REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
JUVENTUDE, MEMÓRIA E AQUILOMBAMENTO:
TODO MUNDO CONTRA O EPISTEMICÍDIO
Bruno Vieira dos Santos
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de razão, emoção e espírito. É pela memória que nos alimentamos das nossas ontologias, das perspectivas
de vida, do nosso jeito de ser e de viver. Não se trata de um mero processo cognitivo individual, mas de uma
expressão tão interessante do que é o ser humano que eu mesmo me perco nas parcas tentativas de conceituá-
la ou defini-la. É por isso que falar de epistemicídio é falar de esquecimento: ao sofrer o apagamento das
minhas referências, ancoro-me em outras que diferem de quem – ontologicamente – sou. Talvez por isso
lembrar de onde viemos seja tão perigoso para o status quo.
Memória é um termo cuja dimensão não é meramente mecanicista e/ou biológica, mas se trata de
uma atividade que compreende a mnemônica em articulação com a ordenação e releitura de vestígios
mnemônicos (Le Goff, 1990). E tal ordenação não se dá puramente no âmbito cognitivo: a capacidade de
nós nos lembrarmos (ou esquecermos) de algo é vinculada à atividade cerebral articulada com a atividade
social, cultural, ambiental – ou seja, relacional. Dessa forma, em se tratando de populações subalternizadas
e tidas como marginalizadas, podemos perceber que a supressão de memórias entra como parte integrante
do processo de epistemicídio: evidencia-se aqui mais flagrantemente o processo de indigência cultural
(Carneiro, 2005), onde a memória das populações subalternizadas não pertence a elas, mas foram impostas
pela coerção colonial. E no que tange às resistências de tais populações à força colonialista, evidencio o
quilombo como um território que se converte de físico para metafísico.
O significado do quilombo como resistência aflora de maneira mais veemente no final do século XIX,
inaugurando o século XX como caracterização ideológica de um sonho de liberdade — de libertação da
consciência nacional. É nesse momento histórico que se funda o quilombo como ontologia, referência e
tecnologia social que nos consigna enquanto sujeitos afrodiaspóricos e que nos incita a reverenciar nossa
ancestralidade. O sentido do que é quilombo hoje transcende a compreensão restrita ao escravagismo e ao
período imperial, configurando-se como uma expressão concreta de continuidade histórica (Nascimento,
2006). Da abolição até os anos 1970, a pessoa negra foi, na maioria das vezes, silenciada, existindo
majoritariamente nos estudos sobre o escravismo — a despeito da constituição da Frente Negra Brasileira e
do Teatro Experimental do Negro, respectivamente em 1931 e 1944.
Nos anos 1970, a ideologia do quilombo ressurge como um ponto de apoio para a (re)construção de uma
referência sobre o que é ser negro e o que é expressar a negritude, especialmente no campo artístico-cultural
(Nascimento, 2006; Alcântara, 2017). Nesse período, o quilombo retorna como um “código que reage ao
colonialismo cultural”, que “reafirma a herança africana e busca um modelo brasileiro capaz de reforçar a
identidade étnica” (Nascimento, 2006, p. 124). Ele aponta para a busca por uma consciência de ajuntamento
em torno da luta pela libertação das correntes que ainda prendem os corpos negros a uma servidão eterna,
pois “não podemos ter consciência do que somos e, ao mesmo tempo, permanecermos em cativeiro” (Biko,
1990, p. 66).
O quilombo, assim, é libertação, e libertar-se pode ser compreendido como descolonizar-se, remover os
grilhões do colonialismo que insistem em nos ancorar numa situação de negação de nós mesmos/as enquanto
sujeitos/as. A descolonização é um processo ativo: não basta negar o colonialismo, é preciso enfrentá-lo
como um campo de batalha, agindo de maneira contracolonial (Santos, 2019), por meio de insurgências,
combates, enfrentamentos e resistências — visíveis ou invisíveis. Essas ações recriam a autoimagem de si e
do outro de forma não depreciativa nem vilipendiada, rompendo o mito do “escravo amnésico” (Pessanha;
Paz; Saraiva, 2019), o mito do negro sem história.
Assim, proponho que o subsídio ontológico desse ativismo juvenil negro se ancora na noção de
aquilombamento, oriunda da experiência de ocupação do quilombo. Tecnologia que atravessa gerações,
aquilombar-se é um processo baseado no acolhimento, no fortalecimento e na organização das coletividades
negras — com formas, mecanismos e ferramentas que se transformam com o tempo, mas cujo significado (a
resistência à opressão) permanece. Considerando que, na história brasileira, nunca houve um momento em
que a população negra não precisasse articular estratégias de sobrevivência e resistência, o aquilombamento
atravessa o tempo e se converte de território instituído em tecnologia social em constante adaptação.
Aquilombamento, em qualquer tempo, diz respeito à criação de zonas de segurança, de acolhimento, de fortalecimento. Espaço
onde é possível experimentar a paz de ser e estar em comunidade, compartilhar vivências, obter suporte, costurar alianças, ala-
vancar projetos, reconhecer e curar feridas, tecer estratégias, planejar levantes, trocar informações, instruir-se uns aos outros.
Local onde é possível o recuo e é desejado o avanço. O ato de se aquilombar compreende a necessidade de traçar caminhos
desviantes e desafia a organização social neoliberal que ordena a separação dos corpos e a individualização das coletividades,
formando e renovando continuamente uma inteligência coletiva. (Souto, 2021, p.157)