REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
A CRÍTICA MARXISTA NEGRA
AO CAPITALISMO RACIAL
João Pedro Inácio Peleja
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A burguesia que liderou o desenvolvimento do capitalismo era oriunda de grupos étnicos e culturais específicos; os proletaria-
dos europeus e os mercenários dos principais Estados, de outros; seus camponeses, de outras culturas; e seus escravos, de mun-
dos totalmente diferentes. A tendência da civilização europeia no capitalismo não era, portanto, homogeneizar, mas diferenciar
– exagerar diferenças regionais, subculturais e dialéticas, tornando-as diferenças ‘raciais’. (Robinson, 2023, p. 112)
Em outras palavras, o eurocentrismo inventou a figura da pessoa negra. A partir daí, as ideologias de diferença
racial antinegro se tornaram fonte da ordem hierárquica moderna. O capital depende da continuidade dos
processos de racialização como política local/global para que assim ele se expanda através da exploração e da
opressão sistemática de sujeitos subalternizados. A dominação, a exploração e/ou o extermínio das pessoas
racializadas são aspectos fundantes para a produção e reprodução do sistema capitalista, que adquire um
caráter imperialista e global em sua formação sócio-histórica, por meio da continuidade da servidão feudal
e senhorial na indústria urbana pela burguesia moderna.
A propósito, a eliminação ou redução da escravidão jamais esteve no horizonte das classes dominantes nas
sociedades feudal e capitalista. Quando os moldes da concentração da indústria urbana, organizada à base do
trabalho livre ou assalariado, foram estabelecidos pela burguesia europeia ocidental, seu intuito foi liberar
parte dos servos somente para escravizá-los novamente sob a forma do trabalho assalariado. A grande
novidade foi que a escravização se tornou negra. Então, a ordem social passou a ser racializada no mundo
transatlântico, expressão da divisão internacional do trabalho vicejada pelo colonialismo e imperialismo
ocidentais. No limite, pode-se chamar esses processos, em outros termos, de colonialidade do ser e do
saber, a partir da perspectiva mais contemporânea das críticas pós-colonial e decolonial (Bernardino-Costa;
Grosfoguel, 2016).
Em suma, o conceito de capitalismo racial ou racista refere-se a um projeto civilizatório gestado na
Europa desde a formação da sociedade feudal, que assujeita as pessoas racializadas à concepção de sujeito
universal e determina qual forma de conhecimento é considerada válida, inferiorizando os demais saberes
e práticas produzidos por grupos não hegemônicos no sistema-mundo moderno/colonial. As contribuições
de Robinson permitem preencher a lacuna racial na tradição marxista, que se inicia nos primórdios da
industrialização no século XIX, conduzindo a intelligentsia radical negra, manifestada nos atos de resistência
coletiva à opressão racial e à exploração econômica, ao cerne das reflexões sobre a práxis revolucionária,
conforme é reconstituído na segunda e terceira parte da obra.
As lutas sociais e resistências são direcionadas a outros parâmetros inerentes às comunidades negras, como
o aquilombamento e as rebeliões, a ocupação nos bairros e nas escolas segregadas, o panafricanismo etc. Ou
seja, são formas de resistência e de contrapoder que não se passam apenas pelo discurso de classe social,
sejam elas exercidas por intelectuais históricos, como W.E.B. Du Bois, C.L.R. James e Richard Wright, sejam
elas exercidas por pessoas comuns. Isto é, uma teoria da consciência negra cuja visão metafísica do mundo é
tida como parte da resistência das populações africanas e afrodiaspóricas.
É uma tarefa difícil reconstruir a densa historiografia estadunidense e europeia, principais fontes de
informação deste livro, e assim elaborar uma nova teoria social capaz de interpretar os antagonismos raciais
na sociedade capitalista. Esse é o traço de excelência de Cedric Robinson. Não poderia deixar de mencionar
que esta é uma tradução tardia para o português do Brasil, feita após 40 anos da publicação original nos
Estados Unidos. Para além de seu robusto arcabouço teórico-metodológico, os leitores da comunidade
lusófona, especialmente os do Brasil, encontrarão uma obra implicada e engajada na luta de emancipação
anticolonial, anti-imperialista e anticapitalista.