REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
A DIVISÃO RACIAL DO TRABALHO E DO ESPAÇO
NA OBRA DE LÉLIA GONZALEZ
Sofia Maria do Carmo Nicolau e Natalino Neves da Silva
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No trecho acima, além de abordar a divisão racial do trabalho, Gonzalez também aborda a ideia de “lugar”,
ou seja, propriamente o “lugar de negro”. Esse elemento, além de presente e fundamental na elaboração
do seu pensamento, está intrinsecamente ligado a suas elaborações acerca da divisão racial do trabalho e
do espaço. Esse lugar social a que são relegadas as pessoas negras é um efeito não apenas do Brasil, mas
também de outras sociedades3 em que a raça e o racismo são organizadores das relações sociais. Segundo a
reflexão da autora:
O pessoal aqui diz: “Não existe racismo no Brasil”, e o povo complementa da seguinte maneira: “Porque o negro se põe no seu
lugar”. Além de uma discriminação, uma divisão racial do trabalho que a gente percebe tranquilamente, há uma divisão racial
do espaço também. Aí nós vamos perceber o seguinte: que a atuação da polícia, da repressão policial, ela é típica… Então veja: no
nosso caso, quando eu falava de semelhança com a África do Sul, a polícia brasileira ataca as favelas, invade as casas das pessoas,
rouba os objetos das famílias e, vejam, a questão do desemprego, da própria crise econômica brasileira, como ela é articulada
com o racismo. (Gonzalez, 2020, p. 290-291)
Gonzalez aborda, em sua obra, que a população negra não conhece ou reconhece esse lugar. Ainda assim,
ela é continuamente compelida a ele por meio do racismo e de seus mecanismos: a divisão racial do trabalho
e do espaço. Nos termos de Fanon (2008), não é o negro que cria a inferiorização e sim o racista. Isso,
entretanto, não impede a exploração dos meandros desse lugar social que demarca a condição do negro no
Brasil. Ao longo do século XX, estudiosos direcionaram sua atenção para os efeitos da raça no processo de
estratificação. O lugar de negro definido por Gonzalez nomeou as tentativas de compreender de que forma a
raça e o racismo distribuem diferencialmente os grupos raciais na estrutura de classes.
Há, ainda hoje, um amplo debate acerca da relação entre raça e classe. Para muitos estudos, raça e classe
são sinônimos, enquanto outros compreendem que a raça é uma forma de vivenciar a classe, sendo ambas
distintas, porém interligadas. Partindo da segunda concepção, as contribuições de Gonzalez evidenciam a
correlaçãoentreraça,classeemobilidadesocialnoBrasil.Talcompreensãoresultadosdiálogosestabelecidos
com o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg (2005), que defendia que a classe seria a posição estrutural do
indivíduo sob a mediação do sistema capitalista, enquanto a estratificação seria uma distribuição desigual
de privilégios. A raça, no entanto, funciona como um critério em si para determinar as posições no sistema.
Em suas palavras:
A proposição mais geral é a de que a raça opera como um critério com uma eficácia própria no preenchimento, por não bran-
cos, de lugares na estrutura de classes e no sistema de estratificação social. Para esclarecer em que sentido a raça opera como
critério independente, a distinção de Poulantzas entre os dois aspectos da reprodução ampliada das classes sociais, isto é, a
reprodução das posições (lugares) de classe e a reprodução e distribuição dos agentes entre essas posições deve ser lembrada. A
raça, como atributo socialmente elaborado, está relacionada principalmente ao aspecto subordinado da reprodução das classes
sociais, isto é, a reprodução (formação qualificação - submissão) e distribuição dos agentes. Portanto, as minorias raciais não
estão fora da estrutura de classes das sociedades multirraciais, em que as relações de produção capitalista - ou quaisquer outras
relações de produção no caso são dominantes. Outrossim, o racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada
através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos
nas relações de produção e distribuição. (Hasenbalg, 2005, p. 120-121)
Em Lugar de negro, Gonzalez e Hasenbalg trazem uma proposição semelhante sobre a importância da raça
ao se pensar o processo de produção e reprodução das classes na sociedade:
A raça, como atributo social e historicamente elaborado, continua a funcionar como um dos critérios mais importantes na dis-
tribuição de pessoas na hierarquia social. Em outras palavras, a raça se relaciona fundamentalmente com um dos aspectos da
reprodução das classes sociais, isto é, a distribuição dos indivíduos nas posições da estrutura de classes e dimensões distributi-
vas da estratificação social. (Gonzalez; Hasenbalg, 1982, p. 88-89)
Raça, portanto, é um fator importante no processo de distribuição na estrutura de classes, existindo
no Brasil uma distribuição desigual de oportunidades entre negros e brancos. A distribuição regional,
o acesso à educação e a estrutura de emprego são constantemente atravessados pelos mecanismos de
barragem à mobilidade social de pessoas negras por meio do racismo. Márcia Lima (2002) realiza um
caminho semelhante ao elaborar um estudo acerca do mercado de trabalho como revelador e reprodutor
de desigualdades. A socióloga mobiliza a categoria nativa “lugar” para se referir às posições ocupacionais
de pessoas negras no mercado de trabalho, relacionando dados estatísticos ao imaginário popular acerca
da distribuição ocupacional por raça. Esse imaginário sobre o “lugar” do negro não apenas aponta para as
posições no mercado de trabalho, mas atua também como perpetuador de desigualdades.
Como aponta Bourdieu (1996; 2013), muitas vezes o lugar no espaço social coincide com o lugar no espaço
físico. Ou seja, a posição que os agentes ocupam dentro do sistema de distribuição de capitais materiais,
3 Gonzalez, como militante negra e intelectual afrodiaspórica, reflete sobre a violência colonial racial que incide sobre a divisão racial do espaço e
do trabalho não só no Brasil como também na África do Sul. Ressalta-se que, no momento histórico de sua análise, esse país do continente africano
enfrentava o sistema político oficial apartheid, regime de segregação racial.