locais ou micro-locais, que ajudam a mudar a realidade.
Eu me orgulho muito disso. Fui secretário de educação do meu município, São Gabriel da Cachoeira (AM),
por três anos. E, embora pareça pouco tempo para um secretário, me orgulho de ter feito em três anos o
que muita gente não faz em dez ou vinte. A gente conseguiu transformar concretamente a educação para
indígenas, uma educação feita com e pelos próprios indígenas. Transformamos professores rurais e escolas
rurais em professores indígenas e escolas indígenas, com carreiras específicas para professores indígenas
no magistério indígena, dois anos após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB,
1996), a primeira lei brasileira que consagrou a educação escolar indígena específica, diferenciada, bilíngue
e intercultural.
Pergunta 4 (Mylena): Na introdução4, o senhor comenta que, nas escolas que frequentou na infância, só
havia professores não indígenas dando aula. Por isso, era notória uma diferença, não só social e política,
mas uma diferença cósmica. Poderia explicar melhor essa ideia de “distância cósmica”? E o senhor acha,
observando que a presença indígena ainda é pequena, especialmente no corpo docente, que esse sentimento
de distância cósmica ainda permanece?
Gersem Baniwa: O que chamo de “distância cósmica”, num sentido amplo, é a distância entre mundos,
entre tradições, entre ontologias e epistemologias. Diferentes não quer dizer antagônicos, apenas diferentes.
Não estou falando apenas de elementos culturais, mas de mundos no sentido mais amplo. Mundos culturais,
mundos constituídos por civilizações. O Ocidente europeu construiu seu mundo com suas concepções,
princípios, valores, saberes, fazeres e virtudes. E os povos indígenas construíram outros mundos, que não
têm relação com o mundo europeu. Para ilustrar essa distância cósmica, pensemos na diferença entre a
ciência europeia e as ciências indígenas. O Ocidente separou radicalmente o ser humano da natureza. Esse
é o pensamento dominante e, por isso, vivemos hoje uma tragédia: o ser humano destrói brutalmente a
natureza porque não se enxerga como parte dela. Já os povos indígenas se veem como parte da natureza.
Para nós, destruir a natureza é destruir a si próprio. O indígena é natureza.
Na academia, essa diferença também é visível. O que é ciência? Como é concebida? No Ocidente, ciência
é algo baseado na objetividade e na racionalidade humana. O sujeito é o homem. Para os indígenas, não é
assim. A sabedoria não pertence aos homens, mas à natureza. Aprendemos com a natureza. A natureza é a
fonte de sabedoria. Os xamãs praticam isso: acordados ou em sonhos, eles aprendem com a natureza. Então,
desde a concepção do cosmo, da vida e da ciência, há uma distância enorme. E essa distância, infelizmente,
não mudou. Ainda não avançamos no processo de reduzi-la. O caminho seria o da interculturalidade e da
intercientificidade, ou do ecumenismo antropológico, nas palavras de Alcida Ramos. Mas não avançamos
concretamente.
Pelo menos estamos conseguindo pautar o debate, e isso já é alguma coisa. Antes, isso nem entrava na pauta.
Era considerado heresia. Hoje, o debate está acontecendo nos corredores e nas salas de aula. Já se discute
epistemologias indígenas, mesmo sob protestos de muitos docentes conservadores. Alguns ficam furiosos,
acham que isso é absurdo, uma aberração. Para eles, “epistemologia” só pode existir no mundo ocidental.
Então, sim, a distância cósmica continua grande e a aproximação entre esses mundos ainda é pequena.
Mas o fato de o debate existir já é um começo. A tendência é que a interculturalidade e a intercientificidade
4 Mylena refere-se à introdução da tese de doutorado do professor Gersem Baniwa: Educação para manejo e domesticação do mundo entre a escola
ideal e a escola real: os dilemas da educação escolar indígena no Alto Rio Negro