TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS, AVANÇOS E
RETROCESSOS NA ACADEMIA
Black trajectories: paths, advances and setbacks in academia
Trayectorias negras: caminos, avances y retrocesos en la academia
LUANE BENTO DOS SANTOS1
ORCID: 0000-0003-2071-9373
RESUMO
Este texto foi proferido na Conferência de abertura do III Seminário do Coletivo Negro do IESP-UERJ,
realizado no dia 16 de setembro de 2024, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. Durante o evento, tive como objetivo apresentar eventos da minha trajetória
pessoal/individual e relacioná-los com as políticas dos movimentos negros na sociedade brasileira e com a
produção intelectual do campo da Sociologia da Educação. Dessa forma, usei como recursos na apresentação
imagens fotográficas de eventos relevantes da minha trajetória de vida e acadêmica, assim como as relacionei
com a produção teórica dos campos da Educação, das Relações Raciais e da Sociologia da Educação. Ao
longo da conferência, abordei a relevância da educação para a população negra e como a minha trajetória
acadêmica e profissional esteve e está atrelada a um projeto político coletivo das comunidades negras.
Palavras-chave: Trajetórias Escolares; Educação das Relações Étnico-raciais; Sociologia da
Educação; Ações Afirmativas
ABSTRACT
This text was delivered at the Opening Conference of the III Seminar of the Black Collective of IESP-UERJ,
held on September 16, 2024, at the Institute of Social and Political Studies (IESP) of the Rio de Janeiro State
University. During the event, my objective was to present episodes from my personal/individual trajectory
and relate them to the political agendas of Black movements in Brazilian society, as well as to the intellectual
production within the field of the Sociology of Education. To this end, I used photographic images of
significant moments in my life and academic trajectory, relating them to theoretical contributions from the
fields of Education, Race Relations, and the Sociology of Education. Throughout the conference, I addressed
the relevance of education for the Black population and discussed how my academic and professional
trajectory has been, and continues to be, tied to a collective political project of Black communities.
Keywords: School Trajectories; Education of Ethnic-Racial Relations; Sociology of Education;
Affirmative Actions
RESUMEN
Este texto fue presentado en la Conferencia de Apertura del III Seminario del Colectivo Negro del IESP-
UERJ, celebrado el 16 de septiembre de 2024 en el Instituto de Estudios Sociales y Políticos (IESP) de
la Universidad del Estado de Río de Janeiro. Durante el evento, mi objetivo fue exponer episodios de mi
1 Luane Bento dos Santos é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense. Doutora em Ciências Sociais
pela PUC-Rio, mestra em Relações Étnico-raciais pelo CEFET-RJ, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela UERJ e bacharel em
Biblioteconomia e Documentação pela UFF. Desenvolve pesquisas no campo da Educação das Relações Étnico-raciais, Etnomatemática, Ensino de
Ciências Sociais e Antropologia Social. Diretora e roteirista dos curta-metragens “Memórias Trançadas” (2022) e “Manifesto Omolu” (2025). É membra
da Associação Brasileira de Pesquisadoras/es Negras/os (ABPN) e da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS).
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trayectoria personal/individual y relacionarlos con las políticas de los movimientos negros en la sociedad
brasileña, así como con la producción intelectual del campo de la Sociología de la Educación. Para ello,
utilicé imágenes fotográficas de momentos significativos de mi trayectoria vital y académica, estableciendo
vínculos con los aportes teóricos de los campos de la Educación, de las Relaciones Raciales y de la Sociología
de la Educación. A lo largo de la conferencia, abordé la relevancia de la educación para la población negra y
analicé cómo mi trayectoria académica y profesional ha estado, y continúa estando, vinculada a un proyecto
político colectivo de las comunidades negras.
Palabras clave: Trayectorias Escolares; Educación de las Relaciones Étnico-Raciales; Sociología de
la Educación; Acciones afirmativas
INTRODUÇÃO
Bom dia a todos, todas e todes! Meu nome é Luane Bento dos Santos, como bem falou o Antônio. Fico feliz
pelo convite da Maria Carolina; a gente estudou juntas no IFCH/UFRJ2, e eu “enganava” que dava aula de
Didática e Prática de Ensino das Ciências Sociais. Enfim, fiquei feliz com o convite e aceitei meio que em cima
da hora, mas vamos lá! Para mim, sempre é muito difícil pensar em falar de trajetória, e também teve outra
questão que eu mencionei: “Olha, não sou socióloga nem cientista política, eu sou antropóloga e já vou me
sentir ‘estrangeira’”. Minhas pesquisas estão nesse caminho, mas acho que é importante; e, enquanto uma
pessoa que pertence a várias organizações do movimento negro, é sempre importante vir aos espaços que o
movimento negro cria nas instituições ou então àqueles de que faço parte.
Eu também gosto de me pensar como uma andarilha. “Você pode dar aula numa ONG que é lá na Central
do Brasil no domingo?” Outro dia parei para pensar e falei: “Gente, com a questão do ativismo político, eu
já fui a tantos lugares, já palestrei, efetivamente já participei de muitas atividades nesse tempo que tenho de
academia”. Então, coloquei o título da mesa na minha apresentação (Trajetórias negras: percursos, avanços
e retrocessos na academia), e a minha proposta é apresentar um pouco dessa minha trajetória de vida e
trajetória educacional a partir de imagens fotográficas dos meus familiares e da minha vida enquanto pessoa
que exerce vários papéis sociais: acadêmica, mãe, religiosa, fruto do movimento negro educador. E aí eu acho
que uma grande referência é a obra da excelentíssima professora Nilma Lino Gomes. De fato, isso aqui3 diz
muito sobre eu ser fruto do movimento negro da universidade.
Se, na universidade, ainda há resistência para colocarmos a educação das relações étnico-raciais e para
estudarmos autores negros, no movimento negro as teorias racistas, eugenistas, e autores como Lélia
Gonzalez, Steve Bantu Biko, Abdias do Nascimento e Virginia Bicudo foram autores aos quais tive acesso
logo no início. Foi esse movimento negro, os coletivos de estudantes negros, dos quais fiz parte, que foram
me formando. Tenho muito orgulho dessa trajetória porque, de fato, foi nesse espaço que me formei e que se
tornou possível pensar até os temas das minhas pesquisas, inclusive aquelas que se distanciaram um pouco
das Ciências Sociais4.
E aí, trazendo a referência de uma intelectual que não passou por uma educação formal-institucional, que
é a mãe Aninha do Ilê Axê Opô Afonjá, uma casa tradicional do Candomblé, ela dizia algo que minha família
também realizou. Hoje, analisando, percebo como minha família está inserida em um contexto de movimento
negro cultural, seja pela religiosidade, seja pelas festas que meu irmão organizava com temática afro em
Niterói (RJ). Mãe Aninha tem uma fala que os filhos (membros) do Ilê Axé Opô Afonjá repetem: “Quero meus
filhos com anel no dedo”. E sabemos que, no Brasil, a história dos bacharéis e o uso do anel por áreas como o
Direito compõem um contexto reconhecível.
Na minha família, esse projeto também existia, e hoje quero enfatizar esse projeto educacional, coletivo, das
famílias negras. Eu sou essa pessoa que a família negra sonhou: alguém com um anel no dedo. Só que, para
mim, que sou uma das primeiras a cursar o nível superior, o anel no dedo terminava com a conclusão da
graduação. Mas a gente descobre que não é só a graduação: existe o mestrado, o doutorado, e, depois do
mestrado, surge a cobrança para fazer o doutorado; depois do doutorado, a cobrança para prestar concursos
para o magistério superior.
Bom, vamos lá. Sempre começo esse tipo de apresentação pela minha linhagem feminina: minha avó materna,
dona Maria das Neves, esta aqui, sobre quem produzi e lancei, em março de 2022, um filme no qual a trago
2 Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
3 Retirei da bolsa o livro Movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação da intelectual Nilma Lino Gomes.
4 Refiro-me à escrita da dissertação de mestrado realizada no campo da etnomatemática.
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para dialogar com meu tema de pesquisa no doutorado, no mestrado e na graduação: estética corporal, em
particular as manipulações dos cabelos crespos nas famílias negras. O nome do filme é Memórias Trançadas5
e nele trabalho muito com a imagem dela e com as pessoas indo buscá-la como uma referência – no que se
refere à cabeleireira especializada na estilização dos cabelos com tranças e ferro quente. Abaixo está sua
imagem:
Fotografia 1 – Dona Maria das Neves, avó materna da autora
Fonte: Acervo pessoal da autora, 1980.
Esta outra senhora é a minha avó paterna, dona Maria de Lourdes Pacheco, que também traz a questão da
religiosidade e da sua afirmação.
Fotografia 2 – Dona Maria de Lourdes Pacheco, avó paterna da autora
Fonte: Acervo pessoal da autora, 1994.
Enfim, trago essas duas mulheres porque ninguém existe sem seus antecedentes, sem seus antepassados. São
duas mulheres negras, e é interessante dizer que a minha avó paterna, dona Lourdes, só pôde ser alfabetizada
aos 68 anos. Isso está atrelado a uma sociedade em que a educação, principalmente para a população negra,
passou a ser acessada tardiamente, porque essa não era preocupação6. Então aos 68 anos, ela foi alfabetizada
5 Memórias Trançadas é um curta-metragem experimental que aborda os cuidados das famílias negras na manipulação dos cabelos e procura retratar
as relações de afeto e o legado ancestral africano nessa prática cultural. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nHCoaUvAkIU. Acesso em:
18 maio 2025.
6 De acordo com Dermeval Saviani (2000) e Helena Bomenny (2007), as elites brasileiras e o Estado não tiveram, nas primeiras décadas da república,
a preocupação com a expansão da educação para a grande massa. De acordo com Saviani, as formas de classes de alunos também constituíam um
projeto de refinada seleção, uma escola pensada para as elites. Nesse contexto, a educação das massas populares não estava presente conforme
informa Bomenny (2007) em seu artigo. Em outras palavras, não fazia parte dos interesses das elites a expansão da educação. Somente na Reforma
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e hoje a minha avó tem 92 anos. A minha avó materna pôde ser alfabetizada anteriormente porque desde
muito nova, desde os 12 anos, trabalhava como empregada doméstica. Então, ela, dentro desse contexto,
aprendeu a ler para poder servir melhor7.
É importante falar da modalidade de ensino EJA (Educação de Jovens e Adultos) e da relevância que ela tem
para esses jovens e adultos que não puderam estudar. Foi nessa modalidade que minha avó se alfabetizou, no
bairro chamado Mútua, no município de São Gonçalo (RJ). Na época, ela já era uma costureira que trabalhava
para todo o bairro, era muito conhecida e sempre falava disso com muita dor — a questão da escolaridade.
A minha avó materna tem cinco filhos vivos; na realidade, teve sete, mas duas filhas gêmeas faleceram.
Minha avó paterna também teve cinco filhos. Essas duas mulheres também tentaram, em uma sociedade
sem as políticas públicas que temos hoje para a permanência dos estudantes. Políticas às quais eu também
não tive acesso, porque, na minha época de escola, não havia distribuição de livros didáticos, uniformes,
alimentação ou transporte. Ainda assim, elas tentaram dar o mínimo de escolarização para os seus filhos8.
Então, veja bem, é um projeto que não se encerra “porque não conseguimos e acabou!”. Depois vêm meus
pais incentivando a mim e meu irmão a estudar.
Fotografia 3 – Autora e sua mãe, Claudete Bento, na defesa de monografia no curso de Ciências Sociais da UERJ
Fonte: Acervo pessoal da autora, Rio de Janeiro, 2010.
FORMAÇÃO ACADÊMICA, RELIGIOSIDADE E OCUPAÇÃO
Fiz bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e
bacharelado em Biblioteconomia e Documentação pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Tenho duas
formações em nível de graduação, sou mestre em Relações Étnico-raciais pelo CEFET-RJ (Centro Federal de
Educação e Tecnologia Celso Sucksow da Fonseca) e integrei a primeira turma do mestrado do CEFET-RJ,
bem como a primeira turma de ações afirmativas da UERJ. Também tenho doutorado em Ciências Sociais
pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).
Tenho uma filha de treze anos que é iniciada9 nas religiões de matrizes africanas, em especial no candomblé,
e ela é a minha mais velha; fez santo junto comigo e compomos o mesmo barco. Ela é minha dofonitinha de
Paulista, em 1920, que a educação das massas populares foi colocada e conduzida por Sampaio Dória. No entanto, a escola proposta era “aligeirada
e simples”.
7 CUNHA, Olívia Maria. Criadas para servir: domesticidade, intimidade e retribuição. In: CUNHA, Olívia; GOMES, Flávio; SW. Quase-cidadão: histórias
e antropologias da pós-emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2007.
8 Para mais informações sobre as estratégias das famílias negras para acessar a educação, veja o trabalho de Sônia Beatriz Santos (2016), intitulado
“Famílias negras: uma perspectiva sobre raça, gênero e educação”.
9 Ser iniciada no Candomblé significa passar por um rito de passagem, um processo de transformação espiritual que estabelece uma relação direta
com um Orixá e torna a pessoa um “filho de santo”. A iniciação, também conhecida como “feiturinha” ou “feito”, envolve rituais específicos e um período
de recolhimento e aprendizado. Fonte: https://super.abril.com.br/cultura/como-funciona-a-iniciacao-no-candomble. Acesso em: 19 mai 2025
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Omolu10 (Orixá) e eu sou Fomo de Iemanjá11 (Orixá). Abaixo está uma fotografia sua bem novinha, aos sete
anos de idade:
Fotografia 4 – Filha da autora na Festa de Candomblé para o Orixá Omolu
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2015.
A outra imagem é de um dos coletivos que fundei na UERJ e do primeiro seminário de estudantes negros que
realizamos junto ao Programa de Estudos e Debates dos Povos Afro-americanos e Africanos/PROAFRO da
UERJ. Outros locais por onde ando: faço parte da Associação Brasileira de Pesquisadores e Pesquisadoras
Negros e Negras/ABPN, e, nela, estou no grupo de Ciências Exatas e não no grupo das Ciências Humanas. Faço
parte do grupo Negros na Ciência e Tecnologia, que é composto pelo pessoal da matemática, da química, da
física e da biologia. Também sou integrante da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais/ABECS,
área em que leciono atualmente na UFRJ. Sou professora temporária na UFRJ e fui professora temporária
na UFF (campus de Niterói), onde ministrei a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais na Escola.
Recentemente, fui aprovada para a vaga de professora efetiva da UFF, no campus de Campos dos Goytacazes,
para trabalhar com as disciplinas de didáticas e estágios. Pesquiso dentro do campo das Relações Raciais.
DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
No ano de 1984, o Brasil estava passando por um momento considerado marcante, porque é o primeiro
momento em que tivemos um método para quantificar na educação12. Na década de 1990, há um movimento
para a ampliação de escolas para que sejam mais próximas das residências dos alunos e para garantir um
ensino fundamental, como considera Helena Bomenny (2007). No contexto educacional, tivemos avanços:
“foi nessa década que assistimos a um movimento de mobilização e pressão social pela melhoria do sistema
educacional motivado por indicadores internacionais de baixo desempenho” (Bomenny, 2007, p. 42).
Nesse contexto, eu estudei em uma escola que hoje está fechada na cidade de Niterói e na comunidade do
Cantagalo. Mas lembro-me de que, até a geração do meu irmão, era necessário pagar para realizar o ensino
fundamental I, e isso ia da creche até o primeiro e segundo anos do ensino fundamental I. E a minha geração,
pelo fato de ter havido a expansão do acesso às escolas, conseguiu, apesar de toda a questão das políticas
neoliberais, vivenciar, sim, uma ampliação do acesso às escolas de ensino fundamental. Este é um momento
marcante para quem estuda a educação, e aí vou fazer mais relação com as pessoas que escrevem e estudam
no campo da Sociologia da Educação. Porque, de fato, falar de trajetória acadêmica sem relacionar com os
autores desse campo fica difícil.
10 Omolu, também conhecido como Obaluaê, Xapanã e Sapatá, é um orixá da cultura iorubá, de grande importância na religião afro-brasileira. Ele é
considerado o senhor da terra, das doenças e da cura, sendo venerado e, por vezes, temido. É associado à cura de doenças epidêmicas e físicas, assim
como à proteção contra a morte prematura e à preservação da paz da terra.
11 “Orixá feminino, responsável pela maternidade, relações familiares, saúde mental e inteligência. Orixá iorubá cultuada em Abeokutá e trazida para
o Brasil por sacerdotisas(es) africanas(os) escravizadas(os). No Brasil é cultuada no mar e é muito popular” (SANTOS, 2022, p. 90).
12 Prova Brasileira de Aconselhamento (PBA), que visava quantificar e avaliar a qualidade da educação
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Outra questão: existe uma fala muito perversa, que é a seguinte: quando você vem de famílias que
não têm sobrenomes estrangeiros e são Silvas, Santos, Oliveiras ou então receberam o sobrenome
do colonizador, como o meu, Bento dos Santos, o meu verdadeiro nome ainda bem que Iemanjá
me deu13, mas, quando você não tem sobrenome estrangeiro, falam que você fez Ciências Sociais
porque “foi o que deu!”, “o que sobrou!”, “que cursou a faculdade de Ciências Sociais só para ter
uma faculdade, um nível superior, e que tem muito aluno que está lá só por isso!”. No meu caso,
não. Eu escolhi Ciências Sociais aos dezesseis anos de idade, sempre fui uma aluna que gostava
das humanidades, mas eu não queria cursar Direito ou Serviço Social e nem pensava em História,
porque meu irmão já fazia e eu não me identifiquei, e Geografia eu achava muito difícil. Então, não
foi porque eu tentei outras áreas ou pela quantidade de candidato-vaga. Eu penso que é importante
falar isso porque já abandonei um curso de especialização porque a professora disse para mim:
“Você não sabe, mas você só fez Ciências Sociais porque era o que dava para você!”. É esse nível de
violência que esse corpo negro passa nas instituições. Mas eu até já trabalhei com essa professora
e, em algum momento, falarei isso para ela. Eu sou daquelas pessoas que esperam sentada o melhor
momento para falar.
Então, eu escolhi o curso aos dezesseis anos e entrei na universidade com dezenove, apesar de a minha
família ter me aconselhado a tentar outros cursos, como Enfermagem e Farmácia. Assim, optei por
Ciências Sociais porque queria compreender as dinâmicas sociais e, sobretudo, porque sempre fui uma
pessoa observadora dos comportamentos e do que as pessoas diziam; isso sempre me interessou muito.
Também é preciso dizer que ser da primeira turma de cotas para negros da UERJ foi muito marcante,
pela oportunidade de conhecer lideranças14 e intelectuais que pesquisam as questões raciais, por ter
sido estudante de três cursos de extensão de história e cultura africana e afro-brasileira15 e por ver
professores negros. Aquilo ali (contexto social) foi um processo formativo.
EDUCAÇÃO COMO UM PROJETO COLETIVO DAS FAMÍLIAS NEGRAS
Dentro da Sociologia da Educação se fala de muitos estudos, como os de Maria Alice Nogueira (1998) e Na-
dir Zago (2011). Essas autoras abordam a presença da família na composição, no incentivo e nos estímulos
para que os filhos estudem. E isso até lembra um trecho da música da Elis Regina, gravada a partir de Milton
Nascimento, “Canção do Sal16”: “Filho vem da escola. Problema maior de estudar. Que é pra não ter meu
trabalho. E vida de gente levar”.
Entendo que a minha entrada na universidade, cursando graduação, mestrado, doutorado e posteriormente
tornando-me professora universitária, não é um projeto particular da minha família, dos meus pais. Cabe
dizer também que eu fui uma criança como Milton Santos17, que ficou até os dez anos de idade sem ir à escola.
Eu não fiquei até os dez anos, mas, quando cheguei à escola, já estava no processo de pré-alfabetização
porque os meus familiares — minha mãe, meu irmão, minha tia — escreviam as vogais e as letras, e eu já ia
compondo. Eu tinha interesse e tinha esse tipo de estímulo.
A escola para a criança negra, como vão mostrar Nilma Lino Gomes (2002), Eliane Cavalleiro (2001) e
Azoilda Loretto Trindade (2006), é um local de trauma, um espaço onde há várias práticas racistas. Então,
quando cheguei à escola, eu tinha dificuldades de aprendizagem, mas já vinha de um contexto de muito
estímulo. Estímulo para a leitura, para a escrita, e onde não era a primeira vez que via determinadas coisas;
já fazia parte das minhas brincadeiras contar, escrever etc.
E meus pais tinham baixíssima escolaridade: meu pai estudou até o sexto ano escolar (antiga quinta
série) e minha mãe até o segundo ano escolar (antiga primeira série). Então, existia ali um projeto
coletivo de incentivo. Tios davam livros; quando eu fiquei internada na infância, meu tio me deu
uma coleção de livros da Editora Paulinas chamada Alice no mundo da Bíblia. Lembro que, durante
o horário de visita, meu pai ia e voltava da rua ao hospital várias vezes para comprar revistinhas em
quadrinhos para eu ler. Eu lia muito rápido; já era uma pessoa ansiosa desde pequena.
13 Refiro-me ao nome que recebemos quando somos iniciados no candomblé
14 Lideranças negras do movimento social.
15Cursos oferecidos no espaço da UERJ pela Faculdade de Educação e pelo setor de extensão da universidade.
16 Durante a palestra, errei o título da letra da música e disse que era Caxangá
17 Milton Santos é considerado o geógrafo brasileiro que contribuiu para a renovação do pensamento geográfico. Ao longo de sua trajetória de vida,
o intelectual sempre salientou a relevância de ter sido alfabetizado pelos seus pais, professores, e de ter estudado em casa até os dez anos. Para mais
informações, ver a dissertação de mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás, do Prof. Diogo Marçal Cirqueira, Entre o corpo e a teoria:
a questão étnico-racial na obra e trajetória socioespacial de Milton Santos (2010).
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A ENTRADA NA UNIVERSIDADE
Quando eu entrei na UERJ foi assim: eu sempre soube que existia racismo porque o sofria diretamente,
principalmente na escola. Na minha família, eu nunca fui chamada de “moreninha”, até porque sou uma
mulher negra de pele preta, graças a Deus, apesar de saber de alguns casos18. Mas, sempre me foi dito: você
é negra! Ao entrar na UERJ no contexto das ações afirmativas, as disputas, os discursos e a forma como a
mídia tratava a questão das cotas me geraram até medo. Lembro que, no dia da minha inscrição, fiz junto
com o meu irmão porque fiquei com receio até de apanhar na época, tamanha era a violência das falas que
passavam na televisão.
Também, no Rio de Janeiro19, havia uma intelectualidade branca promovendo o discurso da democracia
racial e sustentando que no Brasil “não é bem assim” o racismo, retomando toda aquela fábula das três raças.
Ali é o momento em que entendo que estávamos tirando o véu. Se na década de 1970 tivemos o Movimento
Negro Unificado (MNU) denunciando o racismo, no início dos anos 2000, com as ações afirmativas,
colocamos ainda mais o dedo na ferida. E aí vemos escolas privadas fazendo manifestações e indo até
Brasília. E, novamente, quando nós pessoas negras somos muito oprimidas, nos aquilombamos no sentido
de formar mais coletivos. Dentro do contexto da UERJ, surgem vários coletivos de estudantes negros; não
é apenas o DENEGRIR20, o CENEGA-RJ21, o Coletivo Luiz Gama22 e o Coletivo Claudia Silva23. Vão sendo
criados vários outros coletivos para sobreviver naquele espaço, porque por dentro a universidade também
teve vários processos que tentaram retirar as ações afirmativas, como as plenárias no CONSUNI.24
Dessa forma, passei por vários coletivos: DENEGRIR, CENEGA-RJ e Aqualtune25. E me lembro, como
informa a tese do Amilcar Pereira (2010), da importância das organizações negras dentro das universidades
e da criação desses coletivos. Outro ponto é como os movimentos negros propõem toda uma formação
mediante a disputa curricular. Se não há essa formação dentro da universidade, nós organizamos grupos de
estudo aos sábados e, ao invés de ir se divertir, estamos estudando autores negros e negras. Nesses grupos,
apresentei os resultados da minha monografia e fui incentivada a pesquisar o que estudei no mestrado.
Fotografia 5 – Reunião do Grupo de Estudos da Associação de Mulheres Negras Aqualtune
Fonte: Acervo pessoal da autora, Rio de Janeiro, 2009.
18 Trato do caso de pessoas negras retintas que se consideravam morenas e nunca negras.
19 No Rio de Janeiro e no Brasil. A posição política de intelectuais brancos que, antes da Lei de cotas, estudavam as questões raciais pode ser
verificada no “Manifesto contra as Cotas”, o qual está disponível no seguinte endereço: https://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u18773.
shtml?fbclid=IwY2xjawKXGNFleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFBdzZPaVpDZVN0ZWM1c1Z3AR5_Xr4HJNZeLkaq7rcrYTZ8TsQ-i0ZC-vWi94oO-
7QpY1bw4hm7WMhYQCc04xw_aem__61PiaPZtLFYfp3v3oTGEQ
20 Coletivo e Estudantes Negros e Negras da UERJ – DENEGRIR. Fundado no ano de 2005.
21 Coletivo de Estudantes Negros e Negras do Estado do Rio de Janeiro/CENEGA - RJ. Fundado no ano de 2004.
22 Coletivos de Estudantes Negros e Negras da UERJ, com a maioria dos membros pertencentes à Faculdade de Formação de Professores/FFP e
com atuação na cidade de São Gonçalo. Sem informações sobre o ano de fundação.
23 O Coletivo Claudia Silva é um coletivo de mulheres negras, estudantes da Faculdade de Formação de Professores/FFP da UERJ e que foi criado
em memória ao assassinato de Claudia Silva no ano de 2014.
24 Nos primeiros anos das cotas raciais na UERJ, muitos docentes tentavam aprovar no Conselho Universitário da Universidade (CONSUNI) a propos-
ta de extinguir a política de ações afirmativas para a população negra. A justificativa apresentada era de que a universidade precisava ter sua autonomia
respeitada e de que as ações afirmativas não haviam sido discutidas e aprovadas internamente.
25 A Associação de Mulheres Negras Aqualtune foi fundada no ano de 2008 e era composta por estudantes negras de diversas universidades públicas
e privadas do estado do Rio de Janeiro.
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Trago também os trabalhos de Messias Basques (2022) e Andrea Lopes Costa (2022) para falar da ausência,
dessa marginalidade da intelectualidade negra e da moda atual em que todo mundo acha que discutir Lélia
Gonzalez é apenas falar do texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984) e que isso já é ser antirracista
— um saco isso! Eu sempre falo: “É só isso que você leu de Lélia? Nem trabalho com esse texto; eu trabalho
com os textos dela sobre beleza”. E aí, prontamente, me perguntam: “De beleza26?”.
Outro dado é a formação continuada, porque continuo circulando nesses espaços do movimento negro e
me formando. Um curso marcante foi o de extensão que ocorreu no Colégio Pedro II, no Centro do Rio de
Janeiro, e que atualmente se tornou um curso de especialização: Educação das Relações Étnico-raciais no
Ensino Básico (EREREBÁ). Nesse curso criei toda uma rede; vou às escolas das pessoas, participo das bancas
de pós-graduação e ali há uma política do amor-político.
O movimento negro também, como menciona a professora Gislene Aparecida dos Santos, da USP
(Universidade de São Paulo) e do curso de Filosofia, constrói os seus intelectuais. E nessas fotos estou ao
lado da professora Anita Canavarro, da UFG (Universidade Federal de Goiás), que é uma referência na área
de Química. Ela saiu do que é considerado uma Química mais “dura” e passou para o Ensino de Química.
Na foto estou com ela e com as militantes da ONG Dandaras do Cerrado e integrantes do Projeto Investiga
Menina. Por esse projeto, fui à cidade de Goiânia duas vezes para falar das minhas pesquisas.
Fotografia 6 – ONG Dandaras do Cerrado e Projeto Investiga Menina da UFG
Fonte: Acervo pessoal da autora, Goiânia, 2022.
Na outra foto, estou no III Encontro de Educadores(as) Negros(as) e Indígenas de Aracaju, no ano de 2023,
junto à professora Edite, que me convidou, uma mulher indígena de origem tupinambá. Como disse, os
movimentos sociais, principalmente os movimentos negros e indígenas, vão construindo seus intelectuais e
os fortalecendo (Gomes, 2017; Munduruku, 2012).
26 GONZALEZ, Lélia. Odara Dudu: beleza negra. In: RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven-
ções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. Texto originalmente publicado em 1986.
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Luane Bento dos Santos
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
Fotografia 7 – II Encontro de Educadores Negros, Negras e Indígena de Aracaju
Fonte: Acervo pessoal da autora, Aracaju, 2023.
Ao meu lado na foto está a minha filha, porque sou uma intelectual que sempre a leva para eventos
acadêmicos. Outro dia, ela esteve na banca de mestrado do pai e um dos professores da banca falou: “Ah, é
bom você trazê-la, ela vai se adaptando ao ambiente acadêmico”. Daí o meu marido riu e disse ao professor:
“Nossa, mas a minha filha conhece a Universidade de Santa Catarina e talvez conheça mais universidades do
que você”. A pessoa olhou para uma criança negra e achou que ela não conhecia. E, de fato, no Rio de Janeiro,
ela conheceu todas as universidades públicas porque foi comigo a todas.
AS PESQUISAS ACADÊMICAS E SEUS DESDOBRAMENTOS
O meu objeto de pesquisa é o corpo e o cabelo dentro de um ponto de vista antropológico. Também busquei
estranhar uma cultura familiar porque, além de a minha família ser do santo, é composta por mulheres
que trançavam os cabelos, isso até a minha geração. Durante a graduação em Ciências Sociais, realizei
uma etnografia e entrevistei quinze mulheres negras sobre o tema da identidade negra e dos cabelos. Na
graduação em Biblioteconomia, como fazia estágio na Fiocruz, tratei de saúde, especificamente da saúde
ocupacional dos bibliotecários. No mestrado, trabalhei a relação da matemática nas tranças, e a última
pesquisa foi a minha tese de doutorado, em que pensei sobre o reconhecimento profissional das trancistas.
E até que deu certo, porque a tese está em um Projeto de Lei e circulando em Brasília para contribuir com a
discussão sobre a profissionalização.
Paro aqui para falar da dissertação de mestrado porque investiguei as práticas de trançar cabelos relacionadas
à matemática e trabalhei com a área da Etnomatemática. Ali mostro vários conhecimentos matemáticos
presentes na confecção dos trançados, faço associações com feixe de paralelas e realizo uma demonstração
ocidental da matemática relacionando-a ao trançado em si.
O interessante dessa pesquisa é que a defendi em 2013 e, apesar de eu não ter paciência para usar redes
sociais — eu uso, mas não tenho paciência para fazer vídeos divulgando minha pesquisa e outras atividades
—, a pesquisa foi ganhando corpo, espaço e reconhecimento. Por questões de compreensão, neste trecho do
texto apresentarei os dados relatados durante a palestra sobre o reconhecimento da pesquisa, a partir de
um quadro que sistematiza o estado da arte sobre o tema da etnomatemática das tranças. Uso este método
por compreender que tornará mais fácil a compreensão do leitor e da leitora acerca das informações
mencionadas.
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Luane Bento dos Santos
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AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
Tabela 1 – O estado da arte sobre a etnomatemática das tranças
Dissertações de Mestrado
Título Autor(a) Área Instituição Ano
1 Saberes populares da
etnomatemática numa
cosmovisão africana: con-
tribuições à etnociência
Cleiton da Silva
Resplande
Ensino de
Ciências e
Matemática
Universidade
Federal Ru-
ral do Rio de
Janeiro
2020
2 Convergência entre a et-
nomatemática e a metod-
ologia de reconhecimento
de saberes: potencializar
identidades negras
Jorlania Caroli-
na Candido de
Souza
Educação de
Jovens e Adul-
tos e Ensino de
Matemática
Universidade
do Estado da
Bahia
2021
3 Investiga Menina: uma
estratégia de advocacy em
currículos de química.
Geisa Louise
Mariz Lima
Ensino de
Ciências e
Matemática
Universidade
Federal de Jataí
2024
4 A Etnomatemática da
cultura afro-brasileira:
possíveis contribuições
na aprendizagem de
matemática e cultura
afro-brasileira dos es-
tudantes da Educação
Básica
Nickson Deyvis
da Silva Correia
Ensino de
Ciências e
Matemática
Universidade
Federal de
Alagoas
2023
Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização
5 Conceitos matemáticos
presentes nos trabalhos
das trancistas: uma
relação com a (Afro)etno-
matemática
Anne Karine
Cherrin de
Souza
Educação
Matemática
Universidade
Federal do
Maranhão
2022
6 Trançando o antirracis-
mo em sala de aula: uma
sequência didática inter-
disciplinar sobre a história
das tranças africanas e a
etnomatemática.
Isadora Kéto-
ry Souto de
Moraes
Ensino de Hu-
manidades
Instituto
Federal do Sul
Rio-grandense
2024
7 A trilha das Tranças Afro:
uma pesquisa-ação em
prol da inserção da cultura
afro-brasileira no ensino
das Progressões Aritméti-
cas
Francileide
Santana dos
Santos
Educação
Matemática
Universidade
do Estado da
Bahia
2022
8 “Debaixo da sua trança
tem história pra contar”:
uma proposta didática
para o ensino de polímer-
os a partir do contexto das
tranças sintéticas.
Vanessa Sales
de Carvalho
Mello
Licenciatura
em Química
Universidade
Federal da
Bahia
2022
9 Do afro à álgebra: um
estudo das tranças
Joice Caro-
line de Jesus
Marques
Licenciatura
em Matemática
Instituto Fede-
ral do Sergipe
2022
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Luane Bento dos Santos
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
10 Etnomatemática em mo-
vimento: uma abordagem
para valorizar as raízes
matemáticas presentes na
história e cultura afro-bra-
sileira e africana
Bianca Silva
Braga
Licenciatura
em Matemática
Universidade
Federal do
Mato Grosso do
SUL/UFMS
2023
11 A geometria como objeto
de implementação da Lei
11.645/2008.
Alessandro Bis-
po de Souza
Matemática Instituto Fede-
ral da Bahia
2023
12 Matemática e tranças:
possibilidades de discus-
sões etnomatemáticas no
ensino médio
Carla Cristina
Alves de Luna
Licenciatura
em Matemática
Universidade
Federal de Per-
nambuco
2024
13 Matemática afro-brasilei-
ra por meio das tranças
africanas
Jéssica Caro-
lina Fonseca
Inácio
Licenciatura
em Matemática
Universidade
Federal de
Lavras
2025
14 As tranças afro e sua abor-
dagem etnomatemática na
educação antirracista
Layane Ferreira
dos Santos
Licenciatura
em Matemática
Universidade
Federal de Per-
nambuco
2025
15 Uma abordagem etno-
matemática da profi ssão
de trancista e sua contri-
buição para o ensino de
matemática na educação
do campo
Ana Cláudia
Antônio da Sil-
va; José Vilani
de Farias
Educação do
Campo e Mate-
mática
Instituto Fede-
ral de Pernam-
buco
2023
Artigos publicados em revistas acadêmicas
16 A prática de trançar de
cabelos e sua contribuição
para o Ensino de Mate-
mática na Educação do
Campo
Ana Cláudia
Antônio da Sil-
va; José Vilani
de Farias
Educação do
Campo e Mate-
mática
Revista Sergi-
pana de Mate-
mática e Educa-
ção Matemática
(ReviSeM) R, n.
4, p. 152 – 174
2024
17 A [M]matemática nas
Tranças das Mulheres
Angolanas ou as Tranças
das Mulheres Angolanas
na [M]matemática
Ezequias A. D.
Cassela e Eliane
C. Santos
Educação Ma-
temática
Journal of Ma-
thematics and
Culture August
2023
18 Etnomatemática: um
caminho para a valoriza-
ção da história e da cultura
afro-brasileira e africana
Bianca Silva
Braga e Wa-
léria Andrade
Martins
Educação Ma-
temática
Revista Univer-
sidade Federal
do Mato Grosso
do Sul
2023
19 Africanidades, Matemática
e Teatro de Mamulengos
uma encruzilhada de sabe-
res e refl exões
Anthonny E.
M. Vasconce-
los; Cristiane
de A. Rocha e
José Ivanildo F.
Carvalho
Educação Ma-
temática
Revista Inter-
nacional de
Formação de
Professores da
Universidade
de São Paulo
2023
131
Luane Bento dos Santos
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
Projeto de iniciação Científi ca na educação básica27
20 Etnomatemática presente
nos penteados e trançados
capilares: estudos de Lua-
ne Bento dos Santos
Carlos G. F.
Távora; Maria
Jéssyka A. San-
tos et al.
Matemática,
Biologia e Artes
Anais da Secre-
taria de Educa-
ção do Estado
do Ceará. Even-
to Científi co28
2022
21 Etnomatemática e os sabe-
res por trás das tranças
Uilana E. S.
Jesus, Larissa
V. Santos et al
Interdisciplinar Projeto de
Iniciação
Científi ca da
SEDUC-BA
2021
22 Entrelaçando saberes; a et-
nomatemática nas tranças
culturais afro brasileiras
Laura Iraci
Mousinho Fer-
reira da Silva,
Luís Gustavo
Gomes dos
Santos,
Maria Eduarda
Santana do
Nascimento,
Marilia Cecilia
Silva do Espiri-
to Santos
Interdisciplinar Projeto para
8º Semana
de Iniciação
Científi ca da
da Secretaria
de Educação
Itapissuma/PE
2024
23 Padrões geométricos e
algébricos existentes nas
tranças nagô: Uma experi-
ência na Escola
Lisandra Maya-
ra Paulino dos
Santos
Matemática Projeto de Ensi-
no na SEDU-
C-CE/ Etapa
escolar
2024
Materiais didáticos
25 Rio Educa Secretaria
Municipal de
Educação do
Rio de Janeiro
Matemática Material didá-
tico para o 2º
ano escolar
2022
26 Rio Educa Secretaria
Municipal de
Educação do
Rio de Janeiro
Matemática Material didá-
tico para o 4º
ano
escolar
2022
27 Rio Educa, Projeto Tra-
vessias
Secretaria
Municipal de
Educação do
Rio de Janeiro
Matemática Material Didá-
tico de Reforço
para o 6º ano
escolar
2022
28 Caderno de Gestão
Escolar para a Equidade.
Espírito Santo
Instituto Uni-
banco e Secre-
taria de Estado
de Educação do
Espírito Santo
Interdisciplinar Caderno
didático para
a Gestão da
SEDUC-ES
2022
27 Durante o evento, eu me referia às semanas científicas promovidas pelos seguintes estados: Ceará, Piauí, Bahia e Paraíba.
28 O Ceará Científico é uma ação implementada nas escolas da rede estadual de ensino público desde 2007 e envolve todas as escolas e estudantes
da rede pública do estado do Ceará. Tem como princípio popularizar as ciências e promover o desenvolvimento de tecnologias, estimulando a investiga-
ção, a inovação e a busca de conhecimentos de forma cotidiana e integrada com toda a comunidade escolar. Os projetos escolares são desenvolvidos
pelos estudantes, sob orientação de seus professores, estabelecendo relações dinâmicas entre os conhecimentos específicos das disciplinas da base
comum do Ensino Fundamental e Médio e as problemáticas sociais, culturais e ambientais, incentivando a construção de projetos que promovam a
integração curricular, enaltecendo a interdisciplinaridade e/ou a transdisciplinaridade com foco na sustentabilidade. Disponível em: https://www.seduc.
ce.gov.br/ceara-cientifico/
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Luane Bento dos Santos
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AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
29 Livro de Matemática, 6º
ano, Ensino Fundamental
II, (Coleção Keppler)
Editora San-
tillana e Mo-
derna
Matemática Material didá-
tico do Ensino
Fundamental II
2022
30 Prisma: ciências humanas:
Brasil da diversidade: so-
ciedade e direitos: ensino
médio
Editora FTD Ciências Hu-
manas
Livro Didáti-
co do Ensino
Médio
2020
31 Caderno de Apoio à
Aprendizagem – EJA
Secretaria
de Educação
do Estado da
Bahia
Interdisciplinar Ensino Médio 2021
32 Matemática e seu ensino
: na esteira da educação
das relações étnico-ra-
ciais (Cartilha de práticas
pedagógicas. Matemática:
ensino fundamental).
Ivanildo Car-
valho
(Secretaria de
Educação do
Estado de Per-
nambuco)
Matemática Material de
Apoio do
Professor para
o Ensino de
Matemática do
Fundamental II
2024
Fonte: Tabela elaborada pela autora, 2025.
A minha trajetória (acadêmica e de vida) é marcada pela preocupação com a questão racial; não há como
separar uma coisa da outra. Como me disse uma aluna da EJA, do primeiro ano do ensino médio: “Todas as
suas pesquisas levam a isso, né? Todos os seus trabalhos tratam da questão racial!”. E eu respondi: “Já que
ninguém trata, eu serei a professora que vai falar sobre”.
Basicamente, é isso: compreendo que sou fruto do movimento negro educador, do movimento negro cultural.
Até o meu nome, Luane Bento, remete a esse contexto da década de 1980, quando houve a disseminação
de nomes mais africanos, como Luanda, Luana, Lorane. Sou, portanto, produto dos movimentos negros,
das ações afirmativas, e só estou aqui porque existe movimento negro. Não estaria se não houvesse esse
movimento negro familiar, esse projeto educativo da minha família, e temos várias referências que discutem
isso, como Petrônio Domingues (2008). Também não estaria aqui se não tivesse havido lutas políticas para
que o Brasil adotasse ações afirmativas.
Além disso, temos contribuído para os campos de pesquisa, como o da educação. Por isso quis mostrar os
resultados da dissertação: entendo que estou viva, enquanto muitos intelectuais negros presentes nos livros
didáticos só passaram a ser reconhecidos após a morte. Podemos até não valorizar os livros didáticos, mas,
dependendo da região do Brasil, eles são o único material de leitura que chega às escolas. Esses intelectuais
entram já mortos, enquanto eu estou viva. Tenho quarenta anos e produzi uma pesquisa que faz o estudante
olhar e dizer: “Nossa, eu não imaginava que cabelo ou trança tinha matemática!”.
Como me disse uma estudante em um curso que ministrei: “Que bom, né? Porque antigamente a gente só
aparecia no livro acorrentado!”. Agora, o nosso cabelo, um dos elementos do corpo mais usados para nos
discriminar (Gomes, 2006), torna-se um recurso de aprendizagem. Um espaço onde se pode aprender
matemática, história africana e no qual eu tenho contribuído.
É isso, de forma rápida, porque sou muito prolixa. Muito obrigada!
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Luane Bento dos Santos
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AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
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Data de submissão: 20/05/2025
Data de aceite: 21/10/2025
Data de publicação: 15/12/2025