CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE O  
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ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO  
Letter to my black mother: an essay on the encounter of  
epistemes and the condition of the black  
Carta a mi madre negra: un ensayo sobre el encuentro de  
epistemes y la condición del negro  
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THIAGO MACEDO DE CARVALHO  
ORCID: 0000-0002-3842-3717  
RESUMO  
Escrito em forma de carta, o presente ensaio propõe uma reflexão crítica sobre as tensões entre os saberes  
acadêmicos e aqueles historicamente deslegitimados, mobilizada a partir dos estranhamentos vivenciados  
por estudantes negros ao ingressarem na universidade. A mãe preta aqui evocada não se refere à figura  
debatida por Gilberto Freyre e Lélia Gonzalez no contexto da formação da sociedade brasileira; contudo,  
sua agência e seu saber, reconhecidos por Gonzalez, perpassam todo o ensaio. Por adotar a forma epistolar,  
a narrativa assume um tom dialógico, afetivo e pessoal, sem se limitar a um relato particularizado: a mãe —  
destinatária da carta — não é especificamente a do autor, mas uma imagem discursiva construída a partir  
de experiências compartilhadas. Fundamentada em referenciais teóricos e vivências reais, a carta converte-  
se em recurso metodológico para explorar o encontro entre diferentes epistemes. Inspirado nas obras de  
Frantz Fanon, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, o texto discute os processos de subjetivação e as relações de  
dominação implicadas na experiência universitária, questionando a pretensa neutralidade desse campo e os  
mecanismos que operam na hierarquização dos conhecimentos, ao passo que a mãe preta, longe de ser uma  
destinatária passiva, assume o papel de interlocutora crítica, cujas percepções e ensinamentos revelam as  
limitações do ethos acadêmico.  
Palavras-chave: Carta; Ações Afirmativas; Saberes; Epistemicídio; Colonialidade.  
ABSTRACT  
Written in the form of a letter, this essay offers a critical reflection on the tensions between academic  
knowledge and those historically delegitimized, stemming from the sense of estrangement experienced  
by Black students upon entering the university. The Black mother evoked here does not refer to the figure  
discussed by Gilberto Freyre and Lélia Gonzalez in the context of Brazilian society’s formation; however, her  
agency and knowledge, recognized by Gonzalez, permeate the entire essay. By adopting the epistolary form,  
the narrative assumes a dialogic, affective, and personal tone, without being confined to a particularized  
account: the mother —the letter’s addressee— is not specifically the author’s, but a discursive image built  
from shared experiences. Grounded in theoretical references and real experiences, the letter becomes a  
methodological resource to explore the encounter between different epistemes. Inspired by the works of  
Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, and Sueli Carneiro, the text discusses the processes of subjectivation and the  
1 Registro meu agradecimento especial a Neville Santos pela leitura atenta da versão preliminar e pelos comentários que contribuíram para o aprimo-  
ramento deste ensaio.  
2 Doutorando e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (PPGSOL/UnB), licenciado em Ciências Sociais pelo Instituto Federal de Edu-  
cação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Atualmente é professor de Sociologia no cursinho popular Movimento Educação Livre. Membro do Núcleo  
de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) do IFG/Anápolis. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Desigualdades e crítica no Brasil con-  
temporâneo (Describa) da UnB.  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
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relations of domination involved in the university experience, questioning the supposed neutrality of this  
field and the mechanisms that sustain the hierarchy of knowledge, while the Black mother, far from being  
a passive recipient, takes on the role of a critical interlocutor whose perceptions and teachings reveal the  
limitations of the academic ethos.  
Keywords: Letter; Affirmative Action; Knowledge; Epistemicide; Coloniality.  
RESUMEN  
Escrito en forma de carta, el presente ensayo propone una reflexión crítica sobre las tensiones entre los  
saberes académicos y aquellos históricamente deslegitimados, movilizada a partir de los extrañamientos  
vividos por estudiantes negros al ingresar en la universidad. La madre negra evocada aquí no se refiere  
a la figura debatida por Gilberto Freyre y Lélia Gonzalez en el contexto de la formación de la sociedad  
brasileña; sin embargo, su agencia y su saber, reconocidos por Gonzalez, atraviesan todo el ensayo. Al  
adoptar la forma epistolar, la narrativa asume un tono dialógico, afectivo y personal, sin limitarse a  
un relato particularizado: la madre —destinataria de la carta— no es específicamente la del autor, sino  
una imagen discursiva construida a partir de experiencias compartidas. Fundamentada en referencias  
teóricas y vivencias reales, la carta se convierte en un recurso metodológico para explorar el encuentro  
entre diferentes epistemes. Inspirado en las obras de Frantz Fanon, Lélia Gonzalez y Sueli Carneiro, el  
texto discute los procesos de subjetivación y las relaciones de dominación implicadas en la experiencia  
universitaria, cuestionando la supuesta neutralidad de este campo y los mecanismos que operan en la  
jerarquización de los conocimientos, mientras la madre negra, lejos de ser una destinataria pasiva, asume  
el papel de interlocutora crítica, cuyas percepciones y enseñanzas revelan las limitaciones del ethos  
académico.  
Palabras clave: Carta; Acciones Afirmativas; Saberes; Epistemicidio; Colonialidad.  
UMA REAPROXIMAÇÃO AFETIVA E EPISTÊMICA  
Oi, mãe,  
Separei um tempo para lhe escrever esta carta, contrariando a pressa e a urgência dos tempos atuais. Estava  
rememorando uma conversa que tivemos no início da minha graduação, na qual eu estava feliz e apreensivo  
por ingressar na universidade. A senhora estava orgulhosa, pois eu seria a primeira pessoa da família a cursar  
o Ensino Superior. Resultado das Ações Afirmativas3, especialmente a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012),  
combinadas à oportunidade de ter concluído os Ensinos Fundamental e Médio – algo que devo à senhora,  
que sempre me apoiou dizendo: “Você vai virar alguém na vida”. Essa frase era um misto de incentivo, bronca  
e carinho, além de revelar nossa condição.  
O curso escolhido, Ciências Sociais – te contei sobre as primeiras aulas e ouvi de volta: “Acho que você vai ser  
bom nisso; desde criança já era do contra”. Imaginei, na época, que a senhora não havia entendido minhas  
explicações, principalmente sobre a Sociologia. Tempos depois, me deparei com o seguinte trecho de um  
importante sociólogo: “A teoria crítica é crítica contra si mesma e contra os seus próprios defensores sociais”  
(Marcuse, 1997, p. 157). Então, percebi que a senhora havia compreendido melhor do que eu naquele início  
de carreira.  
Estou feliz por fugir da correria da vida para te escrever. E dizem, mãe, que essa pressa toda – a qual  
dificulta o nosso reencontro – está vinculada à maneira como compreendemos e nos relacionamos com  
o mundo. Carregamos um sentimento de urgência e depositamos nos itens de desejo, nas metas e no  
futuro um valor muito elevado, se comparado ao que é dado às relações e ao tempo presente, deixando  
aquelas conversas que acompanham um cafezinho e um bolo de fubá para depois. As autorias que estudo  
nomearam de neoliberalismo esse momento do capitalismo. Ele impõe um novo modo de pensar e agir  
às pessoas (Dardot; Laval, 2016; Brown, 2019), condicionando suas vidas a uma precarização (Standing,  
2014; Antunes, 2018) mais radical. A senhora, sempre muito sagaz, diria que a vida do nosso povo já era  
dura mesmo antes desse tal neoliberalismo – e tem toda razão.  
3 Bernardino-Costa; Borges, 2021; Daflon; Feres Júnior; Campos, 2013; Feres Júnior; Daflon, 2014; Oliven; Bello, 2017.  
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DAS MÁSCARAS À REALIDADE  
Pensando nisso, quero te apresentar um pensador chamado Frantz Fanon (1925-1961). Mas, mãe, não se  
engane pelo nome: dessa vez, não é um autor francês, inglês ou alemão, e sim um intelectual nascido na  
Martinica. Isso mesmo, o país mencionado na marchinha4 que a senhora cantarolava enquanto varria a casa  
ou regava as plantas. Hoje percebo como essa canção era problemática, mas esta carta não é sobre ela. Assim  
que vi a fotografia de Fanon no interior do livro Pele Negra Máscaras Brancas (2020 [1952]), rememorei o tio  
naquele instante. Mãe, ele é a cara do tio! Vou mandar um exemplar junto à carta, para a senhora conferir e  
responder depois se concorda.  
Fanon escreve a partir do olhar de alguém que foi atravessado pelo colonialismo, igualzinho a gente aqui  
no Brasil, mãe, e, diante das condições materiais e subjetivas a que o negro é submetido, ele toma posição,  
escancarando essa zona de negação e desumanização. Mesmo sem ninguém pedir, ele o faz, sobretudo pelo  
devir de ser um intelectual negro, escrevendo como aquele que se rebela e indica o caminho para o quilombo:  
Por que escrever essa obra? Ninguém me pediu que o fizesse. Muito menos aqueles a quem ela se dirige. E então? Então respon-  
do calmamente que existem imbecis demais neste mundo. E, tendo dito isso, compete a mim demonstrá-lo. Rumo a um novo  
humanismo... A compreensão entre os homens... Nossos irmãos de cor (Fanon, 2020, p. 21).  
Pela primeira vez, uma leitura acadêmica me fez sentir mais próximo da senhora. Como se o livro do Fanon  
fosse produzido especialmente para nós, organizando o que sentimos, pensamos e vivemos. É um acadêmico  
que compreende e carrega as mesmas marcas econômicas, simbólicas, sociais e psicológicas que a gente,  
mãe. Ele reflete sobre vários pontos, mas quero destacar a relação da mulher negra com o homem branco do  
capítulo 2, em um contexto de subserviência: “ela não demanda nada, não exige nada, a não ser um pouco de  
brancura em sua vida” (Fanon, 2020, p. 58). Enxerguei nessa dinâmica, a relação que nossa família tem com  
o sobrenome de origem portuguesa. Embora alguns parentes o defendam com muito empenho, ninguém  
de fato conheceu esse único homem que batizou a família, sem considerar outro agravante: o sobrenome é  
apenas do lado paterno.  
O discurso que nos chegou foi: o (pseudo) bisavó voltou para Portugal às pressas, sem poder levar a bisa  
com ele. Sabe, mãe, nunca engoli essa história. Como não conheci a bisa, soube, por intermédio da vó e de  
algumas tias, que esse tal português não foi pai, não foi marido, não foi arrimo e não contribuiu em nada com  
a nossa gente. Mas o que importava na época, era ter um sobrenome, como se fosse uma espécie de carimbo,  
de selo, uma validação de que somos humanos e brasileiros. E o sobrenome da bisa, será que alguém sabe?  
Qual é a história dela? De qual país da África ela foi arrancada?  
Aproveito a reflexão para perguntar: e do seu lado da família, mãe? Me conte o que sabe, para que desses  
fragmentos possamos remontar parte da história. Sei, pela oralidade, que a bisa e o biso eram descendentes  
de negros com indígenas e que ela trabalhava de cozinheira e de empregada doméstica, enquanto ele era  
pescador. Como não há registro de seus sobrenomes para encontrar um lastro documental de suas origens –  
carregavam apenas homenagens aos santos católicos, seja no primeiro, seja no segundo nome, seguido pelo  
famoso “da Silva”. Qualquer informação pode ser de grande valia.  
Fanon notou, portanto, que a racialização foi capaz de produzir um tipo de hierarquização dos corpos no  
interior das relações, não apenas no sentido econômico, mas também no sentido simbólico e subjetivo.  
Especialmente nesses contextos em que a violência colonial se apresenta de modo mais explícito, como no  
caso da bisa. O homem negro também não escapa essa armadilha5, contudo ela incide sobre a mulher negra  
de um modo distinto, pois o colonialismo aciona tanto o racismo quanto o patriarcado. Mais adiante, mãe,  
vou te falar sobre uma autora brasileira que parte desse lugar, o da mulher negra, expondo o racismo e o  
sexismo. Por ora, vou deixar um último trecho para te instigar a ler o intelectual que tanto se parece com o  
tio:  
De modo algum deve a minha cor ser experimentada como uma tara. A partir do momento em que o negro aceita a clivagem im-  
posta pelo europeu, ele não tem mais trégua, e, ‘em vista disso, não é compreensível que tente ascender até o branco? Ascender  
na gama das cores às quais o branco atribui uma espécie de hierarquia?’Veremos que outra solução é possível. Ela implica uma  
reestruturação do mundo. (Fanon, 2020, p. 84)  
Às vezes fico pensando em quanta ingenuidade tive nos primeiros semestres da faculdade: li toda sorte de  
pensadores europeus e acreditei que a cisão entre o senso comum e o conhecimento científico demarcaria e  
separaria os saberes que herdei da senhora e aqueles que eu estava adquirindo como legítimos e superiores.  
4 Refiro-me à marchinha “Chiquita Bacana” de Braguinha e Alberto Ribeiro, datada de 1949.  
5 Vide o capítulo 3 de Pele Negra Máscaras Brancas (2020 [1952]).  
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Me perdoe, mãe. Ainda não tinha letramento racial suficiente para entender que a ciência ocidental foi  
ferramenta da sanha dos colonizadores por poder, riqueza e controle. Uma poderosa ferramenta, capaz de  
categorizar tudo e todos. Assim, encapsularam e classificaram os saberes dos povos indígenas e dos cativos  
de África como saberes passíveis de extermínio, apagamento e desvalorização – o epistemicídio. Aprendi esse  
conceito com uma intelectual chamada Sueli Carneiro (2023), e venho aprendendo muito com sua obra.  
AS INTELECTUAIS NEGRAS NOS CONECTAM  
Como são as coisas, né, mãe? Precisei conhecer autores estrangeiros primeiro para só depois conhecer  
os intelectuais brasileiros. Fiz leituras geográfica e temporalmente distantes daqui, para então conseguir  
voltar e perceber o que tínhamos de tão valioso no passado e no presente. A lista é extensa, mas quero falar  
especialmente das pensadoras. Sim, mãe! Mulheres como a senhora, como minha irmã, como minhas tias,  
como minhas avós. Elas são Virgínia Bicudo, Carolina de Jesus, Lélia Gonzalez, Cida Bento, Sueli Carneiro,  
Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Ynaê Lopes dos Santos, Flávia Rios, Jacqueline Moraes Teixeira  
e tantas outras.  
Da mesma forma que enxerguei o tio no rosto de Fanon, vejo a senhora no de Lélia Gonzalez. Pode ser que  
eu esteja projetando e, mesmo assim, é tão importante ver pessoas como a gente ocupando espaços que há  
tanto tempo desconsideraram nossa existência e nossa produção de saberes. É impressionante como Lélia  
sacudiu as estruturas, dentro e fora da universidade, atuando como intelectual e militante do Movimento  
Negro Unificado. É fundamental conhecer essas referências, pois, muitas vezes, nem nós mesmos nos vemos  
nessas posições. Afinal, existem certas imagens de controle (Collins, 2019) que atravessam a sociedade.  
Pensa comigo, mãe: quando a senhora imagina um(a) cientista, como essa pessoa é?  
Me pergunto como teria sido se a vó tivesse saído do interior com a senhora ainda pequena, lá na década  
de 1940, rumo a uma grande metrópole, como fez a família de Lélia ao se mudar para o Rio de Janeiro,  
acompanhando seu irmão Jaime de Almeida, jogador de futebol contratado pelo Flamengo. Talvez a senhora  
e seus irmãos não tivessem sido retirados da escola para trabalhar no campo. Claro, nunca saberemos. E  
é verdade que, depois, vocês seguiram para São Paulo em busca de uma vida melhor. Contudo, naquele  
contexto, retomar os estudos não era uma alternativa viável: a senhora, já adolescente, trabalhava como  
lavadeira e passadeira para ajudar em casa e, logo depois, se casou e teve filhos. Lembro-me de quando  
também trabalhou como balconista de loja e, mais adiante, como babá.  
E, mãe, sei como esse assunto é delicado, mas não se envergonhe por não ter concluído os estudos. Isso  
não é culpa sua, nem da vó, muito menos estava escrito para ser assim. Mulheres negras enfrentam um  
duplo fenômeno: a misoginia e o racismo. Se acrescentarmos o recorte de classe, os caminhos se tornam  
ainda mais atravancados. Por isso te falei de Lélia Gonzalez: ela expõe esse cenário ao discutir as bases do  
pensamento social brasileiro e como ele se estrutura nas desigualdades que garantem o privilégio da elite,  
branca e masculina. Dentro dessa lógica, tentam relegar a mulher negra a um lugar de subserviência e  
hipersexualização (Gonzalez, 1984).  
Nessa encruzilhada, há o mito da democracia racial, que busca negar a existência do racismo a todo custo.  
Lélia também observou e escreveu sobre esse mito, e é por isso que coloquei um trecho logo abaixo. A  
intelectual ironiza essa negação e ocultamento do racismo, apresentando um discurso do cotidiano para  
exemplificá-lo – um discurso que a senhora infelizmente presenciou inúmeras vezes.  
Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro  
acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que, quando se esforça,  
ele sobe na vida como qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e com as feições tão fina... Nem  
parece preto (Gonzalez, 2020 [1984], p. 48).  
Sei que a senhora não é ingênua e entende bem a diferença que faz nascer negro ou branco neste país; tanto  
que minhas primeiras lições sobre essas relações vieram da senhora. Ainda assim, precisamos ficar espertos  
com a negação e a omissão do racismo, reproduzidas diariamente. Elas acabam ressoando em nós e, quando  
individualizamos nossas trajetórias, corremos o risco de internalizar uma culpa que não é nossa. Isso me  
lembra outro conselho seu: o de que era preciso ser duas vezes “melhor”, sempre duas vezes “mais”, isto é,  
duas vezes mais esforçado, mais esperto, mais atento, mais arrumado, mais cheiroso, mais simpático, mais  
prestativo e, sobretudo, mais inteligente, pois era a única maneira de chegar a algum lugar na vida. Quando  
criança, achava essa fala tão injusta e contraditória, mas bastou ocupar outros espaços para perceber que a  
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dedicação precisava ser sempre em dobro. Compreendi também, por intermédio da música dos Racionais  
MC’s (2006), que esse conselho é coletivo, não particular:  
Tem que acreditar, desde cedo a mãe da gente fala assim / Filho por você ser preto você tem de ser duas vezes melhor / Aí pas-  
sado alguns anos eu pensei, como fazer duas vezes melhor? / Se você tá pelo menos 100 vezes atrasado, pela escravidão / Pela  
história, pelo preconceito, pelos trauma, pelas psicose. (RACIONAIS MC’S, 2006).  
DOS MUROS MODERNOS À RESSIGNIFICAÇÃO DO ENCONTRO  
Na universidade não é diferente, têm aqueles que subestimam a capacidade cognitiva de pessoas negras.  
Quando não, existe uma resistência em relação ao repertório que carregamos: por mais amplo e complexo  
que seja, dificilmente ele é considerado relevante. É como se fosse necessário vestir outra pele ou ser outra  
pessoa – uma que não fosse moldada pelas nossas vivências, mas por outra forma de existir no mundo. Isso  
gera uma dupla consciência (Du Bois, 2021), decorrente dessa perspectiva cindida.  
Ainda assim, é impressionante como alguns colegas parecem possuir certos saberes e modos de agir que se  
encaixam perfeitamente no campo acadêmico, o que lhes permite circular com facilidade entre disciplinas,  
pesquisas e textos. Se não fossem as Ciências Sociais, eu até acreditaria que nasceram para esse espaço,  
naturalizando fenômenos que, na verdade, são históricos, sociais, econômicos e políticos. Talvez por isso,  
mãe, eu goste tanto de estudar esses processos. É uma maneira de compreender suas dinâmicas e, ao mesmo  
tempo, contestá-las.  
Por vezes, a universidade é um ambiente frio, solitário e excludente, que reproduz a competitividade  
da sociedade capitalista e pouco favorece o acolhimento. Bem diferente do que a senhora me ensinou:  
que devemos tratar as pessoas com a hospitalidade de quem recebe uma visita para compartilhar um  
café com bolo, e que um sorriso ou uma palavra gentil pode transformar o dia de alguém. Por isso, mãe,  
procuro tratar da melhor forma possível as pessoas que encontro por aqui, sejam recém-chegadas ou não,  
independentemente da posição que ocupam.  
Também tenho encontrado colegas, como estudantes e professores, que cultivam essa mesma postura de  
acolhimento e gentileza. Infelizmente, eles ainda são minoria no ambiente universitário e, em geral, vêm  
de origens humildes ou desenvolveram uma consciência crítica que os faz reconhecer as desigualdades e  
os privilégios presentes nas dinâmicas sociais. Do contrário, os privilégios, somados à falta de consciência,  
parecem enclausurar as pessoas em si mesmas.  
Essa individualização extrema, outro efeito do neoliberalismo, dificulta a construção de uma vida coletiva  
(Dardot; Laval, 2016). Quando eu era pequeno, a senhora contava sobre comunidades em que todos se  
conheciam, as crianças eram criadas juntas e as portas das casas permaneciam destrancadas. Existia um  
espaço público e comunitário, para além da escola formal, onde se almejava o bem comum. De certo modo,  
eu e meus colegas tentamos trazer esse modo de socialização para dentro da universidade. Imagino que as  
experiências dessas comunidades guardem, em alguma medida, traços de ancestralidades africanas e/ou  
indígenas, pois não se alinham à lógica colonial e capitalista.  
Agora a senhora conhece um pouco dos desafios que enfrento na academia. Mas não se preocupe, mãe:  
mesmo quando bate a vontade de largar tudo e fugir, eu respiro fundo. Lembro das minhas origens, do  
caminho percorrido até aqui e do compromisso de não voltar com as mãos vazias.  
Sou o terror dos clone / Esses boy conhece Marx, nós conhece a fome / Então cerra os punho, sorria / E jamais volte pra sua  
quebrada de mão e mente vazia” (Emicida, 2013).  
Aí, maloqueiro / Aí, maloqueira / Levanta essa cabeça (vem) / Enxuga essas lágrimas, certo? (É você memo) / Respira fundo /  
E volta a correr (vai) / Cê vai sair dessa prisão (aham) / Cê vai atrás desse diploma / Com a fúria da beleza do Sol, entendeu? (É  
isso) / Faz isso por nós / Faz essa por nós (vai) / Te vejo no pódio” (Emicida, 2019).  
Ô, mãe, posso ser sincero? Além do aprendizado, da ressignificação e da partilha de saberes, há outro motivo  
que me mantém na universidade: eu não gostaria de voltar ao trabalho braçal. Sei que não há demérito algum  
emtrabalhar,independentementedanaturezadaatividade,eissoasenhorasemprefezquestãodenosensinar:  
“nunca se envergonhe de trabalhar; todo trabalho é digno”. Mas encontrei na pesquisa e na licenciatura um  
tipo de trabalho que me afasta desse contexto. Prefiro passar horas e horas lendo livros, assistindo a aulas  
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e palestras, apresentando seminários, preparando e ministrando aulas, realizando pesquisas (em grupo  
ou sozinho) e escrevendo páginas intermináveis diante do computador. Aqui, tenho acesso a um banheiro  
limpo, água e, por vezes, até um cafezinho. Também recebo bolsa de uma agência de fomento à pesquisa e à  
educação superior. Não é tanto dinheiro assim, há meses em que preciso complementar a renda, fazendo um  
“corre” aqui e outro ali, mas, sem a bolsa, seria impossível seguir na carreira acadêmica. E, particularmente,  
essa vida me agrada muito mais do que passar o dia inteiro sob o sol, carregando e descarregando caminhão.  
Por falar em estudo, mãe, não esqueça que te mandei, pelo WhatsApp, uma lista com as escolas que oferecem  
EJA perto de casa. Eu e meus irmãos crescemos, estamos todos bem, cada um vivendo sua vida como pode e  
quer. Agora, a senhora tem a chance de concluir a Educação Básica com calma, no seu tempo, sem a pressão  
de antes. Eu estarei aqui para te apoiar, assim como você sempre fez por mim. Quem sabe, um dia, não te  
recebo na universidade como caloura?  
SABER-SE NEGRO  
Prometo que estou finalizando a carta, apesar de saber que a senhora não se incomoda com longas conversas.  
É que há algo que preciso dizer antes de encerrar. Existe uma cena que vi se repetir diversas vezes, tanto na  
infância quanto agora. Hoje, tomo coragem para falar – não que seja um mistério ou algo que a senhora  
desconheça. Mãe, a senhora não é “morena”, não é “mulata”, nem “escurinha” e muito menos qualquer outro  
eufemismo que tentaram usar para suavizar o que somos, como se fosse necessário. Sei que pode soar  
estranho, e até imagino a senhora respondendo a esse pedaço de papel em voz alta: “Tenho espelho em casa,  
garoto, lógico que sou preta!”.  
Apenas quero dizer que ser preta ou preto não é algo que necessite ser suavizado, sem ignorar o fato de  
que essa “atenuação” é resultado de séculos de desumanização e escravização. Por exemplo, mãe, no nosso  
idioma existe o verbo transitivo direto “denegrir”, cujo sentido estrito equivale a “tornar negro” (enegrecer);  
contudo, constam também no dicionário outros sentidos, como sinônimo de difamar e desonrar alguém.  
Quantas vezes tentaram evitar a palavra “negro” para se referir a nós – ainda que pretos e pardos constituam  
esse grupo –, como se quisessem nos preservar de alguma maldição. Mesmo entre familiares, usavam de  
tudo para não dizê-la. Ainda hoje me lembro daquela analogia absurda e muito comum, envolvendo as horas  
do dia, que o dono do mercadinho do bairro usava para classificar as pessoas: “Fulana é mais para meio-dia,  
já Ciclana é mais para seis horas da tarde”. Tudo, menos “negra”.  
E, caso um de nós nascesse com a pele um pouco mais clara – como no meu caso, o tal do “pardo” –, surgiam  
outras falas provenientes da neurose cultural brasileira (Gonzalez, 2020). Trago, mãe, o relato de um  
importante ativista e intelectual do Movimento Negro da década de 1970:  
Os filhos vão nascer bem divididos, dos seus seis filhos, três ou quatro com a pele mais escura pro lado de minha mãe, e pelo  
menos dois com a pele mais clara. Eu sou o segundo filho, meu irmão, mais velho, com diferença de um ano e pouco, nasceu com  
a pele bastante escura, como minha mãe, e eu nasci com a pele mais clara, como meu pai [...]. Eu era visto por parentes como o  
branco da família. Só que a pronúncia não era assim ‘branco’. Era brrrrrrrranco, com uma ênfase no R, como querendo salientar  
que não é bem branco no sentido dos outros [...]”. (Cardoso apud Carneiro, 2023, p. 152, grifo meu)  
Isso é o retrato de um país que não sabe – e não quer saber – lidar com o racismo, fazendo da negação e da  
omissão sintomas dessa neurose que Lélia Gonzalez conceitua em sua obra. Aproveito para te enviar um  
exemplar de Por um feminismo negro afro-latino-americano, organizado por Flávia Rios e Márcia Lima, com  
textos da autora. Assumir essa identidade não é fácil, principalmente considerando o contexto em que a  
senhora nasceu e cresceu, quando, na juventude, precisava alisar o cabelo utilizando duas toalhas e um ferro  
de passar roupa, para que pudesse ser notada e referida como alguém bonita. Entretanto, sei que a senhora  
nunca negou nem teve vergonha de ser quem é.  
É interessante notar que a identidade negra pode parecer algo externo, mas, na verdade, é uma elaboração  
que parte da experiência Um tornar-se a ser, e não uma condição dada (Souza, 2021). E cabe a nós dizer  
quem somos. Por isso, mãe, se te chamarem de negra, diga com orgulho: “Sou!”. E, se te chamarem de outra  
coisa, corrija-os:  
Negra sou  
Negra! Sim  
Negra! Sou  
Negra! Negra! Negra!  
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Negra sou  
De hoje em diante não quero  
Alisar meu cabelo  
Não quero  
E vou rir daqueles  
Que para disfarçar sua dor  
Nos chamam de gente de cor  
E que cor!  
Negro  
E que lindo soa! (Cruz, 1960)  
Estou feliz por ter escrito esta carta e por saber que a senhora estará aí, do outro lado, lendo cada palavra.  
Sei que a carta ficou grande, mas, depois que entrei para as Ciências Sociais, peguei o hábito da escrita  
alongada. E, quando a senhora não estiver mais aqui – não que eu esteja preparado para isso –, saiba que te  
levarei comigo. Sua voz continuará ecoando nos meus pensamentos, na minha escrita, nos saberes que me  
transmitiu e nos bons momentos que compartilhamos.  
A senhora me ensinou a ser sagaz e dedicado, sobretudo curioso. E, se eu sou “do contra”, realmente foi  
porque tive uma excelente professora: minha primeira referência na sociologia da vida.  
Obrigado, mãe. Te amo!  
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REFERÊNCIAS  
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REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE  
O ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO  
Thiago Macedo de Carvalho  
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Data de submissão: 22/04/2025  
Data de aceite: 24/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025