“CEMITÉRIO É PRAÇA LINDA, MAS NINGUÉM
QUER PASSEAR”: RITUALIDADES DE MATRIZES
AFRICANAS PRATICADAS NO CEMITÉRIO
SANTA IZABEL (PA) NO DIA DE FINADOS
“A cemetery is a beautiful square, but no one wants to walk around”: rituals of African
origin practiced at Santa Izabel Cemetery (PA) on All Souls’ Day
“El cementerio es un lugar precioso, pero nadie quiere pasear por él”: rituales de
origen africano practicados en el cementerio de Santa Isabel (PA) el Día de los Difuntos.
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LUIZ FERNANDO DE ASSUNÇÃO CORRÊA
ORCID: 0009-0008-7319-0032
2
ELISA GONÇALVES RODRIGUES
ORCID: 0000-0001-7309-0404
Esta pesquisa parte de uma etnografia urbano-cemiterial (Rodrigues, 2023), compreendendo a vida urbana
belenense atravessada pelo Cemitério Santa Izabel, propondo-se a aglutinar vivências e apreensões para
além do enlutamento e oportunizando, portanto, outras lógicas e práticas sociais na necrópole, tais como
agradecimentos, oferecimentos e conexões religiosas com entidades e outras alteridades. As perspectivas
aqui apresentadas dizem respeito às simbologias vigentes nas oferendas deixadas em cemitérios, cujo lugar
é sagrado e agenciado por distintos grupos de religiões de matrizes africanas, tendo como principal ponto
ritualístico o Cruzeiro das Almas. Essas oferendas têm o intuito de agradar os mortos, as almas e os orixás
regentes que transitam e habitam esses espaços e suas liminaridades (Evans-Pritchard, 2015; Turner, 1974).
Com isso, a fim de compreender tais ações, investigamos as relações simbólicas, sagradas e sociais do uso
das necrópoles através das comidas, alimentos e oferendas concedidas a essas entidades que “comem” e/
ou “tomam” certas bebidas, comungando uma comensalidade espiritual. Notamos, então, que é a partir do
que é oferecido em meio a estes conjuntos de significados — individuais ou coletivos — que se desvela uma
extensão dos terreiros fortemente atuante na cidade cemiterial, neste caso, no Cemitério Santa Izabel, em
Belém/PA.
Intuindo observar tais dinâmicas e relações, optamos por etnografar a intensa prática e congregação dos
ritos de matrizes africanas que acontecem no Dia de Finados, 2 de novembro, feriado nacional no qual
uma quantidade elevada de pessoas costuma visitar as necrópoles, imputando a este momento diversas
afetividades e sensibilidades individuais e/ou religiosas sobre a finitude, a vida post mortem e outros ritos
de passagem (Van Gennep, 1978). No Dia de Finados, a presença da morte se entrelaça à vida em rituais
que fortalecem vínculos com Orixás, como Obaluaê e Iansã, e com guias espirituais ou ancestrais, como
Pombagiras, Exús, Pretos-velhos e Eguns. Cada tradição, Umbanda ou Candomblé, organiza essas presenças
de modo singular, evidenciando cosmologias específicas e diferentes formas de interação com a vida, a morte
e o espaço cemiterial (Prandi, 2000; Santos, 2012; Rodrigues, 2025).
Diantedasvariadasrepresentaçõesdoextraordinárioedasalteridadesoutras-que-humanas(Correia;Vander
1 Graduando em Ciências Sociais e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal do Pará
(UFPA). Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia da Morte (GEAM). E-mail: luiz.correa@ifch.ufpa.br.
2 Doutoranda e Mestra em Sociologia e Antropologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal
do Pará (UFPA). Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia da Morte (GEAM). Pesquisadora e membro da diretoria (2025-2029)
da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC). Integrante do Núcleo de Antropologia Urbana – Nau Cemiterial (LabNau-USP). E-mail: elis-