REVISTA PÓS - V. 20, N. 2 (2025)
INTELECTUALIDADES NEGRAS: PÓS-GRADUAÇÃO
E PROCESSOS COLETIVOS DE RESISTÊNCIAS
Suzana Cavalheiro de Jesus, Andresa Cristina Xavier de Souza e
Luciano Pereira dos Santos
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experiências dentro do PPGE” (pessoa pesquisadora). A partir disso, as falas generosas contaram histórias
entrelaçadas aos movimentos sociais e às graduações das participantes.
Oxum relata que a aproximação com os movimentos sociais a fez repensar e compreender as violências
sofridas durante a graduação, em um contexto no qual ela era a única mulher negra no curso de engenharia:
“[...] e quando tu tira uma nota alta, ele [professor] chama atenção de outros alunos porque era absurdo eu
ter tirado essa nota mais alta sendo mulher e uma mulher negra. Sem pudor” (Oxum). Além disso, Isabela
compartilha que, quando passou na universidade federal, sua mãe orgulhosa a presenteou com um notebook:
“[...] e eu lembro de chegar na aula toda entusiasmada e um professor perguntar pra mim de quem eu tinha
pegado” (Isabela).
Imani, outra participante, relata que, em 2007, ao cursar o segundo semestre da licenciatura em Matemática,
fez parte de um processo de seleção para trabalhar no laboratório de informática, ficando em primeiro lugar
e assumindo a posição como bolsista: “[...] quando eu comecei a trabalhar no laboratório de informática [...]
os meninos da engenharia iam lá pra ver quem é que tinha passado no lugar deles, né? [...] além de mulher
do curso de matemática, negra. Quando eles chegavam lá e me viam, meu Deus, que horror” (Imani).
Essas violências sofridas durante as graduações foram responsáveis por afastar as três participantes da
universidade, como fica evidente no trecho que segue:
E aí eu não tinha coragem de retornar pra UNIPAMPA, que foi um período que não foi tão legal pra mim, principalmente porque
eu tava ali muitas vezes disputando as melhores notas com as colegas e ainda tinha aqueles professores que queriam saber o
por que, como, sabe? Então eram coisas que parecia que a gente tinha que tá se provando a todo momento, né? Então entrar pro
PPGE era uma coisa que eu queria muito e não tinha coragem de tentar. (Isabela [pseudônimo], relato pessoal, 2025)
A partir do excerto, é possível observar uma sensação de não pertencimento decorrente das violências
sofridas durante a graduação, fator que influencia a possibilidade de participar do processo de seleção do
mestrado. Para ampliar a discussão, ao realizar uma análise inicial da colonialidade e da decolonialidade,
Maldonado-Torres (2019) registra que a colonização envolveu, além de uma catástrofe demográfica, uma
catástrofe metafísica: “[...] da estrutura Eu-Outro de subjetividade e sociabilidade” (Maldonado-Torres, 2019,
p. 37), fator que influenciou a emergência das diferenças entre os seres. A colonização, nesse sentido, ocorre
nos territórios e também nas mentes, terreno fértil para a reprodução das colonialidades.
Seguindo essa linha de pensamento, consideram-se como fundamentais da modernidade/colonialidade
as dimensões de ser, conhecimento (saber) e poder, pois constituem uma visão de mundo. Para cada
dimensão, identificam-se pelo menos três componentes: Saber – sujeito, objeto, método; Ser – tempo,
espaço, subjetividade; e Poder – estrutura, cultura, sujeito. São comuns a todos os componentes o sujeito e a
subjetividade (Maldonado-Torres, 2019, p. 42).
Nas situações relatadas de violência, considerando a dimensão do ser (tempo, espaço e subjetividade), estão
implicadas leituras sociais de corpos negros limitadas ao imaginário racista. A surpresa está impregnada de
uma lógica eurocêntrica que não reconhece sujeitos negros como possíveis produtores de conhecimento e,
com isso, ocasiona o afastamento de pessoas negras, principalmente mulheres, dos lugares de intelectuais,
comoevidenciadonoscasosrelatados. Assim, diferentescontextosdesalasdeaulaemumamesmainstituição
exemplificam as relações entre as colonialidades de poder, evidentes na figura do professor e de colegas
discentes; da colonialidade do saber, uma vez que o cenário das ocorrências é a universidade, validada como
produtora de ciência, mas também como produtora e reprodutora de uma lógica de objetividade e método
que muitas vezes tenta afastar a influência do sujeito no conhecimento ou desconsiderar a subjetividade nos
espaços de sala de aula; e da colonialidade do ser, manifestada nas participantes envolvidas nas situações,
expondo diferentes relações de poder entre docentes e discentes, que são inexoravelmente reproduzidas
entre os próprios discentes.
No que se refere à colonialidade do ser, também se evidenciam relações de poder associadas ao marcador de
identidade de gênero, uma vez que, nas situações relatadas, mulheres cis negras – Oxum, Isabela e Imani –
foram questionadas por homens cis. Destaca-se, nesse contexto, a relação entre branquitude e cisgeneridade,
pois ambas as ideias evidenciam lugares sociais não marcados e permitem “[...] tomar consciência da vigência
de um sistema colonial de gênero” (Simakawa, 2015, p. 42), ampliando a percepção da hierarquização cis-
têmica e interseccional das produções de diversidades. Assim, nos casos relatados, observa-se não apenas
uma concepção de inferioridade racial, mas também sexista.
Com relação à colonialidade do poder (estrutura, cultura, sujeito), como discentes, Isabela, Imani e Oxum
estavam hierarquicamente em desvantagem em relação aos docentes e aos demais colegas brancos, que