REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
DESCONSTRUINDO O “PARAÍSO RACIAL”:
A LINHA DE COR COMO MARCA DO COLONIALISMO
Lidomar Nepomuceno
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Gonzalez apresenta o carnaval como um rito que atualiza o “mito da democracia racial”, ao observar o “duplo
fenômeno do racismo e do sexismo” para compreender o lugar da mulher negra no “processo de formação
da cultura brasileira e os diferentes modos de ‘rejeição/integração’ de seu papel” (2020, p. 78). Interessa-lhe
também como a mulher negra é situada na manutenção do discurso do “mito da democracia racial” (2020,
p. 76). Nesse sentido, a “mulata”, a “doméstica” e a “mucama” são papéis e lugares sociais ocupados por
mulheres negras que a autora mobiliza para pensar as dinâmicas de mobilidade e separação, inscritas como
marcas da cultura brasileira. Essas personagens funcionam como traços da “memória” que revelam o “não
dito”, no qual a cultura brasileira oculta, ao mesmo tempo que evidencia, as marcas da africanidade que a
constituem (2020, p. 78).
Na reencenação simbólica do “mito da democracia racial” proporcionada pelo carnaval, Gonzalez destaca a
figura da “mulata” para demonstrar como, nessa suspensão ou falha temporária do discurso da “consciência”,
a mulher negra é autorizada a ocupar outros espaços sociais. É nesse momento que “ela perde seu anonimato
e se transfigura na Cinderela do asfalto, adorada, desejada [...]” (2020, p. 80), em um ato “feérico”, termo que
remete aos contos de fadas, portanto a uma ficção. Esse espetáculo relativiza o lugar da mulher negra apenas
de forma momentânea, pois, como lembra a autora, ao fim do “endeusamento carnavalesco”, ela retorna ao
cotidiano em que volta a ocupar o posto de empregada doméstica (2020, p. 80).
É a partir desse recorte de gênero que Gonzalez propõe a “volta ao tempo da escravidão” (2020, p. 81), com
o objetivo de examinar outro lugar social ocupado pela mulher negra, a “mucama”. Esta mulher escravizada
era responsável por auxiliar nos serviços domésticos, cuidar e alimentar as crianças da família escravocrata,
exercendo muitas vezes a função de ama de leite, mas não somente. Era também objeto de satisfação dos
senhores de escravos e, frequentemente, vítima de estupro (2020, p. 81). Gonzalez chama atenção para como
esse último aspecto foi reiteradamente ocultado pelos “códigos oficiais”6. O que novamente se apresenta
nesse ponto é o jogo de “memória” e “consciência” já apresentado anteriormente. Trata-se do que se escolhe
ou não lembrar.
É nesses espaços do não dito que a autora encontra os sentidos da junção “mulata/doméstica” a partir da
figura da “mucama” (2020, p. 82). Para ela, a “doméstica” nada mais é do que a “mucama permitida”. O que a
autora evidencia é como a mobilidade social da mulher negra é limitada na sociedade brasileira, cuja cultura
opera pela naturalização dos lugares destinados às mulheres negras. Assim como a “mucama” jamais poderia
se tornar esposa do “capitão-mor”, pois isso significaria manchar “o sangue com uma negra” (2020, p. 82),
ela também não pode ocupar vagas de emprego destinadas a pessoas com “boa aparência”. Como Gonzalez
ressalta, “boa aparência” é um requisito associado à branquitude, e não uma possibilidade atribuída à mulher
negra (2020, p. 84).
Quando o ofício a ela destinado no pós-abolição permanece sendo o de “cozinheira, faxineira, servente”
(2020, p. 78) ou quando nem mesmo o uso do mesmo elevador ou entrada é permitido à mulher negra
empregada doméstica (2020, p. 83), o que se reafirma é a dinâmica da separação. Essa dinâmica, na cultura
brasileira descrita por Gonzalez, tem base na articulação entre raça e gênero, funcionando como uma marca
difusa nas experiências sociais às quais pessoas negras estão submetidas em diferentes contextos. A autora
também destaca a naturalização da ocupação dos espaços de moradia, como os “conjuntos habitacionais”,
que materializam “a divisão racial do espaço” (2020, p. 85).
Apresentados os três contextos nacionais profundamente atravessados pelo colonialismo e retomando a
“linha de cor” de Du Bois, podemos observar que o “problema da linha de cor” também se manifesta nas
sociedades analisadas por Gluckman e Gonzalez, inclusive em dinâmicas semelhantes que dizem respeito ao
processo que cria objetiva, subjetiva e simbolicamente elementos de diferenciação que contribuem para o
estabelecimento e a manutenção de hierarquias socioétnico-raciais que materializam a “linha de cor”7.
Com a análise destes três diferentes cenários em mente, podemos seguir para a próxima seção, na qual
discuto a visão do Brasil enquanto um suposto “paraíso racial”, buscando estreitar um pouco mais o diálogo,
sobretudo com Du Bois, para pensar a “linha de cor” no Brasil.
6 A autora cita o exemplo da definição de “mucama” dada pelo dicionário Aurélio: “Mucama. (Do quimbundo mu’kama ‘amásia escrava’) S. f. Bras. A
escrava negra moça e de estimação que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros ou acompanhar pessoas da família e que, por vezes, era ama
de leite” (grifos nossos). Gonzalez comenta que “o ‘por vezes’ é que, de raspão, deixa transparecer alguma coisa daquilo que os africanos sabiam, mas
que precisava ser esquecido, ocultado” (Gonzalez, 2020, p. 91).
7 Importa destacar que a aproximação dessas realidades em seus contextos nacionais, para a análise comparativa aqui proposta, não equipara as
experiências de ser negro, sujeito racializado, como se fossem uniformes. Elas não são. O modo como as relações raciais se constituem e constroem
identidades em cada um desses contextos nacionais é profundamente atravessado por idiossincrasias decorrentes de um processo sócio-histórico
fundado no colonialismo.