JUVENTUDE, MEMÓRIA E AQUILOMBAMENTO:  
TODO MUNDO CONTRA O EPISTEMICÍDIO  
Youth, memory and aquilombamento: everyone against epistemicide  
Juventud, memoria y aquilombamento: todos contra el epistemicidio  
1
BRUNO VIEIRA DOS SANTOS  
ORCID: 0000-0003-1572-1938  
RESUMO  
Partindo de um debate que vá além da notória incidência da mortalidade juvenil negra no Brasil, este  
artigo apresenta uma discussão sobre as insurgentes formas de resistência e reexistência empreendidas  
pelas juventudes negras. Em janeiro de 2022, um evento provocou uma forte comoção na cena da poesia  
marginal e das batalhas de MC’s da região metropolitana do Recife. A partir da memória de um jovem poeta  
assassinadonocentrodacidade, empreende-seumacartografiaqueevidenciaanecessidadedevisibilizarmos  
estratégias que se valham do direito à memória e ao aquilombamento para enfrentar o epistemicídio. O que  
a vida de sujeitos culturais periféricos nos informa em relação ao exercício do direito à cidade, à fruição da  
urbe e ao acesso à cultura? Como um poeta que hoje se encontra falecido permanece vivo na memória da  
cidade? Como essa memória afeta as pessoas que com ele tinham proximidade? E, por fim, como tudo isso  
se costura em um debate sobre epistemicídio, ativismo político-cultural e direito à memória? Neste texto,  
o termo memória é considerado um elemento psicossocial que, ao lado de uma perspectiva aquilombada,  
contribui para o enfrentamento dos apagamentos promovidos pela colonialidade. Estabelecer uma prática  
de reviver memórias é atuar pela resistência da própria existência.  
Palavras-chave: juventude negra, aquilombamento, memória, epistemicídio.  
ABSTRACT  
Starting from a debate that goes beyond the well-known incidence of Black youth mortality in Brazil, this  
article presents a discussion of the insurgent forms of resistance and reexistence undertaken by Black youth.  
In January 2022, an event provoked a strong commotion within the marginal poetry scene and the MC battle  
circles of the metropolitan region of Recife. Drawing on the memory of a young poet who was murdered in  
the city center, this article maps the need to make visible strategies that rely on the right to memory and on  
quilombismo to confront epistemicide. What does the life of peripheral cultural subjects reveal about the  
exercise of the right to the city, the enjoyment of urban space, and access to culture? How does a poet who  
is now deceased remain alive in the city’s memory? How does this memory affect those who were close to  
him? And finally, how does all this come together in a debate on epistemicide, political-cultural activism,  
and the right to memory? In this text, the term memory is understood as a psychosocial element that,  
alongside a quilombismo-inspired perspective, contributes to resisting the erasures promoted by coloniality.  
Establishing a practice of reviving memories is, therefore, an act of affirming the resistance of existence itself.  
Keywords: Black youth, quilombismo, memory, epistemicide.  
1 Doutor em Psicologia (UFPE), mestre em Psicologia Social (UFMG) e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UFMG). Atualmente é bolsista  
de pós-doutorado júnior do CNPq, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Integra o Grupo de  
Pesquisas e Intervenções sobre Violências e Produção de Subjetividades – VIESES, e é pesquisador associado à Associação Brasileira de Pesquisa-  
REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)  
JUVENTUDE, MEMÓRIA E AQUILOMBAMENTO:  
TODO MUNDO CONTRA O EPISTEMICÍDIO  
Bruno Vieira dos Santos  
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RESUMEN  
Partiendo de un debate que va más allá de la notoria incidencia de la mortalidad juvenil negra en Brasil, este  
artículo presenta una discusión sobre las formas insurgentes de resistencia y reexistencia emprendidas por  
las juventudes negras. En enero de 2022, un acontecimiento provocó una fuerte conmoción en la escena de  
la poesía marginal y en las batallas de MCs de la región metropolitana de Recife. A partir de la memoria de  
un joven poeta asesinado en el centro de la ciudad, se traza una cartografía que evidencia la necesidad de  
visibilizar estrategias basadas en el derecho a la memoria y en el quilombismo para enfrentar el epistemicidio.  
¿Qué nos revela la vida de los sujetos culturales periféricos sobre el ejercicio del derecho a la ciudad, el  
disfrute del espacio urbano y el acceso a la cultura? ¿Cómo un poeta que hoy está fallecido permanece vivo  
en la memoria de la ciudad? ¿Cómo afecta esa memoria a las personas que tenían proximidad con él? Y, por  
último, ¿cómo se entrelaza todo esto en un debate sobre epistemicidio, activismo político-cultural y derecho  
a la memoria? En este texto, el término memoria se considera un elemento psicosocial que, junto con una  
perspectiva quilombista, contribuye al enfrentamiento de los borramientos promovidos por la colonialidad.  
Establecer una práctica de revivir memorias es actuar en defensa de la resistencia misma de la existencia.  
Keywords: juventud negra, quilombismo, memoria, epistemicidio.  
1.  
INTRODUÇÃO  
Este artigo parte da proposta de compreender a necessidade de debatermos, para além da notória incidência  
da mortalidade juvenil negra no Brasil, as insurgentes formas de resistência e reexistência. Em janeiro de  
2022, o poeta Japa Rua foi assassinado na Rua Mamede Simões, no bairro de Santo Amaro, centro do Recife.  
Esse evento provocou uma comoção forte na cena da poesia marginal e das batalhas de MC’s da região  
metropolitana. Reportagens abordando o acontecido foram realizadas – tanto aquelas mais factuais e duras  
quanto outras mais humanizadoras e contextualizadas.  
Até Japa morrer, eu não sabia quem ele era, qual era sua relevância e sua importância para a cidade. Ali,  
entra em cena a necessidade de se entender o enfrentamento ao epistemicídio estabelecendo pontos de  
contato entre a vivência de Japa Rua na Grande Recife com grupos e coletivos que fazem parte da cena  
pública regional. O que significou a circulação de Japa pela região? O que isso informa para nós em relação  
ao exercício do direito à cidade, à fruição da urbe e ao acesso à cultura? Como um poeta que foi brutalmente  
assassinado permanece vivo na memória da cidade? Como essa memória afeta as pessoas que dele tinham  
proximidade? E, por fim, como isso tudo se costura num debate sobre epistemicídio, ativismo político-  
cultural e direito à memória?  
O termo memória me acompanha aqui como um elemento psicossocial que, ao lado de uma perspectiva  
aquilombada, contribui para o enfrentamento dos apagamentos promovidos pela colonialidade. Esses  
apagamentos alimentam esquecimentos e estabelece uma prática de reviver memórias e atuar para a  
resistência da própria existência. Agradeço à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado  
de Pernambuco (FACEPE) pela bolsa concedida, que me permitiu executar essa pesquisa no âmbito do  
doutorado; e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa, que  
permite com que eu siga a exploração dessa temática no âmbito do pós-doutorado.  
2.  
EPISTEMICÍDIO, UM GERADOR DE DEFUNTOS  
A perspectiva que este texto adota sobre epistemicídio coaduna com a noção de esquecimento, apagamento  
e indigência cultural, tendo Sueli Carneiro (2005) como a principal referência. A autora apresenta  
uma articulação entre a filosofia foucaultiana dos dispositivos – no intuito de entender os processos de  
subordinação ou anulação do corpo negro na nossa sociedade – com o Contrato Racial, termo elaborado pelo  
filósofo afro-estadunidense Charles Mills, segundo o qual há um pacto que estabelece em todo o mundo a  
supremacia branca e a colonialidade do poder como pilar das nossas relações sociais e o padrão imposto pela  
Europa sobre aqueles que não eram europeus. Trata-se de uma crítica ao contrato social dos contratualistas  
tradicionais (como Rousseau e Hobbes), que afirmam sobre a necessidade de haver um acordo entre  
sociedade civil e governo para que este possa cuidar dos interesses daquela, regulando a questão do bem  
comum e da soberania política coletiva.  
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O que fica invisível a esse conceito tradicional é a questão de que o pacto é estabelecido entre iguais, gerando  
uma exterioridade a quem dele não faz usufruto. Esses iguais são os brancos europeus, que se colocam como  
possuidores da chave do poder de subjugar aqueles que são não europeus como seus subalternos. Por um  
lado, o dispositivo atua numa polaridade entre “norma” e “antinorma”, em que a antinorma determina o que  
é a norma e o dispositivo tem sempre uma função concreta, articulando-se por meio de diversos elementos  
com o objetivo de atender a uma demanda de “organização” da sociedade (Foucault, 1979). Por outro lado,  
o dispositivo de racialidade funciona como “uma dualidade entre positivo e negativo, tendo na cor da pele o  
fator de identificação do normal, e a brancura será sua representação” (Carneiro, 2005, p.42), construindo  
diferenças, hierarquizando essas diferenças e organizando essa hierarquia por meio do poder (Kilomba,  
2019). A raça é o demarcador de uma “verdade” ou de “aceitação” sobre o sujeito.  
O epistemicídio é o descarte, causado pelo racismo, “do nosso legado histórico, da nossa dignidade, da nossa  
história e da nossa contribuição para o avanço da humanidade nos níveis filosófico, científico, artístico e  
religioso”. (Gonzalez, 1988, p.77). Há a impossibilidade do acesso aos referentes epistêmicos que constituem  
o negro como sujeito numa coletividade, ocorrendo o fenômeno que eu nomeio como embarreiramento da  
subjetividade 2. No caso do epistemicídio da população negra, há a dificultação, interdição ou impossibilidade  
de o sujeito constituir sua ontologia em referenciais que não sejam hegemônicos (brancos). Seu campo  
simbólico torna-se hegemônico (branco), e o caminho “natural” acaba sendo o negro lutar para cumprir uma  
ideação distorcida (embranquecida) de si (Souza, 1983). Ao não contemplar tal ideação, cria-se uma espécie  
de limbo existencial neurótico que, se já alienava o negro em alcançar esse campo simbólico embranquecido,  
agora o alija de se compreender nos próprios valores ancestrais de sua comunidade. Ficando sem suas  
referências ontológicas, ele, em última instância, deixa de existir como sujeito, sendo relegado à posição de  
amnésia.  
O epistemicídio relega corpos à posição de esquecimento e de apagamento, tornando-nos defuntos. A palavra  
“defunto” vem do latim “de functio”, que significa “aquele que deixou de cumprir sua missão no mundo”,  
ou “aquele que não exerce mais a sua função”. Não trago a palavra “função” no sentido funcionalista, mas  
no entendimento orgânico do que é a ação humana no mundo. Posso desencarnar e manter viva a minha  
tarefa, o meu objetivo de vida, por meio da memória que insiro na sociedade, seja por quais processos for.  
Assim, o epistemicídio é um gerador de defuntos, um processo que estrutura o genocídio no que se refere às  
subjetividades individuais e coletivas.  
3.  
AQUILOMBAMENTO NAS TRILHAS DA MEMÓRIA  
Que estratégias podemos elencar para que não percamos a nossa “função”? Como não se tornar apagado  
e esquecido pela hegemonia? Em que sentido a Psicologia contribui para a construção da memória de  
uma coletividade e, por consequência, de que maneira se espera que essa memória coletiva dê um sentido  
crítico à Psicologia? (García Acuña, 2010). A resposta a essas perguntas pode ser iniciada com a percepção  
de que onde há poder há resistência – e isso não seria diferente em relação à memória. Para que não  
sejamos esquecidos, é necessário que estejam as outras pessoas sempre lembrando de nós. Essa referência  
continuada se funda em um fio que nos atravessa e nos direciona, fazendo com que observemos o passado  
para direcionar nossos passos futuros: a ancestralidade. Não se trata “de uma mera saudade do passado,  
mas de uma referência de como os nossos antepassados nos deixaram movimentos para continuar a saga da  
existência” (São Bernardo, 2018, p.231).  
A produção de resistência por parte das juventudes negras não se dá de maneira vazia, porque elas produzem  
ativismo político-cultural que visa enfrentar o epistemicídio e construir outras narrativas de si enquanto  
coletividade. É um processo que se dá por maneiras diversas e não definidas a priori, mas que tem um  
propósito: subverter narrativas de forma a enfrentar o poder colocado (Marcial, 2013). Deriva desse termo  
outro igualmente relevante, a reexistência, um jogo de palavras cujo sentido tem a ver com a resistência e  
como ela se articula com a existência dos sujeitos subalternizados, tão negada pelos vilipendiosos processos  
coloniais. Poderíamos entendê-la como “uma ação estratégica intimamente ligada à retomada das narrativas  
sequestradas pelos representantes da colonialidade e a imposição por parte deles de sua lógica” (Santos;  
Santos, 2022, p.7). São ações fundamentais para que se garanta a vida das pessoas e comunidades subjugadas  
(Evaristo, 2021). E, estando ciente de mecanismos sofisticados, as juventudes negras vêm criando estratégias  
de enfrentamento aos apagamentos constantes de sua representação. Uma das vias para a resistência  
2 Trata-se da interdição psicossocial que interfere na condição do sujeito de apreender referenciais concernentes à construção da identidade subjetiva  
relacionada a sua comunidade de origem. Revela-se na impossibilidade ou na incapacidade de acessar tais referências por causa de apagamentos,  
estereotipias e/ou hierarquização de saberes com o consequente desmerecimento dos valores relacionados a seu grupo originário.  
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e a reexistência é, portanto, a produção cultural e artística, que contribui para que haja possibilidades de  
elaborar outras narrativas para sua própria história e para sua realidade atual mais próxima.  
Na disputa por uma representação mais favorável a si mesma, a juventude encontra na produção cultural (música, literatura,  
cinema, entre outras expressões), possibilidades de elaboração de outras narrativas para sua própria história e realidade atual.  
São estes os atos de reexistência a que me refiro. São inúmeras as expressões culturais que têm por enredo ou trama o retrato de  
outros aspectos da história e da realidade destes personagens da vida real. (Ortegal, 2019, p.126)  
É pertinente notar que as manifestações político-culturais não se dão em um espaço qualquer, mas na rua.  
Esta se constitui como lócus de memória porque é nela que se desvela a circulação de processos de existência  
artística negra e periférica. Não se trata de romantizar e tampouco vilanizar a rua, mas entendê-la também  
como um “sujeito” ativo na produção de subjetividades sobre a memória de uma juventude articulada em  
ações político-culturais incidentes na urbe. Para quem é oriundo de diásporas, não é qualquer coisa você  
constituir lugares e espaços. A própria noção do termo “diáspora” leva em consideração o fato de que se trata  
de coletividades em dispersão, e encontrar um território onde se possa ficar é uma forma de se encontrar  
enquanto sujeito de uma coletividade.  
Em se tratando da diáspora negra no Brasil, percebemos que esse lugar, que não é apenas físico, mas também  
ontológico, não é algo fixo: Milton Santos (1997, p.19) analisa-o como “um campo de forças, como o lugar  
do exercício, de dialéticas e contradições entre o vertical e o horizontal”, onde o que é mais interessante é  
o processo. O espaço e o território são dimensões centrais na vida das/os jovens. Tendo foco o contexto  
urbano, a rua se torna esse espaço-lugar que toma primazia no exercício criativo das juventudes negras,  
envolvendo quatro funções (Campos, 2020):  
Sociabilidade: A rua é o ponto de encontro. É nesse lugar em que se estabelecem vínculos e  
contatos, onde há a possibilidade de se socializar para além de espaços de consumo (shoppings)  
ou de controle (escola);  
Construção identitária: A rua constrói identidades e identificações. Subjetividades são  
promovidas nos espaços urbanos a partir de múltiplas vertentes e possibilidades. Aqui é o  
espaço onde o “eu” constrói-se no coletivo, na presença de um “nós” comunitário – e isso vai  
além do estabelecimento de “subculturas”, termo problemático, porque pressupõe haver  
culturas “superiores” (Aguillera Ruiz, 2016);  
Participação e cidadania: A rua é reivindicação. É espaço para se forjar um direito à cidade,  
no qual a urbe é pensada e sentida por quem a vive, não por quem a planeja de maneira fria e  
distante;  
Experimentação e criatividade: A rua é provocadora. É um território que permite a invenção  
de novas formas e práticas de fazer arte e cultura, sendo inclusive matéria-prima para “o  
desenvolvimento de exercícios de índole criativa” (Campos, 2020, p.592).  
Esta última função, a experimentação e a criatividade, talvez compreenda os elementos mais vitais na vida  
da juventude negra e nos seus empreendimentos de resistência e reexistência. Se outrora a rua era vista  
como o lugar da vadiagem e vagabundagem, ainda que essa noção persista, ela segue acompanhada da  
discussão sobre a rua como lugar de potências, afetos e enfrentamentos. A criatividade do ativismo político-  
cultural das juventudes negras abraça a rua não como locus amoenus3, como lugar tranquilo e comum, mas  
como enfrentamento aos apagamentos cotidianos que tais grupos sofrem. É aparecendo na rua, no cenário  
público, que a visibilidade acontece e, sendo vistos enquanto grupos sociais, são lembrados. Aquele ditado  
“quem não é visto não é lembrado” dialoga com essa perspectiva, porque a memória de/sobre um grupo  
social é o que determina se esse grupo permanece existindo na arena pública ou se vai ser apagado e, por  
conseguinte, vítima de epistemicídio. É na rua onde as juventudes negras produzem memória. “Rua”, aqui, é  
um verbete plurissemântico porque não se vincula apenas à espacialidade física, mas a um lugar ontológico.  
Ela se torna, dentro desse debate, em um instrumento de coesão e manutenção das identidades dos grupos.  
E é na rua onde encontramos a figura de Japa.  
4.  
OLHAR  
PARA  
RECIFE  
NÃO  
TEM  
COMO  
NÃO  
VER  
JAPA  
Japa Rua: poeta, slammer, rapper. Um frequentador de batalhas e saraus. Um agitador cultural. Uma figura  
3 Termo literário que se refere geralmente a um local idealizado de segurança, tranquilidade ou conforto.  
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conhecida do circuito do hip hop em Recife. Um jovem preto de 25 anos, de cabelos cacheados, olhos puxa-  
dos (por isso o apelido). Assassinado por questões banais numa noite de janeiro de 2022. Buscando informa-  
ções para compreender mais sobre o ocorrido e sobre Japa, encontrei algumas reportagens cujas manchetes  
resumiam-se a contar o assassinato, sem aprofundar na sua biografia. A TV Globo dedicou um vídeo de qua-  
se três minutos no NE 2, noticiário local noturno (tempo consideravelmente relevante para uma reportagem  
televisiva).  
O Diário de Pernambuco — o jornal mais longevo do Brasil e da América Latina, prestes a completar 200  
anos em 2025 — conseguiu ser o mais infame ao resumir o acontecimento em três parágrafos de apenas três  
linhas cada, acompanhados de uma manchete genérica. Fiquei estarrecido diante de tamanha indiferença do  
Diário em relação ao fato. Somente isso daria um artigo ou uma dissertação com embasamento semiótico.  
De maneira menos abjeta, o Jornal do Commercio conseguiu contextualizar melhor o acontecimento do que  
seu rival, mas não sem certa ironia sobre o fato de Mamede Simões ser “point da intelectualidade recifense”.  
O LeiaJá e a Folha de Pernambuco foram sucintos como o Diário, mas não tão reles.  
VEÍCULO  
MANCHETE  
LINK  
TV Globo  
Artista morre após ser esfaquea-  
do na Rua Mamede Simões, no  
Centro do Recife  
noticia/2022/01/08/artista-morre-apos-  
ser-esfaqueado-na-rua-mamede-simoes-  
no-centro-do-recife.ghtml  
Diário de Pernambuco  
Jornal do Commercio  
Homem é esfaqueado na Rua  
Mamede Simões  
noticia/vidaurbana/2022/01/homem-e-es-  
faqueado-na-rua-mamede-simoes.html  
Artista morre esfaqueado na Rua https://jc.ne10.uol.com.br/per-  
Mamede Simões, point da boemia nambuco/2022/01/14931317-artis-  
recifense  
ta-morre-esfaqueado-na-rua-mamede-si-  
moes-point-da-boemia-recifense.html  
LeiaJá  
Polícia investiga assassinato de  
jovem na Mamede Simões  
cias/2022/01/08/policia-investiga-assassi-  
nato-de-jovem-na-mamede-simoes  
Folha PE  
Artista é assassinado a facadas na https://www.folhape.com.br/noticias/arti-  
rua Mamede Simões, no Recife;  
suspeito segue foragido  
sta-e-assassinado-a-facadas-na-rua-mame-  
de-simoes-no-recife/211748/  
Agora Nordeste  
Artista morre após ser esfaquea-  
do no Centro do Recife  
br/noticia/01/08/2022/artis-  
ta-morre-apos-ser-esfaqueado-no-cen-  
tro-do-recife.html  
Brasil de Fato  
Em memória de Japa: amigos  
e família homenageiam artista  
morto no Recife  
br/2022/01/14/em-memoria-de-japa-ami-  
gos-e-familia-homenageiam-artista-mor-  
to-no-recife  
Esquerda Diário  
Juventude negra | Recife perde  
Japa, um artista da cena hip-hop  
e da cultura negra de Pernambu-  
co  
fe-perde-Japa-um-artista-da-cena-hip-hop-  
e-da-cultura-negra-de-Pernambuco  
Marco Zero Conteúdo  
Marco Zero Conteúdo  
Se o amor não morre o poeta  
também não pode morrer  
morre-o-poeta-tambem-nao-pode-morrer/  
Ainda há tempo no Beco do Poeta https://marcozero.org/ainda-ha-tempo-  
Japa Rua no-beco-do-poeta-japa-rua/  
Tabela 1: manchetes e links de notícias sobre a morte de Japa. Fonte: pesquisa do autor.  
Imagem 1: Fotografia de Japa Rua. Fonte: Instagram @japarua – perfil público.  
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No que tange a veículos noticiosos, se eu quisesse mesmo saber não apenas sobre o assassinato, mas sobre  
Japa, precisaria acessar mídias não convencionais ou independentes. O site Esquerda Diário, que faz parte  
do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), lamentou a morte de Japa e disse que o assassinato  
foi uma fatalidade que aconteceu com um jovem negro reconhecido por ser parte da cena artística de Recife.  
Japa era um jovem que carregava várias aspirações e sonhos, que se expressavam nessa disposição de construir a cena do hip  
hop e levar adiante a cultura negra nordestina, assim como na sua denúncia ao racismo e toda forma de injustiça social nos  
poemas e grafites. Era um amigo e querido, que deixa as marcas na cena de um jovem que nunca se resignou frente à opressão  
da luta e cultura negra. (Esquerda Diário, 2022, online)  
A Marco Zero Conteúdo, agência de jornalismo independente do Recife, publicou duas reportagens-crônicas  
sobre o poeta. Em um dos textos, fica evidente a “falta” que Japa iria fazer na vida cultural da cidade, relatando  
“uma lacuna não apenas para o movimento hip hop, mas também para toda a cultura do Recife, que perdeu  
um poeta ávido e ‘cheio de luz’, como relatam os amigos e artistas que conviveram com ele” (Carneiro, 2022,  
online).  
A partida precoce de Japa deixará uma lacuna não apenas para o movimento hip hop, mas também para toda a cultura do Recife,  
que perdeu um poeta ávido e “cheio de luz”, como relatam os amigos e artistas que conviveram com ele. “As pessoas precisam  
ver a dimensão da cultura, do hip hop e da poesia de Pernambuco e saber o quanto Japa estava presente nesses movimentos”,  
afirmou Tuca Duarte, integrante do coletivo de arte Point Bomb. (Carneiro, 2022, online)  
Recife perdera para a violência urbana um personagem de suas ruas e da sua cultura periférica, um sujeito  
que era um catalisador e um agregador, que tinha a poesia como veículo para transformar a realidade,  
o entorno. Japa foi notícia nos meios de comunicação, é certo, mas há uma narrativa sobre o artista que  
não pode ser estabelecida apenas por tais meios. De certa forma, todas as reportagens que noticiaram o  
poeta removeram-no de certo anonimato, mas isso se deve apenas por mencionar seu nome de registro e  
seu apelido. Ao ler as notícias sobre o assassinato de Japa, sinto a frieza do Hard News4 contaminando a  
descrição dos fatos: tendo em vista se tratar de “mais um” corpo estendido no chão, a mídia hegemônica  
não se preocupa em compreender o acontecimento – não apenas esse em si, mas o fenômeno ampliado do  
genocídio da juventude negra.  
Japa faleceu em 2022, mas sua lembrança permanece viva nos testemunhos, nas paredes, nos poemas  
criados in memoriam e, também, na produção de novos espaços que reverenciem a poesia como estratégia de  
vida. Ainda no ano de 2022, o artista foi homenageado no “Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz”,  
ao lado de outro grande nome, Miró da Muribeca. A programação do evento contou, dentre outras atrações,  
com batalhas de rima, no estilo da Batalha da Escadaria e do Duelo de MC’s (Prefeitura do Recife, 2022).  
Diante um evento de perda, o luto se converte em ação que repercute no âmbito público, não sendo uma  
ação individualizante ou singular. É uma investida de se deslocar da narrativa focada na morte e evidenciar  
o legado de Japa enquanto ente encantado e, por conseguinte, vivo.  
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A VERDADEIRA MORTE SE CHAMA ESQUECIMENTO  
Não somente nas perspectivas afrodiaspóricas, mas também nas ameríndias, o falecimento do corpo não  
significa o fim da vida, mas o restauro da matéria para a constituição de novas vidas (Simas, 2020, pp.43-  
46). Aquele corpo ancestral que retorna à lama possui uma memória que, coletivamente, será cultuada e  
eternizada. Aquela saudação de pedir licença a quem veio antes de nós faz todo o sentido se pensarmos que  
essas pessoas ainda existem de maneira espiritual e etérea. Aqui, o desencarne não é oposto à vida, mas é  
visto como espiritualidade.  
Numa perspectiva de ancestralidade, “só há morte quando há esquecimento” (Simas; Rufino, 2018, p.11,  
grifos meus). Há pessoas que, mesmo falecidas, permeiam nosso imaginário e seguem sendo lembradas  
– daí, elas são encantadas. O desencanto vem com a morte, com o falecimento da memória e a gênese de  
um apagamento dessas reminiscências. É nesse ponto que o epistemicídio se estrutura e se ramifica como  
um elemento que contribui para o nosso genocídio: sacrifica nossa memória em detrimento de outra,  
supostamente “melhor” e hierarquicamente “superior”.  
O contraponto do esquecimento é a manutenção da memória daquelas pessoas que hoje são reverenciadas  
como ancestrais. Lembrar-me de alguém significa um duplo movimento de vida: eu estou vivo (porque  
lembro) e a outra pessoa também segue viva (porque me lembro dela). A verdadeira razão de existência da  
memória é permitir que nos mantenhamos vivos, enquanto corpos encarnados e desencarnados, dotados  
4 Hard News é o jornalismo cotidiano, dinâmico e que necessita constante atualização. É um estilo que não permite o aprofundamento e a discussão  
sobre um fato. É o fato pelo fato.  
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de razão, emoção e espírito. É pela memória que nos alimentamos das nossas ontologias, das perspectivas  
de vida, do nosso jeito de ser e de viver. Não se trata de um mero processo cognitivo individual, mas de uma  
expressão tão interessante do que é o ser humano que eu mesmo me perco nas parcas tentativas de conceituá-  
la ou defini-la. É por isso que falar de epistemicídio é falar de esquecimento: ao sofrer o apagamento das  
minhas referências, ancoro-me em outras que diferem de quem – ontologicamente – sou. Talvez por isso  
lembrar de onde viemos seja tão perigoso para o status quo.  
Memória é um termo cuja dimensão não é meramente mecanicista e/ou biológica, mas se trata de  
uma atividade que compreende a mnemônica em articulação com a ordenação e releitura de vestígios  
mnemônicos (Le Goff, 1990). E tal ordenação não se dá puramente no âmbito cognitivo: a capacidade de  
nós nos lembrarmos (ou esquecermos) de algo é vinculada à atividade cerebral articulada com a atividade  
social, cultural, ambiental – ou seja, relacional. Dessa forma, em se tratando de populações subalternizadas  
e tidas como marginalizadas, podemos perceber que a supressão de memórias entra como parte integrante  
do processo de epistemicídio: evidencia-se aqui mais flagrantemente o processo de indigência cultural  
(Carneiro, 2005), onde a memória das populações subalternizadas não pertence a elas, mas foram impostas  
pela coerção colonial. E no que tange às resistências de tais populações à força colonialista, evidencio o  
quilombo como um território que se converte de físico para metafísico.  
O significado do quilombo como resistência aflora de maneira mais veemente no final do século XIX,  
inaugurando o século XX como caracterização ideológica de um sonho de liberdade — de libertação da  
consciência nacional. É nesse momento histórico que se funda o quilombo como ontologia, referência e  
tecnologia social que nos consigna enquanto sujeitos afrodiaspóricos e que nos incita a reverenciar nossa  
ancestralidade. O sentido do que é quilombo hoje transcende a compreensão restrita ao escravagismo e ao  
período imperial, configurando-se como uma expressão concreta de continuidade histórica (Nascimento,  
2006). Da abolição até os anos 1970, a pessoa negra foi, na maioria das vezes, silenciada, existindo  
majoritariamente nos estudos sobre o escravismo — a despeito da constituição da Frente Negra Brasileira e  
do Teatro Experimental do Negro, respectivamente em 1931 e 1944.  
Nos anos 1970, a ideologia do quilombo ressurge como um ponto de apoio para a (re)construção de uma  
referência sobre o que é ser negro e o que é expressar a negritude, especialmente no campo artístico-cultural  
(Nascimento, 2006; Alcântara, 2017). Nesse período, o quilombo retorna como um “código que reage ao  
colonialismo cultural”, que “reafirma a herança africana e busca um modelo brasileiro capaz de reforçar a  
identidade étnica” (Nascimento, 2006, p. 124). Ele aponta para a busca por uma consciência de ajuntamento  
em torno da luta pela libertação das correntes que ainda prendem os corpos negros a uma servidão eterna,  
pois “não podemos ter consciência do que somos e, ao mesmo tempo, permanecermos em cativeiro” (Biko,  
1990, p. 66).  
O quilombo, assim, é libertação, e libertar-se pode ser compreendido como descolonizar-se, remover os  
grilhões do colonialismo que insistem em nos ancorar numa situação de negação de nós mesmos/as enquanto  
sujeitos/as. A descolonização é um processo ativo: não basta negar o colonialismo, é preciso enfrentá-lo  
como um campo de batalha, agindo de maneira contracolonial (Santos, 2019), por meio de insurgências,  
combates, enfrentamentos e resistências — visíveis ou invisíveis. Essas ações recriam a autoimagem de si e  
do outro de forma não depreciativa nem vilipendiada, rompendo o mito do “escravo amnésico” (Pessanha;  
Paz; Saraiva, 2019), o mito do negro sem história.  
Assim, proponho que o subsídio ontológico desse ativismo juvenil negro se ancora na noção de  
aquilombamento, oriunda da experiência de ocupação do quilombo. Tecnologia que atravessa gerações,  
aquilombar-se é um processo baseado no acolhimento, no fortalecimento e na organização das coletividades  
negras — com formas, mecanismos e ferramentas que se transformam com o tempo, mas cujo significado (a  
resistência à opressão) permanece. Considerando que, na história brasileira, nunca houve um momento em  
que a população negra não precisasse articular estratégias de sobrevivência e resistência, o aquilombamento  
atravessa o tempo e se converte de território instituído em tecnologia social em constante adaptação.  
Aquilombamento, em qualquer tempo, diz respeito à criação de zonas de segurança, de acolhimento, de fortalecimento. Espaço  
onde é possível experimentar a paz de ser e estar em comunidade, compartilhar vivências, obter suporte, costurar alianças, ala-  
vancar projetos, reconhecer e curar feridas, tecer estratégias, planejar levantes, trocar informações, instruir-se uns aos outros.  
Local onde é possível o recuo e é desejado o avanço. O ato de se aquilombar compreende a necessidade de traçar caminhos  
desviantes e desafia a organização social neoliberal que ordena a separação dos corpos e a individualização das coletividades,  
formando e renovando continuamente uma inteligência coletiva. (Souto, 2021, p.157)  
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Essa inteligência coletiva se nutre de valores que são constantemente rememorados, relembrados e  
retomados. Num quilombo, você não esquece de si e não esquece quem é o outro. A todo momento, é  
chamado a recordar sua origem. O quilombo é uma fonte viva e atualizável de memória – e esse aspecto  
dinâmico é uma chave para compreender que memória é essa que pretendemos cultivar. Como é possível  
sobreviver em um espaço-tempo no qual não há referências de quem veio antes de nós? Talvez aí resida  
o diálogo entre a memória e o quilombo, pois aquilombar-se também significa não esquecer. Ao adentrar  
um espaço como um quilombo, o que ali se apresenta não são apenas lembranças gerais de um tempo que  
“passou”, mas marcas de uma temporalidade que segue vigente. O quilombo me faz lembrar de onde venho,  
tornando-se uma bússola necessária para guiar os próximos passos.  
Quando do seu falecimento, pessoas próximas e artistas que conheciam Japa criaram um espaço de  
memória dedicado ao poeta. Situado no Centro do Recife, o Beco do Biu – muito frequentado por  
ele em vida – foi convertido nesse lócus de memória: um espaço que dialoga com a noção de “não-  
esquecimento”, de promover a constante rememoração do poeta e fazer justiça em relação ao seu nome.  
É por meio de processos coletivos que a memória se apresenta como enfrentamento aos esquecimentos e,  
consequentemente, ao epistemicídio. Cultuar a memória de um ente falecido permite que, a partir desse  
culto, ele possa renascer como ancestral.  
6.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Abordar a questão da juventude negra é andar num fio de navalha: trata-se de dimensionar o fenômeno da  
mortalidade – física e simbólica – dessa população, mas também de visibilizar as ações de enfrentamento e  
resistência a esse fenômeno. Desejou-se aqui falar para além das análises sobre violência, buscando abordar  
um escopo que considere a vulnerabilidade não como a única representação dos/as jovens negros/as, a fim  
de contribuir para uma elaboração teórico-conceitual que, mesmo incompleta, apresente “a complexidade  
deste sujeito social, sem a vinculação a uma condição juvenil de vítimas, suspeitos, vulneráveis e subalternos”,  
compreendendo a juventude negra “de forma integral, como agentes transformadores e potenciais para a  
sociedade brasileira e para a América Latina” (Pereira; Gonçalves, 2016, p. 02).  
A juventude negra, assim, exerce seu ativismo pelas vias aquilombadas, e o quilombo é a tecnologia social  
que, por excelência, depende do coletivo. Aquilombar-se é verbo e é plural – uma ação que contribui para o  
não esquecimento de si e do outro.  
Japa chama a atenção para o fato de que somos testemunhas de dois eventos complementares: o genocídio/  
epistemicídio e a consequente resistência/reexistência. Se há tentativas constantes de apagar e anular nossos  
referenciais, na mesma medida existem enfrentamentos que visam promover o espetáculo da vida diante do  
vaticínio da morte. Fica evidente que tanto Japa quanto as pessoas que dão continuidade à sua memória estão,  
constantemente, fazendo isso. Não podemos deixar de evidenciar que todas essas estratégias de resistência  
e reexistência são armas na luta contra o epistemicídio. Todas as iniciativas pautadas na memória e no  
quilombo como valores a serem referendados cumprem o papel de evitar que nossos princípios caiam no  
limbo do esquecimento. Como disse Patricia Hill Collins, seria ingênuo pressupor que, ao compreenderem  
sua própria condição de sujeitos jovens negros, não haveria capacidade de resistir às opressões (Guimarães,  
2021).  
Háumaproduçãodeconhecimentoporpartedajuventudenegraquenãoéreconhecidacomotal.Produzimos  
saberes quando rimamos em uma batalha de MCs, quando declamamos poesia autoral em um slam ou em  
um sarau, quando dançamos, cantamos e festejamos por meio do coco, do bregafunk e de outros estilos  
artísticos. É necessário observar como sujeitos como Japa Rua são capazes de escrever uma narrativa sobre  
uma cidade que insiste em anular corpos como os nossos. Ele produzia conhecimento por meio da poesia,  
em diálogo com a cidade e com a experiência de ser um jovem negro periférico. Sua memória, semeada  
hoje, há de frutificar para alimentar e inspirar gerações vindouras — uma herança que não se encerra no  
indivíduo, mas reverbera na coletividade.  
Por fim, o quilombo, entendido não apenas como um território físico, mas como uma tecnologia social e  
um conceito em constante atualização, serve como um fundamento ontológico e epistêmico para o ativismo  
das juventudes negras. Esse símbolo de resistência histórica se traduz em práticas contemporâneas de  
fortalecimento comunitário e de reivindicação de memórias e identidades negadas pelo discurso dominante.  
A memória, longe de ser um fenômeno meramente cognitivo e individual, é compreendida aqui como um  
elemento vivo e coletivo, fundamental para a sobrevivência e a afirmação dos grupos subalternizados. Ao  
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articular quilombo e memória, vislumbra-se que o enfrentamento ao epistemicídio não se limita ao campo  
acadêmico: manifesta-se nas ruas, nas artes e nas culturas, onde a juventude negra recria e ressignifica sua  
existência na trama urbana e social do Brasil contemporâneo.  
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SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.  
Data de submissão: 18/04/2025  
Data de aceite: 14/10/2025  
Data de publicação: 15/12/2025