REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
CARTA À MINHA MÃE PRETA: UM ENSAIO SOBRE
O ENCONTRO DE EPISTEMES E A CONDIÇÃO DO NEGRO
Thiago Macedo de Carvalho
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Me perdoe, mãe. Ainda não tinha letramento racial suficiente para entender que a ciência ocidental foi
ferramenta da sanha dos colonizadores por poder, riqueza e controle. Uma poderosa ferramenta, capaz de
categorizar tudo e todos. Assim, encapsularam e classificaram os saberes dos povos indígenas e dos cativos
de África como saberes passíveis de extermínio, apagamento e desvalorização – o epistemicídio. Aprendi esse
conceito com uma intelectual chamada Sueli Carneiro (2023), e venho aprendendo muito com sua obra.
AS INTELECTUAIS NEGRAS NOS CONECTAM
Como são as coisas, né, mãe? Precisei conhecer autores estrangeiros primeiro para só depois conhecer
os intelectuais brasileiros. Fiz leituras geográfica e temporalmente distantes daqui, para então conseguir
voltar e perceber o que tínhamos de tão valioso no passado e no presente. A lista é extensa, mas quero falar
especialmente das pensadoras. Sim, mãe! Mulheres como a senhora, como minha irmã, como minhas tias,
como minhas avós. Elas são Virgínia Bicudo, Carolina de Jesus, Lélia Gonzalez, Cida Bento, Sueli Carneiro,
Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Ynaê Lopes dos Santos, Flávia Rios, Jacqueline Moraes Teixeira
e tantas outras.
Da mesma forma que enxerguei o tio no rosto de Fanon, vejo a senhora no de Lélia Gonzalez. Pode ser que
eu esteja projetando e, mesmo assim, é tão importante ver pessoas como a gente ocupando espaços que há
tanto tempo desconsideraram nossa existência e nossa produção de saberes. É impressionante como Lélia
sacudiu as estruturas, dentro e fora da universidade, atuando como intelectual e militante do Movimento
Negro Unificado. É fundamental conhecer essas referências, pois, muitas vezes, nem nós mesmos nos vemos
nessas posições. Afinal, existem certas imagens de controle (Collins, 2019) que atravessam a sociedade.
Pensa comigo, mãe: quando a senhora imagina um(a) cientista, como essa pessoa é?
Me pergunto como teria sido se a vó tivesse saído do interior com a senhora ainda pequena, lá na década
de 1940, rumo a uma grande metrópole, como fez a família de Lélia ao se mudar para o Rio de Janeiro,
acompanhando seu irmão Jaime de Almeida, jogador de futebol contratado pelo Flamengo. Talvez a senhora
e seus irmãos não tivessem sido retirados da escola para trabalhar no campo. Claro, nunca saberemos. E
é verdade que, depois, vocês seguiram para São Paulo em busca de uma vida melhor. Contudo, naquele
contexto, retomar os estudos não era uma alternativa viável: a senhora, já adolescente, trabalhava como
lavadeira e passadeira para ajudar em casa e, logo depois, se casou e teve filhos. Lembro-me de quando
também trabalhou como balconista de loja e, mais adiante, como babá.
E, mãe, sei como esse assunto é delicado, mas não se envergonhe por não ter concluído os estudos. Isso
não é culpa sua, nem da vó, muito menos estava escrito para ser assim. Mulheres negras enfrentam um
duplo fenômeno: a misoginia e o racismo. Se acrescentarmos o recorte de classe, os caminhos se tornam
ainda mais atravancados. Por isso te falei de Lélia Gonzalez: ela expõe esse cenário ao discutir as bases do
pensamento social brasileiro e como ele se estrutura nas desigualdades que garantem o privilégio da elite,
branca e masculina. Dentro dessa lógica, tentam relegar a mulher negra a um lugar de subserviência e
hipersexualização (Gonzalez, 1984).
Nessa encruzilhada, há o mito da democracia racial, que busca negar a existência do racismo a todo custo.
Lélia também observou e escreveu sobre esse mito, e é por isso que coloquei um trecho logo abaixo. A
intelectual ironiza essa negação e ocultamento do racismo, apresentando um discurso do cotidiano para
exemplificá-lo – um discurso que a senhora infelizmente presenciou inúmeras vezes.
Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro
acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que, quando se esforça,
ele sobe na vida como qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e com as feições tão fina... Nem
parece preto (Gonzalez, 2020 [1984], p. 48).
Sei que a senhora não é ingênua e entende bem a diferença que faz nascer negro ou branco neste país; tanto
que minhas primeiras lições sobre essas relações vieram da senhora. Ainda assim, precisamos ficar espertos
com a negação e a omissão do racismo, reproduzidas diariamente. Elas acabam ressoando em nós e, quando
individualizamos nossas trajetórias, corremos o risco de internalizar uma culpa que não é nossa. Isso me
lembra outro conselho seu: o de que era preciso ser duas vezes “melhor”, sempre duas vezes “mais”, isto é,
duas vezes mais esforçado, mais esperto, mais atento, mais arrumado, mais cheiroso, mais simpático, mais
prestativo e, sobretudo, mais inteligente, pois era a única maneira de chegar a algum lugar na vida. Quando
criança, achava essa fala tão injusta e contraditória, mas bastou ocupar outros espaços para perceber que a