REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
DESCONSTRUINDO O “PARAÍSO RACIAL”:
A LINHA DE COR COMO MARCA DO COLONIALISMO
Lidomar Nepomuceno
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2. Análises possíveis sobre o “Paraíso Racial”
Ao apresentar a ideia do “véu”, Du Bois está pensando na construção subjetiva das pessoas que integram
a sociedade estadunidense, construção que resulta na separação de pessoas negras e brancas, dada a
firme crença na inferioridade de pessoas negras. Quando Gonzalez aponta o discurso da “consciência” que
naturaliza certos lugares e papéis sociais subalternizados para pessoas negras, especialmente para a mulher
negra (2020, p. 78), o que está em discussão é igualmente uma construção subjetiva de uma cultura que tem
o “racismo” e o “sexismo” como “sintoma da sua neurose”. Importa destacar que, em ambos os casos, raça
e gênero caminham juntos na estruturação das relações, pois, como vimos, Du Bois (2023) ressaltou como
mulheres negras que trabalhavam em bairros brancos eram particularmente afetadas em comparação aos
homens negros naquele contexto social.
Ao definir “situações sociais” em dadas ocasiões como o “comportamento de indivíduos”, Gluckman também
está tratando de uma dimensão subjetiva. Ao apresentar a “situação da ponte”, ele chama atenção para o fato
de que desde o espaço ocupado por cada grupo (europeus e Zulu) na inauguração, situados em margens
distintas do rio e da estrada, até as comemorações posteriores, tudo ocorre sem planejamento prévio ou
ordem formal que estabeleça a separação como princípio organizador. Segundo o autor, o que havia ali era
uma reprodução “em acordo com a estrutura da sociedade zululandesa moderna” (2010, p. 256), que se
estende aos indivíduos que a compõem. A “linha de cor” estava integrada àquela estrutura social. Gonzalez
também aponta essa naturalização ao destacar o tom de discursos que atribuem traços de “infantilidade”,
“irresponsabilidade” e falta de capacidade cognitiva a pessoas negras como forma de justificar o processo
social que as marginaliza e criminaliza. “Menor negro só pode ser pivete ou trombadinha, pois filho de peixe,
peixinho é. Mulher negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta.
Basta a gente ler jornal, ouvir rádio e ver televisão. Eles não querem nada”. (2010, p. 78)
A marca da separação nos três contextos sociais analisados também atravessa o acesso à terra e à moradia.
No contexto pós-abolição nos EUA, não houve distribuição de terras ao povo negro liberto e o arrendamento
tornou-se regra, sobretudo para camponeses negros do Sul que, com a cidadania negada pela Suprema
Corte, permaneciam sem garantias de direitos. Entre os Zulu, o governo colonial os destinou às reservas,
de onde muitos precisavam se deslocar temporariamente para as cidades em busca de trabalho. Segundo
Gluckman, o padrão de vida dos Zulu era significativamente inferior ao dos europeus que também viviam
nas reservas (2010, p. 268). Gonzalez, por sua vez, evidencia a continuidade dessa separação no Brasil
ao destacar a desigualdade social que garante ao “grupo dominante”, os brancos, melhores condições de
moradia. Algo que se reproduz historicamente “da senzala às favelas” (2020, p. 84-85).
Entre a “situação da ponte” e o “carnaval”, há ainda outra aproximação relevante. Gluckman observa que,
embora os grupos raciais (europeus e Zulu) mantivessem relações marcadas pela hostilidade e pelo conflito,
eles se uniram na celebração de um interesse comum, a inauguração da ponte (2010, p. 258). Já Gonzalez,
ao analisar o carnaval como o “rito” que atualiza o “mito da democracia racial”, aponta que ele possui um
caráter subversivo da “ordem da consciência”, pois possibilita uma suspensão momentânea da “linha de
cor”, abrindo espaço para uma pseudo-mobilidade social que leva pessoas negras das “páginas policiais” às
“capas de revista” (2020, p. 91).
Apesar dessa suspensão temporária nos dois eventos, a inauguração da ponte prosseguiu com celebrações,
banquete e bebida realizadas separadamente, com o regente organizando sua própria festividade; assim
como, passado o carnaval, a “mulata” retorna ao papel de “doméstica”, obrigada pelas normas do edifício a
usar a entrada de serviço, tendo sua mobilidade social limitada a trabalhos subalternizados. Du Bois (2023)
também mostrou quadro semelhante no contexto dos empregos disponíveis às mulheres negras na Filadélfia.
No caso do Brasil, como discute Juliana Góis em “Du Bois and Brazil: Reflections on Black Transnationalism
andAfricanDiaspora”(2022),nãoapenasDuBois,masdiversosintelectuaiseativistasnegrosestadunidenses
enxergavam o Brasil como um “paraíso racial” ou uma “democracia racial”. Essa imagem ganhou tanta
força que se realizou o “Projeto UNESCO”, cuja proposta era demonstrar, por meio de vários estudos, o
Brasil como exemplo de “democracia racial” (Lima, Alves, 2013). A obra de Gilberto Freyre, “Casa grande
& senzala: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil” (1995), publicada em 1933, contribuiu
fortemente para consolidar essa percepção, embora já em 1910 o Brasil fosse descrito como um país sem
“linha de cor”, sendo inclusive citado por Du Bois em “The Negro” (Góis, 2022).
Góis (2022) apresenta várias hipóteses para explicar por que Du Bois aceitou essa imagem do Brasil como
um país sem “linha de cor”. Entre elas, o fato de ele ter privilegiado o contato com acadêmicos e não com