TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS, AVANÇOS E  
RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Black trajectories: paths, advances and setbacks in academia  
Trayectorias negras: caminos, avances y retrocesos en la academia  
1
LUANE BENTO DOS SANTOS  
ORCID: 0000-0003-2071-9373  
RESUMO  
Este texto foi proferido na Conferência de abertura do III Seminário do Coletivo Negro do IESP-UERJ,  
realizado no dia 16 de setembro de 2024, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade  
do Estado do Rio de Janeiro. Durante o evento, tive como objetivo apresentar eventos da minha trajetória  
pessoal/individual e relacioná-los com as políticas dos movimentos negros na sociedade brasileira e com a  
produção intelectual do campo da Sociologia da Educação. Dessa forma, usei como recursos na apresentação  
imagens fotográficas de eventos relevantes da minha trajetória de vida e acadêmica, assim como as relacionei  
com a produção teórica dos campos da Educação, das Relações Raciais e da Sociologia da Educação. Ao  
longo da conferência, abordei a relevância da educação para a população negra e como a minha trajetória  
acadêmica e profissional esteve e está atrelada a um projeto político coletivo das comunidades negras.  
Palavras-chave: Trajetórias Escolares; Educação das Relações Étnico-raciais; Sociologia da  
Educação; Ações Afirmativas  
ABSTRACT  
This text was delivered at the Opening Conference of the III Seminar of the Black Collective of IESP-UERJ,  
held on September 16, 2024, at the Institute of Social and Political Studies (IESP) of the Rio de Janeiro State  
University. During the event, my objective was to present episodes from my personal/individual trajectory  
and relate them to the political agendas of Black movements in Brazilian society, as well as to the intellectual  
production within the field of the Sociology of Education. To this end, I used photographic images of  
significant moments in my life and academic trajectory, relating them to theoretical contributions from the  
fields of Education, Race Relations, and the Sociology of Education. Throughout the conference, I addressed  
the relevance of education for the Black population and discussed how my academic and professional  
trajectory has been, and continues to be, tied to a collective political project of Black communities.  
Keywords: School Trajectories; Education of Ethnic-Racial Relations; Sociology of Education;  
Affirmative Actions  
RESUMEN  
Este texto fue presentado en la Conferencia de Apertura del III Seminario del Colectivo Negro del IESP-  
UERJ, celebrado el 16 de septiembre de 2024 en el Instituto de Estudios Sociales y Políticos (IESP) de  
la Universidad del Estado de Río de Janeiro. Durante el evento, mi objetivo fue exponer episodios de mi  
1 Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professora adjunta da Universidade Federal  
Fluminense (UFF). Trabalha no Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional e está lotada no Departamento de Ciências Sociais.  
Doutora em Ciências Sociais pela PUC-Rio, mestra em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET-RJ, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela UERJ  
e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela UFF. Desenvolve pesquisas nos campos das Relações Raciais e da Antropologia Social.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
121  
trayectoria personal/individual y relacionarlos con las políticas de los movimientos negros en la sociedad  
brasileña, así como con la producción intelectual del campo de la Sociología de la Educación. Para ello,  
utilicé imágenes fotográficas de momentos significativos de mi trayectoria vital y académica, estableciendo  
vínculos con los aportes teóricos de los campos de la Educación, de las Relaciones Raciales y de la Sociología  
de la Educación. A lo largo de la conferencia, abordé la relevancia de la educación para la población negra y  
analicé cómo mi trayectoria académica y profesional ha estado, y continúa estando, vinculada a un proyecto  
político colectivo de las comunidades negras.  
Palabras clave: Trayectorias Escolares; Educación de las Relaciones Étnico-Raciales; Sociología de  
la Educación; Acciones afirmativas  
INTRODUÇÃO  
Bom dia a todos, todas e todes! Meu nome é Luane Bento dos Santos, como bem falou o Antônio. Fico feliz  
pelo convite da Maria Carolina; a gente estudou juntas no IFCH/UFRJ2, e eu “enganava” que dava aula de  
Didática e Prática de Ensino das Ciências Sociais. Enfim, fiquei feliz com o convite e aceitei meio que em cima  
da hora, mas vamos lá! Para mim, sempre é muito difícil pensar em falar de trajetória, e também teve outra  
questão que eu mencionei: “Olha, não sou socióloga nem cientista política, eu sou antropóloga e já vou me  
sentir ‘estrangeira’”. Minhas pesquisas estão nesse caminho, mas acho que é importante; e, enquanto uma  
pessoa que pertence a várias organizações do movimento negro, é sempre importante vir aos espaços que o  
movimento negro cria nas instituições ou então àqueles de que faço parte.  
Eu também gosto de me pensar como uma andarilha. “Você pode dar aula numa ONG que é lá na Central  
do Brasil no domingo?” Outro dia parei para pensar e falei: “Gente, com a questão do ativismo político, eu  
já fui a tantos lugares, já palestrei, efetivamente já participei de muitas atividades nesse tempo que tenho de  
academia”. Então, coloquei o título da mesa na minha apresentação (Trajetórias negras: percursos, avanços  
e retrocessos na academia), e a minha proposta é apresentar um pouco dessa minha trajetória de vida e  
trajetória educacional a partir de imagens fotográficas dos meus familiares e da minha vida enquanto pessoa  
que exerce vários papéis sociais: acadêmica, mãe, religiosa, fruto do movimento negro educador. E aí eu acho  
que uma grande referência é a obra da excelentíssima professora Nilma Lino Gomes. De fato, isso aqui3 diz  
muito sobre eu ser fruto do movimento negro da universidade.  
Se, na universidade, ainda há resistência para colocarmos a educação das relações étnico-raciais e para  
estudarmos autores negros, no movimento negro as teorias racistas, eugenistas, e autores como Lélia  
Gonzalez, Steve Bantu Biko, Abdias do Nascimento e Virginia Bicudo foram autores aos quais tive acesso  
logo no início. Foi esse movimento negro, os coletivos de estudantes negros, dos quais fiz parte, que foram  
me formando. Tenho muito orgulho dessa trajetória porque, de fato, foi nesse espaço que me formei e que se  
tornou possível pensar até os temas das minhas pesquisas, inclusive aquelas que se distanciaram um pouco  
das Ciências Sociais4.  
E aí, trazendo a referência de uma intelectual que não passou por uma educação formal-institucional, que  
é a mãe Aninha do Ilê Axê Opô Afonjá, uma casa tradicional do Candomblé, ela dizia algo que minha família  
também realizou. Hoje, analisando, percebo como minha família está inserida em um contexto de movimento  
negro cultural, seja pela religiosidade, seja pelas festas que meu irmão organizava com temática afro em  
Niterói (RJ). Mãe Aninha tem uma fala que os filhos (membros) do Ilê Axé Opô Afonjá repetem: “Quero meus  
filhos com anel no dedo”. E sabemos que, no Brasil, a história dos bacharéis e o uso do anel por áreas como o  
Direito compõem um contexto reconhecível.  
Na minha família, esse projeto também existia, e hoje quero enfatizar esse projeto educacional, coletivo, das  
famílias negras. Eu sou essa pessoa que a família negra sonhou: alguém com um anel no dedo. Só que, para  
mim, que sou uma das primeiras a cursar o nível superior, o anel no dedo terminava com a conclusão da  
graduação. Mas a gente descobre que não é só a graduação: existe o mestrado, o doutorado, e, depois do  
mestrado, surge a cobrança para fazer o doutorado; depois do doutorado, a cobrança para prestar concursos  
para o magistério superior.  
Bom, vamos lá. Sempre começo esse tipo de apresentação pela minha linhagem feminina: minha avó materna,  
dona Maria das Neves, esta aqui, sobre quem produzi e lancei, em março de 2022, um filme no qual a trago  
2 Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  
3 Retirei da bolsa o livro Movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação da intelectual Nilma Lino Gomes.  
4 Refiro-me à escrita da dissertação de mestrado realizada no campo da etnomatemática.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
122  
para dialogar com meu tema de pesquisa no doutorado, no mestrado e na graduação: estética corporal, em  
particular as manipulações dos cabelos crespos nas famílias negras. O nome do filme é Memórias Trançadas5  
e nele trabalho muito com a imagem dela e com as pessoas indo buscá-la como uma referência – no que se  
refere à cabeleireira especializada na estilização dos cabelos com tranças e ferro quente. Abaixo está sua  
imagem:  
Fotografia 1 – Dona Maria das Neves, avó materna da autora  
Fonte: Acervo pessoal da autora, 1980.  
Esta outra senhora é a minha avó paterna, dona Maria de Lourdes Pacheco, que também traz a questão da  
religiosidade e da sua afirmação.  
Fotografia 2 – Dona Maria de Lourdes Pacheco, avó paterna da autora  
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2004.  
Enfim, trago essas duas mulheres porque ninguém existe sem seus antecedentes, sem seus antepassados. São  
duas mulheres negras, e é interessante dizer que a minha avó paterna, dona Lourdes, só pôde ser alfabetizada  
aos 68 anos. Isso está atrelado a uma sociedade em que a educação, principalmente para a população negra,  
passou a ser acessada tardiamente, porque essa não era preocupação6. Então aos 68 anos, ela foi alfabetizada  
5 Memórias Trançadas é um curta-metragem experimental que aborda os cuidados das famílias negras na manipulação dos cabelos e procura retratar  
18 maio 2025.  
6 De acordo com Dermeval Saviani (2000) e Helena Bomenny (2007), as elites brasileiras e o Estado não tiveram, nas primeiras décadas da república,  
a preocupação com a expansão da educação para a grande massa. De acordo com Saviani, as formas de classes de alunos também constituíam um  
projeto de refinada seleção, uma escola pensada para as elites. Nesse contexto, a educação das massas populares não estava presente conforme  
informa Bomenny (2007) em seu artigo. Em outras palavras, não fazia parte dos interesses das elites a expansão da educação. Somente na Reforma  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
123  
e hoje a minha avó tem 92 anos. A minha avó materna pôde ser alfabetizada anteriormente porque desde  
muito nova, desde os 12 anos, trabalhava como empregada doméstica. Então, ela, dentro desse contexto,  
aprendeu a ler para poder servir melhor7.  
É importante falar da modalidade de ensino EJA (Educação de Jovens e Adultos) e da relevância que ela tem  
para esses jovens e adultos que não puderam estudar. Foi nessa modalidade que minha avó se alfabetizou, no  
bairro chamado Mútua, no município de São Gonçalo (RJ). Na época, ela já era uma costureira que trabalhava  
para todo o bairro, era muito conhecida e sempre falava disso com muita dor — a questão da escolaridade.  
A minha avó materna tem cinco filhos vivos; na realidade, teve sete, mas duas filhas gêmeas faleceram.  
Minha avó paterna também teve cinco filhos. Essas duas mulheres também tentaram, em uma sociedade  
sem as políticas públicas que temos hoje para a permanência dos estudantes. Políticas às quais eu também  
não tive acesso, porque, na minha época de escola, não havia distribuição de livros didáticos, uniformes,  
alimentação ou transporte. Ainda assim, elas tentaram dar o mínimo de escolarização para os seus filhos8.  
Então, veja bem, é um projeto que não se encerra “porque não conseguimos e acabou!”. Depois vêm meus  
pais incentivando a mim e meu irmão a estudar.  
Fotografia 3 – Autora e sua mãe, Claudete Bento, na defesa de monografia no curso de Ciências Sociais da UERJ  
Fonte: Acervo pessoal da autora, Rio de Janeiro, 2010.  
FORMAÇÃO ACADÊMICA, RELIGIOSIDADE E OCUPAÇÃO  
Fiz bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e  
bacharelado em Biblioteconomia e Documentação pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Tenho duas  
formações em nível de graduação, sou mestre em Relações Étnico-raciais pelo CEFET-RJ (Centro Federal de  
Educação e Tecnologia Celso Sucksow da Fonseca) e integrei a primeira turma do mestrado do CEFET-RJ,  
bem como a primeira turma de ações afirmativas da UERJ. Também tenho doutorado em Ciências Sociais  
pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).  
Tenho uma filha de treze anos que é iniciada9 nas religiões de matrizes africanas, em especial no candomblé,  
e ela é a minha mais velha; fez santo junto comigo e compomos o mesmo barco. Ela é minha dofonitinha de  
Paulista, em 1920, que a educação das massas populares foi colocada e conduzida por Sampaio Dória. No entanto, a escola proposta era “aligeirada  
e simples”.  
7 CUNHA, Olívia Maria. Criadas para servir: domesticidade, intimidade e retribuição. In: CUNHA, Olívia; GOMES, Flávio; SW. Quase-cidadão: histórias  
e antropologias da pós-emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2007.  
8 Para mais informações sobre as estratégias das famílias negras para acessar a educação, veja o trabalho de Sônia Beatriz Santos (2016), intitulado  
“Famílias negras: uma perspectiva sobre raça, gênero e educação”.  
9 Ser iniciada no Candomblé significa passar por um rito de passagem, um processo de transformação espiritual que estabelece uma relação direta  
com um Orixá e torna a pessoa um “filho de santo”. A iniciação, também conhecida como “feiturinha” ou “feito”, envolve rituais específicos e um período  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
124  
Omolu10 (Orixá) e eu sou Fomo de Iemanjá11 (Orixá). Abaixo está uma fotografia sua bem novinha, aos sete  
anos de idade:  
Fotografia 4 – Filha da autora na Festa de Candomblé para o Orixá Omolu  
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2015.  
A outra imagem é de um dos coletivos que fundei na UERJ e do primeiro seminário de estudantes negros que  
realizamos junto ao Programa de Estudos e Debates dos Povos Afro-americanos e Africanos/PROAFRO da  
UERJ. Outros locais por onde ando: faço parte da Associação Brasileira de Pesquisadores e Pesquisadoras  
Negros e Negras/ABPN, e, nela, estou no grupo de Ciências Exatas e não no grupo das Ciências Humanas. Faço  
parte do grupo Negros na Ciência e Tecnologia, que é composto pelo pessoal da matemática, da química, da  
física e da biologia. Também sou integrante da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais/ABECS,  
área em que leciono atualmente na UFRJ. Sou professora temporária na UFRJ e fui professora temporária  
na UFF (campus de Niterói), onde ministrei a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais na Escola.  
Recentemente, fui aprovada para a vaga de professora efetiva da UFF, no campus de Campos dos Goytacazes,  
para trabalhar com as disciplinas de didáticas e estágios. Pesquiso dentro do campo das Relações Raciais.  
DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO  
No ano de 1984, o Brasil estava passando por um momento considerado marcante, porque é o primeiro  
momento em que tivemos um método para quantificar na educação12. Na década de 1990, há um movimento  
para a ampliação de escolas para que sejam mais próximas das residências dos alunos e para garantir um  
ensino fundamental, como considera Helena Bomenny (2007). No contexto educacional, tivemos avanços:  
“foi nessa década que assistimos a um movimento de mobilização e pressão social pela melhoria do sistema  
educacional motivado por indicadores internacionais de baixo desempenho” (Bomenny, 2007, p. 42).  
Nesse contexto, eu estudei em uma escola que hoje está fechada na cidade de Niterói e na comunidade do  
Cantagalo. Mas lembro-me de que, até a geração do meu irmão, era necessário pagar para realizar o ensino  
fundamental I, e isso ia da creche até o primeiro e segundo anos do ensino fundamental I. E a minha geração,  
pelo fato de ter havido a expansão do acesso às escolas, conseguiu, apesar de toda a questão das políticas  
neoliberais, vivenciar, sim, uma ampliação do acesso às escolas de ensino fundamental. Este é um momento  
marcante para quem estuda a educação, e aí vou fazer mais relação com as pessoas que escrevem e estudam  
no campo da Sociologia da Educação. Porque, de fato, falar de trajetória acadêmica sem relacionar com os  
autores desse campo fica difícil.  
10 Omolu, também conhecido como Obaluaê, Xapanã e Sapatá, é um orixá da cultura iorubá, de grande importância na religião afro-brasileira. Ele é  
considerado o senhor da terra, das doenças e da cura, sendo venerado e, por vezes, temido. É associado à cura de doenças epidêmicas e físicas, assim  
como à proteção contra a morte prematura e à preservação da paz da terra.  
11 “Orixá feminino, responsável pela maternidade, relações familiares, saúde mental e inteligência. Orixá iorubá cultuada em Abeokutá e trazida para  
o Brasil por sacerdotisas(es) africanas(os) escravizadas(os). No Brasil é cultuada no mar e é muito popular” (SANTOS, 2022, p. 90).  
12 Prova Brasileira de Aconselhamento (PBA), que visava quantificar e avaliar a qualidade da educação  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
125  
Outra questão: existe uma fala muito perversa, que é a seguinte: quando você vem de famílias que  
não têm sobrenomes estrangeiros e são Silvas, Santos, Oliveiras ou então receberam o sobrenome  
do colonizador, como o meu, Bento dos Santos, o meu verdadeiro nome ainda bem que Iemanjá  
me deu13, mas, quando você não tem sobrenome estrangeiro, falam que você fez Ciências Sociais  
porque “foi o que deu!”, “o que sobrou!”, “que cursou a faculdade de Ciências Sociais só para ter  
uma faculdade, um nível superior, e que tem muito aluno que está lá só por isso!”. No meu caso,  
não. Eu escolhi Ciências Sociais aos dezesseis anos de idade, sempre fui uma aluna que gostava  
das humanidades, mas eu não queria cursar Direito ou Serviço Social e nem pensava em História,  
porque meu irmão já fazia e eu não me identifiquei, e Geografia eu achava muito difícil. Então, não  
foi porque eu tentei outras áreas ou pela quantidade de candidato-vaga. Eu penso que é importante  
falar isso porque já abandonei um curso de especialização porque a professora disse para mim:  
“Você não sabe, mas você só fez Ciências Sociais porque era o que dava para você!”. É esse nível de  
violência que esse corpo negro passa nas instituições. Mas eu até já trabalhei com essa professora  
e, em algum momento, falarei isso para ela. Eu sou daquelas pessoas que esperam sentada o melhor  
momento para falar.  
Então, eu escolhi o curso aos dezesseis anos e entrei na universidade com dezenove, apesar de a minha  
família ter me aconselhado a tentar outros cursos, como Enfermagem e Farmácia. Assim, optei por  
Ciências Sociais porque queria compreender as dinâmicas sociais e, sobretudo, porque sempre fui uma  
pessoa observadora dos comportamentos e do que as pessoas diziam; isso sempre me interessou muito.  
Também é preciso dizer que ser da primeira turma de cotas para negros da UERJ foi muito marcante,  
pela oportunidade de conhecer lideranças14 e intelectuais que pesquisam as questões raciais, por ter  
sido estudante de três cursos de extensão de história e cultura africana e afro-brasileira15 e por ver  
professores negros. Aquilo ali (contexto social) foi um processo formativo.  
EDUCAÇÃO  
COMO  
UM  
PROJETO  
COLETIVO  
DAS  
FAMÍLIAS  
NEGRAS  
Dentro da Sociologia da Educação se fala de muitos estudos, como os de Maria Alice Nogueira (1998) e Na-  
dir Zago (2011). Essas autoras abordam a presença da família na composição, no incentivo e nos estímulos  
para que os filhos estudem. E isso até lembra um trecho da música da Elis Regina, gravada a partir de Milton  
Nascimento, “Canção do Sal16”: “Filho vem da escola. Problema maior de estudar. Que é pra não ter meu  
trabalho. E vida de gente levar”.  
Entendo que a minha entrada na universidade, cursando graduação, mestrado, doutorado e posteriormente  
tornando-me professora universitária, não é um projeto particular da minha família, dos meus pais. Cabe  
dizer também que eu fui uma criança como Milton Santos17, que ficou até os dez anos de idade sem ir à escola.  
Eu não fiquei até os dez anos, mas, quando cheguei à escola, já estava no processo de pré-alfabetização  
porque os meus familiares — minha mãe, meu irmão, minha tia — escreviam as vogais e as letras, e eu já ia  
compondo. Eu tinha interesse e tinha esse tipo de estímulo.  
A escola para a criança negra, como vão mostrar Nilma Lino Gomes (2002), Eliane Cavalleiro (2001) e  
Azoilda Loretto Trindade (2006), é um local de trauma, um espaço onde há várias práticas racistas. Então,  
quando cheguei à escola, eu tinha dificuldades de aprendizagem, mas já vinha de um contexto de muito  
estímulo. Estímulo para a leitura, para a escrita, e onde não era a primeira vez que via determinadas coisas;  
já fazia parte das minhas brincadeiras contar, escrever etc.  
E meus pais tinham baixíssima escolaridade: meu pai estudou até o sexto ano escolar (antiga quinta  
série) e minha mãe até o segundo ano escolar (antiga primeira série). Então, existia ali um projeto  
coletivo de incentivo. Tios davam livros; quando eu fiquei internada na infância, meu tio me deu  
uma coleção de livros da Editora Paulinas chamada Alice no mundo da Bíblia. Lembro que, durante  
o horário de visita, meu pai ia e voltava da rua ao hospital várias vezes para comprar revistinhas em  
quadrinhos para eu ler. Eu lia muito rápido; já era uma pessoa ansiosa desde pequena.  
13 Refiro-me ao nome que recebemos quando somos iniciados no candomblé  
14 Lideranças negras do movimento social.  
15Cursos oferecidos no espaço da UERJ pela Faculdade de Educação e pelo setor de extensão da universidade.  
16 Durante a palestra, errei o título da letra da música e disse que era Caxangá  
17 Milton Santos é considerado o geógrafo brasileiro que contribuiu para a renovação do pensamento geográfico. Ao longo de sua trajetória de vida,  
o intelectual sempre salientou a relevância de ter sido alfabetizado pelos seus pais, professores, e de ter estudado em casa até os dez anos. Para mais  
informações, ver a dissertação de mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás, do Prof. Diogo Marçal Cirqueira, Entre o corpo e a teoria:  
a questão étnico-racial na obra e trajetória socioespacial de Milton Santos (2010).  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
126  
A ENTRADA NA UNIVERSIDADE  
Quando eu entrei na UERJ foi assim: eu sempre soube que existia racismo porque o sofria diretamente,  
principalmente na escola. Na minha família, eu nunca fui chamada de “moreninha”, até porque sou uma  
mulher negra de pele preta, graças a Deus, apesar de saber de alguns casos18. Mas, sempre me foi dito: você  
é negra! Ao entrar na UERJ no contexto das ações afirmativas, as disputas, os discursos e a forma como a  
mídia tratava a questão das cotas me geraram até medo. Lembro que, no dia da minha inscrição, fiz junto  
com o meu irmão porque fiquei com receio até de apanhar na época, tamanha era a violência das falas que  
passavam na televisão.  
Também, no Rio de Janeiro19, havia uma intelectualidade branca promovendo o discurso da democracia  
racial e sustentando que no Brasil “não é bem assim” o racismo, retomando toda aquela fábula das três raças.  
Ali é o momento em que entendo que estávamos tirando o véu. Se na década de 1970 tivemos o Movimento  
Negro Unificado (MNU) denunciando o racismo, no início dos anos 2000, com as ações afirmativas,  
colocamos ainda mais o dedo na ferida. E aí vemos escolas privadas fazendo manifestações e indo até  
Brasília. E, novamente, quando nós pessoas negras somos muito oprimidas, nos aquilombamos no sentido  
de formar mais coletivos. Dentro do contexto da UERJ, surgem vários coletivos de estudantes negros; não  
é apenas o DENEGRIR20, o CENEGA-RJ21, o Coletivo Luiz Gama22 e o Coletivo Claudia Silva23. Vão sendo  
criados vários outros coletivos para sobreviver naquele espaço, porque por dentro a universidade também  
teve vários processos que tentaram retirar as ações afirmativas, como as plenárias no CONSUNI.24  
Dessa forma, passei por vários coletivos: DENEGRIR, CENEGA-RJ e Aqualtune25. E me lembro, como  
informa a tese do Amilcar Pereira (2010), da importância das organizações negras dentro das universidades  
e da criação desses coletivos. Outro ponto é como os movimentos negros propõem toda uma formação  
mediante a disputa curricular. Se não há essa formação dentro da universidade, nós organizamos grupos de  
estudo aos sábados e, ao invés de ir se divertir, estamos estudando autores negros e negras. Nesses grupos,  
apresentei os resultados da minha monografia e fui incentivada a pesquisar o que estudei no mestrado.  
Fotografia 5 – Reunião do Grupo de Estudos da Associação de Mulheres Negras Aqualtune  
Fonte: Acervo pessoal da autora, Rio de Janeiro, 2009.  
18 Trato do caso de pessoas negras retintas que se consideravam morenas e nunca negras.  
19 No Rio de Janeiro e no Brasil. A posição política de intelectuais brancos que, antes da Lei de cotas, estudavam as questões raciais pode ser  
shtml?fbclid=IwY2xjawKXGNFleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFBdzZPaVpDZVN0ZWM1c1Z3AR5_Xr4HJNZeLkaq7rcrYTZ8TsQ-i0ZC-vWi94oO-  
7QpY1bw4hm7WMhYQCc04xw_aem__61PiaPZtLFYfp3v3oTGEQ  
20 Coletivo e Estudantes Negros e Negras da UERJ – DENEGRIR. Fundado no ano de 2005.  
21 Coletivo de Estudantes Negros e Negras do Estado do Rio de Janeiro/CENEGA - RJ. Fundado no ano de 2004.  
22 Coletivos de Estudantes Negros e Negras da UERJ, com a maioria dos membros pertencentes à Faculdade de Formação de Professores/FFP e  
com atuação na cidade de São Gonçalo. Sem informações sobre o ano de fundação.  
23 O Coletivo Claudia Silva é um coletivo de mulheres negras, estudantes da Faculdade de Formação de Professores/FFP da UERJ e que foi criado  
em memória ao assassinato de Claudia Silva no ano de 2014.  
24 Nos primeiros anos das cotas raciais na UERJ, muitos docentes tentavam aprovar no Conselho Universitário da Universidade (CONSUNI) a propos-  
ta de extinguir a política de ações afirmativas para a população negra. A justificativa apresentada era de que a universidade precisava ter sua autonomia  
respeitada e de que as ações afirmativas não haviam sido discutidas e aprovadas internamente.  
25 A Associação de Mulheres Negras Aqualtune foi fundada no ano de 2008 e era composta por estudantes negras de diversas universidades públicas  
e privadas do estado do Rio de Janeiro.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
127  
Trago também os trabalhos de Messias Basques (2022) e Andrea Lopes Costa (2022) para falar da ausência,  
dessa marginalidade da intelectualidade negra e da moda atual em que todo mundo acha que discutir Lélia  
Gonzalez é apenas falar do texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984) e que isso já é ser antirracista  
— um saco isso! Eu sempre falo: “É só isso que você leu de Lélia? Nem trabalho com esse texto; eu trabalho  
com os textos dela sobre beleza”. E aí, prontamente, me perguntam: “De beleza26?”.  
Outro dado é a formação continuada, porque continuo circulando nesses espaços do movimento negro e  
me formando. Um curso marcante foi o de extensão que ocorreu no Colégio Pedro II, no Centro do Rio de  
Janeiro, e que atualmente se tornou um curso de especialização: Educação das Relações Étnico-raciais no  
Ensino Básico (EREREBÁ). Nesse curso criei toda uma rede; vou às escolas das pessoas, participo das bancas  
de pós-graduação e ali há uma política do amor-político.  
O movimento negro também, como menciona a professora Gislene Aparecida dos Santos, da USP  
(Universidade de São Paulo) e do curso de Filosofia, constrói os seus intelectuais. E nessas fotos estou ao  
lado da professora Anita Canavarro, da UFG (Universidade Federal de Goiás), que é uma referência na área  
de Química. Ela saiu do que é considerado uma Química mais “dura” e passou para o Ensino de Química.  
Na foto estou com ela e com as militantes da ONG Dandaras do Cerrado e integrantes do Projeto Investiga  
Menina. Por esse projeto, fui à cidade de Goiânia duas vezes para falar das minhas pesquisas.  
Fotografia 6 – ONG Dandaras do Cerrado e Projeto Investiga Menina da UFG  
Fonte: Acervo pessoal da autora, Goiânia, 2022.  
Na outra foto, estou no III Encontro de Educadores(as) Negros(as) e Indígenas de Aracaju, no ano de 2023,  
junto à professora Edite, que me convidou, uma mulher indígena de origem tupinambá. Como disse, os  
movimentos sociais, principalmente os movimentos negros e indígenas, vão construindo seus intelectuais e  
os fortalecendo (Gomes, 2017; Munduruku, 2012).  
26 GONZALEZ, Lélia. Odara Dudu: beleza negra. In: RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven-  
ções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. Texto originalmente publicado em 1986.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
128  
Fotografia 7 – II Encontro de Educadores Negros, Negras e Indígena de Aracaju  
Fonte: Acervo pessoal da autora, Aracaju, 2023.  
Ao meu lado na foto está a minha filha, porque sou uma intelectual que sempre a leva para eventos  
acadêmicos. Outro dia, ela esteve na banca de mestrado do pai e um dos professores da banca falou: “Ah, é  
bom você trazê-la, ela vai se adaptando ao ambiente acadêmico”. Daí o meu marido riu e disse ao professor:  
“Nossa, mas a minha filha conhece a Universidade de Santa Catarina e talvez conheça mais universidades do  
que você”. A pessoa olhou para uma criança negra e achou que ela não conhecia. E, de fato, no Rio de Janeiro,  
ela conheceu todas as universidades públicas porque foi comigo a todas.  
AS PESQUISAS ACADÊMICAS E SEUS DESDOBRAMENTOS  
O meu objeto de pesquisa é o corpo e o cabelo dentro de um ponto de vista antropológico. Também busquei  
estranhar uma cultura familiar porque, além de a minha família ser do santo, é composta por mulheres  
que trançavam os cabelos, isso até a minha geração. Durante a graduação em Ciências Sociais, realizei  
uma etnografia e entrevistei quinze mulheres negras sobre o tema da identidade negra e dos cabelos. Na  
graduação em Biblioteconomia, como fazia estágio na Fiocruz, tratei de saúde, especificamente da saúde  
ocupacional dos bibliotecários. No mestrado, trabalhei a relação da matemática nas tranças, e a última  
pesquisa foi a minha tese de doutorado, em que pensei sobre o reconhecimento profissional das trancistas.  
E até que deu certo, porque a tese está em um Projeto de Lei e circulando em Brasília para contribuir com a  
discussão sobre a profissionalização.  
Paroaquiparafalardadissertaçãodemestradoporqueinvestigueiaspráticasdetrançarcabelosrelacionadas  
à matemática e trabalhei com a área da Etnomatemática. Ali mostro vários conhecimentos matemáticos  
presentes na confecção dos trançados, faço associações com feixe de paralelas e realizo uma demonstração  
ocidental da matemática relacionando-a ao trançado em si.  
O interessante dessa pesquisa é que a defendi em 2013 e, apesar de eu não ter paciência para usar redes  
sociais — eu uso, mas não tenho paciência para fazer vídeos divulgando minha pesquisa e outras atividades  
—, a pesquisa foi ganhando corpo, espaço e reconhecimento. Por questões de compreensão, neste trecho do  
texto apresentarei os dados relatados durante a palestra sobre o reconhecimento da pesquisa, a partir de  
um quadro que sistematiza o estado da arte sobre o tema da etnomatemática das tranças. Uso este método  
por compreender que tornará mais fácil a compreensão do leitor e da leitora acerca das informações  
mencionadas.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
129  
Tabela 1 – O estado da arte sobre a etnomatemática das tranças  
Dissertações de Mestrado  
Título  
1
Autor(a)  
Área  
Instituição  
Ano  
Saberes populares da  
etnomatemática numa  
cosmovisão africana: con-  
tribuições à etnociência  
Cleiton da Silva Ensino de  
Universidade  
Federal Ru-  
ral do Rio de  
Janeiro  
2020  
Resplande  
Ciências e  
Matemática  
2
Convergência entre a et-  
nomatemática e a metod-  
ologia de reconhecimento  
de saberes: potencializar  
identidades negras  
Jorlania Caroli- Educação de  
Universidade  
do Estado da  
Bahia  
2021  
na Candido de  
Souza  
Jovens e Adul-  
tos e Ensino de  
Matemática  
3
Investiga Menina: uma  
estratégia de advocacy em  
currículos de química.  
Geisa Louise  
Mariz Lima  
Ensino de  
Ciências e  
Matemática  
Universidade  
2024  
2023  
Federal de Jataí  
4
A Etnomatemática da  
cultura afro-brasileira:  
possíveis contribuições  
na aprendizagem de  
matemática e cultura  
afro-brasileira dos es-  
tudantes da Educação  
Básica  
Nickson Deyvis Ensino de  
da Silva Correia Ciências e  
Matemática  
Universidade  
Federal de  
Alagoas  
Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização  
5
6
Conceitos matemáticos  
presentes nos trabalhos  
das trancistas: uma  
relação com a (Afro)etno-  
matemática  
Anne Karine  
Cherrin de  
Souza  
Educação  
Universidade  
Federal do  
Maranhão  
2022  
2024  
Matemática  
Trançando o antirracis-  
mo em sala de aula: uma  
sequência didática inter-  
disciplinar sobre a história  
das tranças africanas e a  
etnomatemática.  
Isadora Kéto-  
ry Souto de  
Moraes  
Ensino de Hu-  
manidades  
Instituto  
Federal do Sul  
Rio-grandense  
7
A trilha das Tranças Afro:  
uma pesquisa-ação em  
Francileide  
Santana dos  
Educação  
Universidade  
do Estado da  
Bahia  
2022  
Matemática  
prol da inserção da cultura Santos  
afro-brasileira no ensino  
das Progressões Aritméti-  
cas  
Universidade  
Federal da  
Bahia  
2022  
8
9
“Debaixo da sua trança  
tem história pra contar”:  
uma proposta didática  
para o ensino de polímer-  
os a partir do contexto das  
tranças sintéticas.  
Vanessa Sales  
Licenciatura  
em Química  
de Carvalho  
Mello  
Do afro à álgebra: um  
estudo das tranças  
Joice Caro-  
line de Jesus  
Marques  
Licenciatura  
Instituto Fede-  
2022  
em Matemática ral do Sergipe  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
130  
10  
Etnomatemática em mo-  
vimento: uma abordagem  
para valorizar as raízes  
matemáticas presentes na  
história e cultura afro-bra-  
sileira e africana  
Bianca Silva  
Braga  
Licenciatura  
Universidade  
2023  
em Matemática Federal do  
Mato Grosso do  
SUL/UFMS  
11  
A geometria como objeto  
de implementação da Lei  
11.645/2008.  
Alessandro Bis- Matemática  
po de Souza  
Instituto Fede-  
ral da Bahia  
2023  
2024  
12  
Matemática e tranças:  
possibilidades de discus-  
sões etnomatemáticas no  
ensino médio  
Carla Cristina  
Alves de Luna  
Licenciatura  
Universidade  
em Matemática Federal de Per-  
nambuco  
13  
14  
15  
Matemática afro-brasilei-  
ra por meio das tranças  
africanas  
Jéssica Caro-  
lina Fonseca  
Inácio  
Licenciatura  
Universidade  
2025  
2025  
2023  
em Matemática Federal de  
Lavras  
As tranças afro e sua abor- Layane Ferreira Licenciatura  
Universidade  
dagem etnomatemática na dos Santos  
educação antirracista  
em Matemática Federal de Per-  
nambuco  
Uma abordagem etno-  
matemática da profissão  
de trancista e sua contri-  
buição para o ensino de  
matemática na educação  
do campo  
Ana Cláudia  
Antônio da Sil-  
va; José Vilani  
de Farias  
Educação do  
Campo e Mate- ral de Pernam-  
mática buco  
Instituto Fede-  
Artigos publicados em revistas acadêmicas  
Ana Cláudia Educação do Revista Sergi-  
16  
17  
A prática de trançar de  
2024  
2023  
cabelos e sua contribuição Antônio da Sil-  
Campo e Mate- pana de Mate-  
para o Ensino de Mate-  
mática na Educação do  
Campo  
va; José Vilani  
de Farias  
mática  
mática e Educa-  
ção Matemática  
(ReviSeM) R, n.  
4, p. 152 – 174  
A [M]matemática nas  
Tranças das Mulheres  
Angolanas ou as Tranças  
das Mulheres Angolanas  
na [M]matemática  
Ezequias A. D.  
Educação Ma-  
Journal of Ma-  
thematics and  
Culture August  
Cassela e Eliane temática  
C. Santos  
18  
19  
Etnomatemática: um  
Bianca Silva  
Braga e Wa-  
Educação Ma-  
Revista Univer- 2023  
sidade Federal  
do Mato Grosso  
do Sul  
caminho para a valoriza-  
temática  
ção da história e da cultura léria Andrade  
afro-brasileira e africana  
Africanidades, Matemática Anthonny E.  
e Teatro de Mamulengos M. Vasconce-  
Martins  
Educação Ma-  
temática  
Revista Inter-  
nacional de  
2023  
uma encruzilhada de sabe- los; Cristiane  
Formação de  
Professores da  
Universidade  
de São Paulo  
res e reflexões  
de A. Rocha e  
José Ivanildo F.  
Carvalho  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
131  
Projeto de iniciação Científica na educação básica27  
20  
Etnomatemática presente  
Carlos G. F.  
Matemática,  
Anais da Secre- 2022  
nos penteados e trançados Távora; Maria  
Biologia e Artes taria de Educa-  
ção do Estado  
capilares: estudos de Lua-  
ne Bento dos Santos  
Jéssyka A. San-  
tos et al.  
do Ceará. Even-  
to Científico28  
21  
Etnomatemática e os sabe- Uilana E. S.  
Interdisciplinar Projeto de  
Iniciação  
2021  
2024  
res por trás das tranças  
Jesus, Larissa  
V. Santos et al  
Científica da  
SEDUC-BA  
22  
Entrelaçando saberes; a et- Laura Iraci  
nomatemática nas tranças Mousinho Fer-  
Interdisciplinar Projeto para  
8º Semana  
culturais afro brasileiras  
reira da Silva,  
Luís Gustavo  
Gomes dos  
de Iniciação  
Científica da  
da Secretaria  
Santos,  
de Educação  
Maria Eduarda  
Santana do  
Itapissuma/PE  
Nascimento,  
Marilia Cecilia  
Silva do Espiri-  
to Santos  
23  
Padrões geométricos e  
algébricos existentes nas  
Lisandra Maya- Matemática  
ra Paulino dos  
Projeto de Ensi- 2024  
no na SEDU-  
C-CE/ Etapa  
tranças nagô: Uma experi- Santos  
ência na Escola  
escolar  
Materiais didáticos  
25  
26  
Rio Educa  
Secretaria  
Matemática  
Material didá-  
tico para o 2º  
2022  
2022  
Municipal de  
Educação do  
ano escolar  
Rio de Janeiro  
Rio Educa  
Secretaria  
Matemática  
Material didá-  
tico para o 4º  
ano  
Municipal de  
Educação do  
Rio de Janeiro  
escolar  
27  
28  
Rio Educa, Projeto Tra-  
vessias  
Secretaria  
Matemática  
Material Didá-  
tico de Reforço  
para o 6º ano  
escolar  
2022  
2022  
Municipal de  
Educação do  
Rio de Janeiro  
Caderno de Gestão  
Escolar para a Equidade.  
Espírito Santo  
Instituto Uni-  
banco e Secre-  
taria de Estado  
de Educação do  
Espírito Santo  
Interdisciplinar Caderno  
didático para  
a Gestão da  
SEDUC-ES  
27 Durante o evento, eu me referia às semanas científicas promovidas pelos seguintes estados: Ceará, Piauí, Bahia e Paraíba.  
28 O Ceará Científico é uma ação implementada nas escolas da rede estadual de ensino público desde 2007 e envolve todas as escolas e estudantes  
da rede pública do estado do Ceará. Tem como princípio popularizar as ciências e promover o desenvolvimento de tecnologias, estimulando a investiga-  
ção, a inovação e a busca de conhecimentos de forma cotidiana e integrada com toda a comunidade escolar. Os projetos escolares são desenvolvidos  
pelos estudantes, sob orientação de seus professores, estabelecendo relações dinâmicas entre os conhecimentos específicos das disciplinas da base  
comum do Ensino Fundamental e Médio e as problemáticas sociais, culturais e ambientais, incentivando a construção de projetos que promovam a  
ce.gov.br/ceara-cientifico/  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
132  
29  
30  
Livro de Matemática, 6º  
ano, Ensino Fundamental  
II, (Coleção Keppler)  
Editora San-  
tillana e Mo-  
derna  
Matemática  
Material didá-  
tico do Ensino  
Fundamental II  
2022  
2020  
Prisma: ciências humanas: Editora FTD  
Brasil da diversidade: so-  
ciedade e direitos: ensino  
médio  
Ciências Hu-  
manas  
Livro Didáti-  
co do Ensino  
Médio  
31  
Caderno de Apoio à  
Aprendizagem – EJA  
Secretaria  
de Educação  
do Estado da  
Bahia  
Interdisciplinar Ensino Médio  
2021  
2024  
32  
Matemática e seu ensino  
: na esteira da educação  
das relações étnico-ra-  
ciais (Cartilha de práticas  
pedagógicas. Matemática:  
ensino fundamental).  
Ivanildo Car-  
valho  
Matemática  
Material de  
Apoio do  
(Secretaria de  
Educação do  
Estado de Per-  
Professor para  
o Ensino de  
Matemática do  
Fundamental II  
nambuco)  
Fonte: Tabela elaborada pela autora, 2025.  
A minha trajetória (acadêmica e de vida) é marcada pela preocupação com a questão racial; não há como  
separar uma coisa da outra. Como me disse uma aluna da EJA, do primeiro ano do ensino médio: “Todas as  
suas pesquisas levam a isso, né? Todos os seus trabalhos tratam da questão racial!”. E eu respondi: “Já que  
ninguém trata, eu serei a professora que vai falar sobre”.  
Basicamente, é isso: compreendo que sou fruto do movimento negro educador, do movimento negro cultural.  
Até o meu nome, Luane Bento, remete a esse contexto da década de 1980, quando houve a disseminação  
de nomes mais africanos, como Luanda, Luana, Lorane. Sou, portanto, produto dos movimentos negros,  
das ações afirmativas, e só estou aqui porque existe movimento negro. Não estaria se não houvesse esse  
movimento negro familiar, esse projeto educativo da minha família, e temos várias referências que discutem  
isso, como Petrônio Domingues (2008). Também não estaria aqui se não tivesse havido lutas políticas para  
que o Brasil adotasse ações afirmativas.  
Além disso, temos contribuído para os campos de pesquisa, como o da educação. Por isso quis mostrar os  
resultados da dissertação: entendo que estou viva, enquanto muitos intelectuais negros presentes nos livros  
didáticos só passaram a ser reconhecidos após a morte. Podemos até não valorizar os livros didáticos, mas,  
dependendo da região do Brasil, eles são o único material de leitura que chega às escolas. Esses intelectuais  
entram já mortos, enquanto eu estou viva. Tenho quarenta anos e produzi uma pesquisa que faz o estudante  
olhar e dizer: “Nossa, eu não imaginava que cabelo ou trança tinha matemática!”.  
Como me disse uma estudante em um curso que ministrei: “Que bom, né? Porque antigamente a gente só  
aparecia no livro acorrentado!”. Agora, o nosso cabelo, um dos elementos do corpo mais usados para nos  
discriminar (Gomes, 2006), torna-se um recurso de aprendizagem. Um espaço onde se pode aprender  
matemática, história africana e no qual eu tenho contribuído.  
É isso, de forma rápida, porque sou muito prolixa. Muito obrigada!  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
TRAJETÓRIAS NEGRAS: PERCURSOS,  
AVANÇOS E RETROCESSOS NA ACADEMIA  
Luane Bento dos Santos  
133  
REFERÊNCIAS  
BASQUES, Messias. Zora Hurston e as luzes negras das Ciências Sociais. Revista Ayê, Fortaleza, v. 1, n. 1, p. 1-8, 2019.  
BOMENY, Helena. Salvar pela escola. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 55, p. 41-67, 2007.  
CAVALLEIRO, Eliane. Racismo e anti-racismo na escola: repensando nossa escola. São Paulo: Selo Negro,  
2001.  
COSTA, Andréa Lopes. Ações afirmativas e transformações no campo intelectual: uma reflexão. Educação e  
Sociedade, Campinas, v. 43, p. 1-17, 2022.  
DOMINGUES, Petrônio. Um templo de luz: Frente Negra Brasileira (1931-1937) e a questão da educação.  
Revista Brasileira de Educação, v. 13, p. 517-534, 2008.  
GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou  
ressignificação cultural? Revista Brasileira de Educação, Campinas, n. 21, p. 40-51, set./dez. 2002.  
GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo de identidade negra. Belo Horizonte:  
Autêntica, 2006.  
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Rio de  
Janeiro: Vozes, 2017.  
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (orgs.). Por um  
feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.  
MUNDURUKU, Daniel. O caráter educativo do movimento indígena brasileiro (1970-1990). São Paulo:  
Paulinas, 2012.  
NOGUEIRA, Maria Alice. Relação família-escola: novo objeto na sociologia da educação. Paideia, n. esp.,  
fev./ago. 1998.  
PEREIRA, Amílcar Araújo. “O mundo negro”: a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil  
(1970-1995). 2010. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Filosofia  
e Ciências Humanas, Departamento de História, Niterói, 2010.  
SANTOS, Luane Bento dos. Para além da estética: uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar  
cabelos nos grupos afro-brasileiros. 2013. Dissertação (Mestrado em Relações Étnico-Raciais) – Centro  
Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Rio de Janeiro, 2013.  
SANTOS, Luane Bento dos. “Trancista não é cabeleireira!”: identidade de trabalho, raça e gênero em salões  
de beleza afro no Rio de Janeiro. 2022. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade  
Católica do Rio de Janeiro, 2022.  
SANTOS, Sônia Beatriz. Famílias negras: uma perspectiva sobre raça, gênero e educação. Fórum Identidades,  
Itabaiana, p. 116-158, 2016.  
SAVIANI, Dermeval. A política educacional no Brasil. In: STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena C.  
(orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2005. v. 3: Século XX.  
TRINDADE, Azoilda. Valores e referências afro-brasileiras. In: BRANDÃO, Ana Paula (org.). Saberes e  
fazeres: modos de interagir. v. 3. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2006.  
ZAGO, Nadir. Fracasso e sucesso escolar no contexto das relações família e escola: questionamentos e  
tendências em sociologia da educação. Revista Luso-brasileira, ano 2, n. 3, p. 57-83, 2011.  
Data de submissão: 20/05/2025  
Data de aceite: 21/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025