REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
SILENCIAMENTO E RESISTÊNCIA: LÉLIA GONZALEZ E O APAGAMENTO
EPISTEMOLÓGICO DE INTELECTUAIS NEGRAS NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO
Izabele Caroline do Nascimento Canario
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portanto, implica não apenas revisar quem está ausente, mas repensar as estruturas que sustentam tais
ausências como naturais ou inevitáveis.
Diante da constatação de que o cânone sociológico está estruturado a partir de uma lógica excludente,
eurocêntrica e androcêntrica, que silencia saberes produzidos no Sul Global, torna-se fundamental repensar
não apenas os autores consagrados, mas os próprios fundamentos que sustentam o que é legitimado como
teoria.ÉnessecontextoqueseinsereapropostadeAlatas(2010),aoformularanoçãodediscursosalternativos
como caminhos para a reconfiguração epistêmica das ciências sociais. Para o autor, essas alternativas não se
limitam a críticas externas ao mainstream, mas propõem a incorporação ativa de tradições intelectuais não
ocidentais na formulação de conceitos e teorias.
O ponto central da argumentação de Alatas é que os discursos alternativos não devem ser vistos como
rejeições totais da ciência social ocidental, mas como formas de descolonização epistemológica que
valorizam o pensamento situado, criativo e endógeno, especialmente em contextos historicamente marcados
pela dependência intelectual. As tradições de conhecimento não ocidentais podem ser consideradas como
fontes potenciais para conceitos e teorias, uma possibilidade real de universalização e internacionalização
das ciências sociais a partir de outras geografias do saber (Alatas, 2010, p. 229-230).
Esse desafio de reconfigurar o campo das ciências sociais por meio de epistemologias situadas não se limita
ao plano teórico. A dissertação de Elen Santos (2022) demonstra como o apagamento se concretiza no âmbito
do ensino do Pensamento Social no Brasil. A autora mapeou programas de pós-graduação em Ciências
Sociais e Sociologia que oferecem a disciplina Pensamento Social no Brasil e/ou Sociologia Brasileira,
analisando ementas disponíveis e conduzindo entrevistas em profundidade com docentes responsáveis
pelas disciplinas. As entrevistas revelam nuances significativas desse processo: dos sete professores que
ministram ou já ministraram a disciplina, apenas dois afirmaram utilizar textos de Gonzalez em suas aulas.
A maioria conhece a autora, mas opta por não incluí-la em seus programas por não dominar suficientemente
sua obra. Mesmo entre os que a utilizam, o uso é parcial, limitado a alguns textos específicos2.
Contudo, como conclui Santos (2023, p. 173), a maior parte dos interlocutores mantém forte apego aos
intelectuais canônicos e clássicos do Pensamento Social Brasileiro, o que impede uma compreensão mais
abrangente e plural dos(as) pensadores(as) sociais que abordaram criticamente as questões raciais e o
racismo estrutural inerente à sociedade brasileira. Assim, a pesquisa evidencia que o racismo epistêmico não
apenas organiza bibliografias, mas também molda escolhas docentes, reafirmando a centralidade de autores
homens, brancos e eurocentrados como referências universais e incontestáveis — lógica que reproduz, no
espaço formativo, o padrão de exclusão já criticado por Alatas (2010).
Esse padrão de reconhecimento seletivo também aparece em uma pesquisa citada por Brandão (2005), na
qual cientistas sociais brasileiros foram convidados a indicar os principais autores do século XX. As respostas
recaíram quase exclusivamente sobre nomes como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo
Faoro, Florestan Fernandes, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna. Nenhum autor negro foi mencionado
como referência fundante da teoria social brasileira. Esse dado ilustra como o campo científico nacional
permanece atrelado a um imaginário racializado do conhecimento, no qual a branquitude ainda ocupa o
lugar exclusivo de legitimidade teórica.
A persistente exclusão de intelectuais negros no campo da sociologia brasileira vai além de uma falha
curricular: ela revela a base ideológica que sustenta a construção do saber legítimo nas Ciências Sociais. A
suposta neutralidade desse conhecimento hegemônico é contestada por Figueiredo e Grosfoguel (2007),
que, com base em Santiago Castro-Gómez, mobilizam o conceito de epistemologia do “ponto zero”. Essa
noção descreve o esforço da ciência ocidental em apagar seu próprio lugar de enunciação, apresentando-
se como objetiva e universal, quando na verdade se ancora em uma posição geopolítica e corpo-política
específica: branca, europeia, masculina e letrada (Figueiredo; Grosfoguel, 2007, p. 38).
No contexto brasileiro, essa lógica se expressa no que Clóvis Moura identificou como preconceito acadêmico,
uma estrutura que sustenta o apagamento sistemático das contribuições negras à produção de conhecimento.
Esse apagamento não é acidental, mas opera como base do mito da democracia racial, ideologia que
encobre o conflito racial e, ao mesmo tempo, legitima a marginalização contínua da população negra. Esse
mito atua como um mecanismo de naturalização da desigualdade, operando tanto nas instituições quanto
2 Uma das entrevistadas, identificada como professora Marta, observa que as ideias de Gonzalez permitem articular as dimensões de raça, gênero e
classe, enriquecendo a compreensão da formação nacional, tema central do Pensamento Social no Brasil. Já o professor Fernando destaca a impor-
tância da autora para a consolidação de uma tradição intelectual capaz de desafiar a perspectiva hegemônica do campo, reconfigurando abordagens
sobre temas e objetos de estudo anteriormente tratados de maneira restrita e equivocada (Santos, 2022, p. 168–170).