REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
LÉLIA GONZALEZ E A DEMOCRACIA SOCIAL DE BASE AMEFRICANA:
RESISTÊNCIA E LEGADO NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO
Izabele Caroline do Nascimento Canario
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É nesse contexto de apagamento e resistência que Lélia Gonzalez formula a categoria de amefricanidade,
uma proposta teórica, política e epistêmica que desloca o centro do pensamento social latino-americano
(Gonzalez, 1988b, p. 76). Mais do que uma identidade, a amefricanidade constitui-se como uma chave de
leitura que reconhece os povos negros e indígenas das Américas como fundadores de saberes, culturas e
modos de existência historicamente silenciados. Trata-se de pensar a identidade cultural negra a partir de
um espaço político e histórico chamado América Latina, no qual Gonzalez cunha o termo amefricanidade
(Gonzalez, 1988b, p. 70–71).
Essa formulação também questiona o uso de expressões como Afro-American e African-American, que, ao
restringirem o termo “América” aos Estados Unidos, excluem as experiências negras e indígenas da América
Latina e do Caribe. Gonzalez propõe, assim, uma reconfiguração desse imaginário geopolítico, sugerindo
termos como “ameríndios” ou “americans” para marcar a presença ativa e insurgente desses povos na
construção do continente. A amefricanidade, nesse sentido, conecta práticas culturais e espirituais diversas,
como os referenciais jamaicanos, akan e iorubás, para construir uma cartografia crítica do saber a partir do
Sul Global (Gonzalez, 1988b, p. 76).
Essa proposta, contudo, não se reduz a um reposicionamento cultural. Trata-se de uma recusa à lógica da
invisibilização e de um gesto de refundação epistemológica, que reposiciona corpos, saberes e territórios
racializados como fundamentos de uma nova leitura da América Latina. Uma leitura que nasce das favelas,
quilombos, terreiros e comunidades indígenas e se opõe radicalmente ao universalismo branco da teoria
social dominante.
A crítica de Gonzalez ao mito da democracia racial insere-se nesse mesmo movimento. O Brasil foi ensinado
a se ver como uma nação cordial, mestiça e sem conflitos — um país que teria acolhido povos diversos e,
em um suposto abraço fraterno, construído uma sociedade harmônica. Gonzalez rompe essa fantasia com
coragem e lucidez, convocando-nos a encarar o espelho trincado da nossa história. Para ela, a democracia
racial é uma invenção que não apenas mente, mas fere. Essa ideologia, articulada por nomes como Gilberto
Freyre, funciona como um véu que encobre desigualdades raciais profundas e organiza a exclusão como se
fosse destino (Gonzalez, 1979, p. 8).
Gonzalez não rejeita a mestiçagem enquanto experiência concreta, mas denuncia seu uso como ferramenta
política de apagamento. Transformada em discurso de conciliação racial, a mestiçagem atua como um
mecanismo que tolera a presença negra apenas quando esta se aproxima da estética e da moralidade
da branquitude. Nessa lógica, a diferença é permitida desde que domesticada, enquanto a resistência é
silenciada, marginalizada e caricaturada (Gonzalez, 1984 [1985], p. 235).
Essa lógica também atravessa a escola, que muitas vezes educa para o conformismo. Ao mesmo tempo
em que ensina que o Brasil é gentil, pacífico e sem conflitos, reforça estereótipos sobre o povo negro —
“passividade, infantilidade, incapacidade intelectual” (Gonzalez, 2018, p. 36). Gonzalez confronta esse
currículo de silenciamento com a história viva das resistências negras: quilombos, revoltas populares,
terreiros e corpos insurgentes. No centro de sua crítica não está o passado distante, mas o presente negado,
o agora adormecido.
A modernização brasileira, especialmente após o golpe de 1964, aprofunda a exclusão da população negra.
O chamado “milagre econômico” inchou as cidades, mas não as tornou mais justas. Gonzalez chama esse
processo de “inchaço urbano”: um crescimento sem estrutura, que empurra a população negra para favelas
sem saneamento, sem acesso à saúde e sem direito à cidade (Gonzalez, 2022, p. 19). Essa geografia da
exclusão materializa uma segregação racial persistente, que separa fisicamente dominantes e dominados
desde os tempos coloniais.
Ainda assim, nas margens emergem formas criativas de reinvenção da vida. Gonzalez valoriza espaços como
a Frente Negra Brasileira (FNB), o Teatro Experimental do Negro (TEN), os terreiros, os cordões, os afoxés
e as escolas de samba. São territórios onde a cultura também é política e onde o cotidiano se transforma
em gesto de resistência. Nessas práticas, ela identifica o embrião de movimentos mais organizados, como o
Movimento Negro Unificado (MNU), do qual participou ativamente (Gonzalez, 2022).
No mundo do trabalho, Gonzalez revela o que o capitalismo tenta esconder: sua estrutura se sustenta nos
corpos negros, especialmente nos das mulheres. Inspirada em Marx, mas recusando o apagamento da raça,
mostra como a população negra forma o “exército de reserva” — uma massa descartável, precarizada e
desprotegida (Gonzalez, 1979). Ela classifica esse processo em três tipos (A, B e C), todos marcados pela