REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA
Luane Bento dos Santos
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Outra questão: existe uma fala muito perversa, que é a seguinte: quando você vem de famílias que
não têm sobrenomes estrangeiros e são Silvas, Santos, Oliveiras ou então receberam o sobrenome
do colonizador, como o meu, Bento dos Santos, o meu verdadeiro nome ainda bem que Iemanjá
me deu13, mas, quando você não tem sobrenome estrangeiro, falam que você fez Ciências Sociais
porque “foi o que deu!”, “o que sobrou!”, “que cursou a faculdade de Ciências Sociais só para ter
uma faculdade, um nível superior, e que tem muito aluno que está lá só por isso!”. No meu caso,
não. Eu escolhi Ciências Sociais aos dezesseis anos de idade, sempre fui uma aluna que gostava
das humanidades, mas eu não queria cursar Direito ou Serviço Social e nem pensava em História,
porque meu irmão já fazia e eu não me identifiquei, e Geografia eu achava muito difícil. Então, não
foi porque eu tentei outras áreas ou pela quantidade de candidato-vaga. Eu penso que é importante
falar isso porque já abandonei um curso de especialização porque a professora disse para mim:
“Você não sabe, mas você só fez Ciências Sociais porque era o que dava para você!”. É esse nível de
violência que esse corpo negro passa nas instituições. Mas eu até já trabalhei com essa professora
e, em algum momento, falarei isso para ela. Eu sou daquelas pessoas que esperam sentada o melhor
momento para falar.
Então, eu escolhi o curso aos dezesseis anos e entrei na universidade com dezenove, apesar de a minha
família ter me aconselhado a tentar outros cursos, como Enfermagem e Farmácia. Assim, optei por
Ciências Sociais porque queria compreender as dinâmicas sociais e, sobretudo, porque sempre fui uma
pessoa observadora dos comportamentos e do que as pessoas diziam; isso sempre me interessou muito.
Também é preciso dizer que ser da primeira turma de cotas para negros da UERJ foi muito marcante,
pela oportunidade de conhecer lideranças14 e intelectuais que pesquisam as questões raciais, por ter
sido estudante de três cursos de extensão de história e cultura africana e afro-brasileira15 e por ver
professores negros. Aquilo ali (contexto social) foi um processo formativo.
EDUCAÇÃO
COMO
UM
PROJETO
COLETIVO
DAS
FAMÍLIAS
NEGRAS
Dentro da Sociologia da Educação se fala de muitos estudos, como os de Maria Alice Nogueira (1998) e Na-
dir Zago (2011). Essas autoras abordam a presença da família na composição, no incentivo e nos estímulos
para que os filhos estudem. E isso até lembra um trecho da música da Elis Regina, gravada a partir de Milton
Nascimento, “Canção do Sal16”: “Filho vem da escola. Problema maior de estudar. Que é pra não ter meu
trabalho. E vida de gente levar”.
Entendo que a minha entrada na universidade, cursando graduação, mestrado, doutorado e posteriormente
tornando-me professora universitária, não é um projeto particular da minha família, dos meus pais. Cabe
dizer também que eu fui uma criança como Milton Santos17, que ficou até os dez anos de idade sem ir à escola.
Eu não fiquei até os dez anos, mas, quando cheguei à escola, já estava no processo de pré-alfabetização
porque os meus familiares — minha mãe, meu irmão, minha tia — escreviam as vogais e as letras, e eu já ia
compondo. Eu tinha interesse e tinha esse tipo de estímulo.
A escola para a criança negra, como vão mostrar Nilma Lino Gomes (2002), Eliane Cavalleiro (2001) e
Azoilda Loretto Trindade (2006), é um local de trauma, um espaço onde há várias práticas racistas. Então,
quando cheguei à escola, eu tinha dificuldades de aprendizagem, mas já vinha de um contexto de muito
estímulo. Estímulo para a leitura, para a escrita, e onde não era a primeira vez que via determinadas coisas;
já fazia parte das minhas brincadeiras contar, escrever etc.
E meus pais tinham baixíssima escolaridade: meu pai estudou até o sexto ano escolar (antiga quinta
série) e minha mãe até o segundo ano escolar (antiga primeira série). Então, existia ali um projeto
coletivo de incentivo. Tios davam livros; quando eu fiquei internada na infância, meu tio me deu
uma coleção de livros da Editora Paulinas chamada Alice no mundo da Bíblia. Lembro que, durante
o horário de visita, meu pai ia e voltava da rua ao hospital várias vezes para comprar revistinhas em
quadrinhos para eu ler. Eu lia muito rápido; já era uma pessoa ansiosa desde pequena.
13 Refiro-me ao nome que recebemos quando somos iniciados no candomblé
14 Lideranças negras do movimento social.
15Cursos oferecidos no espaço da UERJ pela Faculdade de Educação e pelo setor de extensão da universidade.
16 Durante a palestra, errei o título da letra da música e disse que era Caxangá
17 Milton Santos é considerado o geógrafo brasileiro que contribuiu para a renovação do pensamento geográfico. Ao longo de sua trajetória de vida,
o intelectual sempre salientou a relevância de ter sido alfabetizado pelos seus pais, professores, e de ter estudado em casa até os dez anos. Para mais
informações, ver a dissertação de mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás, do Prof. Diogo Marçal Cirqueira, Entre o corpo e a teoria:
a questão étnico-racial na obra e trajetória socioespacial de Milton Santos (2010).