A CRÍTICA MARXISTA NEGRA  
AO CAPITALISMO RACIAL  
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JOÃO PEDRO INÁCIO PELEJA  
ORCID: 0000-0003-2150-5457  
Muito embora W.E.B. Du Bois e outros intelectuais tenham sido influenciados pela tradição marxista e  
contribuído significativamente para uma agenda normativa e igualitária radical nas primeiras décadas do  
século XX, especialmente no que refere ao estudo empírico sistemático da interação estrutural entre raça  
e classe na modernização capitalista e de seus ideais de liberdade, é importante reconhecer que Du Bois foi  
um dos pioneiros na elaboração de uma leitura crítica da sociedade de seu tempo que já concebia o peso da  
opressão racial na organização social e – territorial – sob o capitalismo.  
Em algumas de suas obras, o autor demostrou como a situação do negro na sociedade americana após  
a abolição e a Guerra Civil não poderia ser compreendida de maneira dissociada da lógica imposta pelo  
capital, da exploração da força de trabalho, da apropriação do excedente socialmente produzido e do racismo  
antinegro. No entanto, foi apenas nos anos 1980, naquela mesma sociedade, que surgiram interpretações  
voltadas especificamente à compreensão do caráter racial do capitalismo e às problematizações acerca da  
lacunas operacionais do marxismo perante o racismo.  
Em Marxismo negro: a criação da tradição radical negra, obra seminal escrita por Cedric Robinson (2023),  
é possível realizar uma análise detalhada e minuciosa tanto do processo de formação do capitalismo  
racial quanto da resistência negra à dominação e à expropriação burguesa da Europa Ocidental aos países  
periféricos. O principal objetivo desta obra é articular os eixos do marxismo, concebido na civilização  
ocidental, com o radicalismo negro produzido desde o século XVI cuja relevância epistemológica, ontológica  
e política ainda deverá ser restabelecida na tradição marxista em defesa do humanismo das populações  
africanas e afrodiaspóricas, como aponta o pensador estadunidense. Sendo dividida em três partes e doze  
capítulos, Marxismo negro enseja um outro olhar sobre o racismo antinegro na sociedade contemporânea.  
As origens e os padrões da ordem hierárquica racial são analisados na primeira parte da obra. Optamos por  
expor o conceito de capitalismo racial ou racista, mediante suas bases materiais e contextos, para organizar  
a leitura da argumentação de Robinson, que se segue desde o primeiro até o último capítulo. Um importante  
ponto para o qual deve ser chamada a atenção é o foco do autor no trabalho agrícola durante a transição do  
feudalismo ao capitalismo – a acumulação primitiva, diferente da maior parte das interpretações marxistas  
que colocam como ponto de partida o trabalho industrial desde seus primórdios no século XIX. Essas  
escolhas são a marca da influência de Brodel e Wallerstein em sua investigação.  
Na constituição da civilização europeia pela sociedade feudal, entre os séculos XIII a XVI, os povos europeus  
e africanos foram subordinados à escravização por uma primeira burguesia, predecessora da burguesia  
moderna, para trabalhar nas plantations de açúcar, nas indústrias e na exploração de minas. O recurso à  
mão de obra escrava foi utilizado de forma racional como estratégia da primeira burguesia para estancar  
os efeitos colaterais de guerras, das crises materiais e de conflitos sociais daquele período histórico. Como  
veremos adiante, a escravização ganhou novos dimensionamentos na economia capitalista, sendo de crucial  
importância para a formação desse modo de produção.  
O intelectual negro assim exprime a composição social e ideológica determinada pela civilização ocidental:  
1 Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), com estágio de pesquisa (doutorado sanduíche) na Virginia Polytechnic Institute and  
State University (Virginia Tech), Estados Unidos. Compõe a equipe de pesquisadores do projeto “Para onde vai o trabalho humano na era digital?” e é  
membro do Grupo de Pesquisa Trabalho e Teoria Social (GPTTS), ambos da UnB.  
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A burguesia que liderou o desenvolvimento do capitalismo era oriunda de grupos étnicos e culturais específicos; os proletaria-  
dos europeus e os mercenários dos principais Estados, de outros; seus camponeses, de outras culturas; e seus escravos, de mun-  
dos totalmente diferentes. A tendência da civilização europeia no capitalismo não era, portanto, homogeneizar, mas diferenciar  
– exagerar diferenças regionais, subculturais e dialéticas, tornando-as diferenças ‘raciais’. (Robinson, 2023, p. 112)  
Em outras palavras, o eurocentrismo inventou a figura da pessoa negra. A partir daí, as ideologias de diferença  
racial antinegro se tornaram fonte da ordem hierárquica moderna. O capital depende da continuidade dos  
processos de racialização como política local/global para que assim ele se expanda através da exploração e da  
opressão sistemática de sujeitos subalternizados. A dominação, a exploração e/ou o extermínio das pessoas  
racializadas são aspectos fundantes para a produção e reprodução do sistema capitalista, que adquire um  
caráter imperialista e global em sua formação sócio-histórica, por meio da continuidade da servidão feudal  
e senhorial na indústria urbana pela burguesia moderna.  
A propósito, a eliminação ou redução da escravidão jamais esteve no horizonte das classes dominantes nas  
sociedades feudal e capitalista. Quando os moldes da concentração da indústria urbana, organizada à base do  
trabalho livre ou assalariado, foram estabelecidos pela burguesia europeia ocidental, seu intuito foi liberar  
parte dos servos somente para escravizá-los novamente sob a forma do trabalho assalariado. A grande  
novidade foi que a escravização se tornou negra. Então, a ordem social passou a ser racializada no mundo  
transatlântico, expressão da divisão internacional do trabalho vicejada pelo colonialismo e imperialismo  
ocidentais. No limite, pode-se chamar esses processos, em outros termos, de colonialidade do ser e do  
saber, a partir da perspectiva mais contemporânea das críticas pós-colonial e decolonial (Bernardino-Costa;  
Grosfoguel, 2016).  
Em suma, o conceito de capitalismo racial ou racista refere-se a um projeto civilizatório gestado na  
Europa desde a formação da sociedade feudal, que assujeita as pessoas racializadas à concepção de sujeito  
universal e determina qual forma de conhecimento é considerada válida, inferiorizando os demais saberes  
e práticas produzidos por grupos não hegemônicos no sistema-mundo moderno/colonial. As contribuições  
de Robinson permitem preencher a lacuna racial na tradição marxista, que se inicia nos primórdios da  
industrialização no século XIX, conduzindo a intelligentsia radical negra, manifestada nos atos de resistência  
coletiva à opressão racial e à exploração econômica, ao cerne das reflexões sobre a práxis revolucionária,  
conforme é reconstituído na segunda e terceira parte da obra.  
As lutas sociais e resistências são direcionadas a outros parâmetros inerentes às comunidades negras, como  
o aquilombamento e as rebeliões, a ocupação nos bairros e nas escolas segregadas, o panafricanismo etc. Ou  
seja, são formas de resistência e de contrapoder que não se passam apenas pelo discurso de classe social,  
sejam elas exercidas por intelectuais históricos, como W.E.B. Du Bois, C.L.R. James e Richard Wright, sejam  
elas exercidas por pessoas comuns. Isto é, uma teoria da consciência negra cuja visão metafísica do mundo é  
tida como parte da resistência das populações africanas e afrodiaspóricas.  
É uma tarefa difícil reconstruir a densa historiografia estadunidense e europeia, principais fontes de  
informação deste livro, e assim elaborar uma nova teoria social capaz de interpretar os antagonismos raciais  
na sociedade capitalista. Esse é o traço de excelência de Cedric Robinson. Não poderia deixar de mencionar  
que esta é uma tradução tardia para o português do Brasil, feita após 40 anos da publicação original nos  
Estados Unidos. Para além de seu robusto arcabouço teórico-metodológico, os leitores da comunidade  
lusófona, especialmente os do Brasil, encontrarão uma obra implicada e engajada na luta de emancipação  
anticolonial, anti-imperialista e anticapitalista.  
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  
BERNARDINO-COSTA, Joaze; GROSFOGUEL, Ramón. Decolonialidade e perspectiva negra. Sociedade e  
Estado, Brasília, v. 31, n. 1, p. 15 - 24, jan./abr. 2016.  
ROBINSON, Cedric J. Marxismo negro: a criação da tradição radical negra. São Paulo: Perspectiva, 2023.  
Data de submissão: 26/05/2025  
Data de aceite: 24/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025