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Thais Maria Moreira Valim
“O MAESTRO É A PEDIATRIA”: ASSOCIAÇÕES ENTRE INFÂNCIA,
CLÍNICA E PESQUISA NA RESPOSTA AO ZIKA EM RECIFE/PEE
mais direto para isso era se aproximar dos serviços em que elas estavam: maternidades, ambulatórios de
infectologia pediátrica, setores de neurologia infantil e unidades neonatais. Era necessário retornar ao
epicentro da crise, onde os nascimentos atípicos haviam sido primeiramente detectados.
No entanto, conduzir um estudo epidemiológico com crianças apresentava desafios específicos: não bastava
mobilizar as competências tradicionais da epidemiologia, era preciso articular essas competências com a
prática assistencial. Tratava-se, portanto, de estruturar um estudo clínico-epidemiológico no qual o manejo
e a relação com a população pediátrica era central. Como afirmou um dos coordenadores do grupo, os
epidemiologistas “não pegavam nas crianças” — o que tornava a associação com os profissionais dos
serviços de saúde não apenas recomendável, mas imprescindível. E não qualquer serviço: era a pediatria que
detinha a experiência prática – e também a autoridade epistêmica – necessária para a realização dos exames
e procedimentos com esse público.
Foi nesse contexto que os coordenadores do NEEM se apresentaram às clínicas e aos profissionais da rede
pública como um projeto de pesquisa em busca de parceria. Seu objetivo era compor um novo coletivo de
trabalho, capaz de responder aos desafios impostos pelo campo. Os clínicos — os quais, em sua maioria,
haviam sido os primeiros a perceber a estranheza dos casos e notificar os órgãos de saúde — passaram a ser
convidados a atuar também como pesquisadores. Alguns já tinham alguma experiência acadêmica, como
mestrados concluídos, mas, para muitos, foi a própria epidemia de Zika que catalisou essa aproximação
com a pesquisa científica. Como explicou Gabriel Mendes, infectologista com formação em metodologia
epidemiológica, em entrevista concedida a mim e a Isadora Valle, na Sala de Reuniões do Programa de Pós-
Graduação ao qual é vinculado:
Então o que a gente fez, assim, a parceria que a gente pode fazer: a gente pode absorver quem tiver interesse em fazer doutorado,
mestrado e tarara, a gente vai orientar os projetos e a gente pode… A gente não podia garantir na hora, mas, assim, a gente sabia
que iria captar recurso pra financiar esses projetos e fazer tudo em parceria. Então, foram as soluções. E isso também foi uma
solução que foi interessante porque a gente tinha vivenciado essa experiência na pesquisa de AIDS, porque foi uma pesquisa
que a gente fez com muito pouco recurso financeiro e uma das coisas que permitiu, uma das estratégias que permitiu fazer a
pesquisa foi envolver os estudantes de mestrado e de doutorado que trabalhavam na coleta de dados sem a gente precisar pagar,
por exemplo, a equipe de campo (Gabriel Mendes, entrevista concedida ao autor, 2023).
Envolver as profissionais da “clínica” na pesquisa foi uma estratégia para conseguir solucionar um dos
problemas do campo do NEEM: quem ficaria responsável pela avaliação e coleta clínica de dados, já que,
como muitas vezes foi enfatizado, pelo menos na pesquisa desse grupo, os exames estipulados em protocolo
(idealizados por Larissa e Naomi), na maioria dos casos, seriam solicitados pelo próprio serviço, como exames
sorológicos, exames de imagem e exames clínicos. Ao envolvê-las, a pesquisa ganhava pessoas que lidavam
cotidianamente com crianças, que sabiam trabalhar com neonatos, que tinham experiência realizando os
exames e que podiam avaliar da melhor forma os casos. Esse foi o caminho, por exemplo, de Laura Silva,
uma neuropediatra que participou da pesquisa como clínica e doutoranda.
Laura atuou no “campo” avaliando e coletando dados clínicos e de imagem das crianças envolvidas. Ela
realizava ultrassonografias e conversava com as famílias. Tinha familiaridade com o tamanho dos pacientes.
Como Laura mesma me disse, essa parte não era, para ela, nada estranha, já que dominava aquele cenário.
O trabalho com crianças em contexto hospitalar é o seu cotidiano de trabalho. Foi o que ela me explicou em
seu consultório no Hospital das Forças Armadas de Recife (onde a pesquisadora, aliás, não é a Dra. Laura,
mas a capitã Laura):
Pra mim, não é tão difícil, porque meu universo é pediátrico sempre, né. Mas obviamente que a gente tem que considerar o
trato com as crianças, o trato com a família, né, a questão da empatia mesmo, do momento. Às vezes, a gente começa o exame
neurológico hoje, a gente só vai concluir três consultas depois até que você estabeleça esse vínculo [com a criança e a sua família]
(Laura, entrevista concedida ao autor, 2023).
Laura, portanto, sabia se relacionar com crianças e posicioná-las da melhor forma nos exames, pois tinha
experiência na comunicação com as famílias. Podia até mesmo dar dicas práticas para os idealizadores
do estudo, como esquentar o soro para facilitar a receptividade de uma criança a determinado protocolo.
Muitas vezes, as crianças não eram “cooperativas” — choravam, interrompiam a avaliação, exigiam a
presença tranquilizadora das mães durante a “coleta do doutorado”. Mas Laura sabia navegar por esse
cenário: conhecia os ajustes necessários, tinha experiência prática no trabalho com o público infantil e, como
enfatizou, o rapport essencial para interagir com aqueles pacientes. Ou seja, se os coordenadores do NEEM
buscavam se associar à pediatria, as pediatras, por sua vez, já estavam associadas às crianças — articulavam-
se cotidianamente com suas presenças, gestos e modos de participação, primeiro na clínica, depois também
na ciência.